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Continuação (3) de "IGNIUS - O Segredo da Transmutação" por Emmanuel de Ceriz Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos

Escrito por VanVladyk
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Qua, 14 de Maio de 2008 11:24
Hoje era um dia muito especial para Íris, um momento aguardado com muita ansiedade.
Era hoje que Atlan iria, finalmente, mostrar-lhe algo que mencionara já por diversas vezes mas sempre com receio e talvez até com alguma vergonha de partilhar por ser algo tão íntimo.
Ao entrar no jardim olhou para o lago e viu que Atlan já lá estava, sentado no seu banco preferido com um espesso caderno entre as mãos.
Hoje Atlan deixá-la-ia ler algumas das primeiras páginas do seu "Diário das Transmutações".
Ele chamava assim ao "diário" de experiências onde registara as diversas tentativas praticas que fizera para se transmutar.
- O que te vou mostrar, Íris, é apenas um livro de apontamentos onde anotei, de forma sintética, as ocorrências mais significativas processadas durante esses períodos de tempo em que ascendi a fases mais elevadas e poderosas do meu próprio ser - explicou-lhe Atlan enquanto folheava o caderno de capa dourada. E prosseguiu:
- É uma espécie de diário das abordagens que fiz à transmutação; muito embora, no início, eu quisesse apenas explorar toda aquela minha realidade interior que se projectava para além do meu estado mais normal e comum e me prometia mil e uma capacidades fantásticas!... A vanguarda da psicologia correlaciona, actualmente, alguns desses fenómenos com os chamados "estados alterados de consciência" nos quais possuímos uma maior facilidade para desencadear acções paranormais... talvez porque o nosso cepticismo e tendência para duvidar das nossas infinitas capacidades se encontram enfraquecidos nesses estados especiais de consciência. No entanto, Íris, para já, prefiro que leias apenas as minhas três experiências iniciais e que deixemos as outras para mais tarde...
...
O Diário de Atlan - 2
A 1ª Transformação Física
(A minha opinião sobre estas transformações físicas é a de que são transmutações parciais ou semi-transmutações e, por isso mesmo, reversíveis. Isto é, não constituem degraus (ou formas) estáveis. Desaparecem com a perda de energia que lhes deu lugar, voltando ao estado anterior.)

Tinham-se passado cerca de oito anos desde a minha primeira escalada no domínio da transformação pessoal. Durante esse período eu fora um indivíduo como os outros, desprovido de quaisquer capacidades paranormais e de qualquer quantidade excepcional de energia. E como qualquer outro indivíduo fora envelhecendo quase sem me aperceber.

Súbitamente, caí em mim como se despertasse de um longo torpor. Tinha-me distraído no seio das actividades do mundo quase me esquecendo dos meus objectivos de transformação ontológica. O tempo havia passado e eu sentia-me pesado, denso, um pouco flácido e mais velho. Soou dentro de mim um sinal de alerta. Era preciso inverter tudo isso, devolver a juventude e energia ao meu corpo.

Retirei-me para um pequeno apartamento junto a uma praia distante com esse propósito. Aí, durante duas semanas, permaneci sozinho guiando-me pelo meu instinto e pela minha intuição ao realizar exercícios de fusão com a natureza. Senti que ela poderia regenerar o meu corpo. Permanecia muito tempo mergulhado na água do mar, nadando e diluindo o mais possível o meu ser no oceano até o libertar das vicissitudes e torná-lo mais fluido. Efectuava longas corridas pela praia em que me deixava arrastar pela tendência para me fundir com o próprio ar e com o céu. Pondo de lado o senso comum e os preconceitos, seguia o instinto que me impelia a enterrar-me na areia e a misturar-me com a energia da terra.
Ao fim desses 15 dias regressei à minha cidade e encontrei uma amiga que olhou para mim e não me reconheceu. Fitou-me durante minutos como um estranho enquanto eu lhe explicava quem era. Só passado algum tempo me reconheceu. Estava perplexa com a minha mudança.

Pela opinião unânime de muitas pessoas que contactaram comigo nessa época e pela minha própria avaliação, eu regredira, fisicamente, entre oito e nove anos de idade.

Porém, essa nova idade conquistada, que não era só aparente mas sim bem real, manteve-se apenas pelo período de um ano, após o qual, lentamente, se foi desvanecendo e aproximando da idade cronológica.

...

