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Crônicas - Crônicas

Escrito por Silvana
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Qua, 23 de Janeiro de 2008 10:22
Sai do laboratório com o envelope na mão. Abro ou não abro? Perguntava-me insistentemente. Talvez devesse abrir logo de uma vez e acabar com a dúvida, mas e depois? O que fazer depois de ter certeza? Não. Melhor não abrir. Precisava decidir o que fazer primeiro. O que fazer? Essa era a pergunta mais difícil de responder. As coisas deviam ser diferentes, esse podia ser um momento especial na minha vida se não fosse minha leviandade. Uma noite, apenas uma noite e agora muitas outras de preocupação e medo. Melhor se eu esquecesse tudo isso e abrisse logo o envelope, melhor ainda se o resultado fosse negativo ou seria se fosse positivo?
Resolvi sentar no banco da praça da catedral. Precisava me acalmar, criar coragem e abrir o envelope. Minhas mãos tremiam a segura o envelope, e ao pensar em abri-lo meu coração disparava. Aconcheguei o envelope em meu peito e fiquei a lembrar como cheguei naquela situação.
Dose anos de relacionamento com um homem casado e nenhum compromisso, nem promessas de futuro, nada. Apenas momentos de intensa paixão, sexo e amor, pelo menos da minha parte. Nem consigo imaginar viver sem ele, sem o fogo ardente que nos une. Porque foi que um dia achei que isso não era o suficiente, porque? Tudo bem que o outro era lindo, carinhoso, jovem e solteiro. Queria mais do que algumas horas de prazer, fazia promessas de futuro e me tratava como uma Cinderela, mas e daí. Mesmo assim foi um erro ter cedido aos seus encantos. Agora estava tudo acabado entre os dois, não haveria mais sexo e paixão, nem carinho e compreensão, havia só aquele envelope e uma grande dúvida.
Nesse momento senti um nó na garganta, como se ela ficasse completamente seca, e o nódulo formado descesse em ritmo lento trancando minha respiração. Então o pensamento mudou de foco. Sempre achei que aborto era cometido apenas por mulheres sem condições financeiras de criarem seus filhos, mas minha situação não é essa. Tenho um bom emprego, casa própria, carro, e trinta anos. E ainda assim não sei se posso ter esse filho. Nem sequer sei qual deles é o pai. Não que eu saia com muitos homens, na verdade esses dois foram os únicos. Transei um dia com um e no outro dia com o outro e agora a dúvida.
O pior é que o que eu amo não quer nem ouvir falar em filho, acha que vou deixar de ter esse corpo, que o fogo da paixão vai acabar... E o que me ama acha uma ótima idéia acredita que dessa forma eu possa amá-lo e viver uma história como a dos contos infantis. Eu na verdade queria juntar os dois num só, ai sim tudo estaria perfeito. O homem que eu amo com os encantos e qualidades do outro. Risos. Bom demais para ser possível. Risos e silêncio interior.
Não sei porque estou pensando neles se já terminei com os dois há uma semana e desde então parece que eles me esqueceram. Foi melhor assim. Não podia ficar com alguém sem amar e também não podia ficar com alguém que só sentisse desejo por mim. Vou parar de pensar neles, esquecê-los como fizeram comigo.
Estou novamente olhando para o envelope. Com uma carga horária de trabalho de 10 a 12 horas diárias seria bem difícil criar uma criança, além disso não imagino trocar fraudas e preparar mamadeiras. Não. Isso seria impossível. Definitivamente o aborto pouco tem haver com condições financeiras. Existem muitas outras razões para fazê-lo.
Não precisaria provar paternidade para ninguém, continuaria trabalhando horas e horas e depois voltaria para o silêncio da minha casa e estaria sozinha, completamente sozinha como sempre estive até hoje. Não gastaria com fraudas, mamadeiras e babás nem nunca ouviria alguém me chamar de mãe. Hum... isso não foi um pensamento legal. Eu nunca viria aquele rostinho bochechudo, e aqueles olhinhos brilhantes e azuis. Sim, azuis porque os dois possíveis pai tem olhos azuis. E o sorriso então, não importa quem é o pai o sorriso seria encantador. Mas eu não precisaria sair correndo depois do expediente só para chagar mais cedo e poder ficar mais tempo com ele.
O que está acontecendo comigo? Como posso ser capaz de fazer isso? Onde arrumarei coragem e quem procurarei para me ajudar? Encontrarei pessoas disponíveis a me ajudar? E o que faço com o medo que tenho de que algo de errado? E se nunca mais tiver a oportunidade de... Melhor nem pensar. O que as pessoas vão dizer quando descobrirem? E claro que vão descobrir, com o passar do tempo todos vão saber. Preciso ter coragem e ir em frente, já que foi essa minha decisão, melhor é enfrentar as conseqüências e riscos que oferecem.
Bom, passei tempo demais a pensar, melhor levantar e fazer alguma coisa. Pra começar vou passar em uma loja para bebês e comprar o primeiro presentinho para meu filho.
- Esse tip top é lindo, vou levá-lo. – disse para vendedora que gentilmente me mostrava várias roupinhas de bebês.
- É uma ótima escolha. Vai começar seu enxoval cedo e isso é ótimo. Está grávida de quanto tempo? – a pergunta me pegou de surpresa, havia esquecido de abrir o envelope com o resultado do teste de gravidez. 



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Qua, 23 de Janeiro de 2008

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Última atualização em Qui, 24 de Janeiro de 2008 03:25
 
Comentários (4)
  • lyscia
    avatar
    Muito bom. Adorei. Beijos
  • Raferty
    avatar
    Achei que esta bela prosa fosse de cunho unicamente pessoal, no entanto me surpreendeu pelas reais perguntas e retóricas que milhões de mulheres vêm fazendo desde os primórdios dos tempos. O fecho do conto é elegante. Obrigado pela visita e um abraço
  • Zélia Nicolodi
    avatar
    Gostei muito do seu texto, explanando as dúvidas que tomam conta da mulher, em momentos como esse...O final é nota dez! Beijos e muita luz no seu dia...
  • acsantiago
    avatar
    O que um envelope fechado não faz com a cabeça da gente, não é mesmo,Silvana?
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