
| Conquest - Falsa Comédia Romântica |
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| Literatura - Contos - Diversos |
Escrito por Brunno |
Seg, 18 de Fevereiro de 2008 17:44 |
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(os acontecimentos aqui descritos são a sequência à publicação de "Um conto social")
Era sábado. Seis e vinte e qualquer coisa da manhã. Gascoin suspirava pela enésima vez durante aquela madrugada. O copo de uísque já não tinha mais a mesma atração das cinco horas da tarde quando ele chegou e começou a beber.
Era bastante incômodo não estar a fim de cuidar dos diversos compromissos importantes que tinha. Gente ligando o tempo todo, mensagens no celular, e vindas da recepção do hotel. Havia sido bastante requisitado nos últimos dois dias, desde que reaparecera após um período de trinta e seis dias sem dar notícias.
Empresários precisavam dele, os patrocinadores estavam irados, a BMW tentava encontrar uma explicação e pior, uma solução. Em quinze dias teriam uma apresentação importante no salão de automóveis de Frankfurt, e o homem responsável pelo projeto e divulgação do novíssimo BMW G9 ainda não aparecera pra dizer o que queria.
Tentou pôr a cabeça no lugar e manter-se funcionando. Os fusos horários permitiam reuniões através de vídeo conferência, mas Gascoin parecia distraído. Podia ser os dias em estado de total amnésia ou o trabalho como capataz de uma fazenda do interior, mas não, na verdade era por uma mulher.
A bela Liv. Vinte e cinco anos, morena de cabelos lisos e à altura dos ombros, olhos castanho-esverdeados, pele branca, sorriso perfeito, corpo na medida e uma atitude que ele nunca tinha visto antes, ao menos não de verdade.
Ela podia ser ao mesmo tempo meiga e agressiva. Enquanto ele trabalhava como funcionário de fazenda, sem memória depois de destruir uma moto contra uma árvore a duzentos quilômetros por hora, Liv dava as ordens. Foram trinta dias sob as ordens corretas de uma chefe compreensiva. Além do que era tão linda que podia mandá-lo fazer qualquer coisa.
A relação deles foi passando de profissional à pessoal. Depois, Gascoin recuperou a memória e fez coisas que ela não gostou. Era tarde, estava fascinado pela moça, e ela foi imediatamente procurar a polícia de sua cidade.
Liv Marie Duncan. A jovem canadense que ainda o segurava em Niágara Falls. Gascoin deixou a fazenda, do outro lado do país, para encontrá-la e quem sabe, conquistá-la. Se ela dissesse "não", tudo bem. Como um homem responsável e amante da adrenalina e da aventura, ele a deixaria pra trás e iria logo para a Alemanha, onde os últimos testes do projeto G9 estavam acontecendo. O trabalho vinha sempre em primeiro lugar... Então por que ele não conseguia pensar no projeto?
Mais uma chamada. Quase sete da manhã no Canadá, em Berlim eram onze horas da noite, ou seja, as pessoas queriam dormir e estavam preocupadas com um investimento de milhões de euros, sem falar na propaganda, nas televisões e revistas especializadas, na opinião dos críticos e do público.
Gascoin havia ido ao país para uma missão que ele não gostaria de ter feito, mas enfim, deu certo, a grana estava na mão e isso importava mais que o projeto - os carros eram uma diversão e não um compromisso - só não importava tanto quanto Liv.
Assim que chegou à cidade foi direto para o hotel. Minutos depois estava estacionando o carro em frente à galeria de arte que ela gerencia. Liv é artista plástica, mas ultimamente tem tido mais sucesso como administradora.
Como bom mercenário, já havia levantado toda a ficha da moça invadindo espaços dos computadores do governo. Sabia seu endereço, o número de seu seguro social, seu aniversário, nome dos falecidos pais, local de nascimento, nome da irmã mais velha, a ficha só não dizia como conquistar uma moça assustada.
Conversou rapidamente com o pessoal no outro continente, tomou um banho e voltou à galeria decidido a sair de lá com Liv nos braços!
Uma das moças havia visto a cena discreta e a conversa sussurrada do dia anterior, estava no balcão e o recebeu com um sorriso amistoso. Mirele era amiga de Liv e havia achado bonita atitude dele de ir até lá pra tentar conquistá-la.
