
curti muito seu conto. Você tambem é fã de Jornada nas Estrelas?
Um abraço, João Drummond
| Véspera |
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| Literatura - Contos - Ficção |
Escrito por dragaodepapel |
Dom, 25 de Maio de 2008 14:19 |
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Nota do autor: esta é a versão original do conto, que já foi analisado, criticado e devidamente "oficinado", e no momento está sendo corrigido.
Zeng sentou-se no chão frio do pequeno observatório, um dos poucos lugares da nave onde a gravidade artificial ainda funcionava. Voltou seus olhos castanhos orientais para a vigia retangular. Uma profusão de pontos brilhantes preenchiam o negro do espaço. À direita da vigia, uma nuvem de tonalidades avermelhadas indicava a presença de uma nebulosa, mais exatamente a M-17, e o motivo dele estar ali. Encostou a cabeça na parede de metal e fechou os olhos, mesmo sabendo que a imagem que o perseguia surgiria novamente. Há mais de uma hora atrás ele estivera naquele mesmo local, ajustando o aparelho que agora se encontrava tombado no chão, com uma de suas cinco lentes quebradas. O tripé no qual o aparelho deveria estar preso estava ligeiramente inclinado para a esquerda, com uma de suas pernas metálicas torcida devido ao impacto que tivera com uma caixa preta, que se encontrava do outro lado do observatório. Para os registros da nave, tudo acontecera em menos de cinco segundos, mas para ele levou tempo suficiente para que o terror criado pela situação invadisse sua mente. Zeng estava parado de pé junto ao tripé, prendendo a poderosa câmera, pronto para tirar algumas fotos especiais da nebulosa, que seriam depois entregues a uma revista de “arte espacial”. Assim era classificada uma publicação voltada para imagens obtidas de corpos celestes através de câmeras especialmente projetadas para aplicar efeitos sobre as imagens obtidas. Os resultados dessas “fotografias” iam do poético ao bizarro. E Zeng, apesar de ser um engenheiro conhecido por seu ar introspectivo, era um dos melhores fotógrafos, um expoente daquela nova arte. Mas a câmera não serviria apenas para um luxo artístico. Com ela a tripulação daquela nave de pesquisa esperava conseguir algumas boas fotos para o seu já monumental acervo, guardado nos prédios da agência de pesquisas científicas. Com calma, Zeng focalizou a nebulosa de tons avermelhados, que mais lembrava um unicórnio. “O universo é um artista inigualável”, dissera o editor da revista, após ver algumas antigas fotos de nebulosas. Usando um pouco de imaginação, qualquer um podia ver várias formas conhecidas em uma foto de uma nebulosa. Desde animais e objetos até mãos humanas fazendo gestos obscenos. Quando terminou de prender a câmera ele voltou os olhos para a vigia. E viu o primeiro instante do terror que percorreria a nave pelos próximos minutos. Um pedaço gigantesco de rocha negra avançou celeremente na direção da espaçonave, passando a pouco metros da vigia do observatório, até acertar a popa da nave, destruindo ambos os motores principais, inutilizando os motores de apoio, comprometendo a estrutura e os sistemas de suporte de vida. Tudo o que a tripulação pôde fazer foi lacrar os corredores das partes atingidas com as pesadas portas de aço, mantendo-os a salvo. Mas, Zeng sabia, não durariam muito tempo. Metade dos sistemas estavam inoperantes. Os tanques de oxigênio principais haviam sido destruídos e apenas quatro dos tanques auxiliares ainda estavam inteiros, mas com a carga baixa. A antena do radio-farol estava destruída, bem como outros sistemas de comunicação de curto e longo alcance. A reserva de oxigênio não duraria mais de 56 horas e eles estavam em um ponto da galáxia onde poucas naves se aventuravam a entrar. Zeng abriu os olhos e inspirou profundamente. À sua frente, na parede