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Mercenário - Cont. - A Morte de Richie Saint Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos

Escrito por Brunno
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Seg, 21 de Janeiro de 2008 17:31
Duas da manha da mesma noite. Saint caminhava como um robô pelo quarto de hotel quando bateram novamente à sua porta. Ele estancou no lugar e de onde estava perguntou quem era.
__Por que ainda não publicou a matéria? – perguntou a voz do outro lado da porta.
Saint ficou mudo e exigiu saber quem fazia a pergunta. A voz insistiu. Saint respondeu que não sabia do que estava falando. A voz do outro lado disse que não adianta ele tentar sair, a porta estava escorada do lado de fora e o atendente só receberia instruções para abri-la depois que seu interlocutor saísse.
__A matéria foi rejeitada pelo primeiro jornal que tentei. Amanhã tentarei outro. Mas por favor, me diga... – ele quase chorava – Quem é você?
__Trate de cuidar para que a matéria seja publicada. Sabe que isso vai levantar sua carreira como fez com o caso dos assassinados há sete anos.
Saint continuava imóvel. Perguntou se ele era a fonte, mas a voz não respondeu mais nada.
Neste momento um Range Hover preto parou diante da fachada de uma porta de hotel em Stevenage. Três pessoas trajando preto desceram e entraram no local. Não viram o atendente e ouviram um gemido atrás do balcão.
Chase foi a primeira a notar, pelo reflexo de uma garrafa de bebida sobre o armário com as fichas dos hóspedes, que havia um homem amarrado e amordaçado sentado no chão. Imediatamente sacou sua arma. Os dois acompanharam.
__Lince. Avanço pelo corredor, Gascoin cubra-nos.  – a bela foi a primeira a sumir na escuridão da escada de acesso aos apartamentos. Mais atrás Gascoin ouvia somente o ruído lubrificado dos silenciadores sendo aparafusados nos canos.
Chase chegou ao corredor de acesso e viu a penumbra das portas à esquerda e à direita. Manteve sua arma a frente e Lince passou por ela posicionando-se do lado direito e apontando a arma para o lado esquerdo.
O líder ergueu dois dedos unidos em direção a ela que estancou em seu lugar. Depois apontou os dedos para o chão e deixou somente um para que ela visse. Chase virou-se para Gascoin e repetiu o sinal. Depois ela mesma fechou a mão, subiu e desceu o braço uma vez e apontou a mão como uma faca para o vão abaixo da escada de acesso. Gascoin guardou sua arma e escondeu-se na escuridão do vão.
Um homem triste, desesperado e extremamente perturbado veio apressado pelo corredor. Lince e Chase haviam visto que ele saía da frente da porta do quarto de Saint. Assim que Fury virou o curto corredor para descer a escada notou que havia deixado as luzes acesas quando subiu. Aquela escuridão fez com que ele virasse a cabeça na direção de que havia vindo.
Lince e Chase estavam na recepção escondidos e haviam deixado a cargo de Gascoin o domínio daquele homem. O novato estava contente e empolgado pelo primeiro sucesso em campo e quando viu o sinal de Chase para usar sua faca de campanha ao invés da arma de fogo, ele esperou que Fury descesse até o vão da escada para atacá-lo.
John Fury havia ido até o apartamento de Saint da mesma maneira que os mercenários horas antes: grampeando o telefone do apartamento dele e Tiff. Assim que pôs o primeiro pé nos degraus ouviu o som característico de metal contra metal.
O passo seguinte foi pesado e na direção contrária. Lince foi o primeiro a subir novamente as escadas de arma em punho pronto para atirar e correndo. Chase deixou Gascoin olhando os dois e correu para a rua. Tinha de cercar o perímetro. O novato não sabia quem acompanhar, mas confiava mais em Chase então foi atrás dela.
Ao passar novamente pela porta de Saint, Fury puxou para o corredor o conteúdo do armário de vassouras e esfregões de uso da faxineira, e apertou o passo em direção à janela. Lince atirou e a bala atingiu um dos cabos de metal ainda em curso antes de bater contra a parede. Qualquer coisa pode desviar uma bala em curso. Se não tivesse atingido o metal teria sido a nuca de Fury.
John atravessou a janela e caiu sobre o terraço de uma casa que era os fundos do hotel, cinco metros abaixo dele. Levantou-se rapidamente e continuou correndo pelos telhados baixos de Stevenage. Lince apareceu na janela e sabia que de uma distância de cinqüenta metros seu tiro seria perfeito. Não fosse a bruma noturna obstruindo sua linha de mira, num alvo móvel e à noite. O líder levou a mão direita até a orelha.
