| A entrada de imigrantes japoneses no Estado do Pará a partir das imigrações oficiais no início de 30 |
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| Artigos Científicos - Ciências Sociais |
Escrito por Francisco Rodrigues da Si |
Sex, 23 de Maio de 2008 17:18 |
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RESUMO:
O artigo faz uma análise da situação sócio-política do Estado do Pará a partir do Decreto nº 528 de 28 de junho de 1890 expedido por Francisco Glicério que regulava toda a questão de imigração e colonização de imigrantes. O referido Decreto versa sobre a introdução de imigrantes, que, aqui chegados, poderiam voluntariamente procurar colocações a salário nas fazendas, nas fábricas, nas construções, nos campos, ou nas cidades; nas pequenas lavouras e no povoamento do território, instituindo auxílios pecuniários diretos da União, em favor dos proprietários de terras, cultivadas ou não, que as quisessem dividir em lotes, cedê-las às famílias de imigrantes; e, no mesmo sentido, cedendo terras devolutas a particulares, pelo preço legal taxado ainda no domínio do Império, sob a condição de as fazerem medir e demarcar, e, por sua vez cederem, os mesmos lotes, às famílias de imigrantes. A partir desse contexto, inicia-se o fomento pela vinda de grupos de imigrantes japoneses, interesse este alicerçado em três objetivos centrais da política nacional: valorizar as terras desgastada pela grande lavoura, repovoar propriedades então despovoadas; demarcar as propriedades públicas e privadas e, finalmente, povoar as terras em territórios calculados de 200, 500 ou 1.000 famílias. A metodologia utlizada contou com documentos oficiais da época, jornais e relatos dos descendentes de imigrantes. Os dados coletados dão conta da diferença entre as imigrações de colonos japoneses para o Estado do São Paulo e Pará, neste caso, a partir de 1929 vinham com a incumbência de desenvolver as terras que lhes foram concedidas como contrapartida do Estado do Pará. Após a chegada, o dilema se instala, pois, não se encontram nem do lado de "um" nem do lado do "outro" como escreve Bourdieu (In: SAYAD. 1998, p. 11, Introdução). O imigrante se situa no lugar de ‘bastardo' não sendo nacional e nem totalmente estrangeiro, como se observa entre os japoneses no Brasil. Proponho neste artigo, arrolar e analisar dados históricos presentes nos documentos oficiais e nas memórias dos imigrantes, com ênfase nas políticas públicas que favoreceram a imigração japonesa para o Brasil e mais especificamente para o Estado do Pará. Uma atenção especial é dada às características das levas de imigrantes japoneses que se dirigiram para São Paulo e para o Pará em seus respectivos momentos e realidades históricas. Dentro dessa perspectiva, estabelecerei uma ordem cronológica dos fatos para facilitar a descrição e compreensão dos períodos pré e pós-imigração. Como mencionei anteriormente, utilizarei a memória dos imigrantes como fonte de dados que procura no relato de si apresentar a partir de um modelo oficial e isso nos remete a reflexão sobre o crivo que será feito em relação aos dados apresentados pelos narradores a partir da apresentação pública da sua representação privada de sua própria vida (sendo ela pública ou privada). Dessa forma, as normas que regem a escrita de si vão além das situações oficiais. A possível manipulação dos dados poderá variar, contudo, os relatos de cunho autobiográficos buscam um "efeito de verdade", segundo Gomes (2004, p. 14), principalmente por revelarem através da primeira pessoa do singular suas dimensões "íntimas e mais profundas" Porém, o período da imigração, ou seja, as condições de saída, da viagem e da chegada dos imigrantes serão de importância fundamental para observamos como e quem são essas pessoas que deixam sua terra natal para "aventurar-se"[2] numa terra distante e diferente como lhes parecia o Brasil. •1. Em direção ao Pará Dentre as normas jurídicas que regulam o movimento imigratório no Brasil, destaca-se o Decreto nº 528 de 28 de junho de 1890, expedido por Francisco Glicério que regulava toda a questão de imigração e colonização de imigrantes. O Decreto nº. 528 preconizava, na primeira parte, a respeito da introdução de imigrantes, que, aqui chegados, poderiam voluntariamente procurar colocações a salário nas fazendas, nas fábricas, nas construções, nos campos, ou nas cidades; nas pequenas lavouras e no povoamento do território, instituindo auxílios pecuniários diretos da União, em favor dos proprietários de terras, cultivadas ou não, que as quisessem dividir em lotes, cedê-las às famílias de imigrantes; e, no mesmo sentido, cedendo terras devolutas a particulares, pelo preço legal taxado ainda no domínio do Império, sob a condição de as fazerem medir e demarcar, e, por sua vez cederem, os mesmos lotes, às famílias de imigrantes. Sendo assim, a política imigratória estava baseada em três objetivos básicos: valorizar as terras desgastadas pela grande lavoura; repovoar propriedades então despovoadas; demarcar as propriedades públicas e privadas e, finalmente, povoar as terras em territórios calculados de 200, 500 ou 1.000 famílias, ligando-se esses núcleos coloniais aos portos, às estações das ferrovias federais e estaduais, às povoações normais em suma, por estradas de ferro econômicas, de modo a estabelecer-se continuidade entre as antigas cidades e vilas da União, e essas novas povoações e municípios coloniais, dando-se, de mais a mais, saída fácil e segura às produções agrícolas e às permutas comerciais. De acordo com o Decreto exposto, podemos entender melhor o motivo que pautava o governo do Estado do Pará ao incentivar a vinda de imigrantes japoneses para povoar áreas até então despovoadas do Estado. 