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Mercenário- Início - Parte II Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos

Escrito por Brunno
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Qua, 26 de Dezembro de 2007 10:44
Num canto da cidade de Londres um rapaz de trinta anos está sentado diante de uma máquina de escrever antiga. Um cigarro pende displicentemente em sua boca e um copo de uma bebida alcoólica clara está pela metade. É mais uma tarde em que ele tenta ganhar algum dinheiro escrevendo suas matérias para um tablóide vagabundo. Os poucos amigos jornalistas que tem estão em suas mesas dentro de suas redações cumprindo os prazos estipulados por seus redatores e adoram isso, porque sabem que ao final de um dia de trabalho seu dinheiro estará garantido. Richard Saint gostaria de ter um desses contratos. Assim poderia comprar aquele computador portátil que tanto gostaria, pagar seu aluguel este mês, comprar uma bebida mais digna do que aquela e dar um pouco de conforto a sua namorada Tiffany. Ela gostaria de um mimo de vez em quando ainda que não exigisse isso dele. Era uma jovem de moderada beleza que trabalhava como garçonete num pub abaixo do apartamento que dividiam nos subúrbios de Gatwick. Era um bom repórter. Ficou conhecido há poucos anos depois de elucidar como ninguém um caso de investigação policial sobre um homicídio misterioso em Londres e recebeu suspiros até da Scotland Yard, mas as coisas foram decaindo. Saint passou novamente os olhos pelo trabalho que havia terminado de escrever. Tirou o papel da máquina, amassou e jogou no lixo. Tossiu algumas vezes e Tiffany pode ouvir um resmungo quando enfiava a chave na fechadura. Ela viu a deprimente cena e confortou o namorado por algum tempo. Saint se pôs a chorar com o rosto colado no ventre dela pela situação em que viviam, pela bebida e por ainda manter uma ponta de esperança que via queimar como a brava do cigarro. Londres pode ser conhecida pelos seus pontos turísticos, mas o que mais também chama muito atenção é sua organização quanto às informações. Existem em Londres dois escritórios de registros de empresas públicas, cujas informações, por constarem de ações de mercado na bolsa de valores, são de domínio de quem quer que as peça. Uma dessas empresas é a Moodies. Pode-se solicitar qualquer tipo de informação quando às vidas das empresas baseadas em Londres, praticamente desde a Revolução Industrial até os dias atuais, porém, a Moodies exige que quem estiver requerendo essas informações deixe um nome no registro. Por esse motivo, o rapaz optou, naquela tarde simples de Abril, pelas informações da Exchange Telegraph, conhecida somente como Extel, que não tem as mesmas exigências. Ele queria especialmente saber sobre dezenas de empresas baseadas na Inglaterra, cuja fundação ocorrera entre 1970 e 1980. O funcionário que trazias as cópias dos relatórios parcamente detalhados não entendeu exatamente o motivo daquelas datas. Também não entendeu porque ele queria saber sobre aquelas empresas especialmente, já que atualmente poucas ainda existiam e as que tinham ativos eram pequenas e quase sem lucro. O rapaz pagou os trinta xelins devidos pelas cópias e saiu. Passou a noite cruzando dados obtidos pelos relatórios da Extel com outros que havia conseguido através de suborno e chantagem de um funcionário grau dois do Foreing Office, o Departamento Exterior do Parlamento Britânico. Aquele funcionário perderia seu bom emprego administrativo se as fotos dele com uma prostituta menor de idade numa cama de um hotel vagabundo chegasse às mãos de seus superiores. Então forneceu ao fotógrafo o que ele pedira: nomes, contas e saldos bancários de dois cidadãos ingleses nascidos em colônias britânicas na África e um egípcio. Ele não havia entendido porque o nome daquele cidadão egípcio constava de registros ingleses e foi por isso que suas suspeitas o levaram a Extel. Cruzando as informações dos nomes dos dois ingleses com os nomes que constavam de uma sociedade desfeita na década de oitenta, John Fury achou o que queria. Depois de alguns dias ouvindo rejeições dos editores para quem prestava trabalhos de freelance, Richie Saint não sabia mais o que fazer. As contas de gás, água, aluguel e as demais continuavam chegando e o pequeno salário mais gorjetas de Tiff não eram suficientes. Aquele era um homem que tentava sustentar uma casa honestamente e não conseguia. Mais uma tarde bebendo e tentando escrever sobre as roupas íntimas da família real. Afastou a máquina, acendeu