| Nanda |
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| Literatura - Contos - Diversos |
Escrito por Guilherme Fava |
Qua, 02 de Abril de 2008 17:13 |
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"Não posso mais agüentar tanta dor aqui dentro, tenho que desabafar e contar todas as minhas magoas, tudo o que me aflige e me faz sofrer por dentro. Meus sentimentos não são claros, pois, aparentemente tendo disfarçar e demonstrar que nada vem acontecendo, mas o meu coração está apertado como se fosse espremido por uma morsa. O meu espírito segue, e minha mente questiona, pois ela tem tentado me ajudar a entender, ajudado achar um significado na minha vida de novo, ainda não estou vivendo minha própria vida, enquanto tudo se escurece sobre minha cabeça, sinto que após minha morte tudo se revelará, pois ainda não me sinto realmente viva".
Nanda viajava entre os seus pensamentos, dentro daquela sala pequena cheirado a margaridas murchas e velas queimadas. Estava no velório de seu pai, que perderá para o câncer, após longos trinta e dois anos fumando trinta cigarros por dia, um pobre trabalhador, que entregou sua vida inteira ao trabalho e ao sustento da casa, criara Nanda sozinho com muito custo, dizia ele __ "sua mãe está trabalhando fora para ajudar o papai querida, logo ela vai voltar"... __ a garota tinha apenas dez anos, mas não acreditava nas desculpas do pai, ouvia toda a vizinhança dizer __ "você ficou sabendo... ela largou o marido com a filha, que mulher seria capaz de fazer isso" __ alguns anos depois Nanda arrumando o quarto do pai descobrira uma carta escondida no fundo de uma gaveta, a sua mãe tinha deixado a carta ao marido no dia de sua partida, mas ali não dizia os motivos de sua partida. Chovia muito aquele dia, conseguia ver nos olhos daquela garota, a vida parecia sem sentido, sem luz ou calor, o frio que fazia trazia lembranças na mente de Nanda de velhos dias sofridos junto ao pai, com pouca comida e alguma roupa quente. Sua madrasta segurava as suas mãos e alisava seus longos cabelos lisos e negros, seus olhos azuis olhavam no fundo dos olhos da garota dizendo: ___ Tudo acabará bem, eu cuidarei de você! O seu perfume barato comprado de alguma amiga que vendia cosméticos de baixa qualidade nas portas das casas, mais parecendo a talco do que alguma fragrância conhecida impregnava no agasalho de Nanda, seu vestido preto desbotado, que há anos estava guardado no fundo do guarda-roupa, os óculos escuros tentando esconder os olhos roxos de dias tristes. Ambos se conheceram em uma feira num domingo ensolarado, acabaram se gostando, Elizandra conheceu a história de Jonas e se comoverá Jonas já estava interessado em Elizandra, pois já havia algum tempo em que a idéia de se casar de novo lhe martelava na mente, criou coragem e pediu Elizandra em casamento. Foi uma cerimônia simples, apenas quarenta pessoas estavam presentes, acredito que Jonas ainda estava pagando os custos daquela festa até hoje. Ela criou Nanda como se fosse sua mãe, dedicando a casa e ao conforto do marido, conseguirá reerguer Jonas, as coisas andavam em perfeita ordem. As pessoas faziam fila para cumprimentar Nanda e sua madrasta, e diziam que sentiam muito pela morte de seu pai, Nanda apenas balançava a cabeça em sinal de obrigado, não sentia nada, nem mesmo tristeza em seu coração, o que queria realmente era sair correndo no meio da chuva para lugar nenhum. Observava as pessoas dentro daquela sala, pessoas que nunca se preocuparam com a saúde de seu pai, estavam ali chorando a sua morte. Os dois irmãos de Jonas faziam questão de dizer: ___ Meu irmão era um santo, nunca... Nunca fez mal a ninguém! Dizia o mais velho, com uma cara de piedade. ___ Eu sempre ia à sua casa e ele sempre me receberá muito bem! Dizia o caçula da família para algum tio que não via há anos. A família de Jonas era bem estruturada, os pais freqüentavam a missa todos os domingos, uma família religiosa e temente a Deus, Jonas era o filho do meio, o único que ajudava com os despesas da casa, dizia sua mãe... "__ Esse filho vale ouro!". ___ Cambada de falsos... Vagabundos! Pensava Nanda em um sussurro ___ Você precisa arrumar outra mulher Jonas! Essa garota precisa de uma mãe! Sempre criticaram o pobre velho de meu pai, agora ficam fazendo média para os parentes. Nanda não devia sentir aquilo, mas o ódio a corroia por dentro. ___ Elogios! Há! Agora depois de morto. Os elogios transbordavam de suas bocas, escapando por entre os dentes de seus tios. ___ Dois imundos, nunca gostaram do pobre irmãozinho, agora ele é santo... O dia caiu e a noite se levantou a chuva já havia cessado, e a lua reinava soberana, clara no alto, não demorou muito para os parentes e amigos irem, ficando apenas Nanda e sua madrasta. ___ Tudo bem com você Nanda? Você precisa de alguma coisa? ___ Comigo sim! E com você? ___ Não nada bem, a dor é muito grande, sinto meu coração apertado. ___ Em mim também Li... Em mim também. Disse Nanda com os olhos cheios de lágrimas. ___ Não se preocupe Nanda, eu cuidarei de você, serei sua mãe! ___ Desculpa-me