
| Girassol Encantado |
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| Literatura Infantil - Contos |
Escrito por Aline Pottier |
Sex, 01 de Fevereiro de 2008 12:42 |
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Quer saber como se sente...
Esse livro conta à história de Daniel, um menino travesso que se perde na floresta e encontra um Girassol que pode falar. Para poder ajudá-lo a ser tornar uma pessoa melhor, o Girassol muda o curso natural das coisas e mostra a Daniel que todo ser vivo deve ser tratado com amor e respeito. Acompanhe Daniel em sua estranha e emocionante jornada pela floresta encantada. Um lugar onde bichos e plantas conversam como seres humanos.
O menino Daniel Vejam! Lá vai ele, correndo e gritando. À medida que Daniel se aproxima, podemos ouvi-lo com mais clareza. Podemos também identificar suas perseguidoras: Um furioso enxame de abelhas! De repente ele cai e implora para que elas que não o machuquem. Porque Daniel estaria discutindo com abelhas? Para completar esse estranho cenário, um girassol aparece e entra na conversa. Que confusão! Menino discutindo com abelhas e abelhas discutindo com um girassol, parece loucura, não é? Vamos ver como tudo isso começou? * * * Vamos conhecer um pouco sobre Daniel Daniel sempre morou em apartamentos. Mas recentemente seus pais resolveram se mudar para o campo e compraram um belíssimo sítio. Os filhos precisam acompanhar seus pais para aonde quer que eles decidam ir, mas Daniel não gostou muito da mudança, porque foi obrigado a deixar seus amigos e sair da antiga escola. Um menino criado na cidade grande custa a se adaptar com tanto espaço verde para brincar. Mas com o passar dos meses ele viu que não era ruim! Tirando a falta dos amigos, até que morar numa chácara tinha o seu lado bom. Todo dia depois do almoço, Daniel se debruçava no parapeito da janela e ficava admirando as montanhas que ficava em frente ao sol nascente. Ele passava horas imaginando se existia algum mistério por trás da mata, além daquele imenso emaranhado de árvores. Seus pais o haviam proibido de se aventurar por aqueles lados e por enquanto o menino obedecia. Daniel sabia que eles trabalhavam fora e por isso queriam vê-lo em casa, protegido e longe de encrencas. Mas não passava um só dia, sem que o menino desejasse ver com os próprios olhos a magia daquele lugar tão bonito. O que poderia existir dentro da floresta que chamava tanto a sua atenção? A esta altura vocês devem estar pensando: "Que criança boa e obediente!". Obediente, talvez, mas estaria mentindo se dissesse que Daniel era um bom menino. Seu gato de "estimação", a principal vitima de suas brincadeiras cruéis, pode atestar o que digo. Ele vivia batendo no bichano sem motivo algum, pois adorava vê-lo fugindo apavorado. Daniel ganhou o gato de presente de sua madrinha no dia em que completou dez anos. Ela comprou o bichano para lhe fazer companhia, porque sendo filho único e agora morando longe dos amigos, o menino não tinha com quem brincar. Mas vocês pensam que Daniel valorizou a companhia do seu novo amigo? Nada disso, ele nunca se importou com os sentimentos do Bichano. Vivia pisando no rabo do pobrezinho, entre outras coisas ruins. O seu repertório de maldades também incluía usar o bodoque nos passarinhos, amassar besouros e formigas só para vê-los agonizando no chão. Daniel também gostava muito de matar lagartixas e destruir todos os casulos de borboletas que visse pela frente. Ele arrancava e queimava qualquer planta que encontrasse pelo caminho, agindo como um verdadeiro predador. Sua diversão predileta era incendiar as matas perto de casa, sem pensar no mal que fazia a si mesmo e aos outros ajudando a destruir a natureza. "Puxa vida, agora vocês devem estar se perguntando: __ O personagem da nossa história, então é um vilão?" Posso dizer que não se trata disso. Daniel só se comportava dessa maneira porque nunca haviam lhe dito que era errado. * * * A fuga do gato Chovia muito naquele dia e isso fazia do gato a única vítima de Daniel. Ele judiou tanto do pobrezinho que este resolveu fugir de casa e nem mesmo a tempestade que caía o impediu. ___ "Deixo a segurança do meu lar, por uma vida digna e sem maus tratos!" (Em linguagem de gato, o bichano tomou sua decisão.) E foi para valer, pois já havia se passado um mês e nem sinal dele. Daniel fingiu não se importar com o sumiço do gatinho, mas no fundo sentia falta dele. Foi a partir daí que ele começou a sentir um desejo incontrolável de visitar a floresta para procurar seu gato. Às vezes no meio da noite ele escutava um sopro de voz chamando o seu nome! Nessas horas seu coração batia acelerado. Uma noite Daniel ouviu seu gato miando do lado de fora e saltou da cama para procurá-lo. O menino buscou o bichano por todo lado, mas nada de encontrá-lo. ___ Chanim... Chanim... ___ Chamava inutilmente. Meia hora depois, cansado de tanto procurar, ele voltou para o quarto e começou a chorar. Daniel adormeceu com a nítida impressão de ainda ouvia o gato chamando por ele. Na manhã seguinte, quando sua mãe foi acordá-lo, ele lhe contou o que havia acontecido. ___ Deve ter sido imaginação sua, Daniel. Espera mais alguns dias, se o gato não aparecer, eu te compro igual. ___ Eu não quero outro gato mamãe! Quero o meeeeeu gato!___ Reclamou aborrecido__ Porque aquele bicho burro resolveu fugir de casa? ___ Esquece esse gato, filho!__Pediu sentindo pena dele. Daniel fitou-a esperançoso: ___ Posso procurar o meu gato hoje, mamãe? ___ Esperou pela resposta, pensativo: ___ "Meu gato", "Aquele gato"... Só agora se dava conta de que o bichano ainda não tinha nome. Despertou desses pensamentos com a voz da mãe ecoando em sua mente. ___ De jeito nenhum! Eu não quero que saia de casa, sozinho. ___ Ela completou enquanto se dirigia para a saída. ___ Você sabe o que eu e o seu pai pensamos sobre isso. ___ Então, porque a gente não procura o gato esse fim de semana, heim mamãe? Podíamos até fazer um piquenique na floresta. ___ Vou perguntar pro seu pai se vai dar. ___ Pergunta agora. ___ Interrompeu o que ela dizia, quando viu o pai entrando no quarto com as chaves do carro na mão. ___ Vamos! Já estamos atrasados, querida. Eu ouvi o que disse Daniel, mas não vai dar. Sua mãe e eu temos muito trabalho para fazer neste fim de semana. Prefiro te comprar outro gato. ___ Eu não quero outro gato, pai! Quero o meeeeeu gato! ___ Choramingou infeliz. ___ A gente conversa sobre isso mais tarde, filho, agora precisamos ir. ___ Posso faltar à escola hoje, mamãe? Eu te disse que não dormi direito e...___ Seus pais se entreolharam compreensivos. ___ Está bem filho, mas não saia de casa e procure estudar um pouco. A gente se vê hoje à noite!___ Deram-lhe mil beijos e depois saíram. ___ "Nossa! Foi muito fácil!" ___ Quase não acreditava que havia conseguido faltar à escola sem precisar chorar, nem fingir que estava morrendo! Que maravilha! Agora era só aproveitar bem o dia e quem sabe se tivesse coragem, iria procurar o gato sem nome. Deitou-se no sofá e ficou planejando o que iria fazer.
