cara... tá muito grande seu texto. escreva-o em partes. acho que ficariA melhor... sei la'. valeu
| Um Conto Social |
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| Literatura - Contos - Diversos |
Escrito por Brunno |
Qua, 12 de Dezembro de 2007 09:55 |
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De como as coisas acontecem das maneiras mais diversas possíveis é uma questão imprevisível. Tudo pode acontecer a qualquer momento. Os segundos que antecedem o imprevisto parecem passar mais rápido do que normalmente dura um segundo. Depois de um bom tempo trabalhando num ramo complicado como aquele, Henri Gascoin sabia antever o momento em que alguma coisa ia acontecer, quase como uma premonição. Claro que não era nada paranormal. Apenas um arrepio na coluna segundos antes da coisa ficar preta. O cara era uma sumidade em seu ramo e ao mesmo tempo, uma incógnita para o mundo. Os amigos mais chegados sabiam somente que ele estava metido em alguma coisa a ver com militarismo ou empresas do ramo de armamentos, algo assim. Na verdade Gascoin é um mercenário muito parecido com os dos filmes, mas não idêntico. Quando não estava metido em alguma das missões envolvidas nos milionários contratos pelo mundo, Gascoin estava metido dentro de um cokpit de carro de corrida. Por regra pessoal jamais trabalhava no continente americano. Nunca na América do sul porque era um de seus refúgios de descanso nos tempos de paz, e nunca no norte porque lá havia norte-americanos, gente que Gascoin detestava. Abrira uma exceção, Canadá. País de pessoas educadas, economia monstruosa, tecnologia em desenvolvimento progressivo, e como seus primos americanos, uma polícia aficionada por prender gente. Era então o momento crucial. O homem havia entrado sorrateiramente nas dependências de uma empresa de tecnologia, havia burlado um batalhão de trinta homens da segurança, explodido uma central de energia em Prince George fazendo parecer um acidente, assim teria uma janela de quarenta segundos para ter acesso ao pátio central, correr até a porta do laboratório de pesquisas, desativar os alarmes das janelas até que a energia fosse restabelecida. Isto pôs os guardas em alerta branco, menor nível, mas suficiente para uma revista com pouca eficiência. Se tivessem revistado a área ao redor das cercas, principalmente a que dava acesso a uma estrada pouco usada para o distrito das fazendas de trigo de Prince George, teriam encontrado algo muito suspeito. Gascoin entrou, desativou duas câmeras de segurança usando uma arma com silenciador e esperou. Os dois primeiros guardas que chegaram foram abatidos silenciosamente a facadas e seus rádios postos em freqüência aberta para que ouvisse o que diriam os demais. Preferiu não usar as armas de fogo porque mesmo o barulho de um tiro silenciado é característico demais. Driblou a comunicação usando os mesmos termos de segurança que havia gravado sorrateiramente dias antes quando entrou disfarçado de visitante e plantou microfones minúsculos nas dependências da fábrica. Invadiu o centro de pesquisas tecnológicas, acessou os códigos do computador pirateados através de uma chave mestra eletrônica e baixou os arquivos de um novo protótipo de micro processador que os japoneses não queriam que fosse lançado ainda. Destruiu os arquivos restantes no centro de contenção de dados secretos da empresa repassado pelos contratantes orientais e quando passou pela janela da ala norte viu quatro guardas andando apressadamente em direção ao complexo, estavam desconfiados. Havia quatro protótipos de novos chips sendo desenvolvidos naquele momento. Dois de uso militar e dois de uso civil, os de uso militar eram de controle de navegação de aeronaves não tripuladas e os de uso civil, um era para controle de lastro de grandes navios e outro um super processador que iria acelerar muito o processo de reconhecimentos de minérios preciosos. Havia uma gama enorme de possibilidades para aqueles equipamentos todos. Gascoin sabia que somente um deles interessava aos japoneses e que se somente aquele fosse destruído iria afunilar a quantidade de suspeitos. Os chips estavam armazenados num cofre reforçado com trava eletrônica. Usando a mesma chave ele conectou a placa de circuitos a um servidor clandestino montado num lugar improvável nas montanhas do leste do Japão. Havia um alarme silencioso que era acionado pelo contato com a placa que ele não sabia. Os dados de dentro da placa do cofre foram contrabandeados via "up load" para o servidor no Japão e refeitos. O mercenário carregava um celular que depois de cinco minutos apitou o sinal da mensagem que trazia os novos códigos. Para sorte dele os guardas que deveria checar o sinal do alarme silencioso eram os mesmos que ele havia abatido. Havia mais guardas entrando no complexo conversando tranqüilamente e tentando contato por rádio com os outros dois colegas, sem resposta dessa vez, então sacaram suas armas. Gnity, um dos guardas mais velho ainda teve tempo de olhar rapidamente para uma porta de vidro ao seu lado, no segundo andar, antes de receber o impacto violento no peito. Jurou depois à polícia que parece ter visto alguém passar correndo através deles, mas como? Depois só se lembra da bola de fogo, do calor infernal, do impacto do ar atirando-os para trás como se fossem de papel e a desorientação pela explosão enorme que destruiu todo o complexo. Nem sequer o tipo de explosivo foi determinado. Teria sido perfeito se não fosse o momento crucial. Enquanto os guardas corriam de suas guaritas em direção à coluna de fogo elevando-se do céu, o mercenário já estava do lado de fora da cerca de alambrado do complexo correndo para a moto que havia deixado ali no final daquela tarde. Usava a roupa preta característica para missões noturnas e jamais teria sido visto ou ouvido, já que a moto que escolhera para a missão era uma Cagiva 996 extremamente silenciosa quando não forçada demais. Mas havia o momento crucial, um maldito cachorro vira-latas, a coisa mais rara de se ver nas ruas canadenses. Assustado com o barulho e a correria o cachorro latiu pra primeira coisa que viu adiante, um homem usando roupa preta e cheirando a cordite. De fuzil um punho, o guarda Marcel desviou o olho na direção dos latidos e viu o vulto subindo na moto. Atirou duas vezes na direção do escuro porque estava difícil de ver, um tiro se perdeu, o segundo atingiu a estrutura do quadro fazendo um barulho diferente do da cerca e iluminando rapidamente homem e moto. __ Ele está aqui! Venham!- gritava no rádio. Os demais ouviram e dividiram-se para ajudar os companheiros feridos na explosão e para iniciar uma perseguição ao homem. Gascoin adorava aquela moto, tinha duas Cagivas, aquela claro, era roubada. Torceu com gosto o acelerador e a moto quase o atira pra trás. Havia formado uma rota de fuga pelas colinas e, portanto, roubara uma moto com pneus preparados para terreno acidentado. Havia um caminho de árvores baixas beirando a cerca e Merlim tinha de passar por elas para chegar ao pé da colina que daria acesso à rota de fuga. Nesse meio tempo quatro homens embarcaram num Land Rover preto e saíram na caçada do agente agressor. Merlim teve de mudar a rota no último instante antes de bater no Rover, sabia do que aquele carro era capaz. Conseguiu desviar e tomar a rota de fuga com os homens atirando, a moto perdendo-se sobre a areia,os faróis do Rover se aproximando, decidiu que tinha de mudar de estratégia e ir para um terreno melhor. No meio da confusão tirou um celular recém comprado em outro país, sem cadastro e sem registro e digitou uma mensagem: os peixes estão a caminho. Reduziu uma marcha fazendo o motor rugir violentamente e aumentando demais a velocidade do pneu, a moto joga dos lados, ele a controla e deixa a traseira girar, o Rover passa e ele solta a embreagem lançando a moto pra frente bem atrás do Rover. Logo ele atinge a estrada, sabia que não poderia dar toda a carga da moto em pista lisa com aqueles pneus, mas ainda era uma Cagiva. Dito e feito, o Rover veio atrás há cinqüenta metros e manteve assim durante as primeiras curvas na estrada lisa de orvalho que dava acesso às fazendas. Na primeira reta a Cagiva abriu quinhentos metros, o desgraçado sabia pilotar e era um alvo difícil. Nas curvas subseqüentes a moto deslizou, mas manteve-se ativa. Merlim via o carro bem atrás pelo espelho e pensou em atirar, depois concentrou-se na estrada que quase o atirava contra o barranco do lado de fora da curva. Segurou a moto nos braços, alinhou novamente numa reta com algumas árvores esparsas e uma cerca longa e falhada, que acompanhava todo o percurso até o que parecia ser uma curva e uma subida à esquerda. Viu pista livre, sacou a arma a apontou para trás. Não pretendia acertar o carro para inutilizá-lo, mas apenas fazê-los diminuir para ganhar mais terreno. Atirando com a mão esquerda - ele é destro - não conseguiria mesmo muita coisa e ainda assim disparou quatorze tiros contra o carro Estudando possíveis rotas de fuga durante a preparação do golpe, Gascoin sabia que depois da curva aberta à frente, havia uma reta e isso era bom para moto, fez e curva e entrou na reta guardando a arma. E novamente aquele segundo que antecede a catástrofe. Tirou os olhos do espelho e viu um cachorro labrador enorme de olhos amarelos no meio da estrada. Até dá pra reagir, mas não sobre uma moto a duzentos e setenta quilômetros por hora. Bater no cachorro significava cair, desviar podia dar na mesma coisa, mas havia uma chance! Travou a roda traseira e arrastou por uns trinta metros. Não deu. Desviou do cachorro, que ainda latiu e olhou a moto passar a centímetros de sua cauda, mas perdeu o controle da moto... Pista lisa, pneus de crava. Do banco da moto pra cerca lateral foi menos ainda do que um segundo, e menos tempo foi preciso pra atingir em cheio uma das malditas árvores dentro da propriedade da fazenda. O choque foi no tórax, ele conseguiu por o braço na frente e amortecer a porrada, mas não contava com cento e cinqüenta quilos de tecnologia italiana vindo atrás. O eixo traseiro teve o capricho de desviar o suficiente para nocautear e não matar o infeliz. Mercenário e moto caíram no meio da alta plantação de trigo. O cachorro veio correndo de volta sob os comandos de uma voz de ordem. Quem segurou sua coleira ainda não sabia o que tinha acontecido quando o Land Rover preto com cinco homens armados parou perguntando se havia visto uma moto passar por ali. A moça que segurava o cachorro ficou com medo das armas e só conseguiu negar. No meio da alta plantação e da névoa na madrugada os homens no carro não divisaram a fumaça que sumia escassa, mas constante. Eles arrancaram e seguiram a estrada. A jovem ouviu um estalido elétrico, pôs Boomer, o labrador à frente e foi ver o que havia ali. Logo notou a falha na plantação que começava bem depois da cerca e corria através da árvore, viu o homem caído, sem capacete, usando somente uma máscara preta em que os olhos eram pequenos e pareciam feitos de vidro. O estalido elétrico vinha de um tipo de aparelho preso à roupa preta fosca e uma luz verde acendia e apagava até que apagou de vez. O homem não se mexia. Ainda com medo ela voltou para a picape e chamou pelo rádio um dos funcionários da fazenda. Nigel chegou em outro carro cinco minutos depois. __ O que aconteceu aqui? __ Eu não sei. O Boomer ficou doido, foi pra estrada, depois eu ouvi um barulho, uns homens chegaram num carro preto perguntando por esse ai e eu