| Lágrimas de Prata - Os Neutros |
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| Literatura - Contos - Policial |
Escrito por Brunno |
Ter, 06 de Maio de 2008 12:40 |
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Gabinete do Presidente dos Estados Unidos da América, duas horas e trinta minutos de uma tarde quente em Washington. O Secretário de Defesa chega dez minutos atrasado para sua reunião daquela tarde com o presidente.
Franklin Delano Roosvelt estudava, detrás de sua mesa, relatórios para a expansão da rede de comunicação de telefonia nacional, enviado pelo novo rico William Huges. Olhou por cima dos óculos de leitura o oficial do Serviço Secreto que abria a porta e anunciava o Secretário. Os dois homens cumprimentaram-se e o Secretário passou a relatar ao presidente o que ocorria na Europa. Trazia um documento enviado de sua base avançada em Berna, um dos primórdios do costumeiro serviço de espionágem norte-americano. Mais investigações eram necessárias, mas havia uma relação intensa entre sequestros de crianças europeias e o início da guerra. O presidente Roosvelt era um homem de opiniões reservadas, jamais se exaltava e raramente seguia propostas abusrdas, tanto as mais especulativas quanto às menos. Aquela era bastante absurda em sua visão, mas deu ouvidos assim mesmo. O relatório trazia os itinerários de onde e quando os sequestros das crianças haviam ocorrido, e coincidiam perfeitamente com a trajetória de invasão de Hitler. O presidente deixou o que lia sobre a mesa cortando o costume de ler uma coisa, prestar atenção em outra e entender as duas. Perguntou ao representando de seu governo se não podiam estar enganados. Dificilmente estariam. Se nada fosse feito imediatamente seria o tempo a dar razões ao homem que mandou executar aquelas investigações. Adolf Hitler ou algum outro alto funcionário de seu comando, havia emitido ordem para sequestro de desenas de crianças européias. Invariavelmente todas essas crianças dividiam características comuns: todas de pele clara, cabelos louros e olhos azuis, todas filhas de famílias católicas e nenhuma judia. Era o princípio de uma tentativa de mudar a história da forma mais bizarra já vista. Roosvelt olhou novamente por sobre os óculos, incrédulo e dando pouca credibilidade ao que lhe era dito. Hemenogia racial. Hitler pretendia criar uma geração de arianos perfeitos. Em tudo. O relatório enviado aviltava ainda a possibilidade de existir laboratórios de pesquisa espalhados pela Alemanha com o intuito de estudar e se necessário, "melhorar", a raça, eliminando "elementos considerados impuros". O presidente bateu seu relatório sobre a mesa e tirou os óculos. Encarou firmemente seu Secretário que dividia com ele, a mesma impressão. __Acha mesmo que Hitler etá tentando criar super-humanos? Acha que é possível um exército tão perfeito? __Não sei, senhor. Mas o que tenho certeza é que o homem que mandou fazer essas investigações não é conhecido por cometer erros. __Deixe-me ver isso - tomando das mãos do Secretário o grosso maço de folhas e indo diretamente para a assinatura de responsabilidade do documento - David Dwight Eisenhower... - recostou na cadeira -... Não imaginei que fosse ele. __Sei o que o senhor quer dizer. É como eu disse, senhor presidente, não é conhecido por cometer erros. O número um levantou-se e caminhou até a janela noroeste de sua sala. Esticou o queixo e cruzou os braços num gesto conhecido de seus assessores. Acendeu um charuto dos campos californianos e serviu-se de um bourbon do Tennessee. __Eis o que vamos fazer: envie uma ordem à divisão do general Eisenhower mandando que aprofundem essas investigações; peça-lhe para vir ao meu gabinete com urgência para explicar suas aspirações e impressões quando ao alemão e envie um comunicado, advindo deste gabinete à imprenssa mundial, declarando a neutralidade das forças americanas... O Secretário levantou-se para dizer alguma coisa quando foi interrompido. __E chame os comandantes-em-chefe das três armas das costas leste e oeste do país para uma