
| FILHO ADOTIVO |
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| Literatura - Contos - Romance |
Escrito por Silvana |
Qui, 20 de Março de 2008 06:27 |
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O sol começava a se pôr por trás das montanhas. Aos poucos o céu foi ficando num tom amarelo escuro. Uma paisagem linda que aos meus olhos naquele dia não parecia. Provavelmente a transformação de claro para escuro foi rápida, mas para mim pareceu durar uma eternidade. Todos os finais de tarde ficava ali, na janela, olhando para a montanha silenciosa, vendo-a se transformar em um monte escuro adormecido para a vida. Éramos iguais, durante o dia, belas e vivas, e durante a noite morríamos sozinhas no silêncio da solidão. Em muitos dias ao sentar-me diante da janela e olhar para montanha deixava as lágrimas lavarem meu rosto, com elas escorria toda a amargura e tristeza dos últimos anos. Dez anos, para ser exata, há dez anos que vivia numa pequena fazenda localizada próximo das colinas, cinco quilômetros longe do resto da cidade. Não lembrava mais qual à última vez que sai de casa para ir a cidade, nem qual foi à última vez que falei com alguém. Nem sempre fui assim. Aos dezoito anos conheci o homem da minha vida, em poucos meses estávamos casados e felizes, um ano depois tivemos um filho, a felicidade era completa. A maternidade era toda minha vida, um amor incondicional, divino. Meu marido era ainda mais apaixonado pelo filho. Estávamos economizando para comprar uma fazenda perto da colina, a mesma onde moro hoje. Tudo parecia dar certo até meu filho adoecer. Três meses depois a doença venceu e o meu menino morreu, deixando um vazio imenso. Dor maior foi ver meu marido sucumbi à perca do filho amado. Tudo fiz para trazê-lo de volta a vida, mas nada adiantou, com poucos meses de diferença enterrei meus dois amores. Os dois homens que amei de verdade. Comprei a fazenda de nossos sonhos e me enterrei nela. Dez anos vivendo longe de tudo e de todos. Durante o dia cuidava da fazenda, da lavoura, da casa e dos animais que eram meus únicos companheiros. Durante a noite ficava na janela, nem um som, nem uma voz, somente o silêncio. Era assim, todos os dias iguais. Lembro-me claramente daquela noite, à noite que houve um novo som. Eu estava na janela a recordar os dias felizes da minha vida, as lágrimas começavam a brotar em meus olhos quando um som distante arrancou-me dos meus sonhos. Podia ser um animal ferido, mas meu coração soube de imediato que não era, involuntariamente sai de casa e fui andando em direção da montanha, a escuridão da noite mal me permitia ver alguns passos à frente, mas à medida que avançava o som ficava mais. Nessa altura meu coração batia tão rapidamente que parecia produzir um som tão alto quanto o ruído, o suor começou a descer junto com arrepios pela minha coluna. O ruído estava muito próximo de mim agora, mas a escuridão não me permitia visualizá-lo. Abaixei-me e passei a alisar o chão. "Devia ter trazido uma vela para iluminar meu caminho. Senhor do céu ilumina meu caminho escuro, providência a luz necessária para meus olhos". Foi um pensamento, talvez uma oração, não sei. A verdade é que depois de alguns passos toquei em algo que fez meu coração acelerado quase parar. Movia-se e o ruído agora se transformou em um choro parecido com o miado de um gatinho, perninhas e mãozinha se movimentavam esticadas para mim. Na escuridão da noite a única coisa realmente visível era um par de olhos verdes como águas do fundo do mar, que olhavam para mim, tocando profundamente meu coração ferido. Uma mistura de medo, alegria, desespero e felicidade, me paralisaram. Eu que há muito tempo não rezava, me encontrei ajoelhada e agradecendo a Deus, nem sabia ao certo o que agradecer, mas sabia que devia. Juntei o pequeno e tentei me equilibrar nas pernas tremulas para voltar para casa. O caminho pareceu mais longo e a cada passo, descobria um novo sentimento, ou redescobria os velhos. Um coração que parecia não saber mais o que era amar, voltou a bater, e batia agora com mais força do que nunca. Dessa vez não era um homem que eu amava, mas uma mulher, a mais bela das mulheres que conheci, uma menina de olhos verde encantadores, que aos poucos foi crescendo e transformando minha vida solitária num mar de alegria. Bendito seja quem a deixou na colina, bendito seja Deus que me colocou em seu caminho, bendito seja todos os anos que passamos juntas. Todas as crianças que dela vieram e encheram a fazenda e minha vida. Aos noventa e oito anos, deitada na minha cama me esforço e chego a janela, olho para montanha que durante anos foi minha única companheira, assisto ao espetáculo do céu, admiro a beleza de sua transformação, aplaudo sua cor, sua beleza, sua magnitude. Despeço-me, pela última vez, agradeço e volto para cama, fecho os olhos e durmo tranqüilamente o sono eterno.
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| Última atualização em Dom, 06 de Abril de 2008 08:44 |
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03/04/2008 - 12:13:18 |Registered| Elel
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30/07/2008 - 06:23:00 |Registered| Pandora
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18/08/2008 - 17:37:56 |Registered| FatimaCangussu
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02/09/2008 - 07:45:02 |Registered| Aline DornellesLinda sua narrativa! O que mais gosto de ver aqui no autores é sensibilidade a flor da pele! Parabéns!
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01/01/2010 - 12:48:24 |Registered| José Emir