não sei se ele ta vivo ou morto. __ É melhor ligar para o xerife. O homem gemeu. __ Olha, ele ta vivo. - disse a jovem. __ Que a gente faz? Liga pro xerife, leva ele pro hospital ou deixamos ai mesmo. __ Que isso, homem! Seja lá quem for não consegue nem ficar de pé. Vamos levar ele pro celeiro e deixar ele lá durante a noite. De manha ligamos pro xerife, ele não virá agora mesmo. Com algum custo e bastante cuidado, eles puseram o moribundo atrás da picape e voltaram pra fazenda. Quem primeiro olhou o corpo desfalecido foi Matt, o veterinário, um caipira doido, mas extremamente inteligente. __ Ta tudo beleza! - dizia depois de examinar o homem - Se tiver alguma hemorragia interna ele morre de qualquer jeito mesmo. Prince George tem um hospitalzinho vagabundo e o único médico é o doutor Bernard, que ainda prescreve elixir da vida eterna dos alquimistas pros pacientes. __ Mas, Matt, não é melhor levar ele amanhã pra lá? __ Oia, Dona, se a gente mexer demais nele corre o risco de arrebentar com a coluna cervical, daí o critino fica paralítico de vez, se é que já num ta. __ Acho que não devíamos ter trazido ele pra cá - arrependia-se a jovem. __ Isquenta, não. Tão vendo esses zoio roxinho assim? Isso é sinal de guaxinim... O outro capataz da fazendo fez uma cara de "como assim?". __ Guaxinim, sua besta! Sabe o bichinho? A pancada foi forte pra demais e extravasou sangue pra face, significa que ele num acorda antes de pelo menos oito horas. __ E quando acordar ele vai sentir dor? __ Vai não, Dona. Dei pr'ele o mesmo que dei pro Brutus quando nós cortamo o rabo do bicho. __ Deu analgésico de cachorro? __ Era esse ou de cavalo! __ E não tem aspirina nessa casa? __ Oia Dona, se a senhora quiser nós pode por ele num até num berço, mas que esse ai num deve prestá... ah, num presta! Os demais concordaram. Ficou a preocupação do homem acordar no meio da noite. __ Deixa o Brutus e o Titan aqui na porta do celeiro. Se ele se meter a sair eles latem. - ordenou a moça. __ Latem? Oia, Dona, é um Doberman psicótico e um Rottweiler que num se orgulha de ser cachorro... Resolveram que deixariam os cães tomando conta. No dia seguinte eles chamaram o xerife. Ele foi até o local do acidente meio sem vontade, olhou rapidamente e depois foi ver o corpo no celeiro. Disse que não tinham dado queixa de nada, que a noite foi tranqüila, apenas havia tido um acidente na fábrica perto dali, mas os homens disseram que só uns poucos guardas se feriram e que nada de errado havia acontecido. O xerife não tinha o que fazer. Seguiu as orientações de Matt e achou que era melhor ver se ele melhorava ou morria, transportar um homem com aquela cara seria perigoso e eles não tinham como. __ Isso nem parece o Canadá! - dizia a moça. __ Liv, não é porque você mora em Niágara Falls que nós estamos no meio do nada! - dizia a dona da fazenda, amiga da que achou o homem. __ Eu sei. Mas e se ele morrer porque nós não fizemos nada? __ Eu confio mais no meu veterinário do que nos médicos da cidade, e você ouviu o xerife. __ Mas ele ta horrível. E você nem se atreva a viajam antes de isso acabar. __ Eu pedi pra você vir pra cá justamente porque o David e eu temos de viajar. Você não precisa fazer nada, apenas dê aos homens as ordens que eu deixei com você, eles vão te respeitar. Tem o telefone do hotel onde vamos estar e esta reforma tem de sair de qualquer jeito. __ O que o David falou sobre o cara? __ Conhece meu marido. Balançou a cabeça e disse pro Nigel resolver isso. David e Nina eram bons amigos. Liv vivia na cidade grande, Niágara Falls, era artista e diretora de uma galeria de arte importante. Pediu férias a seu chefe na mesma época em que os amigos tinham de deixar a fazenda para uma vagem de negócios até os Estados Unidos, ficariam quinze dias fora e ela daria as ordens aos homens na reforma de algumas áreas da fazenda. David nem sequer quis ver o homem, ficava o tempo todo cuidando das contas e fazendo cálculos para saber o quanto investir, era um bom marido e fazendeiro cuidadoso, mas quando uma coisa dessas acontecia dava pouca importância. Era homem de hábitos simples como seu pai, fundador da fazenda, gostava de ler o jornal de esportes e via pouca televisão. Dentro da fazenda Nigel era um tipo de gerente. Era o mais velho, dava ordens aos demais e supervisionava o trabalho, ajudando aos mais jovens a cumprir as tarefas com presteza e dedicação. Enquanto Nina voltou ao quarto para trazer as malas leves, Liv ficou sentada numa cadeira de madeira na mesa da cozinha antiga, com fogão à lenha dividindo espaço com a máquina digital de fazer pão. Liv Marie Duncan, tinha vinte e dois anos, era canadense e fazia parte de uma rara parcela da sociedade, era descendente de franceses com irlandeses. Isso lhe conferia uma beleza comum, mas muito característica. Tinha cabelos pouco acima dos ombros, lisos e pretos, penteados para dentro, pele branca, lábios grandes, dentes extremamente brancos com os dois centrais superiores pouco maiores que os demais. O terço médio inferior da face - da ponta do nariz até o queixo - era discretamente proeminente, o que afilava o queixo e a mandíbula gerando um rosto de forte expressão, mas de traços delicados. Os olhos castanho-esverdeados e pequenos, sobrancelhas finas e pouco arqueadas e quase sempre estava com a boca entreaberta. O corpo era bem esculpido graças à genética da mãe, uma ex nadadora esguia da marinha canadense. Os seios empinados assim como a bunda eram dela mesma, de tanto levantar peças de metal; seu trabalho artístico era em metal rústico. O corpo escultural é a única lembrança que tem da mãe, falecida, assim com o pai, num acidente de carro quando as filhas tinham cinco e dois anos. Evangeline, irmão mais velha de Liv, morava na Europa. As duas tiveram uma infância complicada na casa de uma tia bondosa, mas pobre. Estudaram sozinhas e eram boas amigas, viam-se conforme a rotina permitia. A bela morena suspirou olhando o copo de água a frente. O que fazer sem os amigos ali, donos da fazenda e com um cara semi-morto no celeiro sendo guardado por dois monumentos à carnificina? __ Tem certeza que vocês não preferem ficar? Eu vou com ela, David. Ajudo no que for necessário. __ Liv, obrigado, mas você por acaso entende alguma coisa de colheitadeiras Fergusson de cinco, e não de oito toneladas, equipadas com traves de arado de meia polegada com corte serrilhado? Ela sorriu e olhou pra amiga. __ Arado é feito de ferro... De ferro eu entendo! __ São feitos de alumínio, Liv... Um dos rapazes saiu pela estrada levando os patrões e Liv ficou olhando da porta da casa principal o casal partir. Boomer latiu várias vezes e Liv parecia saber o que ele queria dizer: "boa, agora que as coisas complicaram vocês deixaram essa tontinha cuidando de mim! Maravilha". A fazenda era enorme, a maior da região. Produzia toneladas de trigo e na entre safra os vinhedos do norte estavam sempre carregados. Na parte mais movimentada havia a casa principal, uma garagem grande, para seis carros, o celeiro, o canil e uma oficina pequena, mas bem montada. Ao lado do celeiro havia uma mesa grande para almoço dos empregados, ao ar livre, e quando chovia todos almoçavam dentro da casa principal. Eram ao todo dez homens, duas faxineiras e os esporádicos como técnicos e vendedores de produtos agrícolas que David contratava quando necessário. Liv não entendia nada daquilo, então o amigo deixou escrito exatamente como as coisas devias ser feitas: como pagar as contas e quando, uma autorização para saque no pequeno banco local para eventuais despesas extras, telefones úteis como o da loja de rações no centro da pequena Prince George e inúteis como o de xerife local. A jovem artista estava lá há cinco dias e sentia-se bem em sair da cidade um pouco. Ar fresco, rotina diferente, trabalhar em casa sem enfrentar o trânsito pesado e o clima, um pouco mais quente e seco naquela região do que em Niágara. Até as roupas eram mais confortáveis, nada dos ternos sóbrios que usava na galeria e dos sapatos de salto alto, pra sair do metro e setenta e chegar um pouco mais longe. As pessoas eram mais simples, não havia às senhoras de olhar pujante criticando as obras da galeria, ou criticando o estilo do artista, que depois de menosprezar a obra até não poder mais, pediam desconto na compra, somente pessoas que trabalhavam pra comer e viver em harmonia. Sem poder pensar no semi-morto no chão do celeiro, Liv foi até o escritório cuidar do que era necessário. Nigel entrou dizendo que precisava de dinheiro para comprar mais madeira, estavam construindo um silo maior para armazenar mais cereais e sementes. Liv cuidou daquilo e das demais coisas pequenas e rotineiras. Depois da sexta noite do acidente o moribundo, que já havia dado sinais de acordar, finalmente despertou. Era dez da manhã e todo mundo correu pro celeiro quando ouviram um dos cachorros grunhir alto. Podia ser uma briga entre os dois ou pior, atacaram o homem. Foi exatamente isso, mas Titan estava bem, somente um pouco assustado e frustrado porque além da angústia de se saber cachorro não havia conseguido intimidar o cara, que deu-lhe um contra golpe no focinho quando se aproximou demais. Uns cinco homens que trabalhavam na construção do silo pararam na porta do celeiro, mas não viram o sujeito deitado onde havia ficado nos últimos dias, tomando goles de água que alguém levava. __ Cadê o homem? __ Oia ele lá em cima! - apontou um deles para a penumbra matinal que entrava pelas frestas da madeira. O homem havia subido com extrema facilidade uma altura que nem com escada os demais conseguiriam, estava encocorado como um gato ágil, sobre uma das vigas superiores do celeiro. Olhavam-se os de baixo e o de cima, sem agir. Liv chegou trazendo os demais enquanto Titan deixava o posto de cabeça baixa. Brutus quis acompanhá-lo, mas ficou curioso, se fosse mesmo um gato estava morto! __ Hei, cara. Ta tudo bem? - perguntou Liv. Ele não respondeu, apenas escondeu mais o rosto atrás da pilastra como se fosse um bicho, Brutus olhou mais atento. __ Pode descer...