"O cara é bonitão. Fala bem. Não deve ser casado. E tem toda essa aura de mistério envolvendo vocês dois! Deixa de ser tonta e sai logo com o cara! Se o sexo for ruim você se manda e parte pra outro!"
Não era um mau conselho. As duas já haviam feito isso. Mas Liv não queria conversa. Até foi educada e gentil com ele, na verdade estava pensando nele mais do que sua sanidade permitia e isso a irritava.
"Você não viu o que vi, Mirele. Num dia ele estava ajudando a segurar uma ovelhinha pra gente tosquiar na fazenda, no dia seguinte estava lutando com um cara na chuva. O cara era japonês, estava armado, era duas vezes maior que ele e ainda assim, essa figura ai derrubou o cara como se fosse papel. Eu não sei que tipo de maluco ele é... É um tipo interessante, seu sei. Muito interessante... Mas eu não vou me meter com outro lunático!"
Experiências ruins. Acontece sempre. Quando ela achou que estava com o cara certo, pegou o safado em casa filmando um filme pornográfico com prostitutas. Depois de três anos de namoro. Muitas visitas ao médico e exames de sangue periódicos durante seis anos a tranqüilizaram, mas as marcas psicológicas ainda ficam.
__Ela está aqui?
__Ta com um cliente. Gente importante. Mas acho melhor você não ficar por aqui, madmoisele Neve não gostou da visita que você fez no outro dia. Liv ficou estranha o dia todo.
__Estranha como?
__ Olha. Ela parece gostar de você. Mas está preocupada porque o último namorado dela foi um cretino. Ela não ta a fim de namoro sério. Se quiser só sair com ela acho que será mais fácil.
__ Eu não paro de pensar nessa garota. Isso nunca aconteceu e eu não quero apenas sair com ela! - suspirou novamente. Sentia-se ridículo! Porque uma coisinha insignificante de vinte e poucos anos, personalidade ora infantil, ora fascinante, estava sendo tão brilhante.
Vêm pelo corredor, Liv e a cliente. A moça explicava à senhora as características de uma de suas peças. Era especialista em esculturas em metal e pedras, aquela era uma imagem da Mãe de Jesus que Liv esculpira em aço escovado, difícil fundição, mas havia ficado linda.
Gascoin retirou-se lentamente para trás para não ser visto esperando não ser denunciado pela atendente. Ela estava trabalhando e ele não queria atrapalhar.
Claro que não deu certo. A menina chamou Liv e disse que Gascoin estava na sala dos quadros. Ela entrou quase furiosa e pediu calmamente para que ele se retirasse dali, se sua chefa visse poderia dar problema.
__ Estou admirando os quadros. Isto é uma galeria de arte, não é? Estou pensando em redecorar meu apartamento em Paris e outra lembrança bonita do Canadá ficaria bem em meu escritório - disse sorrindo, quase sarcástico. A resposta dela foi travar os dentes e fechar um pouco os olhos.
__ Imagino que este distinto cavalheiro seja monsieur Gascoin. - disse friamente Neve, a dona da galeria - Se está interessando em algum quadro, posso te ajudar. Mas preciso que minha funcionária cuide de Madame Sussi antes que ela compre outro Botticceli para pôs no banheiro. O que arrasaria a decoração da mansão. - era uma senhora de mais de sessenta anos, não usava aliança e parecia gerir seu negócio com extrema habilidade. Madame Neve mantinha uma sobrancelha arqueada enquanto olhava o visitante, nem sequer dirigiu os olhos a sua funcionária.
As palavras eram duras, concisas e de ordem. Liv voltou para onde sua cliente estava e deixou os dois.
Ficou quinze minutos rindo com Mme Sussi e sua experiente perspicácia. Depois de fechar a venda e mandar os rapazes carregar e embalar a obra retornou ao salão onde estavam os dois, esperando não encontrar ninguém.
Riam como dois amigos íntimos. Estavam sentados lado a lado do grande sofá da sala dos quadros. Gascoin e Neve fumavam tranquilamente enquanto ela tomava um brandy e ele, uísque que ela lhe servira.
