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Mercenário - Cont. - A faca entre os dentes Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos

Escrito por Brunno
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Seg, 28 de Janeiro de 2008 15:08

No corredor, Gascoin ouviu passos subindo a escada e escondeu-se nos degraus meio andar acima. Era um dos homens que estava no pub assim que chegaram à Londres. O homem olhou o corredor e Gascoin tendo-o identificado, manteve a mão na arma, e apareceu nas escadas acima.

__O que está fazendo aqui? - quis saber Henri.

__O senhor Hassan nos mandou para ter certeza que a missão ia dar certo. - o homem tinha pouco mais de quarenta anos. Gascoin identificou a arma à frente do corpo, na cintura e sob a camisa de mangas e manteve a sua destravada.

__Lince está no ponto alfa?

O homem olhou o chão e depois rapidamente a porta do apartamento.

__Onde está a mulher? - quis saber o outro membro.

__No apartamento há menos de três minutos. Você viu Lince no ponto alfa? Sabe se ele está nos dando cobertura?

__Sim eu o vi. Agora me diga, onde exatamente está a garota?

Gascoin não gostava daquela atitude. Fez um movimento rápido que o homem não notou e reafirmou que Chase estava dentro do apartamento, mas fora instruído por ela para não entrar.

__ Lince, você confirma mais um membro da equipe?

A resposta do líder de campo foi afirmativa. Gascoin ainda disse que Chase estava em silêncio e demorando demais. Talvez fosse necessário que ele interviesse do ponto alfa. Gascoin deixou o homem parado perto da porta do apartamento e foi até a janela no final do corredor que dava visão para a rua.

Viu o Hover parado onde deveria, mas Lince estava do lado de fora e falando em outro aparelho de rádio...

Num movimento quase único, de segundos, Gascoin abaixou sobre os calcanhares girando o corpo e levantando a arma. Uma das balas passou zunindo seu ombro esquerdo e outra parou na proteção de aço do colete.

No apartamento Chase terminava de apagar as últimas provas como um fio de cabelo louro desprendido sobre o sofá e acomodava os corpos dentro da banheira. Foi até o quarto ainda em silêncio de rádio e viu o computador da moça. Eram pistas demais. Gente demais. Nunca uma missão saía tanto do controle como aquela. Ela sabia que as chances de dar certo eram mínimas. Sabia que de uma maneira ou de outra alguma coisa sairia errado.

Voltou para a sala sem tocar no processador. "Chase deixando o recinto" disse para que seus pares soubessem que ela havia terminado o trabalho. Assim que saiu para o corredor viu manchas de sangue que iam para baixo e desciam pela escada à direita dela.

Andou dois metros e ouviu um barulho de ferrolho de arma às suas costas. Virou-se e viu Gascoin de arma em punho olhando para ela.

__Acabou a jogada. Ela não é a única queima de arquivos da noite, Chase...

__Que merda é essa, Gasco? Baixa essa arma. Lince está na escuta?

__Lince deve estar vindo pra cá nesse momento - disse Gascoin mais frio do que de costume.

Gascoin estava posicionado diante da porta de acesso à escada de incêndio e viu quando o líder de campo do Grupo subiu as escadas correndo, chegando onde eles estavam.

__Baixa essa arma, Gascoin. Temos de sair daqui imediatamente. Ponto zero em duas horas!

Lince continuava calado e olhado Gascoin que mantinha arma em punho.

__Senhor Lince, pode, por favor, deixar suas armas no chão? - disse Gascoin. Chase olhou para ele e não queria acreditar no que ele estava fazendo.

__Gascoin é um traidor, Chase. Ele teve acesso a informações importantes da fonte que iniciou isso tudo. Nossas escutas captaram uma ligação dele com uma pessoa não identificada e a confirmação veio através do próprio Hassan.

Chase olhava pra ele sem querer acreditar naquilo. O clima era um pouco complicado porque estavam num corredor de um metro e meio de largura e quase cinqüenta metros de extensão, os três portando armas e uma ordem para matar Gascoin havia vindo do contratante.