(como é que ele subiu ali?) ta tudo bem, a gente ajudou você quando caiu com a moto. Ele olhou pra baixo e então puderam divisar os olhos brancos como os de um lobo que haviam ficado fechados o tempo todo. Gascoin sempre foi um acrobata extremamente hábil, isso ajudava demais no trabalho, desceu num único solto e parou adiante deles, uns três metros a frente. O peso do corpo fez descer filetes de poeira do teto, os homens olhavam desconfiados e Nigel pôs Liv pra trás. __ Como o senhor está? Nós o ajudamos depois do acidente, ficamos com medo de removê-lo para um hospital e piorar as coisas. __ Eu vos agradeço. - disse finalmente, em francês com sotaque dos aristocratas de Paris - Onde eu estou? __ Está na fazenda Saint Mary, perto da cidade de Prince George. O homem girou a cabeça e estalou os ossos do pescoço, parecia inteiro. __ Onde fica Prince George? - perguntou o estranho. Os homens se olharam com estranheza. __ Fica na província de Vancouver. __ Eu to no Canadá? O homem deu dois passos a frente e Michael, um dos peões da fazendo deu dois pra trás. __ Sim, você está no Canadá. - disse Liv - como você se chama? - esperando algo ruim. Ele abriu a boca, mas não disse nada, franziu a testa e olhou pro chão. __ Eu sei lá. Algo ruim como isso. Os cães estavam contidos, o homem estava bem, sem ossos quebrados, estava calmo e dizia não ter dor alguma, ainda havia uma pequena área roxa sob os olhos e uma equimose enorme no peito. Dentro da cozinha de casa principal, Liv e os demais contaram o que havia acontecido enquanto ela fazia um café no fogão à lenha. O acidente, a moto, os homens armados... __ Eu juro que não sei mesmo o que está acontecendo. Se vocês estão dizendo que cuidaram de mim quando eu caí de moto, eu agradeço mesmo. Peço desculpas por ter batido no cachorro de vocês é que ele ia me morder! __ Não se preocupe com o cachorro. Você não se lembra de nada? Nem mesmo do seu nome? O que você faz? Ele tentava, mas não vinha nada. A sensação era terrível, tinha flashes da queda de moto, mas não lembrava nada além disso. Liv disse que o xerife foi chamado e que não havia queixas, ela achava que os homens no carro estavam tentando roubar a moto dele por isso ele estava correndo tanto. __ Você sabe andar de moto, isso é claro. Essa roupa que você ta usando, não é roupa de andar de moto? Ele olhou o que restava das roupas pretas: uma camiseta agarrada ao corpo, calça de brim e sapatos reforçados com solado de borracha, tudo preto. Devia ser roupa de motoqueiro, nem isso ele sabia. __ Olha, eu sei que vocês já cuidaram de mim, mas estou começando a me sentir mal aqui dentro... - o estranho olhou pro fogão. __ Vamos pra sala, lá está mais fresco. Sentiu-se melhor. Mostraram para ele a roupa estranha que o veterinário tirou, um tipo de colete que estava embaixo da camisa, feito para ser vestido como um colete à prova de balas, por cima da cabeça fechando como um envelope dos lados do corpo por presilhas pequenas, na barra havia um botão de controle com um pequeno led de luz que foi danificado com a pancada. __ Não sei, não sei, não sei! Desculpa gente, adoraria ajudar vocês, mas no momento eu não sei o que está acontecendo! __ Ta, fica calmo. Nós não temos nada contra você.- dizia Liv - O que precisar, nós ajudamos. Quer que o levemos a cidade? Você pode pedir ajuda à polícia estadual pra saber onde mora. O homem apoiou o cotovelo sobre a mesa e a cabeça sobre a mão direita. Alguma coisa dizia pra ele não falar com a polícia estadual canadense. __ Eu não queria dizer isso... Estou com vergonha, mas é que eu to morrendo de fome! Cês tem alguma coisa pra comer ai? Liv sorriu e foi até a cozinha, trouxe umas coisas do café da manhã e uma xícara de café fresco, ele comeu como quem não o faz há dias, e não fazia mesmo. __ Acho que ele é tranqüilo, Liv. - dizia Nigel, mais calmo. - deixa ele se recuperar até amanhã, depois veremos o que ele quer fazer. __ Também acho que ele não tem problemas, mas essa coisa de amnésia é terrível. O cara não tinha documento nenhum quando tiramos ele da plantação, a moto estavam sem placas e ... Ela abriu um pouco mais a boca. __ ...o número do chassi! Deve estar registrado no nome do dono da moto. Basta ver o número e acessar a Internet, devemos achar rapidinho! Nigel olhou pra ela com cara de pena. __ Internet!? Liv estamos no Canadá, tudo bem, mas ninguém aqui tem isso... Nem mesmo em Prince George. Ela abriu os braços como quem não acredita na situação. __ Então, sei lá. Deixa ele ai até alguém decidir o que fazer. Província de Honshu, sete horas da manhã de um dia antes do Canadá. A neve de inverno caía tranqüila sobre as plantações secas ao sopé no monte Sendai, homônimo da cidade quase feudal no litoral lesta do Japão. A cidade tem no máximo dez mil habitantes, sua economia é praticamente rural, a polícia local não dispara uma arma há décadas e os presos da modesta delegacia local são dois irmãos acusados de literalmente roubarem duas galinhas, os dois são de outras localidades e estavam de passagem. As pessoas são quietas e simples, o local guarda uma tradição que os jovens de Tóquio não viram nem mesmo em seus avós e somente duas construções chamam a atenção do local. A primeira é visível da estrada de acesso a Sendai, uma casa imponente no mais antigo estilo japonês, em que o aquecimento ocorre pela arquitetura e por esparsas labaredas tremeluzentes nos cantos. Há luz elétrica, aquecimento solar e computador. Poucos empregados que cuidam do jardim e da limpeza geral, isso porque são considerados trabalhos extremamente nobres e devem ser executados por pessoas de maior idade e devoção às antigas tradições. A outra propriedade fica na encosta do penhasco na face leste do monte Sendai, tem vista para o mar e um atracadouro, pouca gente conhece o dono. Na cozinha da propriedade mais conservadora, um senhor de semblante muito sério passa vagarosamente uma faca reluzente pelo dorso de um peixe de cor levemente arroxeado. Está concentrado demais para notar outro homem, mais jovem, de terno e gravata que pára na porta e fica olhando para ele. __ Matsuo-sam- diz o mais jovem e olha para baixo. Imediatamente o sushiman pára a faca, tira-a do peixe sem voltar o fio e deixa exatamente na mesma posição de antes. Vira-se e fita o rapaz, mantendo a cara fechada, emitindo somente a interjeição para "sim" em japonês. __ Hai. __ Matsuo-sam. Recebemos notícias do Ocidente. As autoridades Canadenses confirmam uma explosão da fábrica. Dizem ainda que há homens feridos, mas que nada foi roubado e não há nenhuma pista do que aconteceu. Vestindo um quimono pesado e elegante, o sushiman enfia as mãos nas mangas grandes da roupa, de forma que uma mão entre na manga do outro braço ficando na posição característica dos sábios japoneses. __ Então, o homem a quem pedimos ajuda pode ter fracassado. __ Achamos que não, Matsuo-sam. Recebemos uma mensagem dele dizendo que havia tido êxito em sua missão. Parece que ele teve bastante sucesso por sinal, porque não há sinais de sua presença em terras Canadenses. O velho empresário japonês expirou forte enquanto olhava para o lado. Via seu empregado mais valioso podar as mudas de bonsai de decoravam o deck do jardim de inverno, no interior da mansão. __ Ele entrou. Executou o tinha de fazer e retirou-se da lá sem ser notado. Exatamente como um guerreiro negro o faria.- voltou o olhar fixo no homem mais jovem - Não podemos confiar nesse homem, Kijin-sam. Ele é como um guerreiro negro sem honra. __ O que quer que façamos, Matsuo-sam? Seis dias se passaram e não tivemos mais retorno da posição dele. O homem virou-se novamente e continuou fatiando lentamente seu peixe. __ Se um homem atira uma pedrinha num lago ele responde com linhas harmoniosas, se atira uma rocha ele faz um tsunami... O guerreiro negro não é como a pedrinha, Kijin-sam. __ Hai. E quanto ao aparelho que ele carrega? __ Se ele fez o que combinamos significa que os canadenses não têm para onde correr para fazer um novo. O aparelho não é importante para nós, o sigilo tecnológico, sim. O mais jovem fechou os olhos, baixou lentamente o tronco e a cabeça na reverência tradicional nipônica e foi respondido da mesma maneira pelo mais velho. Matsuo Yhara era um homem conhecido por ser obstinado, poderoso, senhor de muitas posses, influente e manipulador, capaz de fechar negócios extremamente complicados apenas conversando com empresários e executivos. É grande amigo de Victor Vox, a quem apelidou de Kiodai-Can, ou o "grande colosso". É tido na comunidade empresarial japonesa quase como um senhor feudal dos tempos dos samurais. Samurais eram guerreiros honrados que lutavam pelo bem de seu senhor de forma limpa, respeitosa e honesta. O contrário disso eram os guerreiros que atacavam vestidos de preto, no meio da noite, sem fazer ruídos, executavam suas vítimas e deixavam os locais sem ser notado, deixando para a família descobrir o corpo pela manhã. Matsuo Yhara teria sua empresa falida e seus bens caçados, assim como sua família passaria por grande vergonha e humilhação se aquela tecnologia fosse lançada ao mundo, teve de abrir mão de suas convicções tradicionalistas para contratar este, como ele mesmo chamava, Ronin¬ (guerreiro desonrado e sem senhor). Depois de vários dias já estavam todos acostumados com o novo cara. Ninguém realmente tinha nenhuma pista sobre o indivíduo. O xerife voltou alguns dias antes pra ver como ele estava e tirou impressões digitais, que também não ajudaram muito. O registro da delegacia de Prince George ia até uma província e meia ao norte do Canadá, e havia pouca coisa lá se não neve e ursos pardos. De qualquer modo, no segundo dia depois que acordou, o sujeito logo sentiu-se mal por comer sem trabalhar. Pegou um machado e enquanto Liv e o veterinário estavam na cidade levando Boomer pra tomar vacina e Titan pra tomar Lexotan, mandou ver nas achas de lenha pro fogão. Nigel gostou. Seja quem fosse o cara tinha braços fortes como um tronco apesar de não tão grossos, era ágil e não reclamava de dor nas costas como os outros. Naquela primeira tarde cortou lenha, varreu a oficina, pregou as vigas de uma das paredes do silo, lixou madeira e se ofereceu pra compra tinta. __ Calma, rapaz! - dizia um dos homens - por hoje chega! Nigel vem trazendo um café pra gente. Sente-se conosco. Sentou-se na mesa ao ar livre com os homens, tomou café e quando um deles lhe ofereceu um cigarro ele aceitou e adorou. __ Bom, pelo jeito eu sou fumante! - e riu com eles. __ Então deve ser bom bebedor! - disse outro, tirando de dentro de uma sacola uma garrafa de vodka barata que foi compartilhada entre todos. Liv e Matt chegaram. __ Cês puseram o cara pra trabalhar? - perguntou a bela. __ Ele disse que como não tem pra onde ir e se a senhora permitir, ele fica aqui trabalhando em troca de comida e um lugar no celeiro pra dormir. __ E ele deve querer receber alguma coisa. Como vocês. __ Isso eu já não sei. Hei, Jaques! Venha até aqui, a Dona Liv quer falar com você. Ele veio sorridente como um australiano que acaba de conhecer alguém. __ Então seu nome é Jaques. - ela disse sorrindo. __ Não sei. Eles resolveram me chamar de Jaques. Liv olhou pro Nigel. __ Não tinha um nome mais original? __ Certo, então agora vamos chamá-lo de Louis XV! Ouviram essa, rapazes? O Jaques agora se chama Louis XV! Os homens gritaram rindo e levantando os copos de vodka. __ Tudo bem, senhor Jaques. O senhor pode ficar, só que eu não posso te pagar enquanto David e Nina não voltarem. E pode dormir na sala da casa, não precisa dormir no celeiro. - disse a moça. __ Eu agradeço, Dona Liv. Mas com todo respeito, é que o celeiro é mais fresco, a casa é quente demais. Além disso, já fiz amizade com o Brutus e o Titan ta ficando mais amigável conforme escuto os problemas dele! Ela riu e foi pra dentro da casa. Naquela noite não parou de pensar na coisa estranha que estava acontecendo. "Um homem sem memória, com disposição pra trabalhar e uma personalidade fácil. Ele até parecia um aventureiro que não liga pra encrencas e aceita a vida como ela estiver. Pra ela era totalmente diferente de seus amigos em Falls, todos engomados e fresquinhos. Ele era mais selvagem, sem regras e... Vai dormir, Liv". No celeiro, já tarde da noite, ao lado de Brutus que agora tinha cara de bobo e dividia uma maçã com ele, Jaques, o recém-nascido, olhava as coisas que estavam com ele no momento da queda da moto, pra ver se encontrava alguma coisa familiar. Além da roupa preta que ele acha que era pra moto, um relógio de pulso arrebentado e na perna da calça cheia de bolsos uma faca de lâmina preta. Olhou com mais cuidado por dentro do forro da calça e viu que ali tinha uns compartimentos que ninguém havia notado. Dentro tinha um tipo de chaveiro eletrônico, desses de portão, só que bem menor; cinco tiras de dois por dois centímetros de uma coisa que parecia massa de modelar, de cor bege com