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Conquest - "Nera Nocte" Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos

Escrito por Brunno
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Qui, 06 de Março de 2008 09:30
A porta era um achado de controvérsias. Ao mesmo tempo em que era uma porta antiga e simples, de madeira entremeada de vidro fino, moda na época da construção da casa, as marcas de aranhão profundos no batente indicavam que haviam feito algum tipo de manutenção recente.

Essa manutenção era um sistema de alarme de última geração. Contava com uma câmera de vigilância apontada para baixo, essa câmera provavelmente iria disparar um alarme quando a imagem da varanda se alterasse. Gascoin estava numa posição difícil. Olhava a câmera diretamente acima dele, olhando para ele e não ouvia nada nem sequer notava qualquer alteração na rotina da guarda.

Por outro lado podia ser um alarme silencioso disparado dentro de uma das salas da casa onde somente uma luz acendia e indicada de qual câmera vinha a denúncia. Mas ainda havia uma chance de apenas estar tudo desligado.

Não havia contado com aquele tipo de alarme. O que aconteceria agora seria o mesmo que tentar achar uma lâmina de bisturi sobre uma mesa lisa no escuro.

Gascoin sabia muito bem do que Bear Lince era capaz com uma arma. Não adiantaria tentar manobras incríveis, o jeito era improvisar. Tirou de dentro da roupa um estojo de couro pequeno com cinco tiras de metal de diferentes formas. Antes de se tornar mercenário havia executado alguns contratos para figurões europeus apaixonados por obras de arte, jóias raras e outras coisas. Dos tempos de ladrão havia restado uma facilidade quase acadêmica para abrir fechaduras. Por sorte aquela era uma porta antiga.

Entrou de peito aberto, não imaginava o que iria encontrar, então, não havia muito mesmo o que fazer. Ainda sem barulho e sem movimentação suspeita. "Ah! Claro" lembrou, "eu sou a movimentação suspeita".

Esquivou-se rapidamente para uma sala lateral a que havia entrado e aguardou. Por trás da máscara negra pôde ver que um dos guardas do corredor vinha na direção da sala onde havia entrado. O homem não estava agitado, portava sua lanterna normalmente, não estava em posição de ataque, mas Gascoin viu quando ele destravou o botão de pressão do coldre da arma. Estava detectado.

O guarda portava também uma sub-metralhadora presa ao peito e, antes de entrar na sala, desistiu de sacar a bereta e levou a mão ao cabo da arma mais pesada. Entrou da maneira natural conforme o protocolo de invasão do esquadrão de pára-quedistas da 8ª Companhia de Blindados: mirando a esquerda, postado à direita.

Não achou nada. Avançou para dentro da sala de arma em punho e notou que estava vazia. Deixou a sala e avançou pelos quartos laterais. Sem sucesso. O invasor estava pendurado por trás de uma das imensas tapeçarias de parede num dos lados do quarto. Como o pano era pesado e irregular, o guarda não notou diferença.

__ Ala Sul está limpa. Verifiquem o perímetro novamente e façam checagem de pessoal. Informem o comandante.

A checagem de pessoal é que era o problema. Logo iriam notar que dois dos homens não respondia às mensagens. Tinha de agir rápido. Lince sabia porque fora contratado, mas como era costume, não sabia o que o homem a quem deveria proteger tinha nas mãos. Conhecera Fabre há doze dias quando chegou do Chipre, onde estava escondido depois de uma missão mal sucedida em Jacarta. Recebeu ordens de não deixar que ele fosse morto, somente isso.

Desde que haviam se separado, Gascoin tornou-se muito mais influente no mundo dos negócios ilícitos, obtendo informações privilegiadas de governos e empresários, sabia exatamente onde Lince estava no Chipre, não fazia nada porque não era necessário.

Normalmente os mais experientes no setor têm uma vida financeira modesta, porém, tranqüila durante algum tempo. Sempre o suficiente para iniciar uma nova missão, executar um novo contrato. Mas depois da grande queda do Grupo a que pertenciam, na Inglaterra, Lince ficou taxado como um homem incapaz de resolver coisas grandes, portanto, sabia Gascoin, que a situação dele para conseguir novos contratos não era das melhores.

Veio então, via rádio, uma ordem do chefe dos guardas.

__O perímetro está verificado. Concentrem-se no marco zero.

Ah, o velho marco zero. Ouvira claramente a mensagem. O guarda do corredor voltou-se para a escada e começou a descer vagarosamente, não reparou o vulto negro que habilmente escalou o corrimão da escada descendo por uma das pilastras da sala e pousando silenciosamente numa mesa de madeira abaixo. O invasor cobria terreno.

Num dos cômodos da casa o Duque de Montmartre caminhava nervosamente. Vestia um chambre de seda vinho por cima do pijama preto, bebia conhaque e falava ao telefone.