oposta, um antigo calendário mecânico apontava a data e a hora, com base no horário padrão da Terra. Apesar de existir há várias décadas, ainda fazia seu trabalho com perfeição, girando suas engrenagens sem necessitar de energia ou interferência humana, garças à um engenhoso sistema de molas. Mesmo com o impacto que a nave sofrera, o calendário permanecia em seu lugar, como que alheio ao que acontecera ao seu redor. O painel que mostrava o dia moveu-se, passando de 22 para 23. Zeng olhou então para o mês, que , devido ao impacto do asteróide errante, marcava apenas 1; o segundo algarismo havia desaparecido quando a roda de números que o compunha foi arrancada de seu lugar. Mas ele sabia que o número que faltava era 2, pois estava no mês de desembro. E algum antigo acontecimento, enterrado fundo em sua mente, o fez lembrar que dia era 23 de dezembro. Sua mente passou a trabalhar rápido, principalmente depois de olhar novamente para o tripé e para a câmera jogada ao chão. Os outros tripulantes poderiam achar uma tolice o que ele estava para fazer, mas seria uma boa forma de passar o tempo até que o fim chegasse. - x - Nick coçou levemente o lado direito do rosto enquanto observava com atenção as informações que o único computador em operação estava lhe fornecendo. - Bom, parece que ficamos completamente sem meios de nos comunicar – comentou ele, após uma pequena pausa. - Bem que a sonda com o diário de bordo poderia viajar através dos túneis, assim ela chegava lá rapidinho e daria tempo de alguém vir nos ajudar – comentou Carl, que estava sentando em uma poltrona nos fundos da sala de comando. Nick não pode deixar de sorrir diante do comentário. Carl tinha toda a razão. As pequenas sondas de envio de dados já poderiam ter sido melhoradas para poderem efetuar viagens pelos túneis espaço-temporais, chegando mais depressa ao destino. - Todas as antenas se foram? – perguntou Carl. Ainda não conseguia acreditar no que lhes acontecera. Nick balançou a cabeça num sinal de consentimento. - O radio farol e as antenas de baixo alcance foram arrancadas da estrutura. As de longo alcance tiveram uma sobrecarga, e os emissores queimaram. Carl apoiou os cotovelos sobre as coxas e segurou a cabeça com as mãos. Fenzer, que estava ao seu lado, se remexeu e falou: - Aquele pedaço de rocha cretino sabia direitinho onde nos acertar. Nick encostou-se no console do computador e ficou a olhar para a porta da sala de comando. Para a maioria dos tripulantes o asteróide que os atingira e os deixara à deriva no espaço parecia ter consciência de seu ato, como se fosse uma entidade inteligente. Uma entidade maligna. O asteróide havia praticamente surgido do nada. Os três poderosos computadores de bordo não o haviam detectado quando ainda estava a uma distância relativamente grande. Caso tivessem conseguido, a nave seria desviada para uma rota mais segura. Mas quando um dos computadores conseguiu identificar a ameaça e alertar a tripulação, já não havia mais tempo suficiente. O máximo que o computador conseguiu fazer foi acionar os foguetes de manobra, girando a nave e com isso diminuindo o impacto, fazendo com que o asteróide atingisse somente a proa, e não o centro da nave. Depois de alguns segundos de silêncio, Carl manifestou-se. - E se pudéssemos reconstruir uma das antenas? Ele fizera a pergunta mais para si mesmo do que para os demais tripulantes presentes na sala, como se tivesse pensado em voz alta. Mas Fenzer e o capitão haviam prestado atenção. - Teríamos como fazer isso? – indagou Fenzer, olhando para Carl seriamente. - Nos depósitos deve haver alguma coisa – respondeu Carl, levantando a cabeça. – Temos bastante peças de reposição, e pode ser o suficiente para construir uma antena completa a partir do zero. - De longo ou de curto alcance? – perguntou Nick. - As duas. Fenzer