um ponto eletrônico da ponta; outro dispositivo eletrônico com um fio chato e largo, onde, na ponta, havia uma conexão para alguma coisa eletrônica também; um fio de metal muito fino, preto, com pequenos puxadores nas pontas, um triângulo de metal com três roldanas, muito esquisito com um pingente numa das pontas e um botão liga/desliga em cima; uma pequena placa de plástico preta com garras de metal dos lados e o mais assustador na visão dele, um pente de balas. Olhou pra fora do celeiro e estavam todos dormindo, decidiu dar uma olhada por conta no local do acidente. Viu os restos da moto, guardada na garagem da fazenda, o local da pancada na árvore e uns pedaços do capacete. A plantação que já ia se refazendo depois de tantos dias, não havia marcas na pista, e no meio dos pés de trigo, a arma. Olhou os lados e pegou do chão. Apertou o botão do cabo e o pente saltou de dentro. O primeiro pente, nas roupas dele, continha dezesseis balas, aquele somente uma. Como se fosse a coisa mais normal do mundo, puxou o percussor pra trás e uma bala pulou da câmara, ele pegou no ar e olhou. Eram as mesmas balas do pente novo. __ Seja lá o que for que eu tava fazendo, tinha de estar armado, vestido de preto e usando um monte de parafernália que eu não me lembro o que são. Soltou a trava e o percussor voltou pra posição de tiro, re-inseriu o pente usado e travou o gatilho, guardou a arma nas costas e continuou girando em volta. Mais pra frente de onde ele estava achou um celular. Não parecia danificado, mas não ligava, sem bateria, isso ele sabia devido a Liv estar sempre com um idêntico àquele na mão. Guardou tudo e voltou pro celeiro. O sono não chegou e ele ficou pensando quem diabos precisaria de tudo aquilo e pra fazer o que? E se ele fosse um ladrão ou um policial? Será que ninguém estava procurando por ele? Não havia um documento, endereço, telefone, nenhum nome ou pista de onde ele estava vindo. Acabou tendo a mesma idéia de Liv, tentando olhar o chassi da moto. Passou o número para o xerife e depois de uns dias ele disse que não havia registro da moto dentro do Canadá, devia ser importada e como não tinha papeis era somente uma peça de decoração já que estava toda destruída. Liv estava em pé diante da janela, olhava o orvalho cair e se abraçava no pijama de flanela pra esquentar um pouco. Não tinha visão do celeiro, mas queria ter. Começava a sentir falta de fazer alguma coisa interessante. Em Falls ela sempre estava metida em coisas como esqui aquático e montanhismo, era praticante ocasional de Sky dive e lutava wrestling na academia perto de seu pequeno e gostoso apartamento. A vida na fazenda tava começando a ficar chata. Na manhã seguinte ela ficou observando Jaques Louis XV trabalhar. O cara tinha uma força que não condizia com os braços. Numa brincadeira dos homens, de atirar facas, a vez dele não passou despercebida: cinco facadas certeiras numa laranja podre há quinze metros de distância em menos de cinco segundos. __ O que esse cara faz afinal? - perguntava Liv. Na coisa de cortar lenha, Nigel o havia promovido a cortador oficial, e os homens apostavam se ele conseguia, estava em seis pra um como não tinha jeito daquilo acontecer: o cara cortou dois seixos de lenha num único golpe usando um machado em cada mão. __ Gente, esse cara é o que? Lenhador ou atirador de facas do circo? Isso não ficaria impune muito tempo. Um dos homens mais esquentado não gostou de ver a senhorita Liv trazendo água pra ele durante a tarde e o chamou pra briga. Os homens fizeram um acordo... __ Sem golpes baixos, nada de armas, à velha maneira da marinha: o primeiro que apagar perde. Jaques olhava o cara grande, sem dentes e de punhos enormes diante dele. __ Nigel - disse Jaques - em quanto estão as apostas? __ Em doze pra um contra você. Sinto muito amigo, mas Phil "Bigorna" Terence não perde há muito tempo. __ O que eles estão fazendo agora? - perguntou Liv, no vigésimo dia de estada do tal Jaques. __ Deixe, senhorita - ajudou uma das cozinheiras - É um modo de meninos se acalmarem, não ocorre nada mais grave. __ Eu sou a irlandesa aqui... - resmungou e foi se encaminhando pra fora. Phil "Bigorna" avança pra cima de Jaques que rola no chão levanta-se atrás dele e acerta um cruzado no rim esquerdo, depois um chute atrás dos joelhos que "Bigorna" parece não sentir. O grandão pega o menor pela cabeça e atira longe como se fosse uma criança. Ele ri e os homens torcem pra acabar logo. Jaques levanta sem por as mãos no chão e os homens param de rir. Tem um filete de sangue insistente no canto da boca que ele limpa e volta pra briga. Balançando ritmadamente os punhos, "Bigorna" diz que a mãe dele tem pelos em partes vexatórias e Jaques diz que a dele também, só que os da mãe dele são salgados. Bigorna grita e avança de novo, Jaques sai do chão dando uma volta esquisita no ar e jogando as pernas pra cima, meio de lado, o calcanhar acerta o queixo do maior a arranca um "HU" da galera. Liv olha lá de trás. Bigorna balança a cabeça e não tem tempo de reagir, de baixo, bem de baixo dele uma mãozinha extremamente rápida acerta de novo a ponta do queixo, a cabeça vai pra trás, o corpo pra frente, ta ventando... A outra mãozinha esquerda acerta o lado do rosto e quase ao mesmo tempo Jaques abaixa sobre a perna esquerda, gira e passa a perna direita atrás dos calcanhares do grandão. O homem de uns noventa quilos levanta as duas pernas com a pancada e cai desacordado. Os homens gritam, sorriem, agitam os braços, outros xingam o gigante caído. __ Chega! - grita Liv - Mas o que vocês estão fazendo? Querem se machucar? Ela avança até Phil "Desacordado" Terence e olha o rosto do cara - pra que isso? Todo mundo olha pro Jaques, ofegante e assustado. __ Se é pra brigar, vamos aumentar as apostas! - disse a bela jovem. Nigel olhou pra ela. __ Como assim senhorita Liv? __ O senhor Jaques contra mim. Sem golpes, somente imobilização. Aposto dez dólares como eu o derrubo e prendo por seis segundos. Os homens se olharam. Ela estava mesmo dizendo aquilo? Estava mesmo querendo lutar com um deles? Estava mesmo tirando a camisa pra ficar só com a blusa de alça? __ Como é, senhores? Vamos apostar? __ Senhorita Liv.- disse Jaques - se é pra gente parar, prometemos que não vamos brigar mais. Ela firmou os dentes e olhou pra baixo. Rapidamente baixou sobre a perna esquerda, girou no chão e bateu a perna direita atrás das pernas dele jogando Jaques Louis XV no chão. __ Abrindo três pra um como a Dona Liv o derruba de novo! - gritou Nigel. Do mesmo jeito que caiu, levantou e ficou em posição de guarda. Não pretendia atacar porque alguma coisa dizia que se ele revidasse na mesma intensidade que usou no gigante, mataria a moça. Liv sorria pra ele e mantinha os pequenos punhos em riste à frente do rosto. Em meio aos gritos da torcida, proeminente para ela, Liv desferiu alguns jabs diretos e cruzados que passaram no vazio, Jaques desviava dos golpes pra não ser atordoado. __ Como é que eu vou bater numa mulher? - perguntou a um dos caras. Ele não respondeu e jogou o cara pra cima dela. Liv mandou um gancho no estômago do infeliz que envergou como vara verde, deu uma joelhada no peito do cara enquanto fazia uma cara feia e preparou um direto de direita. Jaques sacou o golpe e resolveu revidar a dor. Deu um soco na mão dela. Claro que ela sentiu mais que ele e recuou segurando a mão direita. Jaques se aproximou, mas não fez nada, deixou pra ela tentar um cruzado de esquerda, ele apenas deixou a perna fez uma traquitana rápida com os braços e a segurou com um dos braços preso às costas. Soltou novamente a moça que investiu contra ele e o cara fez outra coisa sem precedentes na história das brigas de fazenda deixando a bela com um braço esticado e invertido. Libertou-a outra vez e ela ajoelhou no chão segurando o cotovelo e ofegante. Os homens pararam de gritar e puderam ouvir o choro baixo. Os cabelos curtos estavam na frente do rosto e ela tremia discretamente enquanto amparava o cotovelo esquerdo. __ Ta vendo porque eu não queria brigar com você, Dona Liv. Pra que se machucar desse jeito? Troféu Oscar para a bela. Liv meteu o dorso da mãozinha fechada no saco de Jaques "Eunuco" Louis XV que o fez cair segurando as partes. Os homens gritaram de novo. Liv levantou sorrindo e depois sentou sobre o corpo em forma de feijão, momento em que foi declarada vencedora da briga. Jaques sentia a dor, sabia que até poderia revidar, mas preferiu que a coisa acabasse ali. Foi ajudado por um dos homens que comentou "Isso é savat". __ É o que? - disse o homem ainda com a mão no saco. __ Savat. Vi um cara fazer essas coisas - imitou os movimentos extremamente rápidos das mãos e braços - nas ruas de Nova Orleans, um francês baixo e magro, mas era tão rápido que ninguém derrubava o tampinha. __ Parece que não deu muito certo... - apertando-se. __ A Dona Liv é esperta! Fez de conta que tava machucada e o cara caiu nessa! - enquanto separavam a grana. __ Por que fez isso, afinal? - perguntou Jaques. __ Tava me sentindo uma velha. Não agüentava mais ficar naquela casa sem nada pra fazer, arriscar-se um pouco sabe. Gosto de sentir o vento passar rápido pelo corpo e ter aquela sensação de... __ Não to falando disso...To falando do meu saquinho. - e caiu no chão outra vez. Ela ajudou o coitado a levantar e a sentar num dos bancos da mesa de almoço, depois os demais sentaram e todos tomaram a vodka vagabunda e conversaram até altas horas da noite. Pouco antes de dormir, Liv teve a idéia de fotografar o que chamou de time de "wrestgling" da fazenda. Do aeroporto regional de Vancouver até a entrada de Prince George são mais ou menos três horas de carro. O homem que chegava na cidade tinha feito em uma hora e meia. O carro em si não era nada de extraordinário, um desses japoneses, de frente baixa e motor potente. Os contratantes não tinham nenhuma pista do mercenário que haviam contratado para o serviço, não tinham nome ou rosto para perseguir, mas sabiam ao menos onde ele agiria. A encomenda japonesa era simples como o pagamento: vinte e cinco milhões de euros, metade no fechamento do acordo, metade na entrega do pacote. O que Matsuo-sam estava achando era que o mercenário havia sumido com os primeiro doze milhões e meio de euros e com o chip de programação avançada e que provavelmente ele tentaria vender o chip para outra pessoa por um preço melhor. O que o senhor Yhara bem sabia era que havia gente no mundo disposta a pagar mais por aquele chip, bastava que soubessem da existência dele. Os japoneses foram os primeiros a promover esta espionagem o que levou ao contrato do mercenário, indicado por um amigo ocidental, o dono da outra propriedade em Sendai. Satoro era o homem escolhido para esta nova missão, localizar e destruir o guerreiro negro. Era outro tipo de mercenário, servente a um senhor. Satoro tinha seu metro e oitenta de altura e pesada noventa e tantos quilos de músculos trabalhados com artes marciais desde os cinco anos de idade. Naquela tarde de clima ameno usava um terno preto, camisa branca e gravata preta. Atrás do volante do Subaru cinza consultou as horas no relógio de pulso e deste movimento uma pequena faixa de pele fica exposta sob a manga da camisa, o punho era tatuado bem como o resto do tronco, Satoro era um "dezoi", um capitão da Yakuza, a máfia japonesa. Foi imediatamente até os arredores da fábrica onde tudo havia acontecido há alguns dias atrás. Homens ainda trabalhavam na limpeza do local onde uma