O fotão, quanto de energia electromagnética, foi inicialmente identificado como um grão de luz; depois como o raio gama de Becquerel e Curie; a seguir com os raios X, muito penetrantes e ionizantes que Roentgen extraiu, em 1895, de uma placa (anti-cátodo) bombardeada pelos raios catódicos descobertos por Crookes; e, finalmente, fotões de energia ainda maior podem ser encontrados na radiação cósmica e produzidos em aceleradores de partículas.
Assim, graças a Maxwell, Planck e Einstein, admite-se que a luz, embora apresentando propriedades de onda (como a de originar interferência), se comporta também como uma partícula. Compton daria a prova final em 1923.
Definem-se também os comprimentos de onda (l) de algumas radiações electromagnéticas:
-- ondas radioeléctricas curtas 1 cm
-- luz visível 10-5 cm
-- luz ultravioleta e raios X 10-6 cm
-- raios gama 10-9 cm
-- fotões de alta energia 10-22 cm
Em 1913 conhecem-se o electrão negativo (e-), o fotão (g) e o protão (ou núcleo de hidrogénio).
As principais características a considerar na análise das partículas constituintes da matéria eram:
a Carga eléctrica
a Massa (m)
a Energia (E) e a quantidade de movimento (p).
A carga eléctrica negativa e do electrão é igual a 1,6 x 10-19 C ou 4,8 x 10-10 ues CGS. Como não se descobriu qualquer carga menor que a do electrão conclui-se que é uma carga elementar, ou uma constante física de valor absoluto. A corrente eléctrica consiste no deslocamento de electrões ao longo de um condutor, cada um dos quais transporta uma destas cargas elementares, considerada como carga unitária -1. De acordo com isto, qualquer quantidade de electricidade só pode ser tida como a soma de um número inteiro de tais cargas elementares.
Este é o primeiro passo na direcção da teoria quântica ou, o que é o mesmo, na direcção de uma concepção das coisas que consiste simplesmente na adição de elementos indivisíveis, os Quantos.
A Aventura Quântica, 4
...
O Diário de Atlan - 3

A minha 2ª Abordagem:

Foi um período longo. No total, incluindo algumas quebras, estendeu-se por mais de 6 meses.

Após os vários anos que decorreram desde a primeira abordagem, suponho que um dos factores que estiveram na origem desta 2ª "ascensão" se relacionou com um cavalo. Comprara-o há mais de um ano e era a minha primeira entrada num mundo que sempre me fascinara: o da equitação. Apesar de ser um belo cavalo, revelara-se difícil no treino e nas duas únicas vezes que o montara havia sido violentamente projectado ao solo. Quando finalmente o cavalo se começou a entregar, fiquei radiante. Montava-o e treinávamos os dois quase todos os dias, durante horas e horas. Apesar de ficar exausto por travar autênticas lutas com o animal, o meu entusiasmo era crescente porque, de dia para dia, obtinha mais progressos.

Este exercício diário intenso, uma progressiva redução das horas de sono e uma alimentação mais rara, aliados à fusão energética que sentia com o cavalo, fizeram-me entrar num estado de espírito diferente.
O primeiro fenómeno invulgar que recordo, foi durante uma corrida que fiz, a pé, com alguns amigos. Um deles tinha apenas 17 anos e era um óptimo corredor. Pouco depois de começarmos, imprimi uma aceleração tão grande que os deixei para trás vários metros. Continuei a correr sem sentir cansaço, mas antes, satisfação e prazer em cada passada que dava. Quando parei, uma longa distância após todos terem parado, estava perfeitamente normal; sem respiração ofegante e sem pulsação acelerada.

Ao longo dos dias em que treinava equitação, por vezes em situações de cansaço extremo, eu obrigava-me a prosseguir os exercícios sem parar. Aí, desaparecia a sensação de cansaço e eu continuava por horas e horas.
O cavalo era um animal possante e rebelde; tinha provocado traumatismos em dois treinadores anteriores. As minhas actividades com ele eram frequentemente verdadeiras lutas. Transformou-se no meu ginásio físico e espiritual. Sem me aperceber, espontaneamente, comecei a entrar em novo processo de transmutação.

Experimentava também, baseado em livros de Castañeda, a abstinência sexual e a canalização dessa energia para me catapultar a estados de ser mais elevados. Dormia pouco e devorava livros. Estava fascinado com o ressurgir de capacidades paranormais há muito perdidas.