iria fazer mais um comentário sobre a idéia de Carl, mas interrompeu-se quando viu, pelo canto do olho, um dos engenheiros entrar na sala, visivelmente nervoso. Evan parou diante do capitão, os ombros largos curvados para frente. - Tenho uma péssima notícia e vou dá-la mesmo que ninguém queira escutar – iniciou ele, com a voz elevada. Ele era conhecido como o paranóico da nave, mas não ligava. O capitão não disse palavra alguma, apenas ficou olhando para o engenheiro em expectativa. Evan ergueu os ombros, e tentou acalmar-se um pouco antes de prosseguir: - Somente uma das naves de salvamento está em condições de operar. Três delas foram completamente perdidas, e as demais estão seriamente danificadas. - Isto significa que... – iniciou Fenzer, mas foi logo interrompido por Evan, que completou: - ... apenas seis tripulantes poderiam ser salvos. O resto ficaria para trás. Fenzer olhou para o teto, com uma expressão aborrecida em seu rosto de feições angulosas, enquanto Carl voltava a mergulhar a cabeça entre as mãos. Apenas Nick parecia não se importar com a situação. Apenas parecia. No fundo ele estava tão preocupado e amedrontado quanto os demais tripulantes, mas tentava ignorar seus sentimentos para poder pensar com clareza, para poder tomar as decisões que deveriam ser as corretas. Evan olhava para o capitão à espera de uma resposta, uma ordem, uma palavra que fosse. E ele já tinha uma vaga noção de qual seria a decisão do capitão. Enquanto esperava, Nick pensava. O capitão sabia que não era justo salvar apenas seis tripulantes quando os demais, em torno de quatorze, ficariam na nave à espera da morte. Mas estes seis humanos poderiam explicar ao alto comando o que havia acontecido à nave caso a gravação do diário de bordo apresentasse algum defeito. E, se tivessem sorte, a pequena nave salva-vidas poderia encontrar alguém no meio do caminho a tempo de salvar seus companheiros. Era apenas uma idéia desesperada, ele sabia disso, mas naquele momento qualquer pensamento era válido, qualquer idéia poderia ser tida como excelente e colocada em prática. Bastava a colaboração de todos. - Vamos escolher seis tripulantes – falou ele, por fim. E antes que alguém pudesse contradizê-lo, acrescentou: - Sei que não será justo para os demais que permanecerem na nave, mas eles poderão servir de testemunhas para o que aconteceu caso a nave não seja encontrada, ou o diário de bordo não puder ser recuperado. Evan olhou para ele de viés. Sabia que não seria um dos escolhidos, apesar de que o capitão faria um sorteio justo. Era difícil manter a calma quando o fim estava passando pelo portão, quase batendo na porta. Balançou a cabeça levemente, consentindo. Mas logo em seguida perguntou: - E os que vão ficar aqui? Vamos ficar de braços cruzados esperando que o oxigênio simplesmente acabe? Nick olhou para Carl e Fenzer, e respondeu: - Vamos tentar consertar as antenas de longo alcance e construir pelo menos uma de curto alcance. Assim teremos o que fazer. E podemos aumentar nossas chances de sairmos desta enrascada mais vivos do que quando entramos. Não foi necessária mais nenhuma ordem do capitão para que Carl se levantasse rapidamente e se dirigisse para a saída, falando: - Estou indo ver o que temos nos depósitos. Fenzer o seguiu. Quando os dois engenheiros já haviam desaparecido no corredor, Nick voltou-se para Evan. - Peça para Mirka vir até aqui. Evan assentiu e saiu da sala. - x - Zeng desceu devagar pela pequena escada em espiral que levava ao observatório, e parou quando chegou no último degrau. Olhou para a direita, e deparou com a porta de aço que bloqueava o corredor. No painel da parede ao lado, duas luzes vermelhas piscavam, indicando que a porta havia sido lacrada, impedindo até mesmo a passagem do ar. Após aquela porta estava um dos corredores que levavam ao