__ No ponto zero, quando discutimos, disse que Lince e eu éramos funcionários mal informados que não podíamos gastar a grana que ganhamos... Você tem mesmo essa informação?

Gascoin assentiu olhando firmemente nos olhos dela. Chase então sacou a arma e apontou para Lince. Quando o agente tentou matar Gascoin, este virou-se e o abateu com um tiro silenciado. Revistou o homem e achou o rádio sobressalente com o qual estava se comunicando com Lince, no carro, recebendo ordens de Hassan.

Depois de derrubar o homem, Gascoin ficou ouvindo a transmissão de Hassan diretamente para Lince. Ele havia tirado seu rádio no movimento que o agente não percebeu. Hassan disse claramente para Lince que havia duas ordens a serem cumpridas: eliminar Gascoin a Chase. Ele por ter obtido as informações que não deveria e ela por estar claramente atraída por ele, só que a sugestão de matar Chase viera de Lince.

A loura olhou o líder de campo fixamente e manteve a arma apontada para o centro do rosto de Lince. Sabia que num movimento errado ele poderia sacar a arma e acabar com os dois em menos de um segundo, era atirador de elite.

__Hassan me quer morta porque me apaixonei por ele?

__Sinto muito Chase. Sabe como as coisas funcionam nesse mundo. Sem afeições. Se pretende atirar sugiro que faça isso logo, não esqueça que ainda estamos na cena do crime.

__Vocês não vão até o polícia. Pretendiam nos executar aqui mesmo. - disse Gascoin.

__Confesso que ainda pretendo fazê-lo, senhor Gascoin.

Gascoin havia passado as informações para Chase antes de Lince subir. Combinaram de montar a farsa para que ela tivesse certeza do que ele havia contado. Foi o modo como Gascoin olhou que a fez crer no que dizia. Parecia que a empatia dos campos de batalha havia mudado de lado.

Lince estava calmo e sem arma em punho. Mesmo sabendo que poderia abater os dois em menos de um segundo, teria de sacar sua arma antes disso e Gascoin não permitiria. Instinto de sobrevivência. O líder de campo estava concentrado demais para perceber que havia pisado numa massa de cor creme delicadamente colocada no limite do degrau da escada.

Antes de deixar o apartamento Gascoin havia posto do bolso da calça aquela massa fina, conhecida como CLC, ou Carga Linear de Corte, um explosivo plástico de baixa volatilidade usado para abrir os primeiros orifícios em demolições e implosão em grandes pedreiras.

A CLC é basicamente feita de fósforo, nitrato de potássio, glicerina e petróleo refinado grosseiramente. Sua detonação ocorre por uma carga elétrica interna e isso ele tinha no dispositivo oculto em sua mão esquerda e no receptor com um fio desencapado dentro da massa numa das extremidades do degrau.

Chase sabia da detonação e ficou mais perto de Gascoin. Uma carga como aquela poderia cortar uma perna se estivesse muito perto, mas Lince dera três passos para direita ficando há mais de dois metros da escada.

Quando Gascoin detonou a carga, ele e Chase viraram-se para proteger o corpo e Lince foi jogado contra a parede. Ela correu puxando o novato pelo braço em direção à janela na extremidade do corredor. Não iam ficar para ver o que tinha acontecido com Lince.

Ela pulou antes e arrebentou o vidro e as varetas de madeira caindo de seis metros sobre o telhado de um café, Gascoin caiu por cima dela. Na queda ele sentiu a perna avariada na queda de pára-quedas e a madeira abriu um rasgo de dez centímetros na lateral do dorso de Chase, onde o colete à prova de bala falha.

Levantaram rapidamente e correram até a ponta do telhado. Gascoin hesitou em pular porque já estava machucado, mas Chase o empurrou e pulou para a rua. O novato gritou pela segunda queda e continuou sendo puxado como uma criança num supermercado.

__Anda logo! Levanta! A gente tem que sair daqui! - gritava Chase. Algumas pessoas que passavam pela rua pensaram em ajudar o rapaz gritando de dor, mas a moça que estava com ele sacou uma arma e atirou duas vezes para cima.