explosão de C4 devastou o que era um laboratório de pesquisa eletrotécnica. Ainda de dentro do carro observou um homem de parecia coordenar os demais dando-lhes instruções de como agir e onde coletar dados. Outros vinham até ele para mostrar o que haviam achado no local das explosões e se aquilo era relevante. O Lin-so, guerreiro escondido em japonês, tirou uma foto rápida do homem e ligou a máquina digital no computador portátil ao seu lado. Em pouco tempo os homens da máfia infiltrados em diversas partes do mundo enviaram uma resposta. Aquele era o oficial Mark Flambert do serviço secreto canadense, de alta patente, ficha de trabalho impecável cuja característica marcante é se meter a resolver casos antigos dados como perda de tempo pelo restante do departamento. O Lin-so esperou pacientemente até que o trabalho de busca terminasse naquela tarde. Seguiu lentamente o homem até um hotel onde ele se hospedara. Aquele era mais um caso para Flambert, deve ter dito o chefe de seu departamento porque segundo as fichas conseguidas depois de derrubar o atendente do hotelzinho vagabundo no centro de Prince Geroge, o mafioso nipônico notou que mais ninguém de seu departamento havia se hospedado com ele. Deixou cair à noite de dentro do carro no estacionamento enquanto comia uma barra de cereal e tomava água mineral. Assim que as luzes se apagaram ele saiu carregando uma bolsa preta. Ela continha uma seringa hipodérmica de dez mililitros, uma ampola com líquido transparente e outra com líquido viscoso e branco, um oxímetro de pulso para aferir oxigenação e batimentos cardíacos e uma pistola. Tirou a arma de ar comprimido da bolsa e guardou sob o braço esquerdo. Com muita calma, terminou de mastigar enquanto subia as escadas de acesso ao grupo de portas dos quartos numa face leste sem visão da rua. Parou diante da porta de Flambert, ouviu o homem deitar e esperou mais alguns minutos. Tirou a pistola de ar comprimido de dentro do terno e uma tira de metal que abriu a porta com facilidade. Atirou uma vez antes que o oficial canadense pudesse ouvir o ranger das dobradiças. O sonífero de curto prazo fez efeito quase imediato. Satoro tirou o homem da cama e o pôs sentado numa cadeira reta diante de uma das lamparinas de leitura. Carregou uma seringa com Sódio-Amital e injetou no braço de Flambert. Foi até a janela e viu que o corredor estava tranqüilo, sem movimentação, fechou as cortinas e trancou a porta, manteve a luz principal apagada e protegeu a luz da lamparina com o lençol da cama, isso criaria uma luz mortiça exatamente para impedir que outros vissem de fora, mas ele teria visão de sua vítima. Depois de trinta minutos o Sódio-Amital fez efeito. __ O que aconteceu - dizia ele, em inglês impecável, pausadamente e de forma que o oficial entendesse - exatamente, há vinte e um dias na fábrica de produtos eletrônicos? O oficial tinha os olhos entreabertos assim como a boca de onde pendia um fio de saliva. De início balbuciou as palavras o que fez o Lin-so repetir novamente, ainda mais pausado. __ Uma tentativa de roubo... - disse o oficial. __ Nada foi roubado da fábrica de componentes eletrônicos? Ou alguma coisa foi roubada? __ Não sabemos... Houve explosão no laboratório... Homens mortos, um carro e uma moto... __ O homem que explodiu a fábrica de componentes eletrônicos estava no carro ou na moto? __ Guarda disse que na moto... Moto preta... Homem preto... __ Ele era negro? O homem que explodiu a fábrica? __ Não sei... Não sei quem explodiu a fábrica... Guardas não chegaram perto dele na moto... O oficial Flambert falava como uma criança em alfabetização, confusa e entrecortada. O mafioso ficava atrás dele como se fosse uma voz em sua mente. __ O que você descobriu sobre a explosão dentro da fábrica? __ Quem explodiu a fábrica usou explosivos fortes, como C4... Ou outro explosivo plástico... Conhecia a planta e instalou nas paredes onde a reflexão causaria... Maior estrago. __ O que havia dentro do laboratório da fábrica de componentes eletrônicos? Eles disseram a você? __ Coisas de computador... Estavam dentro de um cofre forte... Cofre foi destruído na explosão... Não foi dessa forma que o homem teve acesso aos chips, o mafioso sabia. Era tempo de parar aquele interrogatório ou o efeito do soro da verdade se transformaria num poderoso estimulante. De sua bolsa, o japonês tirou a ampola com o líquido branco e viscoso e carregou a seringa com cinco mililitros de Propofol, um anestésico bastante eficiente. Injetou na veia do braço sem passar à frente do oficial e o carregou de volta pra cama. Enquanto deitava Flambert apertou os olhos pela dor moderada que o medicamento causava. __ Está tudo bem. Você está trabalhando. Sou seu chefe e nós estamos tendo uma tarde romântica de verão... - disse o japonês. Em seguida cobriu o corpo do homem e instalou o oxímetro de pulso do lado esquerdo. Depois embebeu um algodão com água e limpou o resto de sangue de onde havia feito as duas punções para os medicamentos. Verificou de tempo em tempo sua freqüência cardíaca e respiração. O anestésico seria consumido totalmente em quarenta e cinco minutos, nesse tempo o mafioso ficou em pé olhando o homem dormindo, não acendeu cigarro, não foi ao banheiro, não comeu nada, não tomou água, não se movimentou pelo quarto, não abriu os braços e não fez nada que não fosse respirar e olhar o cara. Decorrido esse tempo ele recolheu silenciosamente suas coisas e deixou o apartamento. Ficou ainda duas horas dentro do carro olhando para ver se alguma movimentação acontecia e nada. Satoro sabia que não havia necessidade de informar o status da missão a seus chefes, tinha somente de executá-la da melhor forma possível. Não fez ligações e ficou dentro do carro pensando que os guardas não chegaram perto dele na moto, era porque a moto era muito mais rápido que o carro ou o terreno ajudava a moto. Sabia que o terreno ao redor da fábrica era como um pequeno deserto de areia com arbustos e árvores baixas, se fosse terra a moto e o carro poderiam ter deixado uma trilha com a rota de fuga do mercenário se o vento não tivesse apagado. Pouco antes da alvorada ligou seu Subaru e dirigiu até a fábrica. Na manhã seguinte Liv e Jaques riam da brincadeira na noite anterior enquanto tomavam café na mesa da casa principal. Ele havia colhido frutas frescas e flores do campo e queria se desculpar por pegar pesado com ela na briga. __ Mas eu ganhei! Não você! __ Por que eu deixei. Se quisesse teria de derrubado outra vez. __ Onde aprendeu aquele savat? __ Eu não sei. Aliás, tem umas coisas que eu não sei como é que eu sei. Por exemplo, sei pra onde fica o norte, sei que posso correr três quilômetros em quinze minutos nessa altitude sem ficar cansado demais pra reagir, sei que a temperatura à noite cai em média seis graus, sei quantos homens trabalham aqui e qual a rotina do lugar, sei que as pistolas de disparo de prego ficam a cinco metros do chão na oficina pras crianças não pegarem e o melhor modo de chegar até elas com agilidade é usando o latão de óleo na parede oposta à que estão penduradas, sei que você tem um metro e setenta e pesa cinqüenta quilos, calça trinta e seis e tem uma manchinha branca bem discreta no pré-molar do lado direito... Mas não sei como eu sei essas coisas. Liv abriu os lábios grossos e arqueou a sobrancelha como se tentasse entender, depois correu até o espelho do banheiro e viu a tal mancha que nem ela mesma sabia que tinha. __ Mas afinal... O que você faz, cara? Ele deu de ombros. __ Como sabe que eu peso cinqüenta? __ Pela sua altura, largura dos ombros, tamanho dos seios, cintura e quadril. __ Eu tenho quadril largo, né? Odeio isso. __ Eu acho lindo... O papo estava ficando íntimo demais. Ela sorriu e riu em seguida. Depois deixou as xícaras na pia e Jaques foi pra fora ajudar o pessoal. Nisso, Margareth, a cozinheira entra na cozinha, vinda da despensa, toda sorridente. __ Gostou de saber que ele repara em você não é mesmo, senhorita Liv? __ Isso não quer dizer nada, Marge. Ele também reparou que a temperatura aqui cai seis graus à noite... A senhora mais experiente manteve um sorriso contido nos lábios enquanto apanhava coisas na geladeira para o almoço. __ ...mas aquela na manchinha no meu dente foi demais! Nem eu tinha notado aquilo! Margaret riu. Estava na cara pra ela, havia visto aquilo ocorrer muitas vezes. Os próprios David e Nina começaram assim quando se conheceram durante a adolescência numa festa da igreja na cidade. __ Senhorita Liv, não há nada demais em estar atraída pelo rapaz. Claro que ele é estanho, chegou aqui há pouco tempo, fala coisas esquisitas, age de maneira suspeita quanto ao trabalho na fazenda, mas o que tem isso? __ Sei lá, acho que é esse jeito de mistério, essa mistura de homem perdido precisando de ajuda com homem forte, capaz de trabalhar com qualquer coisa e derrubar o Phil em dois minutos. __ Isso é bem normal. Vai acabar passando. O que acho que vai acontecer é que ele vai acabar acordando um dia desses no celeiro e lembrar do nome, do emprego, do endereço, da esposa e dos filhos! Porque uma coisa eu te digo, querida, homem bonito e educado assim não fica solteiro muito tempo, portanto, cuidado em ir se apaixonando por ele sem saber essas coisas antes. __ Eu não estou me apaixonando por ele, Marge. A senhora manteve o mesmo sorriso nos lábios e olhou pra ela com firmeza. __ Mas que ele é bonito, ele é. - completou Liv indo para o escritório. De volta à construção do silo, Jaques ajudava os homens a levar um tanque de propano para o lado em que seria instalado o aquecedor a gás para as noites mais frias. Eles tinham esvaziado o tanque, mas não ao todo. Nigel dirigia uma empilhadeira pequena e levava o tanque elevado demais para aquele dia de sol forte. O tanque havia ficado ali durante algumas horas e os demais o guiavam caminhando em volta da bomba ambulante. Jaques estava no local de instalação com Antony, outro empregado, esperando para posicionar o tanque na melhor posição. Todos distraíram-se por um instante só e foi suficiente para o tanque rolar da empilhadeira e cair no chão produzindo uma pequena explosão. Assustou a todos, mas ninguém se feriu, Jaques estava caído alguns metros atrás e tentando se levantar. Liv saiu correndo da casa para vir até ele enquanto os homens o ajudavam. O amnésico estava bem, somente um pouco zonzo pela pancada de ar no peito, mas sem queimaduras ou ferimentos. Desfeito o susto, eles foram repreendidos por Liv, incluindo Jaques pela falta de cuidado, e sentaram pra descansar no banco da mesa externa. __ Hei, Jaques, ta mesmo legal, cara? __ Estou, obrigado. Mas tinha algo errado na cabeça dele. Aquela explosão. Sentia culpa por ela. Alguma coisa dizia que fora ele quem provocara aquilo. Sabia que era capaz de produzir uma coisa dessas e parecia que já tinha feito antes, mas quando? E por que? Não era hora pra encanar, iriam cobrir o prejuízo e voltar ao trabalho. Na mesma manhã, pouco antes do café dos dois um Subaru Inpreza cinza estava parado diante da cerca de limite da fábrica. Satoro olhava, mas não via nada, procurou marcas e nada. Decidiu sair da estrada principal para Prince George e tentar as vias de saída da cidade. Foi quando viu que outra estrada cortava o vale e seguia para a área das fazendas. Foi com o carro vagarosamente olhando a paisagem. Depois de uns cinco minutos dirigindo, parou o carro no acostamento, desceu e ficou olhando o asfalto. O Lin-so sorriu e virou lentamente a cabeça. Viu