nível superior, no qual ficavam os alojamentos da tripulação, o centro de recreação, entre outras dependências, bem como a rampa de acesso ao local onde se encontravam os sistemas de comunicação e o radio farol. Zeng não chegara a ver o estado em que ficara o nível superior, mas sabia que o asteróide havia roçado o casco da nave naquele ponto, arrancando parte da estrutura. Justamente a parte onde estavam as antenas e o rádio-farol. Haviam cinco tripulantes no local no momento do impacto, e eles só se salvaram porque estavam bastante próximos de uma das portas. Apenas duas pessoas haviam se ferido levemente. Zeng virou-se para o outro lado e pôs-se a caminhar calmamente pelo corredor, em direção ao centro de comando. Ao passar diante de um dos depósitos, avistou Carl nos fundos de uma sala, entretido com algumas caixas metálicas. Carl olhou para cima ao ouvir Zeng aproximar-se. - Zeng, não acredito. Pensei que você tinha morrido lá em cima! – brincou ele. Zeng limitou-se a esboçar um sorriso. Depois resolveu perguntar: - Está procurando o quê? - Peças para consertar as antes de longo alcance. E também construir algumas de curto... Carl fechou uma das caixas e colocou-a novamente em seu nicho na estante. Voltou-se para a outra caixa que permanecera sobre a mesa. Retirou uma pequena placa acinzentada, analisando-a detidamente. - Vão tentar se comunicar com alguém? – perguntou Zeng. Carl balançou a cabeça, assentindo. Guardou a placa novamente, fechou a caixa e deixou-a a um canto, junto com outras duas. - Temos que fazer qualquer coisa. Só nos resta dois dias e meio antes da dona morte afiar sua foice, e a equipe de salvamento se encontra a quatro dias daqui. Zeng não disse nada, limitando-se a ficar encostado na porta. - Afinal, o que é que você estava fazendo por tanto tempo lá em cima? – perguntou Carl. - Estava tentando não atrapalhar. Eu não ia ter muita utilidade aqui em baixo mesmo. – Zeng deu de ombros. - Desde quando um engenheiro eletrônico não tem utilidade? Estamos precisando de você! Ou quem você acha que vai nos ajudar? Antes que Zeng pudesse dar a resposta, Fenzer apareceu, parando ao seu lado. Com uma falsa expressão de extrema seriedade, Fenzer olhou para Zeng de alto a baixo, e falou: - É o Zeng mesmo ou é uma aparição? - É o Zeng – foi a resposta de Carl. Fenzer entrou no depósito, largando as caixas que carregava sobre a mesa, com certo estardalhaço. - Bonito, né? Enquanto nós aqui em baixo ficamos queimando neurônio procurando por algo para salvar nossa pele, você ficou lá em cima coçando o saco! Carl balançou a cabeça, rindo, diante do comentário jocoso de Fenzer. - Vamos deixar as discussões para depois – falou. – Vamos levar o que encontramos para a ponte, e ver o que conseguimos fazer.. Zeng, me ajude com essas caixas aqui... - x - - Nós estamos bastante afastados do perímetro – disse Nick. – Mesmo a equipe de Kribit está a quatro dias de distância de nós. E o oxigênio disponível dá para no máximo três dias, se contarmos com os tanques dos trajes espaciais. Mirka sentou-se na cadeira que, há alguns minutos atrás, havia sido ocupada por Carl. - Poderíamos colocar todos em sono criogênico – expôs ela. - Mas não no estado em que os computadores se encontram. Apenas um está operando, e mesmo assim pode vir a ter algum problema se houver uma queda de energia. Não quero confiar vidas humanas enfurnadas naquelas cápsulas a uma máquina que pode parar de funcionar a qualquer instante. - Se não corrêssemos o risco de alguém ter alguma reação metabólica adversa durante o processo de criogenia, poderíamos desligar as cápsulas do computador, deixá-las funcionando automaticamente – comentou a médica, sua voz revelando certo cansaço. Nick encostou-se na parede, ao lado dela, e olhou para o chão. - Fenzer seria um dos que não se salvariam. - O