O Girassol Um chamado difícil de ignorar Daniel passou a manhã toda andando de um lado para o outro. Ele parecia ter bicho carpinteiro no pé. Não queria desobedecer aos pais, mas sabia que o gato estava perdido na floresta e talvez não tivesse outra chance de procurá-lo. Sentiu um frio na barriga quando finalmente decidiu o que iria fazer. Esvaziou a mochila jogando caderno para todo o lado. Colocou dentro da pasta, uma lata cheia de biscoitos e uma garrafa de água e... Pronto! Estava preparado para a sua grande aventura! * * * À procura do gato Daniel estava exausto. Já estava caminhando há quase uma hora e ainda não havia se aproximado da floresta. Intrigado o menino ficou matutando: ___ "Mas lá de casa as montanhas parecem tão perto". Mais meia hora de caminhada e finalmente ele encontrou uma trilha que parecia ser à entrada da mata. O menino hesitou por um instante, mas nem pensou em recuar. Respirou fundo, tomou coragem e colocou o pé na estrada. Daniel caminhava com cuidado, mas no fundo se sentia como um bandeirante, desbravando o desconhecido. A floresta era muito fresca no seu interior e imediatamente o menino se sentiu rodeado por uma brisa suave e calmante. Ele se deparou com uma infinita variedade de sons, insetos e flores. Milhares de formigas andavam em carreirinha carregando suas folhas nas costas. Muitas carregavam um peso 20 vezes o seu tamanho. Completamente encantado com tudo que via, ele admirou as árvores e pássaros que só conhecia através de livros. O lugar era tão bonito que Daniel ficou sem fala. À medida que penetrava na mata, os ruídos aumentavam de intensidade. De onde vinham esses sons? Seriam de pássaros ou de insetos? Um menino da cidade não saberia identificar. ___ Será que vou encontrar um leão por aqui?___ Pensou em voz alta. ___ "Lógico que não, seu burro! No Brasil só existe leão no zoológico"!___ Ele riu. Daniel se distraía com a beleza das árvores enquanto admirava a natureza ao seu redor. Ele já tinha visto árvores grandes como aquelas nos parques da cidade, só que estas possuíam luz própria, suas cores eram mais vivas, seus galhos mais frondosos e seus troncos mais robustos. O menino suspirou extasiado enquanto se sentava ao pé de um gigantesco flamboyant*. A caminhada abrira sua sede e apetite também. Depois de comer e beber até se fartar, ele se espreguiçou para descansar. De repente uma cena curiosa chamou a sua atenção. Uma cortina de sol apontava em direção a uma clareira no centro do bosque. A luz parecia um holofote iluminando um artista. Ele saiu de onde estava para seguir o facho de luz e encontrou um enorme girassol. A flor se destacava entre todas as plantas do lugar. Só existia aquele girassol plantado no local e ele parecia tão triste e solitário, que Daniel não resistiu a vontade de tocá-lo. O menino acariciou a flor com a ponta dos dedos e ela se moveu na sua direção. Ele ficou tão assustado com o acontecimento que se escondeu atrás de uma árvore. Daniel permaneceu encolhido no canto pensando no que iria fazer. Finalmente tomou coragem e saiu do esconderijo. Afinal de contas já era um "homem" e não ficava bem se esconder daquela maneira, sentir medo era coisa de mulher. Resolveu dar outra olhada no girassol, percebendo que a planta continuava na mesma posição. "___ Que ridículo, seu idiota! Sentir medo de uma planta?"__Pensou envergonhado__ Ainda bem que não havia ninguém por perto para testemunhar tamanha covardia! Seus amigos de molecagem fariam uma tremenda gozação se vissem aquilo! Cem anos depois ainda estariam pegando no seu pé! Imagine só, ficar com medo de um girassol só porque ele se moveu? Todo mundo sabe que os girassóis se movimentam conforme a posição do sol. Ele já tinha aprendido isso na escola! Daniel parou em frente à flor e tocou suas pétalas novamente. ___ Nossa como você é bonito! Ele não imaginou que obteria uma resposta: ___ Obrigado Daniel! Você é muito gentil! Desta vez Daniel quase desmaiou. Caiu sentado em frente ao girassol tentando explicar para si mesmo o que estava acontecendo. ___ Quem disse isso?___ Perguntou mantendo o olhar fixo na planta. Então o girassol se moveu novamente, girando sua cabeça de pétalas amarelinhas até ele e respondeu amistoso: ___ Fui eu. Não precisa ficar medo, eu não mordo, sabia? ___ É claro que não morde você é apenas uma planta falante.___ Respondeu sem pensar. ___ Pois está muito enganado. Eu não sou "apenas" uma planta falante, sou "A planta falante". ___ Afirmou orgulhoso. ___ Isso é algum tipo de truque? ___ Olhou por trás da planta tentando ver se tinha algum microfone preso nela, ou outra coisa parecida que pudesse simular o som de vozes. ___ Você nunca ouviu uma planta falar?___ O Girassol perguntou pacientemente. ___ Não. As plantas lá de casa são mudas. ___ Revirou os olhos, nervoso. ___ Então quando me ouviu falar deve ter sido um choque para você. ___ Pingareou examinando o curioso menino. ___ Sabia que existem outros girassóis iguais a mim? ___ Em tom de cochicho segredou___ Mas isso é segredo, viu? ___ Eles também moram nessa floresta? ___ Se eu lhe contar deixa de ser um segredo. ___ Mas eu sei guardar segredo. ___ Insistiu, ainda não podia acreditar que estivesse conversando com uma planta. ___ Eu não fui autorizado a falar sobre isso. ___ Quando foi que você começou a falar? ___ Eu já nasci falando. ___ As plantas que eu conheço não podem falar. ___ Isso é uma pena! Mas eu sou diferente, sou um girassol encantado! ___ Encantado? Nossa que legal! E quem foi que te encantou? Uma fada ou uma bruxa? ___ Estava fascinado. ___ Bruxas e fadas não existem, você sabia? ___ Mas girassol falante também não existe e você está falando! ___ É verdade. Mas eu sou encantado!___ Sorriu orgulhoso de si mesmo. ___ Se você é encantado, alguém te encantou, não foi? __ Insistiu. ___ Essa é uma longa história, Daniel. Vá dar um passeio por ai e volte mais tarde, sim?