
| Conquest - esquentando |
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| Literatura - Contos - Diversos |
Escrito por Brunno |
Ter, 19 de Fevereiro de 2008 17:21 |
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Essa única mensagem. Leu e apagou em seguida. Terminou seu café e voltou para o hotel.
Não fez a ligação que queria, ao invés disso ligou para Frankfurt. __ Como está tudo? __ Isso não é hora de conversar, Gascoin. - responder uma voz sonolenta do outro lado da linha - você desaparece por um mês e agora quer resolver as coisas de madrugada? __ Saia dessa cama, Leo. Entre em contato com o pessoal da Bombardier, se eles querem mesmo a demonstração das novas turbinas BMW então terão de estar no local de testes pessoalmente. Os diretores não vão querer que eles analisem o produto por DVD, isso seria idiotice. Depois diga ao departamento de pesquisa e desenvolvimento que acho melhor usar o composto de carbono para as novas pastilhas de freio. O tal Leo saltou da cama e quase derrubou a mulher. __ Cara isso é complicado! Por que carbono para uma coisa dessas? Acho melhor continuar com o bom e velho aço! Aquelas coisas vão esquentar e derreter com um milionário dentro do carro. Não vai ser nada bom pros negócios! __ Sebastien Loeb usou pastilhas de carbono em seu C4 na última temporada do WRC (World Rally Championship). O desgraçado ganhou seis segundos por sessão e terminou a etapa do Chipre com vinte e sete segundos à frente Marcus Gronholm. Leo pensou um pouco. __ Acho que o carbono agüenta o pé de um velho barrigudo tentando impressionar a amante de vinte anos... Vou ligar pro setor de pesquisa. __ Não esqueça: dormir é pra trouxas! Resolvida a encrenca profissional, foi para a piscina do hotel se exercitar um pouco, almoçou muito bem no restaurante Les Dux'Tavern, nas mesas isoladas do canto noroeste com vista para as cataratas e à noite resolver ir a um bar qualquer pra esfriar a cabeça e ver o movimento. América do Norte é um continente em que Gascoin não gosta de estar, mas o Canadá ele suporta. Jamais montaria ali uma base e muito menos teria posses, portanto, apenas carro alugado. A vantagem de ser acionista e palpiteiro nos projetos da BMW era que podia requisitar qualquer modelo da marca em todas as concessionárias do mundo. A temperatura média daquela cidade é de sete graus negativos no inverno. A umidade do ar chega a setenta e quatro por cento naquela época do ano, era fevereiro, o que deixa, apenas para ele, a sensação térmica quase suportável. Gascoin pode sentir calor até em Moscou no inverno. Tudo isso para justificar a escolha de um modelo M4 conversível. __ Preto, tanque cheio e com telefone. - disse ao atendente da loja. Na hora marcada o carro estava à porta do hotel. Iria ao Red Neck Club que apesar do nome parecer o de um bar de motoqueiros era na verdade um clube requintado, com pista de dança, gente bonita, bebidas caras onde se ouve somente rock'n'roll, não podia ser diferente. No caminho pegou o celular que veio com o carro e digitou uma série de números. Respondia a mensagem que recebera naquela manhã. "para isso encontros marcados como, o nosso, são inevitáveis" Chegou ao bar com poucas esperanças de diversão, na verdade. Pretendia tomar um uísque, fumar um charuto, ouvir uma música interessante e sair logo dali. Imediatamente ao que entrou encontrou um amigo. Peter Solberg. Um sueco doidão que havia sido bi-campeão da WRC. Estava no Canadá fazendo o mesmo que ele devia estar fazendo em Frankfurt... __ Divulgando carros! O que mais seria! - e abraçaram-se bastante porque não se viam há tempos. Gascoin deixou a WRC pra se dedicar à equipe de Fórmula 1 que estava tentando montar com uma BMW bem mais forte que das última temporadas. Solberg estava com a mulher, os filhos, os mecânicos, os dirigentes, todo mundo usando os uniformes azuis da Subaru, com o "555" nas costas. Ficaram amigos apesar da briga direta dos dois nas pistas porque numa das noites de pré-temporada, na etapa da França, ele e Gascoin saíram na porrada com uns caras num bar vagabundo, estavam tocando os instrumentos deles. Solberg é metido à vocalista e baixista e Gascoin adora uma guitarra e manda bem num piano quando precisa. __ E você, Gasco. Ta fazendo o que aqui? Pensei que detestasse a América! __ E detesto. Vim