que que tem eu aí? – perguntou Fenzer, entrando na sala. Havia ouvido claramente o comentário de Nick. - Estávamos falando sobre sono criogênico sem assistência do computador. – explicou o capitão. Fenzer estremeceu. Lembrou-se da vez em que tivera que fazer uma viagem de uma semana em uma nave de conexão, pequena e sem qualquer recurso para entreter um ser humano durante a viagem. Ele havia sido, junto com outros cinco passageiros, colocado em sono criogênico. E só foi acordar na sala de terapia intensiva de um hospital, após o computador da nave alertar a tripulação que ele estava morrendo. No final do quarto dia de viagem o metabolismo dele havia cessado, ao invés de se manter reduzido. Enquanto a pequena nave era acelerada até o limite para alcançar o quanto antes seu destino, os programas médicos do computador faziam o que podiam para reanimar Fenzer. Se a cápsula de criogenia não estivesse ligada ao computador, ela apenas indicaria o problema, e caberia aos seres humanos resolvê-lo. Se não fosse o computador, Fenzer nunca mais voltaria a acordar. - Vão colocar todos na criogenia? – perguntou ele, visivelmente preocupado. - Só se for extremamente necessário – respondeu Mirka, para alívio de Fenzer. Carl depositou as caixas que carregava sobre uma pequena mesa a um canto, enquanto falava: - Achei bastante coisa útil, Nick. O Evan está por aí? - Deve estar na enfermaria tomando um calmante. Eu o vi por lá – respondeu Mirka, antes que Nick pudesse dizer qualquer coisa. - x - Evan desceu os poucos degraus da pequena escada de metal rapidamente, avançou pelo corredor parcamente iluminado sem fazer barulho e entrou na sala de comando. Parou diante de Nick, que estava novamente encostado em um dos consoles do computador. - Tudo pronto, capitão. Pode mandar os rapazes. – falou ele. Nick desencostou-se do console e avançou em silêncio na direção da porta, sendo acompanhado pelos olhares sérios de Morvalsk, o encarregado das comunicações, e de Carl. Caminhou calmamente pelo corredor e entrou em uma ampla sala, cuja luminosidade normal parecia se destacar do corredor mal iluminado. Mirka levantou os olhos e virou-se na direção da porta ao ouvir que alguém se aproximava. - Já estão todos prontos para a viagem – falou ela. – Brent está um pouco deprimido por ter que deixar seus companheiros para trás, mas isso não irá afetar em nada o grupo. Nick olhou para os fundos da enfermaria, onde seis pessoas se reuniam em torno de uma mesa circular de metal polido. Todos olharam para o capitão em silêncio, aguardando. - Vamos – disse Nick. Todos se levantaram e caminharam para fora, sendo então seguidos pelo capitão e Mirka. Avançaram pelo corredor, passando diante da sala onde se encontravam Zeng e Fenzer, às voltas com a construção da nova antena. Zeng acompanhou o grupo com os olhos, até sumirem de vista. Fenzer não olhou, estava entretido com o equipamento de micro-solda. O grupo chegou na plataforma do módulo salva-vidas, onde Evan os aguardava. Um a um foram entrando no espaçoso módulo, composto por dois níveis. Quando todos estavam acomodados nos assentos, Brent virou para Nick e falou: - Capitão, boa sorte. Em breve nos veremos novamente. Nick sorriu diante da demonstração de positivismo de Brent. Depois deu o sinal para que Evan fechasse a comporta do módulo e efetuasse o lançamento. Evan apertou alguns botões no painel ao lado, e afastou-se alguns passos. Com um leve solavanco, o módulo deslizou sobre uma esteira até uma câmara-estanque. Segundos depois estava do lado de fora da nave, avançando lentamente pelo espaço. Quando estava a uma distância segura da nave, os propulsores foram acionados, e o módulo desapareceu entre as estrelas. - x - Mirka entrou na pequena sala que Carl, Fenzer e Zeng estavam usando para construírem as antenas. Nick estava sentado junto