___ Desconversou o girassol. ___ Por favor, Girassol, não me mande embora! Eu não quero ficar sozinho. ___ Não precisa ter medo. ___ Eu não estou com medo! ___ Empinou o nariz tentando disfarçar o nervosismo. ___ Você entrou numa floresta onde só reina a paz e a harmonia! Nada de mal lhe acontecerá enquanto permanecer aqui! ___ Mas eu gostaria muito de conversar. Você me mostra outra planta falante? ___ Infelizmente, eu não posso. Sou o único que consegue manter uma conversa inteligente com você. Temos alguns papagaios e araras, mas eles são simples imitadores de som. ___ Vocês têm araras e papagaios nessa floresta? ___ Os olhos do menino brilharam. ___ Porque ficou tão entusiasmado, Daniel? O que pretende fazer com essa informação? ___ Desconfiava das intenções do menino. ___ Eu quero pegar um pássaro desses pra mim. Antes eu tinha um gato, mas o desgraçado fugiu de casa.__Reclamou o menino levianamente. ___ Eu não permitirei que tire nenhum bicho desse lugar, Daniel! ___ Porque não? ___ Não levava o Girassol a sério. ___ Essas aves nasceram na floresta e são livres, e eu quero que continuem assim. Além do mais, você judiaria delas como fez com o seu gato. O menino arregalou os olhos, sem graça. ___ Como você sabe disso? ___ Eu sei de tudo, Daniel!___ Respondeu solene. ___ Eu não maltratava o meu gato!___ Defendeu-se. ___ Ele nos contou tudo a esse respeito, Daniel. ___ O girassol, balançou a cabeça em tom de desaprovação e Daniel tentou se justificar. ___ É mentira dele! Eu nunca machuquei aquele canalha, só queria me divertir um pouco com ele! ___ Sua idéia de diversão e muito diferente da idéia dele. O gatinho nos contou como se divertia puxando o seu rabo pela casa, depois de tentar afogá-lo no tanque de roupa! O bichano ficou tão apavorado que fugiu de casa. ___ Mas eu não ia afogá-lo de verdade, era apenas uma brincadeira! ___ Desculpou-se envergonhado. ___ Ele não achava isso, pois tinha certeza de que morreria em suas mãos! O bichano ficou com tanto medo que apesar das incertezas da vida, resolveu ir embora de casa, Daniel. ___ Mas Girassol... Eu amava o meu gatinho. ___ Então, porque judiava dele? ___ Eu não sei, era muito engraçado só isso. Quando foi que ele te contou essas coisas? ___ Há alguns dias atrás. ___ Mas você acabou de dizer que aqui na floresta só você podia falar. Eu disse que só eu podia manter uma conversa inteligente. Modéstia á parte, eu sou muito inteligente! ___ Fez pose de intectual. ___ Sabe por que eu vim aqui hoje, Girassol? Para procurar o meu gato. Se não gostasse dele, porque iria fazer isso? ___ Você só veio porque foi chamado por mim, Daniel. Precisamos conversar sobre as coisas que anda fazendo. ___ Meus amigos agem do mesmo jeito e ninguém disse que era errado. ___ Seus pais nunca te ensinaram que os bichos sentem dor e sofrem como as pessoas? ___ Não. Eu pensei que os gatos, eram apenas gatos. ___ Eles são apenas gatos, Daniel. Mas nem por isso deixam de ter sentimentos, eles sofrem e sentem dor como qualquer ser vivo. Sabe qual é a maior mágoa do seu gatinho?___ Ele balançou a cabeça negativamente: ___ Ele disse que mora com vocês há mais de um ano e você nunca lhe deu um nome, o pobrezinho era chamado apenas de "gato"! ___ Eu não queria magoá-lo, Girassol. ___ Sentiu vontade de chorar. ___ Agora você sabe como ele se sentia. ___ E difícil acreditar que gatos tenham sentimentos. __Balançou a cabeça confuso. ___ Todos os seres vivos sofrem e amam como a gente, mas como não podem se expressar com palavras, às pessoas acham que eles não sentem. Amar e sofrer, não é um privilegio do ser humano. Por isso ninguém deve maltratar ou capturar um animal para afastá-lo dos seus entes queridos. Os bichos são mais felizes nas florestas onde vivem livres. ___ Mas eu não consigo encontrar o meu gato e não quero ficar sozinho naquela chácara enorme. ___ Peça aos seus pais para comprarem outro bichinho. ___ Mas eu sempre quis ter um papagaio. Posso levar uma ave burra dessas comigo, Girassol? ___ Teimou o menino. ___ Eu acho que você não entendeu a nossa conversa. ___ O girassol balançou a cabeça e completou: ___ Deve haver algum jeito de fazê-lo entender Daniel... Já sei, vou te fazer um convite. O que acha de passar o dia comigo para conhecer a floresta e alguns amigos meus? ___ Vai ser perigoso, Girassol?___ Perguntou assustado. ___ De jeito nenhum! ___ Então eu aceito! ___ Vai indo na frente, que eu te encontro mais tarde. Daniel já ia saindo, mas antes perguntou: ___ Você disse que a floresta é boa, então não pode acontecer nada de mal comigo, não é? ___ Eu prometo que se for um bom menino e souber se comportar, a floresta também será boa com você. ___ Isso será fácil!___ Sorriu se preparando para sair, mas o girassol o chamou novamente. ___ Daniel, espere um pouco. Pense em como vai agir enquanto estiver aqui dentro. ___ Porque está dizendo isso agora?___ Ficou assustado novamente. ___ Qualquer coisa que você faça no seu mundo, seja boa ou má no devido tempo retorna para você. Mas na floresta encantada, tudo acontece rapidamente! Por isso volto a repetir; Tome cuidado com suas ações daqui pra frente. ___ Eu posso voltar pra casa, Girassol? Acho que não quero mais conhecer a floresta. ___ Pediu em tom de choro. ___ Eu não pensei que fosse tão medroso Daniel. ___ Eu não sou medroso! Mas é que prometi aos meus pais que não entraria aqui... Já está ficando tarde e eles vão brigar comigo. ___ Já que veio nos visitar, não seria bom aproveitar para conhecer tudo por aqui? ___ Está bem, mas você tem de prometer que vai ficar junto comigo. ___ Eu já disse que te encontro mais tarde, confie em mim! ___ Seu sorriso bondoso, acalmou o menino. ___ Só mais uma coisa Daniel, você irá notar que na floresta encantada o tempo e o espaço se comportam de maneira diferente do seu mundo. Seja qual for à direção que tomar estará sempre se dirigindo para o lugar onde me conheceu! Olhe ao seu redor. Daniel notou que a floresta se tornara mais densa. A trilha que o guiara até ali desaparecera. ___ Porque a floresta mudou de posição? Girassol? O menino se virou, mas o Girassol já havia sumido. Daniel sentiu medo e por algum tempo não conseguiu sair do lugar. Finalmente ele se deu conta de que não tinha outra escolha, a não ser aceitar o convite. Por um instante, ficou em dúvida sobre qual caminho deveria seguir, mas se lembrou das palavras do Girassol. ___ "Todos os caminhos levam ao centro da floresta". Daniel tomou qualquer direção ignorando que surpresas estavam por vir.
