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Imperfeição Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos

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Qui, 10 de Janeiro de 2008 13:00
- Consegui! Descobri! – cientista 1.
- O que foi? – cientista 2.
- A chave para a imortalidade. A Fórmula da Perfeição! – cientista 1.
- Como?
- Já ouviu falar das bactérias que o homem tem dentro de seu organismo? Pois é, algumas delas também são responsáveis pela nossa decomposição quando morremos. E o que nos ataca vem de dentro e não de fora.
- E então?
- Há um jeito de isolá-las. Creio que se caso consigamos retirá-las de nosso organismo, nada o deteriorará e viveremos para sempre!
- É uma grande teoria. Mas essas mesmas bactérias não servem para nos ajudar na digestão? Como iríamos recarregar nossas energias?
- É o ponto em questão. Por isso preciso de sua ajuda.
Daquele dia em diante, os dois cientistas se esmeraram em tentar encontrar uma solução para o problema. Mas era uma coisa mínima. Um pequeno tropeço para a Fórmula da Perfeição. Mas, na era em que viviam tudo era possível. Ou pelo menos, quase tudo. O ano é 2050ad, e muitas pesquisas tiveram sucesso devido à alta proliferação da tecnologia medicinal. Depois dessa primeira conversa, os projetos se desenvolveram e muito tempo se passou...

Primeiro Teste...

- Está tudo pronto? – cientista 1.
- Creio que sim. – cientista 2.
- Aplique!
- Tem certeza que quer fazer isso?
- Claro, é para o bem da ciência, e para o bem da humanidade.
- Então aqui vamos nós!
Os cientistas se entreolharam e a vacina contra as bactérias, que recém havia sido descoberta, fora aplicada. Não viram nenhuma reação alheia no momento. Tudo parecia correr bem.
- Anote aí. – cientista 1.
- Diga.
- Teste Número 1: rejeição esperada – nenhuma/ sintomas – nenhum/resultado – sucesso.
- Certo.
- Muito bem. Agora só temos que esperar e ver se não haverá alguma reação pós-vacina.
- Enquanto isso vamos voltar à parte teórica. Dentro de um mês, iremos aplicar a segunda dose.
- Esperamos que nada de anormal aconteça até lá.

Segundo Teste...

Passou um mês desde que a primeira vacina da Fórmula da Perfeição havia sido aplicada pela primeira vez. Parecia que tudo ocorria bem, e os dois cientistas estavam contentes com os resultados. Hoje era o dia do segundo teste. Ia ser aplicada uma dose maior no paciente voluntário da experiência.
Um carro preto governamental estacionou em frente à base de operações militares e onde a área de pesquisa tecnológica na área de medicina se desenvolvia. Hoje, um militar estaria presente. Era uma coisa que interessava ao governo.
Os dois cientistas não gostavam da interferência do governo em seu projeto, mas não podiam nem sequer reclamar, ou toda a verba que havia sido destinada para esta pesquisa, iria por água à baixo.
- Estamos prontos?
- Sim.
- O “pingüim” já chegou?
- Sim, está ali fora da sala de operações.
- Vamos lá então.
A segunda dose foi aplicada. Nesta vez, o paciente sentiu-se levemente tonto, mas já não sentia fome. Estava com energia suficiente. Fazia um dia que não comia e não sentia falta.
- E então?
- Apenas tonturas.
- Anote aí. Teste Número 2: rejeição esperada – mínima/sintomas – tontura/resultado – sucesso.
- Ótimo. Daremos agora um período maior. Seis meses.
- Você acha que agüentará seis meses?
- Creio que sim.

Terceiro Teste...

Exatamente seis meses após o segundo experimento, todos novamente se reuniram para ver os resultados da vacina. Desta vez, a área estava mais protegida, visto que o projeto estava sendo classificado como ultra-secreto. Agora já não era mais um simples projeto de dois cientistas. O governo estava monitorando os resultados.
- Como se sente?
- Sem fome.
- Incrível. E sentiu-se bem somente com a dieta que prescrevemos?
- Sim.
- Creio que poderemos excluir totalmente sua alimentação.
- Isso é meio estranho.
- Sei disso. Mas sem as bactérias que fazem a digestão lhe avisarem que está na hora de comer, você não precisa mais disso. Na verdade seu centro de aviso de fome vem das bactérias. Na verdade alimentamo-las, e elas nos dão energia em troca.
- Pois é. E o caso da energia? Sinto-me muito bem, mas daqui um tempo, o que ocorrerá?
- É o que vamos averiguar. Anote aí. Teste Número 3: rejeição esperada – mínima/sintomas – nenhum/resultado – sucesso.

Quarto Teste...

Agora, pela primeira vez, haviam deixado o paciente viver normalmente durante cinco anos, para observarem melhor seu comportamento em um habitat natural. Ele vivia confortavelmente numa casa em cima de uma montanha do Canadá, vigiada pelos governamentais. Ele aparentava estar muito bem. Não sentia fome e estava com sua energia intacta.
Mas, após algumas semanas, de um jeito inesperado, havia contraído um resfriado. Levaram-no rapidamente para a instalação militar onde ocorriam as experiências.
- O que houve? – cientista 1.
- Ele está doente. – militar.
- Eu tenho que dar um jeito de curá-lo ou ele irá morrer. – cientista 1.
- Por qual motivo? – militar.
- Ora, ele está sem anticorpos! Eu temia que isso fosse ocorrer. As bactérias também ajudam o corpo a produzir anticorpos.
(...)
Resultado do teste de número 5: rejeição esperada – nenhuma/sintomas – falta de anticorpos/resultado – sucesso parcial.

