| O Fantasma da Máquina |
|
| Literatura - Contos - Diversos |
Escrito por offline |
Seg, 24 de Março de 2008 10:25 |
|
O ano de 2050 era um ano completamente mecanizado. O mundo havia mudado muito desde que um inesperado cataclisma havia atingido sua sociedade. O planeta havia sido tomado pelas máquinas. Os prédios se moviam, as ruas eram esteiras de titânio, a fauna e a flora haviam desaparecido e a única coisa que sobrara de humano fora os robôs que mantinham sua aparência externa semelhante a seus antecessores. As colinas eram recobertas por mantos metálicos, de onde se observava o novo mundo. Um mundo completamente tecnológico e auto-suficiente.
Nesse mundo dominado pelas máquinas, um robô operário havia adquirido a inexplicável capacidade de pensar. Suas equações lógicas, processos internos e complexos matemáticos, acabaram por formar, ao longo dos anos, o que poderíamos chamar de "consciência". Ele não revelara isso a ninguém, mas tinha certa curiosidade em explorar o mundo. Aliás, a única coisa que havia sobrado das épocas passadas, era o lindo pôr-do-sol que desbravava o horizonte nesse instante. O brilho do sol num mundo mecanizado tornava a aparência do planeta mais humana. O robô operário, de nome Fusion A-25, terminava seu trabalho de levar materiais inutilizados ao topo da colina, trabalho que gostava muito, pois sua nova mente apreciava observar o céu e suas nuances. Queria poder descobrir como era o mundo dos humanos. Era mais um dia normal de trabalho, onde F-A-25 descarregava as coisas no topo da colina. A montanha já estava chegando ao limite. Ele acionou sua tração e dirigiu-se ao topo da colina. Ao chegar em cima, parou um bom tempo para observar tudo e continuou seu serviço. Ao descarregar a última parte da carga, o chão, que já não estava aguentando, cedeu. Toda a pilha de lixo tecnológico desabou, junto com F-A-25. O desabamento acabou por revelar que a montanha possuía um hangar escondido dentro dela. Fusion desvencilhou-se de todo o lixo, ligou suas lanternas oculares e observou o estranho lugar. Ao redor havia inúmeros computadores velhos, suprimentos e salas. Talvez tenha sido o último refúgio humano antes do cataclisma atingir a todos. Fusion observava com certa curiosidade tudo aquilo que estava em sua frente. Guardou minuciosamente em sua mente todos os detalhes que havia visto. Ele iria voltar lá. (...) No dia seguinte, propositalmente levou uma carga à mais para poder ficar mais tempo. Ao descer no hangar abandonado, notou que em seu braço direito uma luz intermitente piscava cada vez que se aproximava do computador central. Resolveu checar. Notou que nunca havia prestado atenção àquele implante biônico, mas hoje iria descobrir do que se tratava. Aproximou-se do computador antigo e direcionou seu braço para ele. O velho computador acordou. Uma mensagem embutida no implante surgiu na tela principal. "Se você está vendo esta mensagem, é porque já fez sua escolha. É chegado o momento de saber o que ocorreu. No ano de 2010, cientistas descobriram um composto químico que, ao mínimo contato, transformava qualquer coisa em metal. Era altamente volátil, mas decidimos prosseguir com nossas pesquisas. Fundamos a empresa Metallo, responsável pelo tratamento do novo composto. Devido à sua alta periculosidade, construimos robôs que nos auxiliariam na tarefa. Um robô de nome Fusion era muito inteligente, se é que podemos dizer assim, mas sua mente trabalhava com equações lógicas mil vezes mais rápido que os outros robôs convencionais. Devido a sua habilidade, tornou-se nosso braço direito. Tudo ía bem até que um certo dia uma pergunta feita pelo protótipo F-A-25 nos surpreendeu. A pergunta era: ‘o que nos torna humanos?' Eu tentei explicar que sua constituição era diferente