Enquanto todos corriam, os dois foram para a rua e pararam o primeiro carro que parou. Chase abriu a porta do lado direito e arrancou a motorista pela gola da blusa. Gascoin entrou do outro lado de arma em punho e olhando para cima. O carro que haviam roubado era um Volkswagen Golf ano 99, rápido e pequeno.

Seria o aniversário de setenta e três anos da Rainha Elizabeth. Em menos de seis dias a cidade teriam uma grande festa e a última coisa que a Scotland Yard queria era um bando de gente armada em solo britânico correndo de carro pelas ruas.

A polícia não foi chamada, ela simplesmente ouviu o estrondo dentro de um prédio de apartamento em Epsom Street e correu para ver o que era. Em pouco tempo dois Ford Focus da polícia metropolitana estavam na mesma rua que o Golf, cem metro adiante deles.

Chase era mais acostumada a carros com câmbio automático, mas aquele teria de servir. Já sabia que Gascoin era o melhor motorista ali, mas com aquela perna ele não dirigiria nem um cortador de grama.

Os dois policiais dentro dos carros, acompanhado de um parceiro cada, viram o arranque do Golf e foram logo atrás. Dentro do carro dos mercenários, digamos, estranhamente, o rádio tocava I want it all de Queen.

Chase gritou para que ele fizesse alguma coisa. Gascoin meteu meio corpo para fora do carro virando-se para trás e começou a atirar. Os Focus estavam agora há menos de trinta metros e os parceiros revidaram os tiros. O carro de trás chamou reforços para um homem num Golf prata, placa Eco-Foxtrot 562 Lima, Liverpool.

__Não é pra ficar atirando pra se divertir! Vê se mata alguém e ajuda a gente a fugir, porra!

Ela controlou o carro numa curva e sabia que se pegasse a Leaterhand encontraria transito demais mesmo àquela hora, então, dirigiu-se para Banstead onde um cruzamento entroncado os deixaria na estrada 8 da rodovia estadual M26, dez quilômetros depois.

__Temos de trocar de carro! - disse Gascoin trocando o pente da arma.

__To cuidando disso! - respondeu a motorista, sorrindo até.

Os Focus da polícia têm motor de 1.6 litros e o Golf 2.0, isso dava uma vantagem interessante, mas eram policiais londrinos altamente treinados e acostumados às ruas de sua cidade. Isso fora a reputação de serem extremamente ávidos em mostrar serviço principalmente na semana de aniversário de Sua Majestade.

Chase jogou a traseira do carro na saída 8 e controlou antes que virasse totalmente, um dos carros passou reto mas outro virou, provavelmente o primeiro pensara em usar os reforços para cercar os fugitivos na saída de Headhill, seis quilômetros à frente.

Gascoin notou que havia transito leve na estrada àquela hora. Era um bom momento para definir logo que precisavam de outro carro, antes que um helicóptero fosse chamado. Tirou uma das duas granadas de mão da calça cargo, tirou o pino e contou até seis, depois soltou a granada na estrada que quicou duas vezes e abriu um clarão há menos de vinte metros da traseira do Golf e quase sob a frente do Focus.

O primeiro carro continuou acelerando e o segundo teve de parar, tanto pela falta de visão quanto pelos estilhaços que haviam destruído o pára-brisa. Chase olhou pelos retrovisores e viu as luzes do giroflex ficando menores.

Pararam dois quilômetros adiante e encostaram o carro nas matas laterais da estrada. Se chegassem à rodovia não teriam essa chance devido às proteções contra batidas. Os dois saltaram e correram mata adentro. Chase estava em melhor estado do que ele, mas sentia arder o ferimento do lado do dorso.

__Não vamos fugir de Londres a pé... - disse ela -... E ainda temos de nos preocupar com Lince e o Grupo.

__Lince deve ter sucumbido à explosão...

__Não podemos contar com isso, Gascoin. Agora somos nós dois...

No que restou do corredor do apartamento, uma nuvem de poeira das paredes tomava tudo. Os moradores foram retirados e os apartamentos checados. As casas que não respondiam aos chamados dos bombeiros eram deixadas para depois porque ou não tinham ninguém dentro, ou as pessoas não haviam sido atingidas, porque afinal, a explosão não fora assim tão forte.