__Ele está indo para o leste. Repito: está indo em direção a Avenida Brandon.
Chase não respondia. Ela corria como um raio pelas ruas para cercar o quarteirão. Gascoin vinha atrás dela em pleno fôlego. Sem dizer nada ela apontou para uma fachada de bar, fechado àquela hora, onde a placa era mais baixa. Gascoin entendeu. Parte de seu treinamento físico era para que fosse capaz de suportar o peso do corpo sobre um único braço durante o maior tempo possível.
Ao sinal dela o novato atirou-se para cima, apoiou um pé na parede e puxou o corpo para cima usando uma das mãos sobre a placa do bar. Usou o braço esquerdo que portava a arma para terminar a escala e em segundos estava sobre os telhados perseguindo Fury.
__Manda ele pra mim! – ordenou Chase.
Gascoin viu o fugitivo tropeçando nos varais de roupa, nas chaminés das casas, nos fios de apoio das antenas de TV e manteve uma marcha rápida. Sabia que Chase tinha de correr duzentos metros de sudeste para leste e isso daria a Fury uma chance de chegar à Bishop Storford Traffalgar onde uma multidão devia estar nas calçadas dos pubs àquela hora. Se chegasse ali sumiria em segundos.
Gascoin deu um tiro de sua arma também silenciada que ricocheteou do lado esquerdo de Fury. Pelo instinto ele mudou de direção rapidamente. Só não contava com um canil em um dos terraços apertados e cinzentos de Stevenage. O cachorro latiu, mas não tinha como morder Fury. O fugitivo voltou no momento em que Gascoin dava seu segundo tiro. Este atingiu John Fury no tronco levantando uma discreta nuvem de pó vermelho na neblina de Londres.
Mais dois metros para a esquerda e ele teria caído em frente à Chase que neste momento chegava ofegante.
__Cadê dele, Gasco?
__Hostil caído. Repito: hostil caído.
Ainda com a arma em punho Gascoin aproximou-se e notou que o homem estava vivo, mas agonizante.
__Você é a fonte?
Fury não respondeu. Não tinha uma arma sequer com que lutar. Era somente esperar a morte ou a única alternativa nessas horas, fazer uma aliança.
__Ouça com atenção... – começou Fury já dispnéico, o tiro havia perfurado o pulmão direito -... Hassan não é o chefe. Há um homem mais forte e mais perigoso por trás de vocês – um filete de sangue da pleura emergia pela comissura da boca provocando tosse – Se não me matar de darei o nome...
Gascoin pensou e lembrou-se de uma coisa que sua treinadora havia dito: informação é sempre importante, e mais importante ainda é saber o que fazer com ela. Ouviu novamente Chase no rádio dizendo alguma coisa. Ela não tinha como subir sem ajuda porque a parede era lisa e alta.
Gascoin guardou a arma, estendeu a mão e começou a levantar o corpo de Fury. Era uma aliança. Gascoin exigiu que ele desse o nome, Fury murmurou alguma coisa com a respiração cada vez mais entrecortada. Quando tinha o fugitivo sentado Gascoin ouviu um silvo passar por sua orelha direita e o dorso da mão do mesmo lado esquentou de repente.
Da testa de Fury outro jato de sangue precipitou-se e manchou o rosto de Gascoin. O vácuo do projétil fez a cabeça ir primeiro para frente, depois para trás e jogar-se morta para o lado. Logo que virou distinguiu Lince há mais de cento e cinqüenta metros deles. A linha de mira da pistola, o braço e o olho eram uma coisa única.
__Alguém pode me dizer o que está acontecendo! Que merda!
__Hostil abatido. Gascoin tem confirmação positiva da condição do alvo? – perguntou Lince.
__Confirmação positiva, Senhor Lince. Hostil abatido. – soltou a mão morta de Fury sem que Lince notasse.
__Reunião no marco zero em duas horas – ordenou Lince.
Com essa ordem. Chase tirou o rádio sem fio do ouvido, guardou a arma, fechou o sobretudo preto que usava, enfiou as mãos nos bolsos e pôs-se a caminhar para o leste. Era norma: marco zero significava que Lince sempre iria para o sul, Chase para o leste e Gascoin para o oeste, de onde quer que estejam. Tinham duas horas para fazer itinerários confusos e reunir-se no apartamento.
Ela foi a primeira a chegar. Gascoin depois e por último o líder de campo. O clima entre Lince e Gascoin estava um pouco pesado, afinal, o primeiro quase acerta o segundo. Fizeram um café, Lince fez um apanhado geral da missão e enviou uma mensagem a Hassan. O dia começava a raiar e novamente Gascoin fumava sentado no parapeito da janela.