outro cigarro e apoiou o cotovelo esquerdo sobre a mesa deitando a cabeça sobre o punho fechado. Olhou para a porta de acesso ao corredor e pediu que um anjo entrasse trazendo dinheiro. Não foi exatamente isso, ou então, Deus tinha jeitos bem complicados de resolver as coisas. Um envelope trespassou por baixo da porta. “Outra conta” pensou Saint. Levantou tropegamente e foi apanhá-lo. Não era mais uma conta era uma carta. Saint leu a carta pela noite adentro. Tiff chegou e deu-lhe um beijo que ele não correspondeu, estava hipnotizado enquanto lia e relia as linhas impressas. Terminou tarde da noite, jogou fora o resto da bebida e fez um café, estava determinado a escrever outra de suas grandes matérias investigativas. A carta enviada a ele apresentava uma trama que se fosse real iria tirá-lo da miséria. Na manhã seguinte foi até o editor de um dos grandes jornais ingleses e apresentou o resultado. O homem não deu muito interesse aparentemente e disse a Saint que sentia muito, mas que ele procurasse um dos tablóides a que estava acostumado. Havia mostrado seu trabalho para os dois principais editores do jornal, o primeiro a ver o resultado foi Winston McNamara, que apesar de dividir a presidência com seu sócio, não tinha um bom relacionamento. Mesmo tendo recebido uma negativa sentia que alguma coisa estava errada e iria manter os olhos abertos sobre aquela história. Assim que Saint deixou a redação do London Today o editor-chefe, presidente do arquivo de imprensa e sócio de McNamara, Martin Endean pediu à sua secretária que não o incomodasse e abriu sua garrafa Glenvilet vinte e um anos. A última coisa que ele queria neste ponto de sua vida era dar com o nome daquele homem. Chase acordou com uma jarra de água gelada na cara. Abriu a boca e começou a arquejar enquanto levantava rapidamente da cama. Seu primeiro impulso foi matar o cretino que estava fazendo aquilo. E só podia ser uma pessoa.
__Eu vou te arrebentar, desgraçado! – disse rangendo os dentes. O pijama de flanela pesada e quente estava ensopado assim como o edredom e a cama.
__Seu castigo, chefe! Levanta essa bunda branca e vamos correr. – Gascoin foi saindo logo do quarto porque sabia que ela não estaria no melhor humor. Ficou esperando-a do lado de fora. Eram cinco horas da manhã. O sol ainda estava longe de despontar no horizonte e o discípulo aguardava o mestre. Chase chegou com a pior cara do mundo disposta a lhe dar uma lição de resistência em corrida. Vestia uma calça de malha colada às belas pernas, tênis, blusa reforçada e uma jaqueta de lona preta, do mesmo tipo que se fazem os pára-quedas.
__Se prepara, cretino. Vou te fazer correr até desmaiar. Alexandria será um paraíso perto de hoje. – disse a loura com os olhos vermelhos e inchados, com o rosto marcado de travesseiro e um pouco trêmula.
__Ta achando que vai correr assim, toda bonitinha? Lembra que quando apostamos, deixamos combinado que o vencedor faria um castigo completo e que o vencido teria de aceitar tudo? Ela assentiu imaginando que imbecilidade ele ia pedir agora. Gascoin ficou a poucos centímetros do rosto dela. Chase fechou mais a boca porque mesmo tendo escovado os dentes não quis que ele sentisse o bafo matinal. Ele sorriu sádico.
__Com licença, chefe. – abriu a jaqueta dela e tirou, depois puxou para cima a blusa reforçada deixando-a somente com o top branco, de tronco desprotegido ao frio. Chase começou a tremer imediatamente – me acompanhe querida. – e saiu correndo pela estrada que dava acesso à rodovia.
__Não vai mesmo querer que eu corra seminua num frio de cinco graus, não é? Gascoin eu posso ter hipotermia. – dizia enquanto iniciava a corrida ao lado dele.
__Em Alexandria me fez correr sob sol de quarenta e seis graus com equipamento e roupagem militar. – entre as passadas ele mesmo tirou sua camisa e ficou também de peito aberto ao vento cortante – esticada de seis quilômetros e volta. Depois de duas horas os dois estavam de volta à frente da cabana. O parco sol inglês mostrava sua redonda e branda face por trás da casa quando Gascoin parou seu cronômetro. Estava ativo, reativo, eupineico, ou seja, respirando naturalmente depois de exercício físico moderado e sorria. Chase estava trêmula, pálida, hiperventilante, ou seja, expirando menos dióxido de carbono que deveria, tinha os lábios e as pontas dos dedos azuis, estava vertiginosa e nauseada. Vomitou um pouco de bile diante dele. Gascoin apoiou a testa dela e a fez sentar numa das poltronas da sala. Pôs sobre o corpo gelado um cobertor e tirou os tênis.