reunião a ser presidida por mim, a qual o senhor fará as explanações sobre o assunto. Roosvelt dizia suas frases com efeito e seus pares eram habilidosos em perceber quando havia dito tudo. O Secretário deixou a sala e foi cuidar das ordens de seu chefe. Em quatro de Novembro de 1939 os EUA decretavam sua neutralidade ao combate na Europa. Provisões de dinheiro e carregamento de armas e veículos são enviados às tropas britânicas e francesas. O germe do levante nazista dáva-se por mar. Em resposta ao ataque ao navio Royal Oark, os britânicos afundaram o cruzador Graf Spee, alemão, nas vastas águas do Rio da Prata em Montevidéu, poucos dias depois de uma fracassada tentativa de assassinato do Fuher por um espião inglês. Os contra-fortes da Linha Maginot resistiam bravamente, mas a entifada nazista rompia bloqueios nos países baixos e já marchava próxima à fronteira. As Ardenas eram a porta de entrada para a França e para o litoral, a costa ocidental da Europa, posição privilegiada de defesa de qualquer força proveniente de mar e ar. Em Paris, o sorriso de monsieur Gascoin começava a esvair-se. Sirenes avisavam que agora a cidade devia ficar às escurar com um toque de recolher. As moças e rapazes de bem iam para suas casas rezar para que aquela guerra nao chegasse até eles. A crença numa defesa bem sucedida era cada vez menor devido às transmissões de rádio avisarem do poderio bélico dos nazistas. Até monsieur Dagod estava triste na manhã em que chamou seus dois funcionários e meio e avisou-lhes que iria para a Itália. Fecharia o café, pagaria a eles o que lhe devia e que Deus abençõasse os dois. __Você, não, débile! - gritou para Gascoin, contandou suas notas. __Monsieur Dagod, não vá para Itália! Pode ser perigoso! - insistia a bela garçonete. __Eu tenho que ir, minha jovem. Parte de minha família ja fugiu para lá. Achamos que não podemos confiar nesses alemães. Além do quê estaremos seguros! -sorria o bonachão avermelhado. Era dezembro de 1939 e a Itália havia declarado neutralidade, como os americanos. Assim que os integrantes da família de monsieur Dagod chgaram numa velha jardineira com a mudança, ele agradeceu aos dois, pagou a Rick o que lhe devia, que era bem mais que aos outros e foi com eles. __O que é aquilo ali atrás? - perguntou Gascoin à Rick, olhando o carro se afastar. __Chama-se menorá, é um tipo de candelabro de sete braços que os judeus usam como símbolo de iluminação. __Judeu..achei que ele era francês. __Chama-se Antoine Dagod Ishbyn, Gascoin. Não acredito que desconhecia o nome de seu patrão de dois anos! __Aquele velho safado demorou dois anos pra me pagar alguma coisa suficiente para custear um aluguel... que aliás, este mês, eu vou atrasar, já lhe aviso. Pois que tenha o destino que merece, esse judeu gordão! A jovem deu-lhe um tapa no braço em repreenda. __Pois não se esqueça, monsieur Gascoin, que você pode ser o próximo... __Eu por que? Não sou judeu. __Seu primeiro nome, Henri... acha que é de que origem? Se monsieur Dagod estiver certo, deve ser o suficiente para os alemães... - apertou um olhos esverdeados em repúdio às palavras estúpidas do ex-colega e juntou suas poucas coisas do chão, dirigindo-se em seguida para seu pensionato. __A pequena tem razão, Gascoin. Se estiver certo, você pode ser confundido com um judeu. Sabe-se lá o que esse Hitler está tramando. Ouviu o que ele fez na Polônia... Os dois conversavam enquanto caminhavam pela manhã parisiense. A cidade àquela hora estava calma, apesar da crescente agitação nas bancas em pontos de transmissão de rádio, onde multidões se juntavam para ouvir as notícias. __Aqueles poloneses estavam na mira de Hitler desde a primeira guerra deles, Rick. O outro tragou seu cigarro e pediu explicações. Gascoin continuou. __Na primeira guerra que travaram os alemães ja haviam tentado conquistar territórios poloneses, foram impedidos naquela ocasião, pelos soviéticos, que também queriam aumentar seu "pequeno" território. O que aconteceu foi que a superioridade soviética foi aliada à inteligência polonesa, que