cuidar de umas coisas e acabei ficando. E como está tudo? __ Os diretores continuam metendo o nariz em tudo! Agora querem tirar a etapa da Hungria porque o Atkinsons acabou com o carro numa queda de penhasco. Ele mesmo e o Daniel Pons saíram rindo de dentro do Focus. Mas eu soube que seus motivos são outros pra estar aqui... - e fez uma cara de desconfiado. __ Que motivos? __ A Ana, minha esposa, disse que você está gamado por uma mocinha canadense! Gascoin bateu o copo na mesa de vidro reforçado em que estavam encostados. __ E como diabos a sua esposa ficou sabendo disso? - rindo. __ Essas coisas são fáceis de perceber em vocês jovens! Disse ao Frank que tinha um assunto interessante pra resolver! Só podia ser mulher! __ O Frank? - diretor da Gas-BMW - Preciso parar de falar as coisas para o Frank. __ Enfim, Ana e eu queremos saber quem é a senhorita que travou Henri Gascoin no lugar que ele mais despreza! A comitiva da Subaru era grande, o que escondia a posição deles. Meia hora depois de iniciarem a conversa, Liv e Mirele entram no Red Neck com o mesmo intuito de Gascoin. Sentam-se numa mesa alta e pedem suas bebidas, Mirele ia direto na vodca e Liv tomava cerveja. Não tinha tendência a engordar então não ligava pra essas coisas. No outro canto do clube a conversa deles estava a toda. A certa altura o palco em que a banda local tocava seu repertório desconhecido ficou vazio. Já eram duas da manhã, o local estava cheio e eles estavam começando a ficar bêbados. Havia um palco. Havia instrumentos. Havia platéia. Havia bebida. __ O que é que nós vamos mandar? __ Chama o baterista! __ Eu hoje só canto os clássicos! __ Olha que seus filhos estão te vendo. __ Crianças! Papai está bêbado! - falava com a voz rouca e trôpega. O baterista da banca local mandou ver nos pratos. Gascoin entendeu a seqüência e mandou ver na guitarra. O senhor Solberg de cinqüenta anos não teve dúvidas e mandou Rock'n'Roll de Led Zeplin. No meio da música um dos mecânicos subiu e mandou ver nos teclados. Em segundos o Red Neck estava gritando e aplaudindo os amadores. Liv tentava afastar uma senhora mais empolgada que pulava a seu lado derrubando um pouco da bebida. Mirele agarrou seu braço com os olhos arregalados no palco. Liv paralisou. Ela não esperava vê-lo novamente tão rápido. E daquela maneira. __ Ele também toca guitarra? - perguntou Mirele. __ É. Agora esse cara ta começando a me impressionar... As duas seguiram falando dele enquanto o grupo, ainda na linha saudosista, tocava D'yer M'aker. A seqüência incluiria The Passenger, By My Side e Sultans of Swing. __ Será mesmo que esse cara não tem esposa? __ Como eu vou saber, Mirele? Eu te disse: enquanto estávamos na fazenda ele era de um jeito. Agora está completamente diferente - tinham de gritar - não perece aquele cara simples e abobalhado... __ Mas ele é lindo, admita! __ Eu já sei disso! Não precisa ficar me lembrando! __ Tenho certeza que se chegar aqui, você sai com ele! __Eles são todos lindos! Adoro quando tocam! - gritou do lado delas a senhora que derrubava bebida. __ A senhora conhece algum deles. __ Sim. Em quais vocês estão concentradas? Meio sem jeito, ambas apontaram para Gascoin destroçando uma Fender Stratocaster vermelha. __ Ah! O cara da guitarra? Esquece! Vocês duas são lindas, mas hoje não conseguem nada! Mirele foi mais rápida. __ A senhora o conhece? Ela afirmou com a cabeça sugando o canudo da bebida azul. __ Por que acha que não temos chance? - Liv tentou demovê-la do inquérito. __ Ele está apaixonado por uma mocinha canadense! - gritavam as duas pra conversar - Eu o conheço há algum tempo e jamais o vi desse jeito. Detesta a América. Não negocia com americanos para não ter de ir aos Estados Unidos. O Canadá ele até que gosta porque parece a Europa. Onde nós moramos. __ E a senhora sabe quem é a moça? Talvez nós a conhecemos. Temos muitos amigos. - disse Mirele. __ Ele disse o nome, mas não me lembro... É um nome pequeno... - como é fácil tirar informação de bêbado! __Liv? - Liv quis saber. __Acho que é isso mesmo. Henri disse que era uma canadense metida a francesinha! Frank, o diretor da equipe dele me pediu para fazer tudo dar certo! - exagerou na entonação para dar mais dramaticidade à informação, com ironia. __Tem certeza do nome? - perguntou Liv, a voz rouca quase sumindo