A árvore e as formigas Daniel caminhava no meio das árvores, se sentindo inspirado com as palavras do Girassol. Aquele lugar era mágico. O medo se dissipara e ele se sentia estranhamente feliz. Algum tempo depois já cansado de tanto caminhar, ele se sentou ao pé de uma árvore para descansar. Distraiu-se do cansaço observando algumas formigas que passeavam em carreirinha. De repente Daniel sentiu uma coisa incomodando suas costas, era um pequeno galho de árvore. Tentou empurrá-lo para o outro lado sem obter sucesso, ele sempre voltava à mesma posição. Irritado com a situação, Daniel agarrou o galho quebrando-o com violência. Em seguida, ele ouviu um grito de dor e olhou horrorizado para o pedaço de árvore em suas mãos. Uma vozinha triste perguntou chorosa: ___ Por que fez isso comigo, Daniel? Desconcertado, o menino olhou para a árvore, sem saber com se desculpar. ___ Eu não queria te machucar. ___ Mas machucou. ___ A árvore respondeu ressentida. ___ Você me perdoa?___ Pediu encabulado. ___ Se estiver sendo sincero, é lógico que sim! Mas você pode me dizer por que quebrou o meu galho mais bonito? ___ É que ele estava incomodando a minhas costas, se soubesse que você falava não teria feito isso! ___ Mesmo se eu não pudesse falar, sinto dor quando me machucam. ___ Mas você estava machucando as minhas costas. Por que não saiu quando eu te empurrei pro lado? ___ Defendeu-se cheio de direitos. ___ E como eu poderia fazer isso? Você pode se locomover, mas eu não. Por que você não mudou de lugar? Bastava se afastar um pouquinho. Daniel continuava se defendendo mesmo sabendo que ela estava certa: ___ Mas eu sentei aqui primeiro! ___ Como se sentou aqui primeiro?___ Perguntou indignada. ___ Estou plantada nessa terra a centenas de anos! Um dia você chega e diz que sentou aqui primeiro. ___ A árvore afirmou ciente dos seus direitos. Daniel calou-se, não havia nenhuma justificativa para o que fizera. Finalmente ele cedeu. ___ Você tem razão. Ficou muito ferida, dona árvore? ___ Na verdade, foi apenas um susto. Também essa é a primeira vez que me acontece algo assim! Mas através de um gato viajante, nós ficamos sabendo de coisas horríveis que acontecem com as árvores que vivem na cidade grande e em outras florestas menos protegidas do que essa aqui. Essas árvores viviam felizes durante anos e um belo dia foram brutalmente arrancadas de suas raízes. Depois foram cortadas em diversos pedaços e levadas sabe-se lá para onde! Você sabia que tem gente que coloca fogo na mata apenas por diversão? Daniel desviou o olhar aflito, quando se lembrou das inúmeras vezes que ateou fogo no mata próxima à sua casa, sempre que esta teimava em crescer. Até que um dia ela não cresceu mais. Sentiu-se vitorioso na ocasião, mas agora só conseguia sentir vergonha. ___ Eu já fiz esse tipo de coisa. ___ Confessou ___ Mas agora percebo como estava errado. ___ Não vamos remoer o passado, Daniel. Agora você deve prometer que nunca mais fará isso. Eu gostaria muito que se tornasse um protetor das plantas e dos animais. ___ Eu prometo que farei isso, dona árvore!___ Colocou a mão sobre o peito em sinal de compromisso. ___ Eu também gostaria que conversasse com os seus amigos para que eles o ajudassem na nobre missão de proteger e zelar pela natureza, porque agindo assim vocês estarão ajudando a si mesmos. ___ Eu prometo que nunca mais queimarei as plantas por mais insignificante que elas possam parecer. ___ Havia sinceridade em sua voz e a árvore ficou comovida. ___ Obrigada Daniel! Já começo a me sentir melhor só de ouvi-lo falar desse jeito. Agora se me der licença, preciso descansar um pouco, fique a vontade e aproveite a minha sombra para se refrescar. Espero que compreenda que foi um dia difícil para mim! ___ Está bem, dona árvore. Vou descansar mais um pouco e depois vou embora. Obrigado por não guardar rancor. Depois disso Daniel não ouviu mais nenhum som. O único movimento a sua frente, era o das formigas carregando as folhas da árvore que haviam caído no chão. "O quê?" ___ Pensou revoltado___ "Essas folhas pertencem a minha amiga árvore.". Não pensou duas vezes. Ergueu o pé para esmagar aquelas miseráveis! Nem bem havia descido a perna quando ouviu alguém gritar: ___ Socorro! Esse gigante machucou o meu pezinho. Desconfiado da origem daquele grito, ele olhou temeroso para as formigas que se agrupavam ao seu redor. Inclinou-se sobre até elas, pois já estava se acostumando com as estranhezas daquele lugar. Algumas formigas carregavam uma menorzinha e erguiam suas cabeças em direção ao menino se mostrando indignadas: ___ Como pôde ferir essa pobrezinha, Daniel? ___ Mas eu não... ___ Novamente se sentia mal pelo impulso que tivera. ___ Essa menina tem trabalhado duro desde que nasceu! Como pôde agredi-la? ___ Eu não fiz isso por maldade! Só fiquei com raiva quando vi vocês levavam as folhas da minha amiga árvore! Eu só estava protegendo a natureza, como havia prometido! ___ Mas estava protegendo sua amiga de quê? Só estávamos carregando as folhas que você mesmo arrancou! Nós fazemos isso para comer, enquanto que você quebrou aquele galho por maldade! ___ Isso não é verdade! O galho estava incomodando as minhas costas, eu não queria machucar a árvore! Eu nem sabia que ela sentia dor. ___ Para defender sua amiga, você não precisava ferir ninguém. Veja o que fez com essa pobre indefesa. Daniel olhou para a formiguinha toda torta tentando se manter de pé e sentiu um aperto no coração. Ele não sabia o que fazer. Estava quase chorando quando pediu: ___ Me perdoem... Eu não sabia que as formigas também podiam falar! ___ Você só respeita os seres que sabem falar, Daniel? Não sabe que todas as criaturas vivas sentem dor? Nós gostamos da nossa vida e não queremos morrer esmagadas! ___ Mas ninguém me disse que era errado matar as formigas! Eu vivia pisando em vocês e minha mãe nunca se importou. Elas sussurram horrorizadas. ___ Que absurdo! Nossas pobres conterrâneas! Como pôde fazer uma coisa dessas, menino sem coração?___ Perguntaram indignadas. ___ Eu era muito idiota e me divertia destruindo as coisas. Perdoem-me, por favor? ___ Voltou-se para a formiguinha machucada e perguntou infeliz: ___ Está doendo muito, formiguinha? A formiga se ergueu devagar e ficou aprumadinha enquanto dizia: ___ Não está doendo mais nada, Daniel. Mas você deve me prometer que nunca mais vai matar as formigas! Você não ia gostar se num belo dia de sol, um gigante viesse te esmagar com o pé, não é? ___ Daqui para frente, vou pensar bem antes de fazer as coisas, formiguinhas. ___ Daniel prometeu isso sinceramente. ___ Antes que vá embora, eu posso te dizer outra coisa, Daniel? ___ Pode falar, formiguinha. ___ Eu queria que se lembrasse de que o nosso planeta é habitado por milhares de seres vivos e cada um de nós só ocupa o espaço que é seu por direito, se incomodamos alguém não é culpa nossa. Daniel concordou com ela e em seguida se despediu ainda pensando nas pequenas formigas. Algum tempo depois voltou a caminhar pela silenciosa floresta. Os últimos acontecimentos tinham sido demais para os seus dez anos de vida (que para ele pareciam muita coisa).