__Não podemos nos arriscar dessa maneira. - o homem era altivo além do costumeiro para sua idade. Brandia as mãos com veemência e afrouxava a gola do pijama - Sabe que tenho de manter certo, como direi, estatus para os olhos curiosos. É imperativo que convença o homem de que esta informação é correta, do contrário, teremos de arcar com mais cinqüenta anos de fracasso! - e desligou.

Manteve-se na janela de um dos escritórios da casa, o que ficava voltado para a fachada dando visão da deslumbrante entrada com o jardim mantido por um exército de empregados, onde depois de aparar a última árvore em forma de esfera, a primeira já tinha virado um carvalho de trinta anos.

O duque havia atingido aquele estatus com algum trabalho e muita esperteza. Era merecido de qualquer maneira. Passara anos sem ser incomodado pelo governo, mesmo depois de sua identificação como membro da OAS (Organizatoin de l'armeé secrète) a Organização do Exército Secreto.

Jamais haviam provado seu real envolvimento e de repente surgira uma grande oportunidade. Há pouco mais de dois meses ele fora procurado por um antigo colega de Regimento. Esse homem dizia que tinha falado com outro dos colegas daqueles tempos e o amigo dizia ter tido uma conversa interessante com um funcionário de uma grande empresa.

O tal funcionário já havia passado informações para um conhecido mercador de armas de Budapeste, o que atrasara, anos atrás o lançamento de uma nova linha de armas leves. Aquele homem, agora, tinha coisas maiores nas mãos.

Informações sobre sistemas computadorizados, extremamente modernos, de gerenciamento de armas de grande potencial. "Quão grande potencial?" perguntou Montmartre na primeira reunião que teve com o tal funcionário.

"Do tipo que pode desestabilizar um governo, ou simplesmente destruí-los". Mesmo com todos os cuidados extenuantes empregados pela administração da Divisão Bélica da Corporação Triangle, as mãos armadas de Victor Vox, uma informação como aquela havia vazado.

Coisas desse tipo são corriqueiras no mundo dos negócios. Atualmente uma simples visita de confraternização às instalações de qualquer grande empresa, proíbe terminantemente que os convidados portem celulares com câmera. Era graças à imensa variedade de tecnologias de coleta de informação que o homem vestido de preto tinha trabalho.

No mesmo instante que o Duque terminava sua segunda dose da bebida de cor cobre, esse homem resvalava por um de seus corredores minando o quarto fechado pela terceira porta à direita, cuja janela dava vista da ala Leste da mansão.

Em outra ala o comandante Lince estava sentado numa cadeira reclinável, com os pés sobre uma mesa baixa e tinha nas mãos um exemplar do clássico "Q'but al Alá", ou o Punho de Deus, na transcrição para o árabe do original inglês de Frederick Forsyth. Dos lados de seu tronco esculpido por duas guerras e centenas de pousos em território hostil duas pistolas Glock 9mm pendiam calmamente.

Um dos guardas entrou e parou diante do comandante, sem prestar continência, afinal, não eram militares.

__Senhor, dois guardas não respondeu ao chamado de rádio. Mandamos procurá-los e ainda não foram encontrados. Acho que devemos intensificar as buscas pela mansão e manter silêncio de rádio.

__São mais de quarenta guardas espalhados pela casa - ele deixou o livro sobre a mesa, marcado na página em que o piloto americano descobre a traição de seu general - vou falar com o Duque.

Gascoin ouviu mais passos no corredor de baixo. Três homens subindo sem pressa. Estava há menos de seis metros da porta e deixou mais um dos explosivos plantados no chão. Correu até outra porta e ativou novamente o visor de calor dos olhos de safira, ninguém dentro. Entrou e manteve silêncio.

Paris novamente. Pela janela da varanda pouco confiável vinha uma música que ela adorava. Ainda com as roupas de passeio Liv foi até a porta e recostou no batente. Abaixo e do outro lado da rua um jovem cantava e tocava um violão velho. Aos pés tinha o estojo do instrumento e esperava que alguém atirasse algumas moedas.

O jovem cantava Something to believe in. Alguém passou por ele e atirou centavos de euro no estojo. Rapidamente ele parou de tocar e foi conferir seus ganhos. Liv via de cima o desespero do rapaz de pouco mais de vinte anos, que notou que não havia dinheiro suficiente para o que precisava.

Teve pena e desceu imediatamente. O jovem chorava sobre o instrumento. A morena atravessou a rua e perguntou o que ele queria. O rapaz disse que tinha fome. Era um viajante que havia sido assaltado e nem sequer pensava mais em casa ou nos documentos. Liv foi até o café há um quarteirão de distância e trouxe pães e café fresco.

O rapaz tomou rapidamente das mãos dela, sentou e começou a comer em meio a lágrimas. A tristeza dela imediatamente mudou de endereço e motivo. Depois de comer uma parte dos pães e guardar outra ele disse que não tinha como pagar. Ela disse que obviamente não precisava, era pela música.