Entre os feridos, atendidos nas ambulâncias, havia um homem de preto com um ferimento na perna esquerda, parte do lado esquerdo do corpo e testa. Estava  em bom estado geral, seu nível de consciência era pleno e estava comunicativo. Apenas respirava com alguma dificuldade e tinha nas mãos uma máscara de oxigênio.

Disse aos primeiros oficiais da polícia que estava para entrar em casa quando viu um homem segurando uma arma e tentou fugir, nesse momento ocorreu a explosão. Não sabia responder às perguntas da polícia quanto ao cadáver com um furo no pescoço e outro na testa jogado perto da janela que dava pra a rua.

Um dos policiais disse para ele esperar um pouco porque ainda tinham perguntas a fazer, assassinatos haviam sido cometidos na cidade nos últimos dias, bastante fora do padrão londrino. O homem sentado na parte de trás na ambulância disse que iria colaborar e deitou dizendo que não estava sentindo-se bem.

Logo que o policial foi até sua viatura conversar com seu parceiro o homem de preto retirou a máscara de oxigênio e saiu caminhando pela rua. Bear Lince começou a correr assim que virou a esquina e sabia que sua fuga atrairia grande parte da polícia, portanto, tinha de retornar logo a um ponto seguro.

Conservava as chaves do Hover no bolso da calça, a única pistola que portava deixou nas mãos do morto antes da polícia subir até ele. O carro estava perto, então, não foi difícil sair dali numa boa. Dirigiu sem ser incomodado até Gravesend e encontrou o apartamento exatamente como havia deixado no início da missão.

__Aqui fala o senhor Azul. Diga ao comandante que a primeira parte do que viemos fazer está concluída, mas tive problemas com a segunda.

Do outro lado da linha, quase no mesmo fuso horário, mas sob um calor escaldante vindo do mediterrâneo, Arkam Al Hassan ouviu e ficou satisfeito.

__Major. Esse nosso outro pequeno problema deve ser resolvido de forma discreta. Use o que for necessário, mas seja o mais silenciosos possível. É imprescindível que meus sócios não saibam desse empecilho.

__Pode haver outro problema, comandante: os senhores das letras que tiveram acesso ao relatório. Eles podem ter lido.

__Não pretendo transformar essa missão numa execução desmedida, major. Os homens que rejeitaram o relatório não têm mais do que uma leve lembrança dele e os importantes me asseguraram que não iriam deixá-lo a exposto. Além do quê, meu bom amigo me garantiu que nada sairia à grande massa, posso confiar nele. Agora me diga, quanto ao segundo problema, como minha linda princesa das neves está reagindo?

Lince engoliu seco. Hassan tinha adoração mista por Chase. Em tempos ele notava que o velho árabe se preocupava com a saúde dela, se estava feliz, se comprava roupas e jóias, e noutros momentos a abraçava mais abaixo da linha da cintura do que ela normalmente gostava. Agora tinha de dizer a Hassan que sua linda princesa loura havia se engajado na causa do traidor.

__Comandante... Sua princesa das neves está acompanhada do alvo.

Hassan empertigou-se na cadeira. Bateu o copo de uísque sobre a mesa de vidro quase destruindo-a e pediu a Lince que repetisse o que havia dito. Seu funcionário o fez.

__ Então é com grande pesar que devo pedir que a inclua em seus planos, major. Infelizmente ela não tem mais aquele brilho que a fez ser minha favorita em tempos passados. Mas, por favor, major, não a maltrate... Apenas faça seu excelente trabalho, e nada mais. Se ela quiser se redimir e voltar o seio de nosso convívio, traga-a até mim...

Lince desligou. Agora tinha de caçar seus companheiros e faria isso iniciando uma convocação dos membros do Grupo espalhados pelo Reino Unido. Gascoin a Chase não conseguiriam ficar escondidos por muito tempo. Não com os poderes de que dispunha o Grupo.



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Última atualização em Ter, 29 de Janeiro de 2008 03:52
 
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