claramente uma marca única no chão, uma freada de pneu de moto que desviava do meio da estrada para a direita e desaparecia na terra do acostamento. Havia uma cerca falhada e mais adiante uma árvore com um sinal claro de concussão no tronco. Era sua pista. Nessa mesma hora, o oficial Mark Flambert ligou para o gerente da empresa designado para acompanhar as investigações e disse que não poderia ir trabalhar, que mandassem os resultados das investigações para o hotel. Não sentia-se bem e não lembrava de nada na noite anterior. Na verdade tinha vergonha de si mesmo, porque por algum motivo obscuro havia tido um sonho romântico com seu chefe de departamento. Era noite quando Jaques disse adeus aos homens que iriam para suas casas enquanto ele voltaria para o celeiro. Teria a companhia de Brutus e Titan enquanto pensava na história da explosão e na vida. Foi até onde suas coisas estavam embrulhadas, num canto, e começou a mexer procurando as tiras de massa de modelar de cor bege. Notou que a arma não estava lá. Procurou com mais afinco e nada. __ Eu peguei a arma hoje à tarde. - disse Liv da porta do celeiro, muito séria. Jaques ficou olhando sem saber o que dizer. __ Sempre teve alguma coisa estranha em você senhor Jaques, mas essa arma esta carregada e algumas cápsulas foram deflagradas. Você atirou em alguém ou alguma coisa. __ Olha, Liv. Eu realmente estou tão perdido quanto você. Se soubesse o que é minha vida, o que eu faço, ao menos teria como te dar uma explicação. Mas eu não tenho. Não sei por que eu estava com essa arma quando cai da moto. Não sei por que tinha mais um monte de coisas nessa roupa. __ Fala a verdade. Você sabe sim o que está acontecendo. Só está aqui até agora pra fugir de alguma coisa. Ele franziu o cenho. __ Está achando que eu sei quem sou e que estou aqui pra me esconder? Liv não esboçou reação, mas a resposta era sim. Jaques levantou e começou a juntar os trapos, ia dar o fora. Dane-se a fazenda, ela e o mundo. __ Pra onde vai? Não tem lugar pra ir sem que alguém o persiga, não é? __ Não me interessa. Vou pegar a estrada e foda-se. Já deu pra sacar que grana eu arranjo fácil. O suficiente pra comer é o que eu preciso. Tenho dormido nesse celeiro nos últimos dias, é frio e sinto-me bem com isso. __ Sabe por que eu vim aqui hoje à tarde? Não foi pra vasculhar suas coisas, Jaques. Eu entrei aqui depois do negócio da explosão. Deitei ai onde você dorme e fiquei sentindo o seu cheiro nesse travesseiro velho que te demos... Eu não sei como, nem porque, mas estou me apaixonando por você, daí encontrei a arma e agora não sei o que pensar. __ Não pensa. Vai fazendo. O que der errado depois dá-se um jeito. __ Ta vendo! É esse tipo de pensamento que quase mais ninguém tem hoje em dia. Você encara as coisas sem pensar nas conseqüências, mas parece que faz isso com tanta propriedade que dá vontade de fazer também. Já com as coisas presas por uma das mangas da camisa preta, passou por ela e deu uma última olhada. __ Se isso ajuda, também estou gostando de você. Primeiro te achei linda e gostosa, depois esse jeito de menina independente foi cativando um lugar na minha cabeça, mas quer saber, Liv... Isso vai dar em nada. Vai me devolver a arma? Os olhos verdes acentuados pela fraca luz do celeiro pareciam as únicas coisas coloridas naquela hora. Pareciam dizer não. A menina tremia de frio ás onze horas da noite quando Jaques desapareceu na estrada de acesso à via de asfalto. Caminhou confortavelmente pelo acostamento através da névoa gélida e viu faróis se aproximarem. Estendeu a mão e o carro que vinha foi parando adiante dele. __ Ta indo pra cidade, parceiro? - perguntou Jaques. __ Você estava naquela fazenda ali atrás? __ É. Meu turno acabou tarde hoje e quero chegar à cidade pra pegar um ônibus ainda esta noite. Pode me deixar lá? __ Claro, entre. Jaques acomodou-se no carro e gostou do belo painel, o carro era novíssimo. __ Bem legal. - comentou. __ É um Subaru Inpreza novo. Tem motor turbo, controle de tração e suspensão ativa. Suspensão ativa? Coisa estranha. Assim como a explosão daquela tarde, aquele termo também parecia familiar. Dirigiram por algum tempo até que o motorista asiático começou a perguntar. __ Você está nessa fazenda há muito tempo? __ Na verdade cheguei aqui faz alguns dias. __ Procurando um lugar que pague melhor? __ Sabe como é. A gente tem que comer pra ficar em pé. - respondeu sorrindo. __ Eu vinha pela estrada hoje de manhã e vi uma marca de acidente que entrava na plantação da fazenda. Soube de alguma coisa? Estou perguntando porque procuro um amigo que veio trabalhar por aqui há algum tempo. Ele não deu noticias. Íamos comprar uma propriedade aqui perto. Jaques estranhou a conversa. __ Não soube de nada não. Lá eles cuidam das plantações e estão construindo umas coisas novas, nada de mais. Depois de uns quinze minutos chegaram à cidade. O Lin-son estava disposto a continuar procurando mais indícios de seu alvo. Deixou o caroneiro na modesta estação rodoviária de Prince George e foi para uma pensão próxima. Assim quem entrou, Satoro tomou um banho e pediu comida à recepção. Depois ligou seu computador portátil e pôs-se a examinar as fotos que havia tirado. As fotos mostravam as instalações da fábrica, o local da explosão e alguns homens trabalhando. Trinta minutos depois fez uma ligação de celular que não era para seus contratantes, mas falou docemente em japonês e sorriu bastante. Dormiu em pouco tempo. A pensão onde se instalara tinha poucos quartos e um pátio no centro com vão livre. Do lado oposto à varanda de entrada do quarto dele havia um elevado pequeno com um varal discreto para roupas leves e uma cobertura de telhas onde ficava um tanque simples. Naquela hora havia uma sombra imponente sobre o tanque e como não era tempo de lua cheia a noite estava fechada. De cima do tanque, olhando para os dez metros que separavam o varal da janela do quarto do Lin-so, Jaques examinava cada passo do oriental. Depois que ele foi dormir deixou a pensão da mesma forma que entrou, por trás do varal, através de um muro de seis metros que escalou usando a capota de um trator velho e abandonado, e falhas no reboco. Então tinha realmente alguma coisa ligada a ele e aquele acidente que chamava a atenção de um oriental estranho que, pelas fotos, investigava o caso. Jaques havia ganhado uns duzentos dólares canadenses desde que entrara na fazenda, contando a grana da briga e gastou trinta deles pra alugar um carro. Foi até perto da fábrica com faróis apagados e olhou. Havia uma parte de um dos prédios coberta por uma lona preta, a parede estava chamuscada em um dos lados e a guarda parecia agitada. Dois homens em cima de uma torre de observação apontaram suas armas para o que parecia ser um viajante perdido. __ Calma ai gente! Eu só quero uma informação. - disse Jaques. __ O que quer? Não se aproxime demais desse portão! - ordenou um dos guardas empunhando uma escopeta. __ Sabe pra que lado fica Vancouver? Os homens se olharam. __ Fica à sudoeste! - gritou um deles da guarita. Dirija por duas horas até a interestadual e depois vire para o sul, é reto por essa estrada. __ Obrigado... Sabe, faz frio demais, onde eu posso tomar um café barato? Os dois guardas, presentes naquela noite, estavam cansados daquilo tudo. Estavam sendo responsabilizados pela fuga do terrorista e suas vidas não podiam estar piores, um café barato até que ia bem naquela noite gelada. __ Venha até aqui. Temos uma garrafa. - um dos guardas desceu deixando o outro atento, ainda com a arma preparada para atirar. __ Isso é bom demais! - disse Jaques tomando o café com o guarda. Vocês devem ser ricos pra trabalhar nesse frio aqui fora. __ Seria bom ganhar um extra pra ficar aqui a noite toda e ainda ser ferrado sem ter culpa. __ Puxa, o que aconteceu naquela parede? Estão reformando? - disse Jaques apontando para a lona preta. __ Nem me fale, cara. É por isso que estamos ferrados. - terminaram o café. __ Bom, obrigado. Agora eu vou andando. Despediu-se gentilmente do guarda e voltou para o carro alugado. Dirigiu um tempo, parou, deu meia volta e passou por ele novamente sem ser notado. Sabia que tinha acontecido alguma coisa na fábrica, por isso os guardas estavam tão tensos. O japonês vinha investigar e era difícil que fosse do governo, as marcas da queda da moto o colocavam nisso tudo, tinha mais algumas coisas pra pensar. Primeiro no japonês, quando falou ao telefone. "Estou com saudade" mais alguma coisa que ele não ouviu bem devido à distancia e um empolgado "você sabe que não é verdade, eu te amo!". Caminhando pelo deserto no meio da noite, afastado de provável civilização ao menos dez minutos, Jaques percebeu que sabia falar japonês! __ Isso ta ficando pior a cada minuto. - enquanto preparava a coisa que queria testar. Tirou uma das tiras de cor bege de suas coisas e usando a faca de lâmina de metal preto cortou uma lasca na massa e deixou longe do carro. Depois envolveu um dos dispositivos que as tiras tinham na ponta com a massa e protegeu-se. Usando o aparelho parecido com controle de portão, virou uma chave pequenina que fez acender uma luz vermelha no aparelho. Apertou o botão, uma luz verde se acendeu e uma explosão pequena, mas barulhenta levantou poeira até por cima de onde ele estava. __ Cacete... Isso é explosivo! - constatou como o macaco em Odisséia 2001. Era um mercenário treinado descobrindo o C4. - se uma lasca dessa merda bege faz isso... Então aquela parede deve ter sido destruída com a mesma coisa. Recostou no carro. __ E o cara japonês veio aqui pra saber o que aconteceu. Viu as marcas da minha queda e quer saber o que há na fazenda... Eu tenho que saber quem é esse japonês. Voltou à pensão. Ficou do outro lado da rua olhando o rapaz que trabalhava atrás do balcão recebendo os hóspedes. Ele lia alguma coisa, fumava um baseado e parecia que não ia sair dali tão cedo. Jaques entrou numa cabine telefônica e pelo endereço, já que a pensão na tinha nome nem placa, ligou pra lá. __ Quem é? __ É o Jeff. __ O Jeff que trabalha na pensão da rua Arviat? __ Sim... Quem é que ta falando? __ Aqui é o oficial Marvin, da polícia estadual. Eu gostaria de lhe fazer uma visita. Só liguei pra saber se o senhor está mesmo ai. Chego em alguns minutos. - e desligou. O rapaz mais que imediatamente correu para os fundos jogar seu bagulho no primeiro vaso sanitário que encontrasse. Jaques entrou e enquanto ouvia o rapaz mexendo nas gavetas, checou o livro de hóspedes e os cartões de admissão feitos nos hotéis canadenses. Satoro Ywazaki, residência oficial, Vale de Shantoi, Japão. Ocupação: Assistente de administração? Telefone para contato: era claro que era falso. Antes de o rapaz voltar a seu posto, branco e assustado esperando pelo investigador Marvin, Jaques subiu as escadas e foi até a porta do quarto de Satoro. Olhou em volta do corredor e notou uma cadeira pesada num canto. Apoiou a cadeira sobre o parapeito da varanda voltada para o pátio com uma vassoura. Tirou uma das roupas molhada do varal e atirou na vassoura, que caiu fazendo a cadeira bater forte na porta do japonês. Quase ao mesmo tempo em que a cadeira bateu, Jaques viu o cara saltar da cama segurando uma arma e protegendo o lap top. Assistente é o cacete, pensou. Ainda naquela madrugada o amnésico voltou ao mesmo local em que havia caído de moto dez dias atrás. Poucas horas depois o japonês saiu de carro e Jaques o seguiu bem de longe. Ele foi novamente até a fábrica, tirou mais fotografias