__Se você ficar entre mim e meu alvo, Chase... Atiro através de você. Lince chegou à cozinha enquanto ele cantarolava Frank Sinatra e fazia café.
__É impressão minha ou a Chase está mais branca que o normal, quase morrendo e você está fazendo café e cantando, monsieur Gascoin?
__ Mister Lince, preparei também chá para seu desjejum. Espero que o cavalheiro goste. Há torradas no aparelho e se me dá licença, levarei nossa pequena enferma para a cama. No meio do caminho Lince o deteve pelo braço.
__ Não se esqueça, monsieur Gascoin, de que estamos do mesmo lado. Abater um membro experiente da equipe por simples gracinha não é inteligente para nossa sobrevivência. Só conseguiu enfraquecer esta casa hoje, filho. Se tivermos de disparar um alerta laranja que seja, só contamos com a minha habilidade em ficar vivos aqui. – soltou o braço de Gascoin e foi até a mesa. Lince estava começado a ficar sem paciência quanto a essas brincadeiras dos dois. Com Chase doente, teriam de esperar se acaso houvesse um chamado urgente de Hassan, e muitas vezes isso não era permitido. Eles eram uma parte importante do Grupo exatamente pela habilidade de Chase e Lince de planejarem uma ação muitas vezes de um dia para outro, com mínima margem de erros. Lince carregou Chase até a cama. Provavelmente ela teria uma pneumonia. Disse a um arrependido Gascoin que ela queimava numa febre de quarenta graus. Devia começar a delirar em pouco tempo. Levou para ela um antitérmico e voltou com cara de desaprovação maior ainda.
__Se você tem uma habilidade, Gascoin, que a use no momento certo. É tolerante ao frio, isso todos já notamos, mas fica vulnerável como uma criança, em um ambiente quente. Vou ligar para o chefe e dizer o que aconteceu aqui, não tenha dúvidas. E pedir a ele que equilibre um pouco as coisas.
__Como equilibrar? – perguntou Gascoin soltando uma baforada do cigarro e baixando a xícara do fumegante café.
__Vou recomendar que o transfira para outro grupo, monsieur Gascoin. É obvio que sua facilidade em trabalhar em ambientes de baixa temperatura será melhor aproveitado do que ao lado dela e ao meu. Gascoin entenda: Chase e eu somos os melhores e mais antigos membros de campo do Grupo. Hassan não pode contar conosco se ficarmos doentes por uma besteira dessas. Não estão aqui para se divertir, isto não é um clube de adolescentes como vocês dois estão fazendo parecer! Foi admitido aqui para aprender a matar pessoas! Para aprender a executar ações que nenhum agente de governo do mundo quer fazer! Terei de ser mais claro? Gascoin baixou os olhos e novamente sua instrução militar do último ano veio à tona.
__Não senhor, senhor Lince. Está entendido. Se acha melhor que eu seja transferido, senhor, que o faça.
__Como medida pedagógica, monsieur Gascoin – falava agora mais pausadamente – e para que o cavalheiro entenda o que é hierarquia por merecimento, vai lavar o carro, fazer suas malas, cortar lenha e alimentar o fogo. O almoço fica por sua conta e trate de fazê-lo decentemente. Leve comida para Chase somente no final do dia e aguarde sua transferência. Gascoin assentiu e saiu. Trabalhou o dia todo. Ao menos Lince o deixou ouvir música. Depois de consertar pequenas coisas, lavar o carro, cortar a lenha, alimentar o fogo, fazer o almoço, limpar a casa e fazer exercícios físicos, Lince o mandou levar sopa de creme de cebola bem quente para Chase. Depois de um tempo mandou levar água fresca e bolachas, ela tinha de se alimentar. Mandou que ele arrumasse os armários dela para que quando acordasse não precisasse fazer força. Na manha seguinte Lince o encontrou acordado de malas prontas aguardando ordens. Pouco antes de Lince entrar ele ouviu os rotores de um helicóptero de aproximando.
__O senhor Hassan está na sala. Quer uma reunião de todos nós. Gascoin sentiu um arrepio nas costas.



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Última atualização em Qua, 26 de Dezembro de 2007 11:32
 
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