à mesa, acompanhando o desenvolvimento do trabalho. A médica avançou lentamente até parar ao lado do capitão. - Capitão – iniciou ela. – Temos nove tripulantes que, a meu ver, não são necessários na atual situação, e que estão na enfermaria passando o tempo com um jogo de xadrez. Após uma conversa, tivemos a idéia de colocá-los em sono induzido por um período de 12 horas. Assim, poderíamos reduzir o consumo de oxigênio e eles não ficariam entediados, talvez chegando até a depressão. Nick olhou seriamente para ela. Às vezes se espantava com a capacidade da doutora de encontrar soluções criativas e até um tanto diferentes para os problemas que apareciam. E desta vez ele teria que concordar com ela novamente. Afinal, a carga de oxigênio estava baixando cada vez mais, e não haveria problema alguns em colocar alguns tripulantes para dormir, o sono induzido poderia ser interrompido a qualquer momento. - Tudo bem, pode prosseguir. Mas Morvalsk fica. Mirka balançou a cabeça, consentindo, e dirigiu-se para a porta. Parou quando ouviu Nick dizer: - E da próxima vez pode me chamar de Nick. Ela exibiu um leve sorriso e saiu. - x - Zeng apanhou as sobras de fios metálicos que se aglomeravam sobre um canto da mesa e os colocou em uma pequena caixa, que já estava repleta de fios e circuitos. O que ele já havia ajuntando durante a construção de uma das antenas era o suficiente para dar continuidade ao projeto que tinha em mente. Voltou sua atenção para um dos módulos emissores da antena, um retângulo metálico de apenas dez centímetros de comprimento. Quebrando a uniformidade da peça havia um pequeno conector, em uma das arestas menores, com cinco pontas metálicas. Zeng apanhou um cabo de dados, uma fita larga e ondulada, do computador ao lado e ligou no módulo. Depositou todo o conjunto sobre a mesa. E então, por um segundo, sua visão escureceu. Ele pensou que não estivesse enxergando direito. Voltou-se para Fenzer, que olhava para a luz do teto com a expressão de alguém que acabara de descobrir que havia sido ludibriado. Então a luz piscou mais duas vezes, e depois se apagou. - Tá legal. O que foi agora? – perguntou-se Fenzer. Zeng viu o vulto de Fenzer levantar-se e sair na direção da porta, e decidiu seguí-lo. Não que tivesse medo do escuro, mas não estava a fim de ficar sozinho naquela sala, depois de tudo o que já havia acontecido. O corredor estava sendo iluminado apenas pelas luzes de emergência, pequenas linhas de um alaranjado brilhante se destacavam da escuridão próximas ao piso. Zeng e Fenzer avançaram a passos rápidos pelo corredor, e então entraram na sala de comando, encontrando-a também sem iluminação. - O que aconteceu? – perguntou Zeng, aproximando-se de Nick. - O reator parou de funcionar. Tivemos uma sobrecarga. - E isso acabou com as bobinas de contenção – completou Evan, que estava ocupado com o computador. – Vamos tentar colocar as baterias em funcionamento. - E o reator secundário? – perguntou Fenzer, aproximando-se do grupo, quase esbarrando em Evan. - Se alguém souber onde ele está... – foi a resposta de Evan. Fenzer e Zeng afastaram-se, deixando Evan trabalhar sem interrupções. Fenzer ficou a coçar o queixo, pensando. Fez rapidamente um cálculo e chegou a uma conclusão. Poderia não estar certo, pois não se considerava um gênio na matemática, mas o que ele sabia já era suficiente para deixá-lo preocupado. - Isso quer dizer que não poderemos usar a antena de longo alcance – falou, sem se dirigir a ninguém a não ser a si mesmo. Os demais olharam para ele, surpresos com a declaração. - O pior é que ele tem razão – falou Evan, depois de alguns segundos, enquanto observava, com certo alívio, as luzes da sala de comando se acendendo. – A carga das baterias não vai dar para isso. Poderíamos até colocar a antena para funcionar, mas esgotaríamos a