O Girassol não aparecia e Daniel começava a ficar aflito. O Girassol havia lhe dito que o encontraria mais tarde, mas será que ele podia realmente caminhar pela floresta? Daniel queria muito encontrar seu gatinho. Como o bichano estaria fazendo para se alimentar e dormir? Será que naquela floresta eles poderiam conversar? Como explicaria ao seu companheiro que se divertia fazendo maldades com ele, sem saber por quê. O menino estava absorvido por este emaranhado de pensamentos quando um barulho irritante chamou sua atenção. Ele olhou para cima e viu uma arara pousada em um galho não muito alto. Daniel ficou encantado com a beleza da ave e imaginou como seria bom tê-la em casa para conversar quando estivesse sozinho. Hesitou um pouco, lembrando-se do que o Girassol dissera, mas o pássaro grande e majestoso era um troféu a ser conquistado! Não resistiu ao impulso de capturá-lo. Escalou a árvore sem fazer barulho tentando se manter fora de vista. Sem se dar conta do perigo, sua presa cantarolava uma bela canção. Fascinada com a própria voz, a arara levou o maior susto quando Daniel agarrou seu pé. A pobre ave deu um berro tão alto que o menino assustou-se e se desequilibrou. Sem ter aonde segurar Daniel, levou a arara junto com ele direto pro chão. A grama fofa amorteceu sua queda, mas mesmo assim a ave machucou um dos pés. ___ Socorro! O mundo desabou sobre a minha cabeça! ___ A arara gritava com voz de taquara rachada. Preocupado com o acidente que provocara, Daniel pegou a infeliz nos braços e examinou o seu pé que parecia estar apenas destroncado. ___ O que eu vou fazer com você?___ Choramingou___ Eu não sei cuidar dessas coisas! Se ao menos o Girassol aparecesse agora. ___ Estava bastante nervoso. A Arara o interrompeu furiosa: ___ Então é assim né? Você me derruba como se eu fosse um abacate maduro, e agora não sabe o que fazer? Eu preciso de um médico! Chame uma ambulância e me leve já pro hospital! ___ Berrava sem parar e Daniel ficava cada vez mais apavorado. ___ Mas aonde eu vou arrumar uma ambulância por aqui? Eu mesmo vou ter que dar um jeito no seu pé. ___ Não permitirei que toque novamente no meu pé, por acaso você é médico? Eu não coloco a minha vida em suas mãos e não autorizo a operação! ___ Cale a boca, seu pássaro burro! Primeiro você não corre perigo de vida, só precisamos enfaixar o seu pé, entendeu? Rasgou sua blusa em tiras e começou a enfaixar a pé da tagarela. ___ Claro que para você que não parece grave! Não foi o seu pé que se acabou! O seu está aí, inteirinho, enquanto que o meu virou essa coisa inchada. Ah... Meu Deus, acho que nunca mais voltarei a andar! Daniel já não agüentava mais aquela ladainha e achou melhor acalmar a histérica ave, afinal de contas ele era o causador do seu sofrimento. ___ Eu tenho um diploma de médico lá em casa, satisfeita? ___ disse solenemente. Não era totalmente mentira! Tinha ganhado de presente de uma tia, um conjuntinho de médico com diploma e tudo. Isso serviu para tranqüilizar a arara. ___ Porque não disse logo? Pode cuidar do meu pé, doutor? ___ É lógico que cuido, dona Arara! ___ Riu. ___ Quem lhe disse que eu sou uma menina? __Reclamou em tom de briga. ___ Toda ave é igual, não dá para saber se você é menino ou menina. ___ Eu sou uma Arara macho e me chamo Efigênio. ___ Fez cara de importantão. ___ Muito prazer Efigênio! ___ Estendeu a mão para cumprimentá-lo.___ Mas Efigênio escondeu o pé dolorido. ___ Desculpe, mas não posso cumprimentá-lo, meu pé está doendo. Se te der o outro pé, caio de cara no chão. __caiu na risada. ___ Depois de enfaixar o meu pé, você me faria um favor?___ Pediu em tom dengoso. ___ É lógico que sim! A arara deu um berro: ___ Pelo amor de Deus, pensa direito antes de assustar os outros, eu não sou uma fruta! Será que não posso cantar sossegado, sem que um de vocês- Seres humanos - Tente me matar de susto? O menino riu do jeito que a arara falava. ___ Está bem. ___ Concordou segurando uma gargalhada. ___ Eu prometo que nunca mais faço isto com você, está bem? ___ E quanto aos outros pássaros? Você tem que me prometer que vai protegê-los também! Daniel ficou calado se lembrando das inúmeras maldades que fizera contra outros pássaros. Já perdera a conta de quantos ninhos havia destruído só para pegar os ovinhos e quebrá-los. A arara parecia ler os seus pensamentos. ___ Eu sei que já fez muita coisa ruim, Daniel. Aposto que já matou muitos passarinhos com o seu bodoque, não é? Pobrezinhos! ___ Sacudiu a cabeça em desaprovação. ___ É verdade, mas eu nunca gostei de fazer isso. Mas os meus amigos me chamavam para caçar passarinhos e se eu dissesse não, ia parecer mariquinhas, não é? Também, a gente só matava pardais e rolinhas. Eles não têm importância. ___ Por que acha que os pardais e as rolinhas não são importantes?___ A Arara perguntou surpresa. ___ Eles não têm graça, não são coloridos e nem cantam bonito, além do mais a gente encontra aos montes por ai. ___ Meninos também a gente encontra aos montes por ai. Daniel ficou envergonhado. Estava totalmente errado e não havia como argumentar. ___ Tem razão, como pude pensar uma coisa dessas. Que grande idiota! ___ Não se recrimine mais garoto! Todos cometemos erros. O importante é aprender com eles. Dá para ver que você é um bom menino! ___ Você acha isso mesmo? ___ O menino balançou a cabeça, desolado. ___ Antes eu não sabia que causava dor nos passarinhos, no meu gato e nas plantas. Mas prometo que de hoje em diante, vou fazer tudo que puder para protegê-los. Se eu encontrar algum menino matando um passarinho ou queimando uma planta, vou quebrar a cara dele e... ___ Nada disso Daniel! É melhor você conversar com ele, para mostrar que essas coisas são ruins. ___ Do mesmo jeito que vocês fizeram comigo, não é? Obrigado Efigênio! Você é muito inteligente! ___ Que nada! A maioria me acha um jumento! Daniel já havia terminado de enfaixar a pé da Arara. Carregou-a até uma árvore próxima e se despediu: ___ Até logo, Efigênio! Foi muito bom te conhecer, mas eu preciso ir andando. Já está ficando tarde e o Girassol deve estar me procurando. ___ Um girassol te procurando? Mas as plantas não podem sair à procura de ninguém, isso é muito estranho. ___ Mas o Girassol disse que ia me encontrar mais tarde. ___ Um girassol falando e andando? Isso é muito estranho! ___ Tudo aqui é muito estranho. ___ Daniel disse, colocando a mochila nas costas. ___ Tchau Efigênio, eu preciso mesmo ir. ___ Tchau, Daniel. Volte sempre que puder! Daniel se afastou. ___ Esse Daniel é um ótimo garoto!___ Pensou em voz alta ___ Meio impulsivo, mas de bom coração! O Girassol vai ajudá-lo, ele sempre faz a coisa certa! ___ Arrancou as tiras de pano que embrulhavam o seu pé e voltou a cantarolar.