nos acordes da banda. __ Não, mas meu marido sabe. A coisa é tão inédita que até o diretor da equipe dele está torcendo pra dar certo! Quem sabe ele pára de fazer burradas. __ Que tipo de burradas? __ Ele andou se metendo numa encrenca que ninguém sabe qual é... - um homem sábio disse uma vez "jamais subestime o departamento de investigação da vida alheia", estava certo - Desapareceu por um mês. Deixou todo mundo da equipe com os cabelos em pé. Decisões importantes que só ele podia tomar ficaram sem rumo. Foi nesse desaparecimento que ele conheceu a tal francesinha! As duas se olharam. Mirele fez um sinal com a cabeça que aquilo não tinha como ser combinado. __ A senhora não ta fazendo propaganda dele, não é? __ Pelo que conheço de Henri Gascoin? Jamais! Se minha filha se apaixonasse por ele eu entraria em pânico. Ele não é do tipo que considera. No primeiro dissabor ele abandona quem for. Desta vez está sendo diferente. Mirele deu um tapa no braço de Liv. __ Essa tal moça daqui precisa ensinar o que fez para deixá-lo desse jeito. Deve ser uma conquistadora espetacular! - completou a mulher. __ E onde está seu marido? Ela tropeçou e apontou pro palco. Estavam tocando Sultans of Swing. __ O projeto de Mark Knopfler ali! - avançou um pouco em direção ao palco - Vai amor! Arrebenta! E Solberg caprichava na voz. Ana chamou a atenção de Gascoin e fez um gesto que ele não entendeu. __ Você está bonitão! Tem gente de olho em você! Ainda tocando ele perguntou quem era. Ela apontou pra mesa do fundo com duas moças coradas, uma delas era especialmente linda. Gascoin sorriu e cumprimentou as duas com um meneio de cabeça. Mirele sorriu, levantou, acenou, e Liv fez um sinal discreto com a mão. Reuniu a banda e pediu para tocar um som. Solberg protestou. Disse que não tinha timbre de voz para chegar àquilo, mas Gascoin insistira. Apontou o dedo para ela como se dissesse "essa é pra você". E mandou os primeiros acordes de "Don't tell me", um Van Halen pesado que Solberg teve de se esforçar pra cantar, mas ficou bom. Ao final da música e sob os aplausos da galera, eles desceram, pegaram suas bebidas e foram no meio do povo enquanto a banda original subia novamente para seu repertório já conhecido. Gascoin foi com o amigo até onde sua esposa boca-aberta estava. __ Não sabia que gostava de Rock. __ Não sabia que você tacava guitarra. __ Eu achei demais! - disse Mirele. __ Será que podemos conversar? Eu sei que você já me mandou embora uma vez, mas to a fim de insistir. - sorriu enviesado. Isso ela adorava, mas manteve-se firme. Era teimosa. __ Não vou te mandar embora, Gascoin, porque eu quero saber uma coisa... - ela estava séria, não sorria nem um pouco - Qual o nome do baterista? Ele é bonitinho - mantinha os olhos fixos aguardando uma reação. Até Peter e a mulher puderam ouvir o rangido dos dentes dele. __ Eu disse pra ela que você está apaixonado por outra moça! - meteu-se novamente a bêbada. Liv cerrou os olhos que já eram pequenos. Os lábios grossos tremeram rapidamente. Mantinha-os cravados nele. Gascoin sabia quando havia sido derrotado. Além do que tinha outra coisa importante para pensar no momento. Seus planos eram ficar mais uma semana no Canadá e ir para a Europa no começo de março. Aquilo mudaria os planos. A mocinha era maravilhosa, cativante, apaixonante, mas as coisas tinham limite. Gascoin saiu da mesa. Mirele quase enforcou a amiga. Ele retornou segundos depois puxando um cara pelo ombro. __ Charlie, essa é Liv Duncan. Liv este é o Charlie. Aproveite o papo porque ele tem de voltar a tocar. Charlie essa moça é especial, mas cuidado: se magoá-la estará no inferno! __Espera um minuto, essa é a tal Liv? - perguntaram quase ao mesmo tempo Peter e a esposa. __ E ai gatinha? Seus olhos são lindos. - disse Charlie - Eu nunca vi você por aqui... Os olhos eram lindos realmente e estavam olhando para a porta. Mirele queria matar a amiga e ir atrás de Gascoin, mas naquele momento ele já entrava no carro e mantinha a cabeça em algo mais importante que Liv Marie. "Parece isolada em dois diferentes aspectos, tenho de tentar entender." Seria a última mensagem. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Qua, 20 de Fevereiro de 2008 03:35 |
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21/02/2008 - 04:50:35 |Registered| Raferty