1.1 Colônia do Acará: primeiro pólo de imigração japonesa no Estado do Pará O uso do termo "colônia" pode ser pensado a partir da pequena propriedade como assim a classifica Seyferth (1990, p. 24), daí o surgimento de povoados a partir da distribuição dos lotes aos colonos, organização do espaço, tipo de moradia e o conseqüente desenvolvimento urbano. A análise feita por Seyferth chama atenção pela aproximação que é dada aos vários grupos de imigrantes que chegaram ao Brasil. Os grupos que se formaram dentro dessas comunidades coloniais concentram atividades características das classes camponesas. As unidades da pequena propriedade são policultoras e a administração fica por conta dos próprios membros das famílias imigrantes e sua forma de produção se mantém desde o período pioneiro da imigração até os dias atuais mesmo que as características tenham sido alteradas ao longo dos anos: a diminuição dos lotes e a monocultura são exemplos. Os dados históricos do município do Acará baseiam-se em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), conforme descrição dos municípios de Acará e posteriormente Tomé-Açú, para onde os imigrantes japoneses foram direcionados. A história de instalação de Acará deu-se a partir da instalação da Freguesia de São José do Acará em Freguesia criada com a denominação de São José de Acará, em 1758, em relação a data de acordo com dados do IBGE: "remonta ao período histórico de realização de explorações portuguesas em direção ao interior do Estado do Pará utilizando os rios". A sede do município foi implantada em 1758 pelo governador Mendonça Furtado e quando se dividiu o Estado em comarcas, em 1833, Acará foi incorporado a comarca da capital. A freguesia de Moju criada pela Lei n. 14 de 9 de setembro de 1839 incorporou o território banhado pelo rio Acará. Uma nova Lei, a de n. 53, de 4 de setembro de 1840 determinou que o mesmo território banhado pelo rio Acará fosse dividido em duas partes: Freguesia de São José do Acará e Freguesia de Nossa Senhora da Sociedade Cairary, sendo que esta última também foi criada neste mesmo Ato. Posteriormente, em 20 de agosto de 1864, foi promulgada a Lei nº 441, que determinava que a Freguesia de Moju e de Cairary fossem anexadas à comarca da capital. A partir do desenvolvimento da região banhada pelo rio Acará, em especial nas Freguesias de São José e de Nossa Senhora da Sociedade levou a decisão de Legislativo à criação de um novo município e a Freguesia de São José do Acará teve sua categoria elevada para Vila com sua instalação datada de 23 de março de 1876. Em seguida, a Lei Provincial nº 839 que tinha sido promulgada em 19 de abril de 1875 estabelecia o desmembramento de Moju. Na divisão administrativa realizada em 1911 o município com denominação de Acará passa a ser considerado distrito sede e pelo Decreto nº 6, de 4 de novembro de 1930, o município é extinto e tem seu território anexado a Belém. Entretanto, na Lei Estadual nº 579, de 08 de janeiro de 1932, Acará volta à sua categoria de município e é desmembrado de Belém. Numa divisão realizada em 1933, Acará é novamente elevado a posição de distrito e na Lei Estadual nº 8, de 31 de outubro de 1935 neste Ato aparecem todos os nomes dos municípios entre eles Acará. A configuração dos distritos que aparecem nos anos de 1936 e 1937: Acará, Baixo Acará, Guajará-Miri, Itapicuru, Miriti Pitanga e Rio Pequeno. Entre 1939-1943, o município é constituído de 3 distritos: Acará, Guajará-Miri e Itapicuru. Em 1943 Itapicuru passou a ser denominado de Jupariteua. Sendo assim, entre os anos de 1944 e 1948 o município era composto de três distritos: Acará, Guajará-Miri e Jupariteua, ex-Itapicuru. Em 1961 pela lei estadual nº 2460, de 29-12-1961, o distrito de Jupariteua sofre nova mudança em seu nome, passando a ser: Jaguarari. E assim, em outra divisão territorial de 31 de dezembro de 1963 o munícípio permanecia com os mesmo distritos e a partir de então continuava apresentando os mesmos distritos. Os dados do IBGE sobre Acará tornam-se escassos de informações no período da década de 1950, então, nos remetemos aos textos dos próprios imigrantes japoneses que retomam alguns pontos da trajetória de criação e emancipação da colônia de Tomé-Açú. Em outro documento do IBGE obtive dados mais específicos sobre a constituição do município de Tomé-Açú. A partir de então, pude verificar que, após a II Guerra, com a retomada das levas de imigrantes japoneses para o município de Acará, o desenvolvimento da região experimentou um grande desenvolvimento e o número de habitantes faz com que em 1955, Tomé-Açú fosse elevado a categoria de município e desmembrado de Acará. Em 1956 foi revogado seu status de município e somente em 1959 o município obteve emancipação político-administrativa e passou a ser o 60º município do Estado do Pará. O tamanho dos lotes distribuídos para as famílias japonesas na colônia de Tomé-Açú eram de 25 hectares, mas esse padrão tornava-se variável dependendo das condições da terra, como podemos observar no relato de Yamada (2006)[3]:"Em alguns lugares era pouco menos que 25 hectares, devido às condições do terreno, mas obedecendo a essa estrada que foi aberta até Água Branca, foi feito o loteamento onde não tinha piçarra." De acordo com Maruoka (1999), em 1923, chega ao embaixador Shitita Tatsuke, no Rio de Janeiro uma petição enviada pelo governo do Estado do Pará que pleiteava o recebimento de imigrantes japoneses. No ano seguinte, 1924, a embaixada do Japão no Rio de Janeiro envia o secretário Ryoji Noda e o adido naval Morimoto à Amazônia que, após reunião com o governador do Pará, Antonio Emiliano de Sousa Castro, seguem para o Amazonas e elaboram um relatório a ser apresentado ao retornarem à Embaixada. No Estado do Pará, as famílias japonesas começaram a chegar a partir de 1929 e, diferentemente do que aconteceu no Estado de São Paulo, no início do século, quando a imigração era direcionada para as lavouras cafeeiras, os japoneses que aqui aportaram se destinavam ao povoamento da região amazônica, satisfazendo, assim, interesses bilaterais entre as nações envolvidas. Leo Weibel (1958, apud SEYFERTH, 1990, p. 14) nos esclarece que os governos estavam interessados em estabelecer esses imigrantes em regiões despovoadas sendo que estes colonos seriam pequenos proprietários com lotes que variavam de 20 a 50 hectares, utilizando exclusivamente mão-de-obra familiar. Não poderiam criar gado, principal atividade da região Sul do país. Ao se referir às imigrações alemã e italiana ocorrida na região sul, o autor, as classifica em dois pólos: Blumenau (1850) e Brusque (1860). Estas duas regiões formaram comunidades homogêneas e isoladas apenas no início do século XX foram estabelecidos imigrantes de outras origens (italianos e poloneses, principalmente). Com relação à imigração japonesa, cabe eressaltar que, a imigração foi tutelada a partir