Mais calmo o jovem perguntou o que ele fazia naquele hotel. Rapidamente explicou que havia deixado o Canadá e o que tinha passado para estar ali. "Deve ter um motivo e tanto" disse o jovem ainda com restos de croissants em torno da boca. Liv olhou na direção de Poissy.
Ele deitou novamente o instrumento sobre a perna e entoou uma canção especial para ela. Algo como "não sentirei sua falta como uma criança sente de seu cobertor, mas tenho de seguir em frente com minha vida, é hora de ser uma garota grande porque garotas grandes não choram".

Era uma musica nova que na verdade ela nem gostava muito. Sentiu uma falta enorme do velho Red Neck e de Niágara Falls. Despediram-se e o rapaz guardou suas coisas e tomou seu rumo bem mais feliz e satisfeito do que antes.

Sem sono sentada na cama ela se perguntou mais uma vez se aquilo valia a pena, se Gascoin valia a pena. Quem era ele afinal?

O homem de preto estava recostado sob a parede abaixo da janela do cômodo oposto ao quarto do alvo. Duas armas em punho miradas para a porta. Passos e vozes dos soldados do lado de fora retornavam no rádio no ouvido direito.

"Pause de protocole" ouviu claramente. "L'intencification de niveau de sécurité". Puxou os dois percussores das armas pondo uma cápsula dourada em cada câmara. Os soldados deram meia volta conforme indicava a imagem ruim, porém útil, dos visores de calor.

Luzes se acenderam do lado de fora. Por trás da cortina da janela viu que eram dois jipes com motoristas e soldados na parte de trás. Iriam começar a caçada.

Dentro de um Boeing 747 com o emblema de um diamante negro e um V inscrito, abaixo das letras discretas "V.Corporation καθιστωντας το μελλον", que traduzido do grego significa "Fazendo o Futuro", o presidente da maior multinacional do mundo revisava relatórios financeiros e conversava por vídeo conferência com especuladores de bolsas de valores de oito países.
Em outra das mesas de conferência montadas dentro do jato adaptado, Amanda Vox enviava ordens ao setor "Speed" da "Poseidon Divison", mar e guerra, da qual era presidente, quando o celular do marido, dentro de sua bolsa começou a tocar.
Ainda com o fone portátil no ouvido ela foi até onde ele estava.
__É o presidente da França, e dessa vez cuidado com a língua! - alertou e voltou a seu lugar.
Vox pediu licença a seus conferencistas e atendeu a ligação. Ouviu atentamente por poucos segundos.
__Está certo, Nicholas. Farei como deseja. Se o General Jubert tem certeza do que diz, então é melhor que façamos como sugere. Vou elevar o nível de alerta de meus homens para Nera Nocte.
Desligou e preparava-se para voltar às suas ligações quando foi interrompido pelos exuberantes olhos verdes na porta do que era seu escritório naquele momento. Amanda desligou sua chamada e fitou o marido friamente.
__Ouvi você dizer Nera Nocte? - ela tinha a voz rouca e sabia entoná-la à perfeição quando queria manipular Victor.
O marido a fitou com toda calma, sério. Confirmou que dissera ao presidente da França a intenção de emitir uma ordem tipo "noite negra" a seus homens. Amanda tentou argumentar, mas foi dissuadida pela lábia do cônjuge.
Vox emitira a ordem pouco depois de pôr sobre ela um edredom confortável na cama da suíte do avião e dar-lhe um beijo carinhoso de boa noite. Voltou a seus afazeres.
Na face norte da Ilha de Tenébria, casa de Vox, um homem trajando o uniforme azul-marinho e preto da equipe Spartan, um dos batalhões de defesa da Corporação, recebe uma mensagem em seu telefone seguro. Anota atentamente num papel a mensagem cifrada e leva até seu comandante, Argos Lipsi, que a decifra e põe em movimento.
Cinco minutos depois, exatamente às duas e trinta e seis de uma madrugada fria e enevoada sobre o Mar Egeu, os soldados do exército particular de Vox ouviram o rugir agudo das turbinas de dois caças F-18 Hornet que taxiavam pela pista dois, sentido 18-30. O plano de vôo incluía uma escala para reabastecimento do porta-aviões norte-americano USS Michigan, ancorado próximo à costa da Croácia e o destino final das aeronaves era a divisa da França com a Suíça.
Antes de iniciar as manobras de decolagem os dois pilotos e seus oficiais artilheiros, nos assentos de trás, haviam verificado suas armas e constatado que estavam carregando mais de três mil projéteis para as M61 de 20mm de calibre, dois mísseis wingtype, quatro sidewinders e três AGM-65 mavericks, estes especialmente projetados para destruir alvos no solo.
O tempo estimado de chegada contando o reabastecimento era de três horas e meia.
Pouco depois de emitir essa ordem, Vox mandou outra para a Base Militar de Champ Lemoine, quarenta quilômetros ao Sul de Nancy, nordeste da França.
Neste momento dois celulares recebem uma a mesma mensagem.




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Conquest - "Nera Nocte"
Qui, 06 de Março de 2008

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Última atualização em Sex, 07 de Março de 2008 04:09
 
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