As abelhas O Girassol não aparecia e Daniel estava cansado de esperar. Já começava a sentir fome e não havia mais água ou biscoitos para comer. De súbito uma abelha zumbiu junto ao seu ouvido e Daniel tentou espantá-la, sem obter sucesso. A pequenina insistia em sua perseguição, sem se importar com os gestos estabanados do menino. De repente, ele acertou a inconveniente abelhinha e ela bateu contra uma árvore. Segundos depois ela disparou a gritar: ___ SOCOOOOORRO! Esse menino tentou me matar! Apavorado Daniel viu um enxame furioso de abelhas zumbindo a sua volta. Todas gritavam ao mesmo tempo fazendo um tumultuado coro de vozes. Era uma zoeira de dar medo, mas Daniel conseguiu ouvir o que elas diziam: ___ Vamos ferroar esse moleque até a morte, companheiras! Daniel entrou em pânico e correu para o meio das árvores tentando se proteger. Sentia tanto medo que suas pernas custavam a lhe obedecer! Ele virou a cabeça para trás e viu uma nuvem de abelhas furiosas se aproximando. Havia tantos obstáculos pelo caminho que ele temia tropeçar e ficar a mercê dos insetos. As pedras feriam os seus pés e os galhos das árvores arranhavam sua pele, mas ele continuava correndo e gritando por socorro. Algum tempo depois já completamente exausto, Daniel se deixou cair no chão, ele não conseguia dar mais um passo. Agora sim as abelhas acabariam com sua vida! ___ Socorro, Girassol! Socorro! ___ O menino gritou desesperado. Será que o Girassol viria salvá-lo? O menino pensou que tinha chegado o seu fim quando a imensa nuvem o envolveu! Ele fechou os olhos e trincou os dentes para suportar as milhares de ferroadas que viriam a seguir e já dava tudo como perdido quando ouviu a voz do Girassol : ___ Parem já com isso, vocês ouviram? Daniel abriu os olhos e ficou surpreso ao ver que estava de volta ao lugar onde conhecera o Girassol. Tentou a falar, mas foi interrompido, por uma abelha de aparência zangada. ___ Escute, mestre Girassol. Esse menino não presta! Ele machucou gravemente essa pequenina operária e pretendia matá-la também! ___ A abelha voava em torno de Daniel que se encolhia apavorado. Apesar de tudo ele conseguiu se defender. ___ Isso é mentira! Eu não fiz nada disso! ___ Olhou para o Girassol em busca de apoio. A abelha zangada voou para o enxame e voltou trazendo consigo a suposta vítima de Daniel. ___ Diga ao mestre Girassol como tudo aconteceu! Conte a ele como esse menino te agrediu. Daniel se sentia em um tribunal, acusado por um crime que não cometera! A pequenina abelha se ajeitou e olhou para o menino sentado ali no chão. Ela se virou de um lado e de outro e finalmente se manifestou: ___ Bem... Na verdade... Eu acho... Que... Sabe... Bem... Não aconteceu nada! Seguiu-se um uníssono "Oooooh!". A abelha que iniciara o tumulto encarou furiosa a pequena afoita: ___ Não se deixe intimidar por esse garoto! Pode dizer a verdade, sabe que está entre parentes e amigos, e nada lhe acontecerá! A abelhinha mexeu a cabeça sem jeito e voltou a falar: ___ Eu não sei o que houve. Eu vi esse menino e fiquei curiosa, nunca tinha visto nada igual a ele. Parece que ele ficou medo, pois tentou me espantar e acabou me acertando com a mão. Acho que foi sem querer! Daniel finalmente tomou coragem e disse: ___ Eu fiquei com medo que me desse uma ferroada, mas não pretendia feri-la, juro! ___ Porque eu te daria uma ferroada? ___ Estranhou a abelhinha. ___ As abelhas sempre dão ferroadas nas pessoas! Foi minha mãe quem disse. ___ Desculpe, mas sua mãe está muito enganada. Nós só ferroamos quem nos machuca e quem destrói nossas colméias. Não somos umas selvagens descontroladas! ___ Mas você fez tanto escândalo! ___ É verdade Daniel! ___ Ela deu uma risada. Quem não gostou daquela confraternização toda, foi à abelha zangada que ameaçou a abelhinha enquanto puxava sua orelha: ___ Sua abelhinha maluca, sabe o que fez conosco? Perdemos meia hora de trabalho por causa de uma bobagem! Você vai ver quando voltarmos para a colméia! ___ Alto lá! ___ reclamou o Girassol. ___ Quem fala a verdade não merece castigo! Então a pobrezinha foi honesta e você pretende castigá-la por causa disso? ___ Mas, mestre Girassol, ela provocou esse tumulto e nos fez perder tempo e energia por nada! ___ E vocês, acham que agiram certo? Estavam a ponto de matar um menino inocente! Que vergonha! ___ Bem, nós erramos, mas errar é... Quero dizer abelhas também erram! ___ Nós podemos errar, mas precisamos corrigir o erro se eles prejudicam alguém. ___ Elas ficaram quietas: ___ Esta é a orientação que pretendem dar às abelhinhas mais novas? O exemplo que deram hoje foi de intolerância! Já pensaram nisso? ___ O senhor tem razão, mestre Girassol! Seremos mais prudentes da próxima vez! ___ Vocês devem desculpas ao Daniel, porque ele quase morreu de susto! ___ Poderia nos perdoar, Daniel? Sentimos muito! ___ Disseram em coro. ___ Não foi nada. Eu também já fiz coisas muito ruins. Agora sei como é feio perder a cabeça e brigar sem motivo. ___ Nada justifica a violência. ___ O girassol falou solenemente. Todos concordaram desta vez. As abelhas ficaram tão alegres com o perdão de Daniel que liberaram a colméia para que ele tirasse mel para a sua viagem de volta! Era uma forma de recompensá-lo pelo aperto que passara. Pouco depois se despediram dele e do Girassol e foram embora. O Girassol olhou para Daniel que estava carregado de favos de mel e sorriu satisfeito. ___ Viu como é feio fazer as coisas movido pelo ódio? Lembre-se de permanecer calmo em situações difíceis, é sempre o mais sensato a se fazer. A serenidade e o perdão são os melhores conselheiros. ___ Vou procurar me lembrar sempre disso. Agora vou comer esses favos de mel. Estou morrendo de fome! ___ Coma bastante e beba a água daquele riacho ali em frente. Depois precisamos conversar! Daniel ficou apreensivo. O que viria a seguir?