Liv ficou parada olhando a cena. A dona a chamou e teceu efusivos elogios a seu novo amigo. "Mas que besteira se negar a vender-lhe um quadro! É um amante das artes, conhece muito, quase um mecenas! Quando um distinto cavalheiro francês vem a minha galeria, espero que ele seja tratado de forma mais adequada, petit Liv."
__ O que foi que ele disse pra ela? - perguntou Liv pra Mirele.
__ Quanto custava a galeria?
__ Não temos nenhum quadro chamado galeria...
A outra confirmou as suspeitas.
Neve deixou os dois na sala e subiu para pegar mais bebida.
__Vai comprar toda a galeria? - perguntou Liv, agora verdadeiramente desinteressada. Ela fazia questão de falar sempre em francês, inglês raramente.
__Não, de modo algum. Eu apenas matei uma curiosidade.
__ Acha que dinheiro me impressiona? Sabe cara, eu vivo numa boa com o que eu ganho. Não tenho família pra sustentar, então, se acha que eu vou ficar maravilhada porque você deve ter uma grana, é o mesmo que me tratar como vagabunda.
__ Eu não pretendo comprar a galeria toda. Como disse foi apenas curiosidade. Mas eu gostei mesmo deste quadro.
Era uma pintura a óleo. Cores fortes e bem definidas de uma paisagem. Um campo verde que parecia de uma grama fina e úmida. Com uma colina baixa e alguns arbustos. O céu sobre o campo era cinza chumbo como se uma tempestade estivesse chegando.
Gascoin travou os olhos na pintura.
__ O que gosta no quadro?
__ O céu. É frio e calmo. Parece que domina qualquer coisa sob si.
__ É só um campo em um quadro chato. O artista nem sequer assinou.
__ Achei que devia elogiar as coisas da galeria e não criticar o trabalho de outra pessoa...
Isso foi uma alfinetada que ela sentiu.
__ Fala sério, Jaques... - era como os funcionários da fazendo o chamaram enquanto ele não lembrava seu nome - Desculpa, Gascoin!
__ Eu não vou tentar te impressionar. Não a conheço o suficiente pra tentar fazer isso e honestamente, nem sequer sei como fazer. Só gostaria de te convencer que é uma coisa verdadeira.
__ Olha quem está falando em verdade! O cara que enganou todo mundo por quase um mês se mostrando bonzinho e prestativo! Até o coitado do japonês chegar e você acabar com ele. Eu nem quero saber por que ele foi te procurar até aquele fim de mundo.
__ Ta legal. Eu vou embora. Mas por favor, entenda uma coisa: o que eu fiz foi necessário por uma questão de segurança. E eu não vou desistir de você, a menos que me diga agora que quer que eu vá embora.
__ É só eu dizer? E você vai pra casa e nunca mais aparece aqui?
__ Honestamente. Sim. Não tenho mais pretensão de trabalhar no Canadá.
Ela não imaginou que "embora" significasse deixar o país. Mas decidiu blefar.
__ Ok. Vai embora então.
__ Você não disse que quer... Apenas me mandou ir.
Liv apertou os olhinhos verdes novamente.
__ Se eu te der essa porcaria desse quadro, você promete que vai embora?
__ Não precisa. O quadro é maravilhoso, mas me traria uma lembrança ruim. Não seria parte de algo especial, entende?
Normalmente ela falava como uma metralhadora, mas agora estava sem palavras.
Gascoin foi embora. Havia estacionado seu carro alugado numa esquina próxima e decidiu parar para tomar um café antes.
Assim que madame Neve desceu e não encontrou seu novo e endinheirado amigo, ficou segurando a garrafa e olhando para os lados.
__ Onde está monsieur Gascoin?
__Foi embora, Neve. Espero que nunca mais volte.
__ Ah, mas que pena! E ele ficou fascinado pelo seu quadro dos campos escoceses! Aliás, eu particularmente acho sua melhor obra. De onde tirou a inspiração?
Ela já estava meio bêbada e ainda eram nove da manhã então Liv nem se deu ao trabalho de responder.
Enquanto tomava seu café lendo o Canadain Daily, o celular de Gascoin vibrou no bolso.
"com tantas taças raras basta elogiar, o trabalho do artífice" Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
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21/02/2008 - 04:53:32 |Registered| Raferty