__Hassan disse que a ação foi positiva. Mas ainda temos dois jornalistas com as mesmas informações.
__Esses serão mais fáceis de rastrear. Saint está aguardando Gascoin para qualquer tipo de informação. Ou vai pegar a namorada e tentar desaparecer. É bem provável que não tente publicar novamente a história. – dizia Chase.
__Não seja idiota, Chase. – Lince estava irritado – Esse é um privilégio com o qual não podemos contar. Hassan pode ter engolido a história da morte da fonte original. Só que na verdade essa ação está uma merda! E vocês dois, suas bestas, não estão ajudando em nada!
__Hei, calma ai Lince! Deu tudo certo! – disse Gascoin.
__Certo? Como certo Gascoin? Você só não é mais incompetente porque ainda não passou tempo suficiente com ela. Esta achando que isso é um filme? Tinha de desembainhar a faca como o Rambo? Se o cara não tivesse ouvido o novato representar o soldado americano de filme, teríamos abatido o cretino depois de confirmar se era realmente a fonte!
__Ele estava no local, não tinha como ser outra pessoa, Lince... – Chase dizia calmamente.
__Está praticando adivinhações, capitão? – Lince gritou. Nem Gascoin sabia dessa patente. Nem sabia que eles tinham patentes. – Ou está usando seu instinto feminino para imaginar que acertamos e agora podemos comemorar?
Ela era treinada para seguir ordens, e na verdade, estava acostumada a escutar gritaria de superiores, mas Gascoin jamais havia visto uma repreenda daquela maneira com ela. Achava que Chase iria partir para cima de Lince a qualquer momento. Ao invés disso a máquina loura baixou a cabeça.
__ Devia te ficado com o iraquiano que concorreu com você, sua incompetente! Onde estava no momento em que o novato chegou ao alvo? Devia estar pensando em vestido de casamento e lua-de-mel com esse idiota... – virou-se para Gascoin -... E você seu idiota! Pretendia fazer o quê com o alvo? Se não fosse eu atirar naquele cara, provavelmente iria abrir um rombo em você.
Gascoin fechou a cara e também baixou a cabeça, mas por dentro estava explodindo de raiva. Ainda não podia realmente acreditar que ele havia atirado com tanto perigo.
__ Devia ter usado a mesma bala pra derrubar você. Assim corrigiria dois erros, o seu e o dela por tê-lo contratado. Você não vai entrar em contato com Saint. Onde marcou para vê-lo?
__ Disse que entraria em contato com ele às dez horas dessa manhã no Hyde Park. – Gascoin ainda tinha a cabeça baixa.
__Você e essa besta loura ficam aqui. Eu mesmo vou dizimar Saint. Depois temos de identificar o segundo jornalista para quem o alvo deu a história. Pensem nisso.
Lince entrou em seu quarto e fechou a porta. Chase olhou para o telefone sobre a mesa e pensou em tirá-lo cuidadosamente do gancho, mas desistiu. Tinha um semblante triste quando voltou da cozinha com uma cerveja. Sentou no sofá velho e levou a mão esquerda aos olhos.
Gascoin sentou ao lado dela e passou o braço por seu ombro. Ela olhou para o outro lado e não estava chorando como ele havia imaginado. Estava puta da vida por ter errado. Naquele momento achava que não devia ter confiado em Gascoin. Afastou-o com o braço direito e levantou.
__Ta achando o quê Gascoin? Que eu estou magoada? Que sou uma mocinha precisando de colo pra chorar? Que você vai me conquistar dizendo que eu pareço uma mulher super forte, quando na verdade, sou uma menina que gosta de ser amparada? Isso não é fachada, malandro! Infelizmente ele tem razão. – e apontou para o quarto. Passou os dedos pela franja atirada para trás e ajeitou o cabelo atrás da orelha. Mordeu os lábios e continuou tomando sua cerveja.
Gascoin levantou do sofá e mandou um chute na mesa de centro que quase a desfez.
__Vão se foder, vocês dois. Acham que são os grandes senhores da perfeição quando não passam de funcionários mal informados e contentes com um pagamento que não podem aproveitar! São dois idiotas na verdade... – balançou a cabeça em reprovação e foi abrindo a porta.
__Aonde você vai agora, porra? – perguntou Chase.
__Vai cuidar da sua vida inútil, fracassada. – e bateu a porta. Os ânimos realmente estavam exaltados. Depois que Gascoin saiu, somente depois que ele saiu, ai sim ela derramou uma discreta lágrima que não sabia se era raiva ou mágoa.
Naquela manhã Tiffany havia subido um pouco antes da hora do almoço para seu apartamento, queria descansar antes de reiniciar a jornada da tarde. Estava deitada em sua pequena, mas confortável cama, quando a campainha tocou.