O reencontro Depois de descansar, Daniel quebrou o silêncio. ___ Por que você não apareceu, Girassol? Eu esperei o dia todo! ___ Você acreditou mesmo que eu pudesse sair daqui, Daniel? Eu sou um girassol encantado, mas preciso das minhas raízes bem firmes no chão! Se saísse daqui morreria como qualquer outra planta! ___ Eu não sabia disso, Girassol. ___ Sorriu compreensivo. ___ Eu invejo aqueles que podem se locomover para onde quiserem só que passam a vida sem sair do lugar! ___ Mas este lugar é tão bonito, Girassol! Eu não me importaria de viver aqui para sempre. ___ Eu não estou reclamando! Mas às vezes, uma planta inteligente como eu fica imaginando como seria maravilhoso conhecer o mundo! ___ E eu ficava imaginando como seria maravilhoso conhecer essa floresta! ___ Temos que aceitar nosso destino, não é Daniel? ___ Você é um amigo muito especial! É também é o girassol mais bonito e inteligente do mundo! ___ Obrigado Daniel! Como sempre, você é muito gentil! ___ Foi à primeira coisa que você disse quando eu cheguei aqui se lembra? Aqui deve ser mesmo o centro da floresta! ___ Eu disse que todos os caminhos o trariam de volta. ___ Depois de um longo silêncio, o Girassol recomeçou. ___ Conte-me o que houve enquanto passeava. ___ Aconteceram tantas coisas... Eu fiz amizade com um monte de criaturas...?__Não sabia como explicar. ___ E o que você aprendeu sobre tudo que aconteceu? Lembrasse de como as amizades começaram? Daniel ficou pensativo. "Na verdade, cada uma dessas amizades havia começado por causa de um gesto impensado seu. É... tinha feito muita coisa errada!" ___ Agora eu sei o que você queria me mostrar. ___ Você se tornou um amigo da natureza Daniel. ___ Eu aprendi que devemos respeitar igualmente: O nosso planeta, as pessoas, os animais, as plantas e até os insetos, girassol. ___ Era exatamente isso que eu queria que você entendesse! Aqui na floresta encantada todos podem ver como os animais e as plantas e os insetos se sentem quando são maltratados. Mas nem todo mundo tem o privilegio de nos visitar, mas todos que entram aqui tem o compromisso de ensinar o que aprenderam para as pessoas que nunca terão essa oportunidade. ___ Pode ter certeza de que farei isso, Girassol! Começarei conversando com os meus colegas de escola e com os meus primos. Quando tiver meus filhos, farei questão de ensinar a eles que devem respeitar a natureza! Será que as pessoas vão acreditar no que aconteceu comigo? ___ Você não precisa contar nada disso, diga apenas a essência daquilo que aprendeu. Passe para eles o amor que sente pela natureza e a necessidade que temos de preservar nossas árvores, insetos e animais, porque sem essas coisas não poderíamos mais sobreviver nesse planeta. ___ Eu ficarei feliz em fazer isso, Girassol. ___ E eu sentirei orgulho de você! Mas lembre-se, de que não te ensinei nada, foi você que aprendeu com os próprios erros! Agora vá para casa e não se esqueça de que tem um amigo na floresta. ___ Nos veremos de novo, Girassol? ___ É claro, você sabe onde eu vivo. Espero que pense em mim toda vez que olhar para uma árvore. De repente Daniel ficou triste. Ele acabara de se lembrar do gato! ___ Sabe, Girassol, eu só sinto que nessa aventura, eu não tenha conseguido encontrar o meu gatinho! Queria tanto fazer um carinho nele, pegar meu bichano no colo e pedir desculpas por todo mal que fiz a ele! ___ Agora menino chorava ___ Também queria dar um nome para ele! O girassol sorriu com ternura enquanto dizia: ___ Olhe quem está atrás de você Daniel! ___ Apontou para o gatinho que ronronava alegremente! ___ Meu gatinho querido! ___ Daniel abraçou o bichano, todo feliz. ___ Obrigado, por ter trazido o meu gatinho de volta Girassol! ___ Não me agradeça, Daniel. Foi você quem o trouxe de volta. Agora você merece ter um bichinho de estimação. ___ Que nome vamos te dar bichano? Vejamos um gato branco com pintinhas pretas... Já sei você vai se chamar, Dado! O que acha do seu nome heim gatinho? ___ Para mim está muito bom! Gostei de Dado! ___ Disse o gato, ou melhor, disse Dado, o gato! (Agora ele tinha um nome!). ___ Nossa! Meu gatinho falou! Que legal! Vamos conversar muito lá em casa, não é bichano?___ Abraçou Dado com tanta força que este mal podia respirar. Depois Daniel se voltou para o Girassol: ___ Eu nunca vou te esquecer, amigão! ___ abraçou o Girassol. Emocionado o Girassol tentava disfarçar suas lágrimas: ___ Agora volte para casa, Daniel. Já está ficando tarde. Daniel despediu-se novamente e depois foi embora. Ficou acenando enquanto se distanciava. __ Adeus, amigo! ___ Virou-se e continuou caminhando. De repente ele ficou com medo de não saber voltar. Qual seria o caminho certo? Que direção deveria seguir? ___ Escuta, Girassol... Como vou saber... ___ olhou para trás e viu com tristeza que ele não estava mais lá! Não havia Girassol e nem clareira, só um monte de árvores. A noite caiu rapidamente. Parecia que o sol havia despencado do céu! Daniel sentia medo, mas repetia consigo mesmo: "Aqui é a floresta encantada, nada de mal vai me acontecer!". De repente, surgiu na sua frente o caminho por onde iniciara sua jornada! Já podia até avistar sua casa. Apressou o passo temendo que seus pais estivessem furiosos. Que bronca levaria! ___ Que tal você explicar pra eles, heim, Dado? ___ Você podia começar dizendo... Dado, você está me escutando? Olhou para o gato e nada. Só aquela cara boba de gato comum! Não poderia contar com ele fora da floresta encantada. Teria que se explicar sozinho.