Elizandra considero você como minha mãe, pois você me criou como tal, mas, eu sei que ela me deixou, e deixou meu pai num buraco, ele sentiu muito a sua falta até lhe conhecer, e você conseguiu tirá-lo de lá, mas eu não preciso de sua piedade, agora não! Eu sei que algum motivo forte a levou para fazer aquilo, e eu irei descobrir. ___ Se é assim que prefere! Mais saiba Fernanda que estarei sempre ao seu lado, você tem apenas quatorze anos e muita coisa na sua vida irá se transformar. ___ Agradeço a sua preocupação. O enterro de seu pai foi à mesma ladainha que todos os enterros são, as pessoas chorando, gritando, dizendo coisas sem pensar, dizendo estar preocupadas com o futuro da garota. Elizandra manterá-se serena e comportada, não chorava, acredito que não havia mais lágrimas a derramar. Nanda estava ao seu lado segurando a flor preferida de seu pai, e assim que seu ataúde de uma madeira vagabunda, comprado com muito custo, com as economias que o velho havia guardado há meses, estava depositado no fundo de sua cova, ela jogou a rosa em cima do caixão, havia um nó na garganta de Nanda, as palavras não saiam apenas o choro silencioso e sutil se podia perceber na face daquela garota. ________________ ___ Nanda! As dividas são muitas precisamos trabalhar o dobro para sustentar esta casa agora. Disse Elizandra após o enterro de seu marido, com a preocupação que não podia ser escondida na tristeza de seus olhos. ___ Eu sei Li, eu sei... ___ Seus tios nunca ajudaram seu pai, e ele sempre se virou, superou a depressão e estava se reerguendo na vida financeira e moral, ele não aceitaria se nós... se você aceitar alguma ajuda deles. ___ Nunca! Iria aceitar alguma coisa daqueles escrupulosos, não Li, não darei esse gosto amargo ao meu pai após a sua morte, muito menos não vou deixar que meus "tios" desfrutem do sabor doce da vitória. ___ Descanse criança uma vida nova amanhã teremos! Vamos seguir em frente. ___ É... em frente! Conseguia se ver nos olhos de Elizandra a preocupação, com as despesas e com a garota, Jonas nunca aceitou que ambas trabalhassem, ele queria que Nanda se tornasse uma advogada, e tentava com todas as suas forças para que Nanda somente estudasse, e no futuro passasse em alguma faculdade estadual e ganhasse uma bolsa de estudos. Naquela noite tudo o que Nanda esperava estava a sua frente, quase não acreditou no que estava vendo, ao entrar no seu quarto viu seu pai sorrindo, ele estava bem, a certeza que Nanda queria tanto ter estava bem a sua frente. Correu pela casa como uma louca, abrindo a porta do quarto de seu pai sem bater, Elizandra ainda estava acordada, soluçando abraçada ao travesseiro do marido. ___ Eu vi! Gritou Nanda ao entrar no quarto. ___ Viu o que querida? ___ Papai, eu o vi, e ele estava sorrindo para mim, não me disse nenhuma palavra, apenas me olhou nos olhos, mas eu o senti. ___ Oh querida! Você está tomando os seus remédios? ___ Eu não sou louca, ou coisa parecida, eu vejo os espíritos e eles falam comigo. ___ A morte de seu pai é muito recente, eu sei que você sente muito, mas não me machuque mais com essas histórias, eu não agüento mais tanta dor. ___ Papai! Apenas ele acreditava nas minhas visões, apenas papai. ___ Nanda! Eu acredito em você, mas querida isso lhe faz mal, isso só lhe machuca. ___ Se você acredita em mim, porque me obriga a tomar tantos remédios? ___ É para o seu bem! ___ É para o seu bem Nanda! Todos do hospital diziam isso, mas os choques, eles nunca paravam, mais ainda irei provar que tudo o que lhe digo é verdade. Suas visões começaram com cinco anos. Conversava, seu pai acreditava ser algum amiguinho imaginário, mas as conversas ficaram freqüentes, até a professora de Nanda chamar seu pai na escola. ___ Senhor Jonas, essas conversas que Nanda tem com seus amigos imaginários estão interferindo no seu desempenho. ___ O que a senhora me sugere? ___ Não sei ao certo! Mas tenho uma amiga psiquiátrica, uma excelente profissional, ela poderia tentar ajudar Nanda com esses amiguinhos. Eu acredito que a Nanda tenta suprir a falta da mãe com esses amigos. ___ Pode ser! Nanda ouvia a tudo escondida atrás da porta da sala de aula, ela já sabia que aquilo estava lhe prejudicando, seu pai achava tudo normal, mais as visões de Nanda estavam cada vez piores. ___ Olá minha Nanda! Ao se virar Nanda viu uma mulher de vinte e poucos anos, os cabelos curtos, os braços estavam marcados, pequenos pontos redondos, parecendo mais queimaduras do sumo de limão, apenas uma camisola branca cobria seu corpo nu, os olhos negros ao fundo revelavam que aquela mulher devia ter sofrido muito, ou estava ainda sofrendo, a pele pálida as mão ressecadas tentava tocar Nanda nos cabelos. ___ Não! Vai embora, eu... eu não posso mais conversar com vocês. ___ Nanda! Apenas quero que você me ajude, coisas estão acontecendo. ___ Todos acham que sou louca, não me importa, não quero saber quem você é não quero saber do seu problema, apenas quero que você se vá. CONTINUA * * * Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Qui, 03 de Abril de 2008 04:44 |