Após 50 anos...

- É com grande pesar, que nos reunimos aqui, para dar um último adeus a essa pessoa que colaborou tanto e nos deixou um grande legado...
- Martin, venha. Deixe-os. – sussurou sua esposa.
- Ele era meu companheiro de pesquisas. Vou sentir sua falta. Vou me empenhar em finalizar a Fórmula da Perfeição e isso nunca mais irá ocorrer.
- Eu sei. Eu também gostava muito da família dele. Mas tem certeza que ainda quer perseguir esse sonho tolo mesmo depois de ver seu velho amigo ali, prestes a ser enterrado?
- Mas é claro! É justamente por isso que quero continuar com os experimentos.
- Mas, Martin. Veja só. Eu tenho agora 70 anos e você deve estar chegando aos 120. As pessoas vão começar a questionar porque você não morre. Daqui a pouco eu irei e você continuará.
- Não. Eu vou terminar isso! Eu comecei junto com ele e me tornei a cobaia dos experimentos justamente porque ninguém mais se atreveria a fazer isso. Se tivesse sido ele, eu estaria no lugar dele agora e ele em meu lugar. Se eu estou aqui, em plenos 119 anos, quer dizer que funcionou. Sinto-me um pouco cansado, mas pretendo estudar mais a respeito.
- Você que sabe, mas saiba que está sozinho.

Após 100 anos...

- Hum. Essas partes mecânicas me darão a ajuda que preciso para obter mais energia. Será um bom treinamento para os jovens cientistas. Implantes biônicos! Nunca achei que chegaríamos a esse ponto! E vivos! – dizia o saudável cientista de 229 anos.
Mas o problema da energia que o organismo precisava ainda era o ponto crucial para que a pesquisa obtivesse sucesso total. Faltava apenas isso. Ele não comia e vivia muito bem. Mas começava a sentir falta de energia em seu corpo. Por isso lhe veio a idéia de implantes robóticos que ajudariam a fazer o trabalho braçal.
Passou-se mais cem anos...
- Não há jeito professor! O senhor está perdendo muita energia e nesse ritmo, logo não terá mais parte vivas e se tornará um robô por completo!
- Se meu cérebro ainda funcionar, vale a pena...
- Não diga isso professor! O senhor está vivo, mas à custa do que? O senhor perdeu alguns dos sentidos e o mais importante deles. O tato.
- Quem precisa de tato? Enquanto formos imortais, estará tudo bem!
- Professor...

E então, passaram-se mais cento e setenta e um anos...

O cientista já estava em seus quinhentos anos. Era um sucesso total. Mas não era feliz. Ele já não precisava comer, não precisava dormir, não se machucava. Seu corpo fora toda reformado e agora ele tinha a aparência externa de um robô de titânio polido. Era muito bonito, mas já não poderia ser dito que era “humano”.
Ele ia lá fora, tentava cheirar a essência das flores do jardim, mas não sentia nada. Tentava pegá-las, mas com seu novo corpo, acabava por esmagá-las. A única parte “humana” que ainda lhe restava era o cérebro. Mas havia atingido seu objetivo. Era um imortal. Mas, um “robô imortal” não era a mesma coisa que um “humano imortal”.
O governo havia comprado a idéia para produzir soldados que fossem imortais no campo de guerra. Quantas guerras ele já havia presenciado. E não havia forma de parar. Pensativo, meditou que não adiantaria a humanidade ser imortal se ficassem sempre guerreando. Nunca atingiriam a paz, e esse “nunca” duraria milhares de anos com esse corpos robóticos e não chegariam à um consenso. Ou então, após todas as guerras futuras cessarem, sentir-se-iam entediados como ele estava agora, sem poder cheirar, pegar, sentir as coisas. Não adiantaria. Estariam livres, mas preso dentro de seus próprios corpos robóticos. A idéia que lhe surgira era terrível.
Sua esposa, que morrera há quatrocentos anos, estava certa. Sentia a falta dela e nem mesmo sabia o que era sentir falta, visto que seu coração agora era mecânico.
- Não adianta mudar por fora, se por dentro não mudarmos. Enquanto a humanidade for imperfeita, não teremos prazer em viver. Fomos tolos ao pensar que poderíamos ser imortais por conta própria e deixar Deus de lado. Quisemos brincar de Deus e aconteceu isso. Transformamos-nos em algo diferente de nossa constituição. Como poderia um ser imperfeito construir um ser perfeito?
E, após meditar muito, o cientista resolveu acabar com todo esse projeto. Naquele mesmo dia, um dia após o “homem” mais velho do mundo comemorar seu aniversário de quinhentos anos, uma noticia percorreu os visores-espaciais com a seguinte história:

“Num evento inexplicável, a sede de pesquisas tecnológicas do governo e uma casa das montanhas no Canadá explodiram ao mesmo tempo, sem deixar vestígios de quem teria feito isso, ou como teria acontecido. A notícia mais triste é que o homem mais velho do mundo estava dentro do laboratório concluindo suas pesquisas e acabou sendo atingido pela explosão. A cyber-polícia procura criminosos e interroga vizinhos para ver se consegue achar alguma explicação para o ocorrido. Inúmeras pesquisas governamentais que se encontravam no laboratório foram completamente destruídas. O governo diz que irá arquivar o caso. Ainda não conseguimos entender bem o motivo, mas há suspeitas de que um projeto secreto de codinome “Fórmula da Perfeição” se perdeu. Mais notícias no canal Techlogic às 21 horas...”

FIM



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Qui, 10 de Janeiro de 2008

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Última atualização em Sex, 11 de Janeiro de 2008 06:56
 
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