energia rapidamente. - Bom, então o jeito vai ser usar só a antena de curto-alcance – falou Nick. - E torcer para que alguém passe perto o suficiente – concluiu Fenzer. - x - Fenzer inspirou profundamente enquanto analisava as leituras de seu traje espacial no pequeno visor na parte inferior do capacete. Depois voltou a olhar para frente e entrou na câmara-estanque. Esperou pacientemente que a câmara igualasse a pressão e abrisse a porta que o levaria para a parte externa da nave. Poucos segundos depois a luz no alto da porta da câmara mudou de vermelho para verde e a porta se abriu, deslizando silenciosamente para o lado. À frente havia apenas o espaço. Fenzer avançou dois passos e então prendeu a ponta de seu cabo-guia em um pequeno gancho no casco da nave. Com um pequeno impulso, saiu da câmara. Utilizando-se do cabo-guia, puxou o próprio corpo para junto da nave. Quando suas botas tocaram a superfície de metal pintada de azul e branco, ele ligou os imãs eletromagnéticos que prendiam a sola das botas no casco. Olhou em torno, e então começou a andar na direção da parte superior da nave, onde iria instalar a nova antena. Avançava lentamente, erguendo um pé somente após ter certeza de que o outro estava firmemente preso ao casco. Levou vários minutos para percorrer as poucas dezenas de metros que o separavam de seu objetivo. Quando chegou no alto da nave, na proa, quase próximo à cabine de comando, parou e ligou o rádio. - Bom, pessoal, cheguei. Agora vou começar a dançar o can-can. Ouviu Nick dar uma risada, e então veio a resposta. - Tudo bem, pode continuar. O painel de alimentação de energia está perto do duto de escape da ventilação, à sua esquerda. Fenzer abaixou a cabeça e olhou na direção indicada. Viu o pequeno buraco negro de forma arredondada que marcava a saía do exaustor do sistema de ventilação, e que estava fechado. À direita encontrava-se uma marcação em amarelo, em forma de retângulo, com dizeres em branco. Fenzer abaixou-se e levantou a pequena tampa com as marcas amarelas, revelando alguns plugues de energia. - Encontrei, Nick. – falou ele. – Daqui a pouco nossa antena estará funcionando. Depositou sobre o casco a pequena caixa que carregava consigo e abriu-a. Retirou uma haste de metal. Mesmo já tendo feito alguns trabalhos no vácuo do espaço, ele ainda se atrapalhava um pouco com as grossas luvas do traje espacial. Com paciência, estendeu a haste retrátil, ligando-a a um pequeno suporte dotado de um poderoso imã. Então fixou o conjunto no casco da nave. Retirou cinco retângulos metálicos da caixa e os prendeu a intervalos regulares na haste, ligando-os através de um cabo. Depois ligou o primeiro retângulo em um dos plugues de energia e de dados. Ficou a olhar por alguns segundos para sua pequena obra de arte. Depois tornou a falar pelo rádio: - Nick, terminei, pode ligar essa belezinha. Nick voltou-se para Evan e Morvalsk, que estavam sentados diante de terminais de computador, apenas aguardando o momento de colocar a antena em funcionamento. A um sinal do capitão, eles começaram a trabalhar. Em questão de segundos um gráfico surgiu na tela do computador, indicando que os módulos de emissão estavam trabalhando corretamente. Morvalsk digitou rapidamente a mensagem que deveria ser enviada: “Nave de pesquisa Zenarus avariada no setor E4-9E. Enviar resgate urgente. Menos de um dia de sobrevivência.” E então pediu ao computador enviar a mensagem repetidamente. Nick voltou-se para o terminal ao lado, para comunicar-se com Fenzer: - A antena está funcionando, Fenzer. Pode voltar. Fenzer não pode deixar de sorrir diante da mensagem. Afinal, a antena era parte de seu trabalho. Apanhou a pequena maleta de metal e então começou a voltar para a câmara-estanque. Mas parou após dar alguns poucos passos quando uma idéia floresceu em sua mente, e