de 1924 até 1941, tanto pelo Estado brasileiro, quanto pelo japonês (SAKURAI, 2000, p. 219). Ressalta-se, igualmente, que não é possível dar conta da formação de uma nova identidade dos japoneses no Brasil, e em particular no Pará, sem considerar as políticas de emigração/imigração adotadas pelos governos. A título de compreensão, parece-me relevante analisar os tipos de imigração estabelecidos nos Estados de São Paulo e Pará. Os imigrantes pioneiros que chegaram ao Estado de São Paulo em 1908 tinham destino certo, ou seja, eram encaminhados para as fazendas cafeeiras onde eram contratados para trabalhar na colheita do produto. Para Seyferth (1990), essa singularidade da colonização em São Paulo caracteriza-se pela diferença entre as demais que ocorreram em outros estados brasileiros, onde se constituíram colônias etnicamente homogêneas, como em Tomé-Açú (Estado do Pará), por exemplo. Segundo Lesser (2001, p. 159), o contrato firmado em 1907 para São Paulo abrangia cerca de três mil trabalhadores japoneses. Esse primeiro período da imigração japonesa para o Brasil vai de 1908 a 1924, de acordo com Sakurai (2000, p. 208), este período é classificado como fase experimental, pois, nem os japoneses nem os brasileiros sabiam se as conseqüências seriam positivas ou negativas em relação ao empreendimento estabelecido por parte de ambos os governos. Durante a segunda fase[4] da imigração japonesa para o Brasil, de 1924 a 1941, se dá a chegada das primeiras levas de imigrantes para o Estado do Pará. Neste período a imigração é considerada, segundo Sakurai (1993, p. 41; 2000, p. 219), como "tutelada" por ser subsidiada pelo governo japonês, o que torna o sonho em explorar o El Dorado mais próximo dos parentes e vizinhos. Daí uma das maiores diferenças entre a imigração de outras etnias, os japoneses vieram para o Brasil aos moldes de uma imigração oficial, com passagem subsidiada e já com os lotes de terras determinadas. A concretização das expectativas implicaria significativa melhora das condições de vida o que, parecia cada dia mais improvável na terra do Sol Nascente: Pelo que meus pais contavam naquela época, o Japão também passava por dificuldades. Principalmente agricultores. Veja que nossa família morava no interior mesmo da província de Hiroshima já na fronteira do Shimane, província do Shimane, o terreno que meu pai tinha era um pedacinho de terra. Nem se compara com o terreno daqui do Brasil. Então, eu acredito que meu pai pensou no futuro. Para ficar lá no Japão não tinha progresso, não tinha condições de adquirir nada e, na época em que surgiu a imigração nesse período no Japão: Brasil, Argentina, Peru e assim por diante. E eu não sei como foi que surgiu o Brasil, entendeu? Se interessou para o lado do Brasil e aí se manifestou lá com o governo e o governo acatou. Aí formaram o grupo. A primeira imigração foi de 43 famílias através do sorteio parece, uma coisa assim. Bem, eu não sei direito essa parte. (Entrevista de Yamada, 23/01/2006) Esses imigrantes vêm de várias regiões rurais do Japão tradicionalmente expulsoras, no entanto, as cidades japonesas, também enviaram emigrantes. Alguns motivos como a política externa japonesa foram decisivos para muitos emigrantes. O país lançava-se, desde 1910, quando anexou a Coréia, a uma campanha imperialista. Outro fato importante marca a vida desses imigrantes, o grande terremoto na região de Kanto (Kantoo Daishinsai 関東大震災), que compreende: Tóquio, Yokohama e áreas próximas, no dia 1º de setembro de 1923, atingiu 7,9 na escala Richter deixou mais de 3 milhões de desabrigados e a morte de 133 mil pessoas e a destruição de várias cidades. Em 1925 foi decretada a Lei de Segurança Interna que proibia qualquer penetração de ideologias externas, sendo que os militares eram os principais repressores dos que infringissem à lei. Por outro lado, a campanha de divulgação empreendida pelas companhias de imigração ajudava a convencer várias famílias, por utilizarem o sistema de tutela que fomentava a emigração desde a cidade/província até o destino final, no caso o Estado do Pará (SAKURAI, 2000, p. 221). Os primeiros imigrantes foram instalados numa colônia agrícola implantada por uma empresa japonesa em Tomé-Açú. Ao longo dos anos, seja por causa das dificuldades encontradas na lavoura ou, simplesmente, em virtude de problemas de adaptação[5], os imigrantes se dispersaram pelo Estado do Pará ou, então, foram procurar oportunidades em outros estados. Muitos dentre eles se estabeleceram em Belém. Nesse caso, era devido aos lotes que lhes eram destinados, muitos destes, eram de baixa ou pouca produtividade, o que tornava a terra muito diferente do Japão, da mesma forma que havia acontecido com as terras que os colonos trabalhavam no Estado de São Paulo, como analisa Sakurai (1993, p. 44), no estado do Pará a situação é análoga à medida que a vegetação ainda era nativa e teria que ser derrubada para o cultivo. No caso específico do Estado do Pará, procuro abordar o que significa ser "japonês", ou de maneira mais abrangente, ser "oriental", ou seja, como foi construída esta representação que permeava a mentalidade da intelectualidade paraense e que, muito provavelmente, não chegou com os imigrantes, mas que informa a construção da identidade. Sendo assim, poderei identificar como se refletiu essa imagem de ‘ser oriental' para os japoneses. E como os próprios japoneses passaram a se perceber enquanto membros de uma nova nação. Essa imagem oriental que os imigrantes traziam consigo em seu esteótipo despertou a curiosidade das pessoas quando da chegada na cidade de Belém, como podemos ler no jornal Folha do Norte do dia 18 de setembro de 1929. Assim, noticia o matutino, o navio Manila Maru havia chegado à capital paraense no dia anterior (17 de setembro de 1929) e, "ao ponto de desembarque affluiu grande numero de curiosos para verem e admirarem o aspecto dos immigrantes que se apresentam bem dispostos e sadios"[6]. Isso mostra a curiosidade dos paraenses em ver os orientais. 