Vários fenómenos ocorriam: por vezes: borboletas vinham
poisar nos meus dedos, outras vezes, eram aves que se aproximavam; a minha empatia com animais era muito grande, mas principalmente, com cavalos e cães. A maioria dos animais obedecia-me, ou melhor, compreendia-me com um pequeno gesto.

Passei a andar com um pequeno caderno no bolso em que escrevia, a cada instante, o que me surgia por inspiração. A maior parte dos escritos, relacionavam-se com a transformação do ser humano comum, elevando-se ao estado de semideus. Intitulei esse pequeno livro de "Meta-H" - significando "Meta Homem", um estado para além do humano.

Uma ocasião, visitei uma escola de artes marciais, onde nunca houvera estado. Alguns alunos apontaram para uma pintura na parede onde estavam os símbolos da sua escola. Disseram-me que antes, estavam ali pintados outros símbolos. Olhei para a parede e, não visualizei propriamente, mas antes senti, uma cobra e um macaco. Quando lhes comuniquei o que tinha "visto" eles confirmaram surpresos.

Tinha cada vez menos vontade de comer alimentos convencionais. Comia muito pouco e gostava de me sentir assim; mais leve, mais espiritual. Fazia, com frequência, os exercícios de absorção de energia solar, aprendidos nos livros de Castañeda. Era a minha principal forma de "alimentação". Por vezes, à noite, sentia uma "fome imensa de energia".

Ligava-me então, várias vezes, a fontes de electricidade, experimentando a sensação de absorver aquela forma de energia. Não sei o que realmente se passava, nem se conseguia assimilar qualquer energia mas, estranhamente, não ficava electrocutado, sentindo apenas um tremor suportável.
Embora na altura eu não me apercebesse, penso agora que, por vezes, o meu estado psicológico atingia algo de loucura. Em toda a movimentação e impetuosidade do meu dia a dia, sentia vontade de fazer coisas que, habitualmente, não são consideradas naturais ou de bom senso. Numa dessas ocasiões, senti que conseguiria levantar o meu cavalo. Coloquei-me curvado por baixo dele e, com a força das costas e das pernas, empurrei para cima o animal. Apesar de naquele momento ter uma espécie de certeza intuitiva de que o conseguiria, não deixei de me admirar quando senti que o animal se elevava ficando apenas as patas da frente a tocar o chão. Isto aconteceu numa praia e algumas pessoas vieram depois falar comigo não entendendo como é que eu o fizera. Eu tão pouco o sabia, pois o cavalo pesava cerca de setecentos quilos.

Os fenómenos mais estranhos relacionaram-se com a minha crescente empatia e identificação com o sol. Na verdade, sentia uma quase adoração pela fonte de energia que ele representava.
Nessa época costumava tomar o pequeno-almoço numa das esplanadas do edifício em que residia. Uma ocasião, durante o Inverno, estava tempo de chuva, cinzento e encoberto.
Naquele momento eu olhei para o céu com frio, e desejei que o sol brilhasse e me aquecesse por fora e também por dentro. De alguma forma que não consigo descrever, senti que eu e o sol éramos um e que, essa outra parte de mim iria brilhar, ao meu encontro, ao encontro de estreitar a sua ligação comigo. Senti que de alguma forma tinha comunicado com aquele astro, que se me afigurava não apenas como um astro mas com algo de mais vasto, relacionado com a energia do mundo e comigo - num passado ou futuro distante. Isto durou apenas um momento, mas muito rapidamente as nuvens começaram a dissipar-se e o sol brilhou forte e quente. Passados cerca de vinte minutos, não havia nuvens; o céu estava completamente azul.
Eu poderia atribuir esta experiência ao acaso porém, depois desta primeira vez, o mesmo fenómeno repetiu-se vezes sem conta e, cada vez mais, eu confiava nesta interacção. Muitas vezes, eu tomava o pequeno-almoço acompanhado por uma colaboradora. Quando estava mau tempo, por vezes até a chover, eu dizia-lhe, com uma naturalidade cada vez maior, para nos sentarmos na esplanada e não no interior, que iria fazer sol. E assim acontecia.
Passado algum tempo, o fenómeno era tão familiar para ela como para mim. Recordo-me de situações até algo cómicas: em dias de chuva ela pedia-me para "ir até lá fora, para o tempo melhorar".