Ela fechou a blusa e vestiu novamente o casaco que havia tirado. À porta havia um senhor de uns cinqüenta anos, bem apessoado, vestindo terno claro e gravata. Ele sorriu e cumprimentou a jovem com respeito.
Disse que tinha tido contato com o marido dela há alguns dias, que trabalhava para um jornal e demonstrava interesse por uma das histórias que ele tentara publicar dias atrás. Haviam rejeitado anteriormente, mas novos fatos incutiam interesse sobre o assunto.
__Eu gostaria de ajudá-lo, Sr. Endean, mas infelizmente não tive contato com Richard desde ontem. Pode imaginar o quanto estou preocupada com ele se metendo nesses assuntos policiais. Ainda mais depois do que nos aconteceu... – ela baixou os olhos.
O simpático senhor quis saber o que havia acontecido e se era grave porque ainda não tinham ido até a polícia?
__Somos pobres, Sr. Endean. A polícia tem assuntos mais urgentes a tratar. Além disso, neste bairro as coisas andam cada vez mais perigosas. Nem mesmo a Yard quer entrar aqui para uma investigação.
Martin Endean agradeceu à senhorita e como prova de seu interesse deixou com ela um envelope contendo algumas centenas de libras, para as despesas mais urgentes da matéria. Tiffany apertou o envelope contra o peito quase chorando. Imediatamente foi até o apartamento do senhorio para pagar o aluguel. Pensou que Richard ficaria feliz quando voltasse e descobrisse que teria trabalho.
Saint ainda olhava fixamente a fechadura de sua porta. Ouvira naquela noite os barulhos que pareciam de luta e hesitava desde então em sair do apartamento. Mas o homem mascarado disse que fosse ao parque levando novas informações. Aquela briga era a única coisa que tinha e era o que ia contar.
O mascarado havia marcado o encontro para as dez horas da manhã, próximo a face oeste do Marble Arch, no canto nordeste do Hyde Park. Disse a Saint que esperasse pelo primeiro sinal e depois seguisse pela passagem 3-M até a ponte sobre o pequeno lago de carpas.
Ele tinha essa localização da cabeça, conhecia muito bem o parque. Tomou coragem e vestiu-se o mais adequadamente que imaginou. Olhou-se no espelho e prometeu que logo estando tudo terminado ele tiraria Tiff daquela cidade e abririam um bar qualquer no norte para receber turistas e pescadores de fim de semana. Sorriu quando se lembrou da namorada.
Suspirou mais uma vez naquela manhã e abriu a porta. Olhou para o lado esquerdo de sua porta e viu o dono do hotel, já desamarrado, conversando com um homem que parecia estar ali para consertar aquela janela quebrada. O senhor que cuidava dos apartamentos ainda estava abalado e definitivamente não entendia porque alguém iria querer roubar aquele hotel, era tão simples.
Saint fechou a cara, bateu sua porta e foi andando. Na janela os dois homens discutiam preços, prazos e condições de pagamento. O marceneiro disse que aquelas tábuas não podiam ser aproveitadas, e apontou para a madeira jogada no chão atrás dele, dando as costas ao dono do hotel. Este por sua vez virou-se também para pegar as madeiras que havia retirado do banheiro dos empregados havia algum tempo.
Nenhum dos dois homens notou o silvo que atravessou a passagem da janela e foi parar na parede de madeira no final do corredor, pouco antes da escada de acesso para a recepção abaixo. No caminho atingira a cabeça de Richard Saint.
Lince manteve por algum tempo o grande, porém, leve rifle de precisão em posição. Ao menos até ver pelo visor telescópico que os dois homens olharam o corpo caído e recuaram de medo. Tinha, então, uma confirmação positiva de que o alvo fora eliminado. Atirou de mais de mil e quinhentos metros de distância de um prédio na Rua Braugting. Em seguida deixou o fuzil dentro de uma velha caixa de força, tirou as luvas de couro e desceu da mesma maneira que subiu, pela escada externa de incêndio.
Retornou ao apartamento e encontrou Chase sozinha esperando a volta de Gascoin. O novato ficou fora por quase duas horas e quando retornou disse que havia estado num bar bebendo, ele cheirava a cerveja e cigarro.
O relatório foi novamente passado a Hassan que manteve-se mais calmo dessa vez, mas disse que ainda tinham de eliminar o outro jornalista a quem Fury dera a história. Outra ligação havia sido feita de um escritório no London Daily para uma casa de Alexandria. Novamente McNamara dava um nome.



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Última atualização em Ter, 22 de Janeiro de 2008 06:18
 
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