1.2 Força para vencer Mesmo ainda no Japão, como observa Sakurai (1993, p. 101), os imigrantes foram influenciados pela idéia do gambaré[7], e os meios de comunicação estatal do governo japonês encarregaram-se dessa tarefa com as diversas campanhas que incentivavam a emigração. A idéia de ganbare está baseada na concepção de que todos os esforços e sacrifícios são válidos, e, portanto, necessários, especialmente se forem realizados em função da nação representada pela figura do Imperador que, naquele momento ainda era considerado divino. A aspiração inicial dos imigrantes no Brasil era a de progredir economicamente e de garantir a educação para os filhos. Entretanto, para que isso se tornasse realidade, foi preciso muita perseverança por parte dos imigrantes que enfrentaram circunstâncias que não foram previstas em seus sonhos de ascensão econômica e social. Como podemos observar nas análises feitas por Sakurai (1993, p. 41), havia "uma grande esperança" por parte dos japoneses em fixar residência no Brasil e isso é apreendido pelas leituras das memórias deixadas pelos imigrantes como poderemos ler nos relatos. Ao me referir em "circunstâncias imprevistas", no parágrafo anterior, é no sentido dos imigrantes terem sido colocados frente a um impasse que precisava ser resolvido da melhor forma possível, pois, o futuro dos filhos estaria em jogo. O impasse se refere ao ensino que as crianças receberiam, pois, a idéia principal, se não de todos, mas da maioria dos que imigraram, era de retornar para o Japão em no máximo 5 anos, o que explicava a relutância de muitas famílias em não quererem que seus filhos recebessem a educação nos moldes brasileiros. Pois, para eles, a volta para a terra natal era "quase certa". Sendo assim, o ganbare, como foi citado anteriormente, foi o grande impulsionador, tanto antes da partida do Japão, quanto após o estabelecimento dos imigrantes na colônia de Tomé-Açú. No Japão, como a economia estava em vias de estagnação desde o final da era Feudal, com as reformas do governo Meiji, segundo os legisladores, a imigração passava a ser um ato nacionalista. Antes da imigração o governo japonês enfatizava a idéia do imigrante se estabelecer e vencer no país receptor, como também, veiculava cartazes que incentivavam a imigração, mostrando que o Brasil era o país receptor e que, os japoneses, deveriam seguir em sua direção[8]. Os imigrantes estavam cientes desse sentimento de conquista da nova terra que lhes era dada por parte dos governos japonês e brasileiro. Isso não significava que eles vinham com o intuito de fixarem residência permanente no Brasil, ao contrário, os imigrantes almejavam o rápido enriquecimento e o retorno ao Japão. A necessidade de permanecer se deu ao longo dos anos. A emigração se dava em razão da política de expulsão do excedente populacional japonês, cujo reverso da medalha envolvia a expansão do império japonês por parte desses imigrantes que viriam povoar outras partes do mundo. É possível que esse espírito se reproduzisse em emigrantes que, ao deixarem o Japão, não buscavam apenas novas oportunidades, mas, tinham também a função de colonizadores[9]. No período antecedente à vinda dos imigrantes japoneses para a região amazônica, como ressalta Sarges (2000), os paraenses tiveram um boom de riqueza através da extração gomífera o que produziu o período considerado como a belle-époque, principalmente no Estado do Pará. A fase áurea, a qual a autora se refere, vai de 1850, com seu apogeu, até a decadência por volta de 1912. No período em que os imigrantes chegam à região amazônica, apesar da decadência, Belém ainda é influenciada pela cultura européia através dos hábitos e pensamentos políticos. Belém era, ainda segundo Sarges (2000, p. 112), uma capital "mais européia do que brasileira", era financeiramente ligada à Inglaterra e culturalmente à França. Segundo Edward Said (1994, p. 4), autor que analisa de forma perspicaz as representações do Oriente no Ocidente. O Oriente estava muito em voga e a Europa voltava-se a "desvendar" as maravilhas do Oriente, desde o final do século XIX entrando pelo século XX, no eixo França, Inglaterra e Estados Unidos. Dentro dessa perspectiva, o mesmo autor se refere ao "atrelamento com a Europa", quando mostra como naquele continente se constrói uma concepção do ser ‘oriental' - uma visão estereotipada do exótico[10] que permeava o imaginário das elites européias no final do século XIX, início do século XX, como veremos adiante. Said (1994), em sua análise rompe com os estudos sobre o Oriente, escritos até então, uma vez que o autor se utiliza de leituras e releituras européias de textos orientais, incorporando o conceito Foucaultiano de discurso. Se considerarmos a circulação de idéias, tecnologias e artes entre Europa e Brasil, incluindo Belém, em particular nas primeiras décadas do século XX, posso supor que esta invenção do Oriente tenha chegado à nossa cidade. E que embora muito se tenha dito ou escrito sobre o Oriente, ainda assim, a idéia permaneceu e foi incorporada pela sociedade local. Provavelmente, o Brasil para não deixar passar despercebida esta idéia recorrente na Europa tratou de difundi-la através de seus canais de divulgação, tendo sempre, e principalmente a idéia do exótico de que o Oriente sempre fora portador. Segundo Said (1994, p. 14), "nada desse Oriente é meramente imaginativo. O Oriente é parte integrante da civilização e da cultura materiais da Europa"[11] [e por extensão Belém]. E ainda de acordo com este autor, a cultura européia ganhou em força e identidade comparando-se com o Oriente como uma espécie de identidade substituta e até mesmo subterrânea, clandestina, um complexo aparato de idéias "orientais" se infiltraram na mentalidade européia e, posteriormente, em outros continentes. Dessa forma, o imigrante traz consigo a esperança de transformação, de ascensão social, só que para isso terá que negociar com a imagem inventada pelos brasileiros e em especial pelos paraenses. Quais as transformações observadas no comportamento destes imigrantes? Como tem sido construída a idéia de integração? Será que eles trouxeram aspectos da cultura japonesa para a Amazônia ou já havia uma construída pelos paraenses antes de sua chegada? Construiu-se uma imagem do Japão, com gueishas, kabuki, cerimônia do chá, entre outros símbolos, como diria Liza Dalby (2003) em seu livro "Gueixa", no qual a autora trata especificamente desta imagem do Japão vista a partir da figura das gueishas. Deve-se considerar, que não existia apenas essa representação idealizada do Japão, e que os japoneses eram freqüentemente