Todas estas pequenas ou grandes conquistas me enchiam
de satisfação por me parecer que cada vez estava mais próximo do meu objectivo final: a transmutação, total e irreversível. Porém, também me distraíam e me faziam andar à deriva, impedindo-me de concentrar energias no objectivo final e não nas dezenas de fenómenos fascinantes que surgiam pelo caminho. Eu também não conhecia o caminho. Era como caminhar às escuras. Tentava avançar baseando-me em conhecimentos e hipóteses e na minha intuição. Eu pensava que só realizando a transmutação essa escalada seria irreversível e eu não voltaria a perder as faculdades alcançadas. Lembrava-me da minha 1ª abordagem após a qual voltara à normalidade.

A textura do meu próprio corpo parecia um pouco diferente e a capacidade de recuperação de ferimentos era muito rápida. Além disso toda a minha aparência física tinha-se tornado, de novo, muito mais jovem. Tinha a sensação de que apresentava sinais de principiar a transmutação do meu corpo num corpo incorruptível.
Por vezes, tinha dificuldade em controlar a enorme quantidade de energia que possuía. Sentia-me como se estivesse ao volante de um automóvel com um motor demasiado poderoso em que não conseguia dominar a aceleração e derrapava nas curvas. Tornava-me facilmente arrastado pelos meus ímpetos e não ponderava as minhas acções.
Outras vezes, tinha quebras em que me sentia muito fraco e vulnerável, possivelmente porque dormia e comia muito pouco.
Numa dessas ocasiões, fui vítima de quatro agressores que me deixaram com muitos traumatismos e quase morto. Não obstante, a minha recuperação no hospital foi invulgarmente rápida.
Porém, como trabalhava por conta própria, o período em que estive hospitalizado e em convalescença foi fatal para os meus negócios. Isso e outros desgostos que tive no mesmo período arrastaram-me para o estado comum de normalidade e, posteriormente, para uma depressão psicológica. Perdera completamente o estado de espírito energético e todas as capacidades paranormais.
Não conseguira atingir o ponto de irreversibilidade e tudo se desmoronara.

....

Atlan explicou-me que esta sua impossibilidade em conservar as "extra-capacidades" adquiridas durante as suas "ascensões" o precipitava depois em longos períodos de desânimo e desilusão nos quais se sentia novamente despido de quaisquer poderes.

- Sinto-me como um alpinista que está muito próximo de atingir o cume e de repente se vê estatelado na base da montanha... De facto, Íris, quando regresso à frustrante normalidade sinto-me morrer - confessou-me ele um dia. - Voltar a ser um homem, depois de ter sido quase um deus, é a pior das torturas... é como sentir-me completamente esvaziado de energia e de poder; é terrível! Dá-me a sensação de que é um tempo que jamais irá terminar. Nessas fases mergulho na descrença e convenço-me de que jamais conseguirei concretizar os meus objectivos...

Eram essas as longas temporadas a que Atlan chamava de "anos negros"... anos de sofrimento e dor. E perda da esperança de conseguir, algum dia, vir a transmutar-se.

...

FIM DA FASE I


[quando o "estado divino" (ou "Deus") tende para ZERO,
o "estado humano" tende para infinito]
...Deus apaga-se

...e nasce o homem.



...São os Longos Anos Negros da Escuridão;




da Ignorância;


da Perda de MEMÓRIA;


e do Obscurantismo...





...efeitos simultâneos da


Poderosa Máquina de
PROPAGANDA...



...é aí "Onde Mora o Mal" !


...

FASE II

os negros anos luz

...
Aleator trabalhava no Instituto de Estudos Quânticos e era um dos maiores amigos de Atlan.
Era um investigador que procurava conciliar duas grandes áreas de pesquisa: a psicologia e os fenómenos aleatórios. Conhecia Atlan desde a sua infância e seria ele quem viria a revelar a Íris muito sobre os seus longos períodos de desânimo.
Atlan tentara por diversas vezes aceder aos "céus" para aí se transmutar mas, de cada vez que não conseguira aí fixar-se e consumar a sua transmutação, despenhara-se nos mais terríveis "infernos" existenciais.
Por vezes ficava num estado de inanição e num desinteresse tão grande que era como se morresse temporariamente. Então isolava-se de tudo e afastava-se, desiludido, ao encontro da morte.
As suas saudades do "céu" eram tão grandes que não suportava a perspectiva de nunca mais para "lá" voltar; foi isso o que sentiu Íris enquanto escutava Aleator contar-lhe sobre a carta que recebera de Atlan:
...



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Última atualização em Qua, 14 de Maio de 2008 14:34
 
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