osquestrou acordos com os vizinhos da direita tirando o doce da boca dos da esquerda. __E voce acha que esse ataque vai parar na Polônia? Os soldados franceses já estão entrincheirados na Linha Maginot. __Não acho que Hitler vai tentar invadir Paris. Se o fizer, infelizmente será bem recebido por nossos chefes de estado. Quando disse à nossa pequena amiga que De Gaulle tem a faca e o saca-rolhas na mão, estava exagerando. __Quer dizer que adredita numa rendição de Daladier? __Exatamente. Ao contrário de seus compatriótas, nós franceses nunca fomos bons em guerras. Nunca mais depois de Napoleão. Pararam diante de um pequeno restaurante. Parecia um lugar simpático com mesas na calçada, decoradas com toalhas de renda, mesas dentro e uma escada que levava a um mesanino onde havia mais mesas e um piano. De dentro uma música agradável vinha de cima e Rick convidou Gascoin para o almoço. O pouco sofisticado amigo fitou calmamente a fachada e desistiu, bem a tempo, aliás, de o chefe dos garçons pedir que ele se retirasse. Rick era mais bem alinhado. Gascoin nunca entendeu porque ele trabalhava naquele café. Falava bem, vestia-se bem e parecia não ter problemas com dinheiro, mesmo ganhando como um garçom. O que Gascoin não sabia era que Rick estava na verdade, tirando a atenção de cima de seus ombros, afinal, repassar informações ao governo americano depois de espionar em Berna durante dois anos, não era exatamente seguro à iminência de uma guerra mundial. O americano era quieto e fazia amizade somente com quem realmente interessava, aprendera isso depois de servir como mercenário em algumas guerras norte-africanas. Mas depois de algum tempo estava disposto a parar com tudo e decepcionara-se com o Tio Sam, sendo, portanto, o último trabalho que fizera para eles. Disposto a se "aposentar", Rick dizia que pretendia abrir um bar em algum lugar calmo e cuidar da vida. Tinha uma pequena com quem ele saía em Paris disposta a fugir com ele para território não ocupado. __Obrigado, amigo. Mas vou recusar. No momento estou mais preocupado em desfrutar da vista urbana, de onde tiro minha inspiração... __Inspiração para quê, Gascoin? - perguntou á porta do restaurante. __Escrever um romance, quem sabe? - Henri olhou por cima dos ombros de Rick - acho que sua pequena está vindo. Como se conheceram? Rick olhou para trás, por cima do ombro esquerdo como sempre fazia. Era um homem calmo e os olhos grandes e pretos, meio caídos dos lados, ajudavam a criam o clima de solidão. __Chama-se Ilsa Lund, é da Tchecoslováquia. É uma pequena interessante, militante anti-militares em qualquer guerra. Defende a liberdade acima de qualquer coisa. Manteve o braço direito em noventa graus com o cotovelo colado ao corpo segurando o cigarro e fitou Gascoin pelo que seria a última vez entre amigos. __Em que está pensando? __Fique com o apartamento, Henri. Está pago por dois meses. Mas se quiser vir comigo... E com ela, pretendo começar vida nova longe das agitações. __Não posso ficar longe de Paris, Rick. Essa cidade ficaria perdida sem mim. __Sem um competente Inspetor de Carteiras, não é? - disse sorrindo. Apertaram as mãos. __Para onde vai? __Marrocos, provavelmente... Abrir um bar e morrer de calor - olhou para a escada de onde descia a música maravilhosa, tocada à perfeição - acho que vou convidar esse pianista para ir comigo... Gascoin sorriu enquanto a jovem aproximava-se e apoiava a mão sobre o braço de Rick. Era um moça linda de traços delicados, cabelos cacheados cor de mel e olhos azuis. __E como vai se chamar esse maravilhoso estabelecimento? - perguntou Gascoin ja sainda pela calçada. __Pensei num nome sujestivo: Rick's Café Americain... Mas posso inserir o seu nome, se quiser! __Obrigado, amigo. E boa sorte! O americano ficou olhando Gascoin atravessar a rua e sumir num beco escuro e pensou em que futuro teria aquele pobre rapaz? O sorriso de Ilsa e a voz grave cantando desviaram sua atenção. A música era "As time goes by". Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Ter, 06 de Maio de 2008 12:59 |