vistos com desconfiança e denominados de "perigo amarelo"[12]. As visões recorrentes nos campos: intelectual e político, nos anos 30, são conflitantes, ora pendendo para a visão do imigrante trabalhador, ora para o desconhecido perigoso. O governo brasileiro, por sua vez, utilizava relatos de figuras ilustres para desfazer essa imagem de desconhecido e perigo, como Juliano Moreira[13] que escreveu seu relatório de viagem oficial intitulado: "Impressão de uma viagem ao Japão" em 1928, no qual elogia as bibliotecas japonesas, a educação, a capacidade de trabalho e adaptação a novas situações. Por outro lado, a vinda dos imigrantes propriamente dita, traz consigo uma carga de informações muito pouco exploradas como é o caso das diferenças entre os próprios imigrantes, ou seja, suas origens, costumes, dialetos, status econômico entre outras perspectivas que poderão ser abordadas ao longo de minhas pesquisas[14]. Como exemplo, cito um fato que me chamou à atenção a partir de uma entrevista (realizada durante a investigação para meu Trabalho de Conclusão de Curso - TCC, apresentado ao Departamento de História da UFPA, no ano de 2002), na qual pude verificar que há uma divergência entre os próprios imigrantes em relação àquela idéia de que todos seriam agricultores no Japão antes da vinda para o Brasil, conforme revela um dos entrevistados: Centenas de famílias vieram para o Brasil após a Guerra, pois, a situação econômica no Japão era caótica. As pessoas [os imigrantes japoneses] que iniciaram a agricultura no Brasil não sabiam cultivar a terra. Quando chegamos ao Pará, não sabíamos cultivar a terra e as pessoas dizem que os japoneses vieram preparados para o cultivo. O que aprendemos na verdade foi com o caboclo que tinha o domínio, tanto do aspecto climático, como do solo. Muitas vezes os caboclos sabiam muito mais do que os agrônomos [...]. As propagandas sobre o Brasil eram muitas, bonitas paisagens do Rio de Janeiro, isso nos motivou mais ainda a vir para o Brasil, onde achávamos que seria o lugar ideal para fazer uma riqueza rápida e então retornar ao Japão. Este era o objetivo a priori de todo imigrante[15]. De fato, após o início da década de 1920, como observa Lesser (2001, p. 177), muitos japoneses "vigaristas" voltaram ao Japão e denunciavam, através dos jornais, as empresas de colonização o que deixava parecer que o melhor seria terem permanecido em casa. A partir desse tipo de acontecimento, o governo japonês passou a selecionar de forma mais cuidadosa os pretensos emigrantes. Os que tinham prioridade desde então eram os que possuíam maiores chances de serem bem-sucedidos na empreitada, principalmente aos que já tinham alguma ocupação, que houvessem trabalhado na indústria, na agricultura ou que dispusessem um capital significativo. A idéia de retorno estava sempre presente no momento da chegada dos imigrantes ao Pará. O elo com o Japão fora mantido, à medida do possível. Mas, todo emigrante torna-se imigrante em sua terra de origem com o passar do tempo. Os japoneses vindos para o Brasil experimentam uma segunda imigração quando voltam ao Japão e se deparam com um país muito diferente do que deixaram quando saíram para virem para o Brasil. Mesmo a língua japonesa já não é igual ao japonês falado no Brasil, que é considerada arcaica, sem citar que os costumes e comportamentos ainda hoje mantidos por muitos imigrantes no Brasil já caíram em desuso no Japão[16]. No Brasil, os grupos imigrantes construíram comunidades que procuraram manter aspectos relacionados à cultura que haviam trazido do país de origem, de forma semelhante aos imigrantes argelinos na França. Segundo Sayad (1990), moravam perto, visitavam-se, procuravam exercer um controle social uns sobre os outros. No campo familiar, procuravam manter um controle rígido, como o que era exercido no país de origem, onde os pais controlavam, por exemplo, sobre o casamento, estudos, entre outros, fazendo com que os filhos experimentassem as tensões que passaram a ser inevitáveis e as mudanças progressivas que são as causas de enormes sofrimentos para os pais e avós que percebem que, aos poucos, os jovens descendentes passam a utilizar os costumes e comportamentos dos brasileiros. Mantidas as distâncias, a análise oferecida por Sayad (1998), destaca-se por sua generalidade, uma vez que o grupo imigrante exerce coerções sobre seus membros a fim de poder reproduzir a sua origem regional ou nacional. As primeiras negociações formais entre o Estado brasileiro e o japonês deram-se no apagar das luzes do século XIX quando foram estabelecidas as primeiras conversações entre os governos brasileiro e japonês, segundo Sakurai (2000), sobre a introdução de imigrantes japoneses, ao mesmo tempo em que se inicia o diálogo diplomático entre os dois países. Na concepção de Saito (1961), a imigração japonesa apresenta duas fases: a primeira seria compreendida entre anos de 1908 a 1925; a segunda de 1926 a 1941. Não é simples coincidência, pois, o fato de os sete anos, entredatados de 1928 a 1934, fases antecedentes e finais de crise mundial, corresponderem, justamente, ao ápice da imigração japonesa para o Brasil. A partir de 1930, o investimento do capital japonês voltou-se para a Amazônia. Foi em 1927, após as viagens de estudos realizadas pela comitiva do então Embaixador Tatsuki, que os Estados do Pará e Amazonas outorgaram concessões de terras de grande extensão. Foram fundadas, então, a empresa Amazon Kongyo (1928) e o Instituto da Amazônia (SAITO, 1961, p.36). A relação imaginada entre terra e prosperidade intensifica o empenho do governo japonês em dar continuidade à imigração para o Brasil de acordo com Sakurai (2000). Aliado a isso, o próprio relato desses imigrantes demonstra a ânsia pelas terras brasileiras, a partir das campanhas desenvolvidas pelos governos brasileiro e japonês para incentivar a vinda das famílias, pois o Brasil era descrito como uma grande oportunidade de enriquecimento rápido. Segundo relato de Inoue[17], ao se referir a campanha de incentivo à emigração, sua vinda à colônia do Guamá e as aspirações que vinham com esses imigrantes: "Pequenos lavradores de horta no Japão poderiam tornar-se proprietários de terrenos extensos" Inoue (In: MARUOKA, 1999, p. 4). Não apenas no caso de Inoue como também vários outros relatos da época apontam para as expectativas em relação ao Brasil advindas da forte campanha migratória incentivada pelas nações envolvidas. 