e assim que o seguidor percebeu que o japonês ai pela estrada da fazenda com o carro, tratou de parar no acostamento e tomar um atalho pelas colinas baixas, queria um campo de visão livre e acesso fácil ao carro do japonês. Satoro não pretendia parar novamente. Tinha de passar pelas mesmas curvas fechadas que Gascoin havia feito com a moto e isso dava a Jaques, a vantagem que queria, assim, correndo como um alucinado chegou a um ponto num barranco em que via o carro dele se aproximar. Jaques tinha visão ampla da plantação de trigo, tirou o transmissor do bolso e detonou uma carga leve na clareira em que sua moto havia caído, assim não iria começar um incêndio. Satoro viu as chamas baixas que imediatamente se transformaram em fumaça e parou o carro com violência. Desceu segurando sua arma e abaixado, passou pela cerca e viu o chão com um buraco de bom tamanho onde a carga foi deflagrada, mas não havia ninguém. Olhou em volta e quando se deu conta que havia deixado o carro sozinho voltou correndo, mas seu lap top não estava mais no banco do passageiro. Bateu com o cabo da arma no capô do carro e olhou em volta. As marcas de alguém que descera pelo barranco eram claras, ele se pôs a correr, subiu como um gato e só teve tempo de ver um carro arrancar na direção da fábrica. Sabia que não havia tempo de perseguir o ladrão então usou seu celular para fazer o que ele fora bem instruído para não fazer: ligou para os contratantes. __ Nosso chefe não quer saber de atrasos ou de suas dificuldades, Lin-so. Você foi instruído a agir da melhor maneira possível para levantar dados da localização do pacote. Esse contra-tempo não é problema nosso. Jaques sorriu dentro do carro. Então era isso, havia um pacote, havia um contratante e um executor. Suas suspeitas estavam ficando mais claras. Era por isso que o Lin-so não deveria usar o celular para contatar a fonte, o lap top podia rastrear essa ligação. Como Jaques sabia fazer aquilo tudo com a máquina nem ele sabia, mas assim que pegou o computador portátil tinha plena noção de como manuseá-lo. Isso denotava a inexperiência e o desespero do japonês. O carro estava escondido sob uma ponte na entrada da cidade e durante o tempo que ficou com o computador foi percebendo que mais coisas eram elucidadas em sua cabeça. Sabia que as explosões não eram de todo estranhas, que o modo como lutava era sem dúvida produto de um treinamento intensivo, de como sabia manusear e preparar as cargas explosivas e como burlar as chaves de segurança dentro da máquina do japonês para contra espioná-lo. Ele estava buscando o pacote. O que era o pacote? Era ele provavelmente. Então um momento de reflexão o pôs em alerta imediatamente. A fazenda. Sem dúvida o japonês iria voltar à fazenda. Jaques não percebeu que explodindo a carga dentro da fazendo iria dar ao japonês o que ele queria, uma confirmação de que seu alvo estava lá. Ligou o carro e começou a acelerar pesado nas curvas. Logo que chegou ao portão de acesso viu o Subaru cinza parado. Tinha uma arma, uma faca, alguns explosivos e precisava resolver isso rapidamente. Liv não havia dito que ele usava uma máscara preta na noite em que foi encontrado, mas ele sentia que não podia mostrar o rosto novamente. Mesmo porque se alguém da fazenda o visse agindo de forma estranha levantaria mais suspeitas do que já tinham. Improvisou uma camisa para esconder o rosto deixando apenas os olhos visíveis. Pôs a arma na cintura atrás, a faca no bolso de trás também e as cargas de explosivos, três restantes, ele cuidaria depois. Era início da noite quando pulou a cerca falhada e rastejou em direção à casa principal. Tinha medo de o japonês matar alguém, Liv principalmente. No primeiro movimento que fez para se esconder de alguém que fumava do lado de fora do celeiro, mais um lampejo de semelhança lhe veio a cabeça. Já havia feito aquilo antes. Não via ninguém além do veterinário ao longe, fumando e o barulho dos bichos. Então onde estava o cretino do japonês? Como antes, aquele instante que precede o desastre. O Lin-son o ataca por trás com um golpe que se fosse certeiro seria fatal. __ Quem é você? - perguntou Jaques, em posição de revidar o golpe. __ Não se preocupe. - o Lin-so pôs-se sério e calmo - não estou aqui para ferir ninguém. Quero somente algumas respostas. Eu o ataquei porque vi que porta uma arma nas costas. Sugiro que não a use. Sua máscara é também desnecessária. __ Que história é essa de pacote? O mascarado sabia. Devia ter sido ele quem roubara o lap top. __ Está com meu computador? __ Quem é você e o que ta procurando? __ Ouça, rapaz. Tudo bem que você roubou meu computador, mas acredite, isto é muito maior que imagina. Agora me diga. Onde está o homem que caiu naquela clareira da plantação dias atrás? Jaques olhou os lados, não havia ninguém. Na escuridão noturna estavam ambos afastados da casa principal, próximos da garagem. __ O que é que você quer com ele? __ Somente algumas perguntas. Entenda uma coisa, vocês podem estar dando abrigo a um perigoso criminoso. Sabe que ele roubou uma coisa importante da fábrica? __ E o que seria? __ Isso eu não preciso te dizer. Pode chamar alguém da casa, os donos de preferência. Eu sou policial e vou esclarecer tudo. - disse sorrindo o Lin-so. Jaques passou discretamente os olhos por cima dos ombros dele. O japonês tinha as mãos para trás e continuava sorrindo. Numa fração de segundos o homem do oriente tinha sessenta quilos de carne armados com dentes presos às suas costas. Ao que parecia, finalmente, Titan havia saído da crise depressiva e orgulhava-se de ser um rottweiler gigante. A arma que tinha nas mãos foi atirada longe, mas Jaques não teve tempo de usar a sua. O oriental era rápido. Desarmou Jaques enquanto se livrava do cachorro. As primeiras luzes da casa se acenderam e Jaques não viu movimento na janela de Liv. Satoro pôs-se a correr depois de pegar sua arma do chão. Não sabia que seu alvo estava bem em frente e não pretendia ficar pra perguntar outra vez, não com Titan correndo às suas costas. Jaques viu dois homens vindo em sua direção armados com as velhas espingardas da casa, eles atiraram, mas não sabia bem o que estavam fazendo. __ Voltem pra dentro! Eu cuido dele! - gritou e saiu correndo atrás do outro. Satoro chegou ao carro e saiu levantando poeira pela estrada, Titan e o amigo Brutus latiam do portão. Jaques ainda mascarado passou por eles sem que fizessem nada, reconheciam o cheiro de cordite no homem. O outro carro, não tão potente quando o Subaru, mas suficiente pra persegui-lo pelas curvas saiu logo atrás. __ Isso acaba aqui. Nem que eu tenha que abrir minha cabeça pra saber o que tem dentro! - resmungava Jaques. Ambos aceleravam sem economia nas curvas. O Subaru mais preparado pra correr se dava melhor nas retomadas, mas Jaques parecia que ainda tinha surpresas na manga, era exímio piloto de carros. Aquilo o foi animando cada vez mais. Baixou o vidro e atirou algumas vezes. Tinha plena consciência de como coordenar carro e arma. O vidro traseiro do Subaru quebrou e uma das balas destruiu seu retrovisor, então ele começou a revidar. Os dois carros avançavam rapidamente pela estrada e logo chegaram a modesta rua principal de Prince George. A perseguição foi ouvida e vista pelo xerife, mas ele teria de sair atrás deles e isso seria trabalho demais. Jaques fez uma curva com mais perícia e ficou ao lado dele. Satoro descarregou seu pente de bala enquanto lutava com o pesado carro. Jaques freou forte e jogou a direção pra direita batendo sua frente na lateral traseira do outro. Os carros rodaram e param. Jaques desceu e começou a atirar. O japonês era rápido mesmo, já não estava mais dentro do carro. Ao contrário, saltou de algum lugar escuro e tirou novamente a arma de Jaques. O mascarado defendia os chutes do japonês e tentava revidar, mas ele era um carateca habilidoso. O savat usa pontos fracos do oponente, coisa rara na luta de caratê. Logo estavam os dois desarmados, em posição de luta no meio de uma rua deserta de uma cidade minúscula nos confins canadenses. A bruma tomava conta do ambiente e misturava o cheiro de pólvora com lona de embreagem e pastilhas de freio. __ Foi você não é mesmo? - perguntou o Lin-so. __ Quem mandou você? __ Quem você acha, seu imbecil. Seu contratante. Mais uma elucidação. Faltava uma única fagulha, ele sentia, pra coisa toda voltar ao que era antes. __ Afinal, como você se chama? Tentamos te localizar de tudo quanto foi jeito, e nada. Tive eu mesmo de vir até esse lugar cretino pra terminar o que você não conseguiu. __ Está falando disso aqui? - Jaques mostrou pra ele o chip que encontrou junto de suas coisas. __ Exatamente. Se estava com você o tempo todo, porque não entregou logo e pegou a outra parte da grana? __ Eu acabei tendo um contra-tempo. __ Bom... - o oriental parecia ofegante pela luta com os carros -... Eu não vim até aqui pra levar o chip pro senhor Matsuo, somente... Reiniciaram a pancadaria com leve vantagem para Satoro. Jaques sacou sua faca das costas e tinha alguma coisa na cabeça dizendo pra ele atirá-la que não erraria, mas ficou com medo de errar e não o fez. Logo a faca estava caída e ele tinha o pescoço preso pelo braço duro do Lin-so. Enfiou um dedo no olho dele pra se soltar e deu certo. Continuaram a brigar. Jaques não tinha mais armas, não tinha mais faca e se fosse sair da porrada com o cara sem dúvida ele ganharia. Estavam em pé dando voltas e ofegantes. __ Não sou um guerreiro desonrado como você, mercenário. Quero saber o nome do homem a quem devo matar. Mercenário. Era isso. Jaques iria morrer. Tentou novamente um chute que passou no vazio dando as costas ao oriental que sabia se esquivar. Ele torceu o braço de Jaques e chutou o peito atirando-o contra seu carro. Sem pensar duas vezes e vendo o Lin-so perto do Subaru, ele passou por cima do capô de seu carro mais modesto, tirou o detonador do bolso e mandou o Subaru pelos ares. Havia posto o explosivo no chassi do carro ainda na fazenda. A coluna de fumaça se levantou por trinta metros. O calor foi intenso. Mesmo protegido por seu carro, o mascarado sentiu o tranco da explosão. As tiras de massa bege eram C4, agora ele se lembrava. Os modelos Inpreza da Subaru têm um recorte no chassi pra melhorar a passagem de ar e isso causa uma zona frágil, agora ele lembrava. __ E meu nome é Henri Gascoin. - disse para o corpo do Lin-so desfigurado no rosto pela batida contra o outro carro e nas costas pelo calor infernal da explosão. Tudo veio à tona numa fração de segundo. Do jeito que a coisa ia, dessa vez o xerife ia ter de ir até ali. Entrou em seu modesto e amassado carro e tratou de dar o fora. Manhã seguinte ao ocorrido, Niágara Falls, numa tarde úmida em que uma garoa fina e gelada castigava os transeuntes, um homem da polícia estadual entrava numa sala trazendo consigo uma xícara de café. O homem, oficial há um bom tempo, sentou-se de saco cheio da vida, olhou novamente os papeis à sua frente e entregou a xícara de café a Liv, sem olhar muito pra ela. Continuou lendo o que ela havia relatado. O semblante da moça não era dos melhores. Ao que parecia na visão dele, não era uma briga de namorados comum, mas um mistério daqueles que polícia nenhuma gosta de ter nas mãos. Sabia que poucos jornalistas tinham interesse na história e isso o reconfortava. __ Mais uma vez. Vocês acharam o corpo do homem caído e ele ficou trabalhando na sua fazenda por alguns dias? __ Eu não sou a dona da fazenda. Estava somente