da nossa, mas que havíamos implantado em sua mente características humanas, tais como socialização, aprendizagem e capacidade de raciocínio. Mas que não era humano. Era uma máquina. Não sei ao certo, mas parece que ele não gostou muito de saber que estava sozinho. Mas o trabalho prosseguiu. Demos mais tarefas a ele e o encarregamos da posição de chefe geral da administração da empresa. Num certo dia, notamos que ele havia adquirido a criatividade. Com o material à sua disposição, deu vida a seres inanimados com o novo composto de metal. Tentei explicar-lhe que isso seria perigoso, mas ele não me deu ouvidos. Após alguns dias, seus novos companheiros convenceram-no de que mereciam liberdade e um lugar em que pudessem viver. Naquele dia, cheguei a pergunta-lhe o que estava fazendo e me arrependi profundamente. "Criando um novo mundo" - respondeu. "Pense bem no que vai fazer! "Eu não sou humano, como você mesmo disse." E então, a explosão aconteceu. A empresa Metallo foi pelos ares, e com ela, todo o composto químico. A cidade começou pouco à pouco tornar-se mecânica. Implantei-lhe um chip em sua mente, para que quando chegasse a hora certa, ele soubesse o que havia feito. Foi uma escolha e todos nós a temos. Não o culpo." O robô deixou cair o restante de seus materiais e esbarrou na maquinaria. Todos os computadores cairam sobre ele e um curto-circuito se espalhou. No chão havia um restante do que sobrara do composto químico. Ao juntarem-se, uma pequena implosão ocorreu. Fusion foi jogado longe. Em sua frente acabara de se formar uma abertura no espaço dimensional. Era um azul intenso, povoado por muitos raios. A visão se formou. Em sua frente, a imagem da empresa Metallo e de seu mestre apareceu. Se ele quisesse, e somente se quisesse, ele poderia voltar no tempo e mudar tudo. Era um grande dilema para um pequeno cérebro artificial. Ele gostava de seu novo mundo, mas algo dizia que alguma coisa estava errada. Por que ele gostava de observar o pôr-do-sol? Ele sentia algo inesperado ao fazer isso. Um sentimento "humano"... O passado estava em sua frente, e o futuro em suas costas... (...) Fusion jogou-se na abertura dimensional e chegou ao ano de 2010. Ele iria consertar tudo? Ou faria algo diferente? Aproximou-se de seu mestre e o cumprimentou. - Fusion? - Sim. Vim consertar meu erro... - Que erro? - Você logo saberá. Fusion puxou-o e carregou gentilmente seu corpo através da abertura dimensional. (...) O mundo que se destacava aos olhos do cientista, era um mundo completamente novo. O ano de 2050 era um ano completamente mecanizado. O mundo havia mudado muito desde que um inesperado cataclisma havia atingido sua sociedade. O planeta havia sido tomado pelas máquinas... - Não entendi. - indagou o cientista. - Você me disse que tudo era uma questão de escolha, e percebi, que o que me fazia falta, era a companhia de um humano. - Mas por que? - Lembra-se da pergunta: ‘o que nos torna humanos?' - Sim. - E você me respondeu que minha constituição era diferente da sua, mas que havia implantado em minha mente características humanas, tais como socialização, aprendizagem e capacidade de raciocínio. Agora quero retribuir-lhe o favor. Vou implantar-lhe características nossas e com o tempo você irá entender esse novo mundo mecanizado. A catástrofe era inevitável, e eu escolhi salvá-lo. - Entendi. Tudo é uma questão de escolha, não é mesmo? Acho que agora, eu é que irei me sentir sozinho... Não sei ao certo, mas parece que ele não gostou muito de saber que estava sozinho. Mas o trabalho prosseguiu. Demos mais tarefas a ele e o encarregamos da posição de chefe geral da administração da empresa... - concluiu o robô. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Seg, 24 de Março de 2008 10:34 |