1.3 A entrada dos japoneses a partir das imigrações oficiais Como mencionado anteriormente, ao chegarem ao Brasil e ao Pará, os imigrantes japoneses estavam sendo alvo de duros debates no âmbito intelectual e político por conta das políticas de branqueamento da raça brasileira. De acordo com Lesser (2001, p. 24), essas discussões giravam igualmente em torno da idéia da hierarquia racial concepção esta que se deu em muitos países e no Brasil. Conforme Seyferth (1996), o pensamento dos intelectuais estava centrado nos estudos evolucionistas, que vinham sendo discutidos desde o segundo quartel do século XIX, pautados no darwinismo social e na Antropologia Física que classificou as raças hierarquicamente sendo que a sobrevivência dos mais aptos era a grande metáfora. A partir dessa ‘superioridade' de uma raça em detrimento das demais, propõe-se a eugenia para nortear o pensamento de limpeza racial. Para Lesser (2001, p. 24), os intelectuais brasileiros tinham muita simpatia pelos estudos de um anatomista e naturalista alemão, Johann Blumenbach autor da obra De generis humani varietate nativa (1775-1776) que considerou a raça caucasiana como estando no topo da hierarquia racial, tendo seu trabalho servido de base para muitas discussões monogenistas da época. Essa discussão toca profundamente a ideologia que norteava o pensamento nacional de que a raça nativa e a africana seriam inferiores e, por isso, buscava-se a legitimidade através de pessoas vindas de lugares longínquos para se criar uma identidade nacional semelhante à européia. Ainda segundo Lesser (2001), no governo Meiji o interesse pela emigração era grande devido à população rural que vinha crescendo, enfrentando escassez crescente e mostrando-se inquieta. Sendo assim, os agricultores não viam outra solução senão aceitar as ofertas de migração para outros países. Com a vinda dos primeiros imigrantes para o Estado do Pará tendo como marco o ano de 1929, os japoneses que aqui aportaram trouxeram em suas bagagens toda a cultura de seu local de origem. O Japão acabava de passar pelo período feudal e estava ansiando pela abertura para o Ocidente. Por sua vez, os paraenses já imaginavam como seria o ‘japonês' através das idéias que circulavam à época. Os jornais paraenses que tratam da chegada próxima da primeira leva de imigrantes que viriam a povoar as áreas concedidas pelo acordo entre o Estado e o governo do Sol Nascente são bastante ilustrativas. As notícias veiculadas pelos jornais avaliavam positivamente a chegada dos japoneses, conforme se pode observar na matéria do jornal Folha do Norte, intitulada: "A navegação japoneza para a Amazônia", do dia 13.09.1929: "Para comemorar o início da navegação directa entre a Amazônia, e os portos do Japão, que de já nos temos ocupado, realizar-se-à uma festa a bordo do paquete "Manila Marú", da Osaka Shinkansenkaisha (Companhia Limitada de Vapores Mercantes de Osaka), a chegar brevemente à bahia do Guajará. Essa festa realizar-se-à a 16 do corrente, das 4 ½ às 6 horas da tarde, e constará de uma recepção a bordo, offerecida pelo commandante do navio, sr. Nisuke Ohno, e pelos consignatarios, srs. Booth & Cia. (London) Limited. A FOLHA recebeu um convite para essa recepção." Como forma de agradecimento, pelo sucesso da viagem e para mostrar os novos imigrantes na ocasião da chegada do vapor, seria oferecida festa de recepção pelo comandante do navio aos convidados da sociedade local e aos diretores das companhias de navegação e àqueles que intermediaram as negociações para a efetiva vinda desses imigrantes. Ao chegarem ao Rio de Janeiro a bordo do Montevidéu Maru, os passageiros que vinham para o Estado do Pará foram encaminhados para a hospedaria de imigrantes. Localizada na Ilha das Flores, estado do Rio de Janeiro, para verificarem as condições sanitárias e receberem o comprovante de saúde. Os que seguiriam para São Paulo permaneceram a bordo para terminarem sua viagem no porto de Santos/SP. Artigos orientais eram trazidos e produtos regionais eram enviados, como fica evidenciado no artigo publicado pelo mesmo jornal datado 16.09.1929 no dia em que o vapor chegou à capital do Estado: Aproveitando a oportunidade que se nos offerece, varios artigos do Pará o dr. H. Fukuhara vão remeter pelo "Manila Marú" para o seu paiz. Por intermédio do commandante Nisuke Ohno aquelle cavalleiro remetterá para o imperador do Japão dois ricos albuns do Pará e do Amazonas, constituidos de photographias nítidas e importantes, apanhadas no percurso do rio-mar, de bordo do "Hilderbrand". Esta troca de produtos entre Japão e Brasil dá-se ao longo das viagens do vapor e das escalas que este fazia em vários outros portos: "New Orleans, Galveston, Los Angeles, Yokohama e Kobe" (FOLHA DO NORTE, 14.09.1929), mais detalhadamente pode-se ler o trajeto do Manila Marú no anúncio do dia 16.09.1929: O "Manila Marú" procede do Japão, via Buenos Aires de onde partiu a 27 do mez passado, com escalas em Santos e Rio. Deste ultimo porto suspendeu a 9 do corrente via Victoria, de onde prosseguiu para cá, directo a 10. "Traz de Buenos Aires para nossa praça 90 toneladas de farinha de trigo. Daqui prosseguirá viagem a 18, devendo escalar em Nova Orleans a 3 de outubro, em Galveston a 8, em Cristobal a 13, em Los Angeles a 24, em Yokohama a 12 de novembro e em Kobe a 13." A vinda para o Pará do Manila Maru se faz com a escala realizada em São Paulo e no Rio de Janeiro de onde trouxe os imigrantes que haviam chegado a bordo do Montevidéu Maru que os trouxe do Japão, segundo palavras de Ohashi (2003, p. 6): "No dia 14 de julho de 1924, meus pais, eu e meus seis irmãos, uma tia, e um tio num total de onze pessoas, do Porto de Kobe, no navio Montevidéu Maru da Companhia de Navegação O.S.K. Line S.A." Com a imigração dos japoneses para o estado do Pará, inaugura-se igualmente, um novo circuito comercial de produtos entre os dois países. Lendo a série de matérias que passaram a ser publicadas fica claro que, a chegada dos japoneses era esperada com ânsia por parte dos políticos e da população ou, pelo menos, os jornais criavam uma expectativa para isso. Um dia antes da chegada, ou seja, dia 15.09.1929 o matutino