tomando conta para um casal de amigos, que estava viajando quando tudo aconteceu. __ Então você encontrou uma arma e deixou a fazenda na mesma noite? __ Eles chegaram hoje pela manhã. __ Mesma manhã em que o parco xerife local, o mesmo que não quis dar vazão às investigações de um homem de preto, numa moto preta, usando armas, ter caído numa plantação depois da explosão fabulosa de uma fábrica? E mesma manhã em que a polícia estadual foi chamada para examinar um corpo não identificado ao lado de um carro destruído numa das ruas de uma cidade minúscula? __ É isso ai. O homem esfregou os olhos mais uma vez e espirou forte. Não tinha mais paciência para aquela coisa toda. __ Olha, minha jovem. Ao que parece vocês deram guarida a um terrorista, ou um desses ativistas ecomaníacos que não gostam de laboratórios. De qualquer modo não deixe Niágara Falls sem nos comunicar. __ Eu estou sendo investigada? __ Não, mas acredito que a senhora pode estar em risco. Esse homem seja lá quem for teve seu rosto visto por dezenas de pessoas nessa fazenda. Pode querer... Você sabe, não deixar testemunhas. Ela ficou brava. __ Ele não é assim! Jaques não iriam me fazer mal... Ou pelo menos, eu acho que não. Nem a mim nem ao pessoal da fazenda. __ Jaques? Agora o homem tem nome? Ela sorriu meio sem graça. __ Nós demos esse nome a ele... Jaques Louis XV - Liv quis rir, mas conteve-se. O detetive arqueou as sobrancelhas e concordou sem dar razão. __ Nós temos um retrato falado. Temos a moto, que não tem absolutamente nenhuma digital a não ser a sua e de seu empregado, o tal Nigel... __ Isso foi porque nós dois tiramos a todo do lugar e a pusemos na garagem da fazenda. __ E fizeram isso porque o xerife não quis ajudar. Ela confirmou. __ Acho que tenho que falar com esse xerife. Por enquanto a senhorita está liberada. Talvez nós a chamemos novamente se for necessário. Mas agradeço desde já sua colaboração e sugiro que fique tranqüila senhorita Duncan, se esse homem pisar em solo canadense novamente será descoberto em horas. __ Vocês têm meu endereço e o telefone de onde eu trabalho não é? __ Sim, senhorita Duncan. Mais uma vez, fique tranqüila. Liv deixou a delegacia estadual ainda intrigada. Não sabia realmente o que queria, se o tal Jaques bem longe, ou se mais perto do que nunca. Cinco dias depois da visita à delegacia, lá estava a bela morena mostrando uma escultura na Galeria Lês Misteres, a uma senhora de olhos havidos por status e não qualidade quando alguém vem chamá-la, havia um cliente interessado em comprar sua obra mais bela e cara. Cinco dias antes disso, na fazenda. __ Então foi isso, senhor David. Foi uma correria naquela noite. __ Eu não sei se fico furioso ou impressionado, Nigel. Como é que vocês e aquela maluquinha da Liv deixam um cara desconhecido dormir e trabalhar aqui depois daquela história toda? __ Senhor David, entenda. O homem estava todo machucado. No primeiro momento não tínhamos o que fazer, depois ele foi ficando e era bom de braço o danado. __ E vocês não têm certeza se era ele lutando contra o tal japonês? __ Num tinha nem como saber. O outro cara estava usando máscara. Mas pelo que o Matt contou, lutava igual ao Jaques. O dono da fazenda riu da inocência do empregado. Estava verificando a construção do silo, vendo o local da explosão e checando a estrutura. __ Seja lá quem fosse o cara, era bom de trabalho, dá uma olhada nessas vigas, senhor David. __ É, ficaram perfeitas. Sabe que eu não tenho certeza do que faria se estivesse aqui com vocês. Quer dizer, ajudar um cara acidentado é uma coisa, mas deixar ele trabalhando aqui esse tempo todo é diferente. Queria ter conhecido a peça. Nigel sorriu e tirou um papel do bolso. __ Ele é esse aqui, senhor. Tiramos essa foto numa noite em que resolvemos fazer uma briga pra esquentar. __ Sei, foi quando ele derrubou o Phil. David olhou a foto com atenção. Liv estava sorridente ao lado do estranho que fazia uma cara que para David, não era tão estranha. __ Espera um minuto... David correu pra dentro da casa e foi até seu escritório onde passava horas durante as noites, depois do trabalho, lendo jornais e revistas de esporte. Numa delas, a Notrh American Sports, havia uma foto evidente do atual campeão mundial de rally da Europa. Henri Gascoin estava triunfante sobre seu BMW G9 segurando uma garrafa de champanhe e abraçado a seu co-piloto. O dono da fazenda comparou as duas fotos, mas achou que a de Nigel devia ter algum problema da revelação. __ Não! Eu devo estar sonhando. - concluiu. Quatro dias antes da visita à Galeria. Província de Sendai, Japão. Matsuo Yhara estava ajoelhado diante de uma singela estátua de Buda. Vestia seu quimono mais caro e adornado por dois motivos. O primeiro era que para rezar a seu Deus, por ter alcançado a graça de seu objetivo, tinha de estar vestido de acordo, e o segundo era porque teria uma visita interessante. O senhor Yhara não gostou dos métodos que utilizou para impedir a queda de sua empresa, mas deu certo. Alguns dias depois de ter enviado o Lin-so para interceptar o mercenário negro, recebeu a boa notícia de que a tecnologia que ele tinha de destruir continuaria sem comércio por enquanto, até que seus técnicos chegassem a um veredicto sobre o que fazer com o pequeno chip que lhes fora entregue. Sua mineradora ainda estaria a salvo. Mas sua consciência o traía. Achava que seus lucros a partir daquele momento eram sujos e estavam manchados com o sangue de dois guerreiros. Por isso esperava ansioso a visita de um amigo, Gascoin-sam, proprietário da mansão na encosta leste de Sendai. Assim que terminou sua prece um dos empregados da casa anunciou que o convidado o aguardava no jardim de inverso. __ Gascoin-sam, konit uy a? __ Matsuo-sam. Peço desculpas, mas devo pedir para falar em língua ocidental - disse Gascoin, também trajado como um oriental, falando seu iniciático japonês. __ Não tem problema, Gascoin-sam. - disse Matsuo sorrindo e falando em francês, a língua pátria do visitante. - Que bom que você veio, meu amigo. Por acaso soube do que aconteceu nesses últimos dias? __ Claro, Matsuo. Acompanhei tudo pelos jornais. Não vim antes porque estava ocupado reciclando meus conhecimentos em carpintaria. __ Muito bom, muito bom! - disse o mais velho entusiasmado - Um homem que não tem habilidade com as mãos é um pobre infeliz. __ Concordo. Acompanhei as oscilações no mercado de minério e devo dizer, os ingleses me ligaram porque teremos uma conferência nacional de marcas em Londres em algumas semanas. Alguns deles são seus colegas e diziam estar torcendo contra o senhor, é claro. __ Os ingleses dominam o mercado africano, mas a América do Norte é muito mais rica em minério! Por sorte aquele infortúnio na empresa canadense não foi ligado a mim. Os dois homens conversavam sentados no chão, em frente a uma mesa baixa, num belíssimo jardim de inverno altamente ornamentado enquanto tomavam saquê e Gascoin fumava um cigarro, depois de pedir permissão ao dono da casa. __ Acompanhei isso também, Matsuo. Mas agora a situação mudou. Se o senhor ainda estiver interessado posso ser uma ponte entre o senhor e os ingleses. __ O jogo virou para meu lado, não foi? __ Sem dúvida. A Mineradora Yhara hoje tem todo o gabarito para ser uma potência mundial nessa área. Se os ingleses concordarem em unir forças, estão todos feitos. __ E se você me ajudar a conseguir isso, te dou uma bela porcentagem. Gascoin riu e agradeceu a oferta. Não havia necessidade de receber alguns milhares de euros pela fusão das duas empresas, fazia isso exatamente pelo relacionamento que manteria entre os dois continentes. __ Então vou unir uma coisa boa a uma necessária. - disse Matsuo com cara de safado - Eu te ofereço a mão da pequena Nohari em casamento. __ Acho que o senhor é que está tentando me conquistar, Matsuo-sam. Riram durante a tarde toda e mais uma vez Gascoin recusou o pedido, tinha outros planos pra executar. Deixou a mansão de seu vizinho oriental dentro de uma limusine Pontíac que o levou para sua casa e depois direto ao aeroporto de Nagoi. Não precisava realmente das ofertas generosas de Matsuo Yhara. Havia finalmente concluído o contrato de cinqüenta milhões de euros entregando o pacote aos engenheiros da Mineradora Yhara. __ O que você acha, minha jovem? É muito pedante ter uma peça de beleza estonteante na sala de um simples empregado? Minha última patroa me tratou tão mal que ainda quero esquecê-la. - disse Gascoin, enquanto a bela morena ficava atônita pela visita. __ Realmente dá pra confiar na polícia canadense. Disseram-me que seria preso em poucas horas assim que pisasse no país. - ele disse seria. __ E é exatamente por isso que estou aqui. Vim te agradecer pela acolhida no aeroporto. Tinha uma dúzia de policiais de vigilância pra ver se eu aparecia. __ E eles não te prenderam? __ Prenderam sim, ou melhor, fui levado para uma sala tranqüila, onde me ofereceram café e fizeram perguntas sobre minha visita à nossa fazenda... E como dizem, sempre teremos a fazenda. - irônico. __ Te deixaram ir embora? __ Eu disse a eles que qualquer dúvida quanto à minha conduta em terras canadenses era para ser esclarecida direto com o governo francês. O cônsul deve ter ficado irritado por ter sido acordado àquela hora. Ela deu-lhe às costas. __ Essa peça não está à venda. Se quiser mais alguma coisa viu pedir para outra pessoa atendê-lo, cavalheiro. __ Cavalheiro? Cadê o velho Jaques Louis XV? __ Ta na cara que você não é o mesmo que usamos pra bater pregos na fazenda. Terno italiano feito sob encomenda, bem como os sapatos, gravata que provavelmente é francesa e custa mais que meu salário aqui na galeria, um anel prateado no dedo com uma alexandrita, isso sem falar no... - olhou para a rua - BMW 760. Terminou e continuou andando. __ É platina! Por que ninguém percebe que o anel é de platina? Gascoin foi seguindo-a. __ Ta legal, me desculpe. Só voltei ao Canadá por causa de você. - as outras duas vendedoras pararam, a mulher que comprava coisas também parou. __ Por que? __ Porque eu não consigo te esquecer. Só voltei agora porque estava cuidando de coisas de trabalho que ficaram pendentes no tempo em que passei na fazenda. Liv se estiver disposta a não fazer muitas perguntas, gostaria de jantar com você esta noite. Ela virou ainda muito séria. __ Quem é você, qual seu nome, em que trabalha e o que estava fazendo naquele lugar, àquela hora portando você sabe o quê? O cavalheiro sorriu e decidiu que era hora de dar um crédito a alguém, porque ela, o cara não sabia, mas havia alguma coisa com a moça que o cativou. __ Meu nome é Henri Gascoin. Sou uma espécie de agente de segurança. Sou cidadão francês e estou apaixonado por você. As meninas sorriram, até a velha chata fez cara de cachorro sem dono. Pra encurtar conversa ela pediu que alguém cuidasse das coisas da galeria até ela voltar, eles foram jantar e foram alem. Hoje Liv Duncan é uma artista plástica começando a ficar conhecida graças aos contatos do namorado, Gascoin. Têm uma vida quase normal contando a quantidade de viagens a negócios que os dois fazem e no momento, estão participando do campeonato europeu de pára-quedismo patrocinado pela equipe Gás-competition/ BMW. 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| Última atualização em Sex, 14 de Dezembro de 2007 13:06 |
Comentários (1)
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14/01/2008 - 18:33:59 |Registered| O_ Fruto
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