De volta para a casa Finalmente Daniel chegou em casa, mas não encontrou ninguém a sua espera, aliviado o menino correu para a geladeira. Estava tão cansado que depois de alimentar Dado e devorar um enorme sanduíche, ele se deitou no sofá da sala e adormeceu. Já estava dormindo a algum tempo, quando sua mãe o acordou, chamando-o para almoçar. ___ Venha Daniel, o almoço está na mesa! ___ Eu dormi no sofá, mamãe? ___ Perguntou sonolento. ___ Não, filho. Eu pedi ao meu chefe para sair do trabalho mais cedo, porque fiquei preocupada com você. Acabei de fazer um almoço delicioso para nós dois. ___ Daniel tentava entender o que ela dizia. ___ Fiquei feliz quando vi que o seu gato voltou! ___ Não o chame de gato, mamãe. O nome dele é Dado. ___ disse distraidamente. Daniel não entendia mais nada. Era tarde da noite quando voltou para casa! Como era possível que ainda fosse de manhã? Parecia que as horas não tinham passado! Finalmente chegou a uma triste conclusão: ___ Aquilo tinha sido um sonho? Não existe floresta encantada! ___ Que foi que disse Daniel? ___ Sua mãe perguntou da cozinha. ___ Nada, mamãe. Estava só pensando em voz alta. "E sonhando acordado!" Já estava se levantando quando notou o chão sujo de terra. Suas roupas estavam imundas e suas mãos estavam lambuzadas de... Mel! Procurou pelos vários arranhões em seus braços e encontrou o resultado da perseguição das abelhas! Ele não podia explicar o que tinha acontecido, mas de uma coisa estava certo: Não tinha sido um sonho! Deu um sorriso de satisfação! Não disse uma palavra durante o almoço. Enquanto sua mãe lavava os pratos ele se sentou o parapeito da janela e ficou observando a floresta. Pegou seu gatinho no colo e pensou nas coisas que aprendera com o Girassol. Ficou ouvindo o barulho da torneira pingando na pia e o som dos pratos sendo colocados no escorredor... * * * Uma senhora de cabelos brancos entrou na sala enxugando as mãos no avental. ___ Acorde Daniel, assim você vai se atrasar de novo e a clinica precisa do seu melhor veterinário! ___ Ele acordou sonolento. ___ Estava observando a floresta e de repente adormeci! Sempre fico com sono depois do almoço. ___ E desde pequeno fica com o esse olhar perdido quando olha para aquela floresta. Por falar nisso, sua irmã ainda não voltou, se encontrá-la no meio do caminho diga para ela vir almoçar! ___ Está bem mãe. Até mais tarde. ___ Deu um beijo no rosto dela e depois saiu. O dia estava quente e ensolarado e Daniel resolveu caminhar um pouco. Lembrou-se do dia em que se mudara para aquela casa. Um grito interrompeu seus pensamentos: ___ Daniel! Veja o que eu encontrei! Ela não é linda? Uma menina de aproximadamente nove anos, correu em sua direção carregando uma arara nas mãos. Daniel se aproximou apreensivo. ___ Posso ficar com ela?___ Perguntou eufórica. ___ Deixe-me ver... Você perguntou se ela quer viver presa numa gaiola? ___ Araras não podem falar de verdade, seu bobo! Eu vou escolher um nome bem bonito para ela. Deixe-me ver... Ela podia se chamar... ___ Daniel interrompeu a irmãzinha: ___ Você gostaria de viver numa gaiola, sem poder brincar ou correr? ___ Mas ela vai ser muito feliz aqui comigo! ___ Engano seu. Ela gosta de viver livre! Se você soltar a arara, eu prometo que te conto um segredo que nunca contei a ninguém! ___ Nem mesmo para a mamãe? ___ Nem para mamãe e nem para o papai! Mas só conto se você deixar a arara livre, combinado? ___ Eu aceito!___ Estava muito curiosa. ___ Então vamos devolver a liberdade para essa belezura. ___ Soltou a arara que saiu voando em direção a floresta. Eles ficaram observando o pássaro se afastar até que ele sumisse nas copas das árvores. ___ Agora eu quero a minha história! Espero que seja muito boa, pois tive que entregar minha arara por causa disso! ___ A menina cruzou os braços e lançou um olhar desafiador. Daniel sorriu e começou a falar: ___ Quando eu tinha a sua idade, aconteceu uma coisa incrível. Meu gatinho fugiu de casa e por causa disso resolvi entrar naquela floresta. ___ Apontou em direção a mata fechada. ___ Mas não pense que aquela é uma floresta qualquer. É uma floresta mágica! ___ Saboreava a expressão de alegria que a menina fazia. ___ Você nem imagina o susto que eu levei quando... Naquele dia Daniel não foi trabalhar. FIM Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Sex, 01 de Fevereiro de 2008 14:54 |
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15/02/2008 - 19:02:37 |Registered| CelyCavalcanti
Aline querida, vc escreve muito, muito bem mesmo viu fofinha. Adoro ler seus textos, seus textos são ricos nos detalhes, emoções, falas; vc consegue determinar com carinho sua inspiração evolutiva de uma maneira totalmente magnífica. enfim, é uma obra merecedora de aplaudir de pé, parabéns pricesinha, DEUS te abençõe, bjsssss, sua amiga celylua.
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16/03/2008 - 13:08:06 |Registered| Raferty
Muito obrigado pelo bondoso comentário. O seu texto é técnicamente perfeito. E interessante também. O problema é angariar leitores. É sempre temerário tentar publicar capítulos pela internet. O que é uma pena. Acima de tudo seu texto tem a tonica metafísica. Li toda sua obra e vejo que paira a denúncia e o incoformismo da justiça social. Boa sorte
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20/03/2008 - 06:49:48 |Registered| renatosobrinho
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26/08/2008 - 20:00:11 |Registered| CHDINHO
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17/09/2008 - 21:50:02 |Registered| abcd2007
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09/03/2009 - 14:12:09 |Registered| neybomfim