dá informações sobre o porquê da vinda dos japoneses para o Estado do Pará: Devendo chegar amanhã a Belém a primeira leva de colonos que a Companhia Nipponica de Plantações do Brasil, com séde em nossa capital, contractou para exercerem a sua actividade em grandes emprehendimentos agricolo-industriais projectados por essa poderosa empresa, no interior do nosso Estado, serão inaugurados, hoje à praça da Penitenciaria, os vastos alojamentos que a firma constructora S. R. de Oliveira & V. Palumbo construiu para as hospedagens dos imigrantes. Há ainda, na mesma matéria, do dia 15.09.1929, a descrição do local da hospedaria que os abrigaram durante os dias em que estes estiveram na capital do Estado, antes de serem encaminhados para a colônia do Acará: Como a construcção que constitue, pelo seu caracter, uma novidade para o nosso meio, a mencionada firma obteve permissão do Dr. Fukuhara, director-gerente da Companhia Nipponica, para expor as edificações à visitação publica, hoje durante o dia. Os immigrantes desembarcarão pelo sítio onde antigamente o Curro e onde a empresa fez construir expressamente uma ponte com 140 metros de comprimento. De Belém os colonos serão encaminhados, aos poucos, para Thomé-assú, no rio Acará, onde já se acham bem adeantadas as importantes installações da empresa que escolheu essa localidade para o inicio dos seus trabalhos no Pará. A hospedaria construída pela Companhia de Nipônica servia apenas para abrigar aos imigrantes japoneses, ou seja, os imigrantes de outras procedências que chegavam a Belém eram encaminhados para a hospedaria dos imigrantes localizada na Diogo Moia. Era um pouso, onde os imigrantes dormiam "por cima de esteira, onde desse, era um barracão", segundo dados da pesquisa realizada, entre os imigrantes portugueses, por Fontes (2002, p. 202). Já no dia 16.09.1929 a Folha menciona o porquê da vinda dos japoneses para o Estado e os locais onde ficariam instalados. No jornal, observa-se o quanto as matérias estão impregnadas com o sucesso da imigração. Torna-se claro também o interesse pela imigração e o conseqüente desenvolvimento da região: A vinda dessa operosa gente para o nosso Estado, onde vem empregar na lavoura a sua actividade, deve-se, é preciso que se diga, à bôa vontade do infatigável industrial dr. Hachiro Fukuhara [...] A FOLHA, que pugna pelo progresso do Pará, com o concurso de todo e qualquer homem de bôa vontade registra com satisfacção os passageiros do ‘Manila Marú', felicitando o dr. Fukuhara e o sr. Conde Koma pelas suas iniciativas que redundarão em benefícios de nossa terra [...]. A partir da leitura dos documentos oficiais e jornais da época, somos levados à informação de que os japoneses receberam do governo estadual uma concessão de terras através de acordos bilaterais e, que vinham povoar áreas desabitadas do Estado. Assim, como pudemos observar anteriormente, no caso dos italianos e alemães segundo Seyferth (1990, p. 14), que se dirigiram para o sul do Brasil para povoar áreas desabitadas nas áreas que eram distribuídas entre as famílias imigrantes para o desenvolvimento da agricultura familiar, partindo-se de uma plano de fomento a imigração estabelecido pelo governo brasileiro. No matutino paraense fica evidente na notícia veiculada no dia 17/09/1929: "Belém hospeda a primeira leva de immigrantes nipponicos que, destinados á Companhia Nipponica de Plantações do Brasil, aqui vêm trabalhar na agricultura, em Thomé-assú, rio Acará", (FOLHA DO NORTE, 17/09/1929). Uma mensagem do governador Eurico de Freitas Valle, apresentada a Assembléia Legislativa do Estado do Pará no dia 7 de setembro de 1930, demonstrava o número de entradas de imigrantes de 2.612 indivíduos de outras etnias que entraram na Hospedaria[18]. O relatório ressalta que o número de entradas poderia ter sido maior caso não tivesse ocorrido um grande surto de peste bubônica. Porém, de acordo com as palavras de Joaquim José Ferreira de Mendonça, que assina o relatório na condição de chefe de seção, afirma que a imigração fora estabelecida em boa hora mesmo tendo opositores. O governo estadual colocou-se à frente na decisão de trazer os imigrantes, essa atitude foi benéfica para o Estado, segundo relata Joaquim Mendonça (PARÁ, 1930) que, reconhece a impossibilidade de se conseguir imigrantes sem que estes tenham incentivos pecuniários. A inspetoria estava trabalhando na regularização do trabalho desenvolvido pelos imigrantes e das despesas como forma de reduzir os abusos e a má índole destes. No período de 1º de julho de 1929 a 1º de junho de 1930, o número de naturalizações solicitadas por estrangeiros teve um montante de 17 concessões após os tramites legais o quadro configurou-se da seguinte forma de acordo com a Mensagem apresentada a Assembléia Legislativa (PARÁ, 1930, p. 108): Portuguezes 7, Syrios 7, Libanez 1, Polonez 1, Japonez 1, Allemão 1, e Peruano 1, num total de 19 resquisições. O período da imigração, ou seja, as condições de saída, da viagem e da chegada dos imigrantes são de importância fundamental para observamos como e quem são essas pessoas que deixam sua terra natal para "aventurar-se"[19] numa terra distante e diferente como era o Brasil. O canto apresentado por Tomoo Handa (1980, p. 164), ilustra bem, como era o Brasil na mentalidade do imigrante após se deparar com a realidade do país que passaria a lhe abrigar:
Mentiu quem disse que o Brasil era bom,
Assim eram os cantos entoados pelos primeiros imigrantes durante as reuniões em comemoração ao Ano-Bom[20], de acordo como observa Handa (1980), essas reuniões eram regadas a pinga, bebida em canequinhas esmaltadas e, como era forte, o resultado não demorava a aparecer. Os cantos mesclavam toques sentimentais do Período Meiji aprendidos no Japão e, durante a viagem de navio, com letras inventadas por eles mesmos para burlar a lembrança do sofrimento no Brasil. Pelo visto, a situação parece ter sido semlhante aos imigrantes que chegaram ao Pará a partir de 1929, pois, as perspectivas e esperanças em relação ao Brasil eram as mesmas dos que já haviam desembarcado em São Paulo desde 1908. Referências DALBY, Liza. Gueixa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. FAUSTO, Boris. Imigração e política em São Paulo. São Paulo: Editora Sumaré, 1995. FOLHA do Norte, Jornal. Edição do dia 13/09/1929. ______. Edição do dia 14/09/1929. ______. Edição do dia 15/09/1929. ______. Edição do dia 16/09/1929. ______. Edição do dia 17/09/1929. FONTES, Edilza. O pão nosso de cada dia. Belém: Paka-Tatu, 2002. GOMES, Ângela de Castro. Escrita de si, escrita da história: a título de prólogo. In: ______. Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: FGV, 2004. HANDA, Tomoo. O imigrante japonês: História de sua vida no Brasil. São Paulo: T.A. Queiroz: Centro de Estudos Nipo-brasileiros, 1987. Pg. 595 - 724. LESSER, Jeffrey. A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. Trad. Patrícia Queiroz Carvalho Zimbre. São Paulo, UNESP, 2001. MARUOKA, Yoshio. 70 Anos de Imigração Japonesa para a Amazônia. Belém: Topan-Press, 1999. Associação Pan-Amazônica nipo-brasileira. OHASHI, Paulo, T. Cruzeiro do Sul cintila no céu com a luz de verdade. Belém: ed. do autor, 2003. PASSOS, Alexandre. Juliano Moreira (vida e obra). Rio de Janeiro, Livraria São José, 1975. PARÁ. 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Brasília: UNB, 1990. [2] Utilizo este termo por entender que a vinda desses imigrantes não passava de uma grande aventura no sentindo de deixar tudo para trás e tentar construir uma nova vida num país distante e diferente. [3] Entrevista concedida em: 23/01/2006. Nascido em Tomé-Açú, os pais vieram para o Pará na primeira leva de imigrantes japoneses em 1929. No livro "Canção da Amazônia", a autora Fusako Tsunoda conta a vinda da família Yamada para a colônia de Tomé-Açú. [4] Ver Sakurai (2000, p. 208), que classifica a imigração japonesa dividida em dois momentos, como foi citado anteriormente, a primeira fase é considerada pela autora como sendo experimental. A segunda fase corresponde ao período em que as imigrações recebiam subsídio do Estado, no caso dos imigrantes vindos para o Pará o subsídio era tanto do governo brasileiro, quanto do japonês. [5] Nem todos os imigrantes eram de origem camponesa como veremos adiante. Além disso, imigrantes de diversas origens e culturas diferenciadas foram obrigados a viver em conjunto e a aceitar formas de vida coletivas e impostas. [6] Grifo meu. [7] A autora utilizou a escrita de acordo com a regra gramatical da língua portuguesa, na qual, deve-se usar a letra M antes das consoantes B e P, no entanto, na língua japonesa a letra M não é grafada isoladamente, portanto, a palavra seria grafada como ganbare. Utilizarei desta última forma. [8] Na imagem do cartaz de iniciativa do governo japonês, usado a partir de 1923, podemos observar a figura de um agricultor jovem e musculoso apontando para o Brasil, enquanto na sua outra mão segura uma enxada e no outro braço dobrado sua família aparece sentada e uma das crianças acenando com a bandeira japonesa. Ao lado está escrito: "Agora vamos, levando a família para a América do Sul!". Ver: Lesser (2001, p. 173) [9] O sentido empregado ao termo "colonizadores" se refere aos imigrantes e as pequenas propriedades (colônias) que eram distribuídas. Tem o mesmo sentido no caso de região colonizada ou área colonial demarcada pelo governo em terras devolutas, ou seja, a área rural de um município. Seus habitantes são colonos. Categoria esta que sobreviveu ao longo do tempo e designa o camponês. Este termo também é usado para se referir a propriedade agrícola do colono. Ver: Seyferth (1990, p. 25, nota de rodapé). [10] Grifo meu. [11] "Yet none of this Orient is merely imaginative. The Orient is an integral part of European material civilization and culture." Ver. Said (1994, p. 2) [grifo do autor]. [12] "O perigo amarelo" era frase constante em jornais e revistas do princípio do século. Temia-se a expansão sino-japonesa apontada como nociva". (PASSOS, A., 1975). [13] Juliano Moreira é considerado o reformador da psiquiatria brasileira. No prefácio do livro é apresentado como "sociólogo, etnógrafo, historiador, dermato-sifilógrafo, neuro-psiquiatra, psiquiatra. [14] Neste caso, uma questão que vale ser ressaltada, é a forma como os imigrantes japoneses chegam ao Pará. Pudemos constatar que houve uma imigração anterior àquela fomentada pelos governos a partir de 1929. Em alguns casos através de relatos escritos, é comum a presença de japoneses na cidade de Belém no início do século XX. Estes imigrantes chegaram a capital paraense provenientes do Peru, principalmente. [15] Entrevista do Sr. Matsumoto [nome fictício], nascido na província de Nagasaki, 56 anos [a idade se refere ao ano de 2002], Professor universitário, chegou ao Brasil no ano de 1955. [16] A dificuldade com a língua japonesa encontrada pelos imigrantes que, depois de anos de trabalho no Brasil, ao voltarem ao Japão para rever seus parentes e amigos é compreensível pelo fato da invasão de termos de origem norte-americana. Logo ao desembarcarem no aeroporto de Narita esses imigrantes se deparam com uma grande quantidade de termos que até então eram desconhecidos. Outro aspecto interessante é o cumprimento entre os japoneses denominado de kiritsu, ou seja, a curvatura (reverência) feita na frente de outra pessoa. Após a abertura do Japão para o mundo Ocidental, aos poucos, este cumprimento vem sendo menos utilizado, porém, nas comunidades nipo-brasileiras, destacando-se: Belém, Tomé-Açú, Castanhal, ele ainda é bastante utilizado sendo que aos poucos se observa uma mudança para o simples aperto de mão. [17] Masaru Inoue, residente em Castanhal, município 70 km distante de Belém. O relato foi escrito para publicação do livro comemorativo aos 70 anos de imigração japonesa na Amazônia editado em 1999. Ver Inoue (In MARUOKA, 1999, p. 4-6). [18] A Hospedaria a qual o governador se refere em seu relatório, A Casa do Imigrante, segundo Edilza Fontes (2002, p. 202) localizava-se na Travessa Diogo Móia, bairro central do município de Belém/PA. [19] Utilizo este termo por entender que a vinda desses imigrantes não passava de uma grande aventura no sentindo de deixar tudo para traz e tentar construir uma nova vida num país distante e diferente. [20] A celebração do Ano Novo para os não-japoneses. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar :
A entrada de imigrantes japoneses no Estado do Pará a partir das imigrações oficiais no início de 30 Sex, 23 de Maio de 2008 © 2010 - Autores.com.br |
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