dava mostras de que não iria abandoná-lo tão facilmente. Ligou o rádio e falou: - Capitão, se não se importar vou demorar um pouco para voltar a bordo. Quero ver uma coisa. - Me explique qual é essa coisa que você quer ver – foi a resposta. Fenzer notou que o capitão não havia gostado. - Quero ver os estragos que o meteoro fez. A resposta demorou alguns segundos para chegar. - Você tem dez minutos, se não voltar dentro deste prazo, eu serei obrigado a lhe passar um reprimenda e colocá-lo em suspensão. - Tudo bem, capitão, já volto, é só uma olhada rápida – disse Fenzer, enquanto caminhava na direção da popa da nave. Ele sabia que Nick falara em suspensão por brincadeira. No máximo ele lhe lançaria um olhar zangado. A parte superior da nave possuía uma elevação suave em sua seção central e, portanto, ocultava da visão de Fenzer a popa. No alto da elevação deveria estar a antena do radio-farol, que na verdade era uma grade metálica com aproximadamente 5 metros de lado, parecendo uma rede de pesca estendida em suportes, e logo atrás dela localizavam-se as antenas de baixa freqüência, instaladas no alto de uma espessa parede, como a barbatana de uma baleia. Mas o que se via naquele momento era uma grande lasca de metal apontando para cima. Fenzer parou quando chegou próximo ao alto da elevação. Agarrou-se à borda da lasca de metal e ficou a olhar, pasmo, para a popa da nave. Demorou alguns segundos para seu cérebro perceber que da popa só sobrara algumas vigas de metal e um dos motores. O restante deveria estar a quilômetros de distância. Olhou então para baixo, no ponto em que a chapa metálica que ele segurava começava a erguer-se. Alguns metros abaixo, a pequena luz amarelada de emergência brilhava no centro da sala de recreação. A lâmpada, cuja alimentação de energia era independente do resto da nave, era uma das poucas coisas que permaneceram no local. Os demais objetos provavelmente haviam sido lançados no espaço quando o meteoro abriu a fenda no casco. - Capitão – disse ele, pelo rádio. – O negócio aqui é assustador. Estou voltando rapidinho. Desligou o rádio, deu meia volta e tratou de andar o mais depressa que as botas magnéticas lhe permitiam. Decidiu fazer o caminho mais curto até a câmara-estanque, o que significava passar entre as células fotovoltaicas que estavam montadas na lateral da nave. Ao chegar perto da estrutura que sustentava os conjuntos de células, encontrou os quatro painéis que o computador acusava estarem fora de funcionamento. Evan achava que os painéis também haviam sido arrancados quando ocorreu o impacto com o meteoro. Mas Fenzer os encontrou. Uma parte da estrutura, que era montada em blocos, havia se soltado. Os cabos de energia dos painéis haviam se soltado dos plugues, mas a ponta de um dos painéis havia enroscado debaixo de outros dois painéis, mantendo aquela parte da estrutura presa. Fenzer sabia que, com um pouco de jeito e uma ajuda, poderia recolocar os painéis em seus devidos lugares, fazendo com que as células voltassem a funcionar e gerassem mais energia para as baterias. Sem perder tempo, falou: - Capitão, não sei se vai gostar da minha idéia, mas acho que não custa nada tentar. - Pode falar – foi a resposta, denotando um certo ar de cansaço. - Encontrei os painéis que o Evan disse que foram perdidos. Eles estão aqui, enroscados na estrutura e, se alguém puder me ajudar, podemos colocá-los de volta no lugar. Provavelmente voltarão a funcionar, pois me parece que estão inteiros. Carl, que ouvira a conversa, lançou um olhar sério para Nick. - Tem certeza, Fenzer? – perguntou o capitão. - Claro que tenho – respondeu Fenzer – Só preciso de alguém para me ajudar a desenroscar o conjunto e prendê-lo de volta no lugar. Nick voltou-se para Carl, e então percebeu que, mesmo sem dizer palavra alguma, o engenheiro estava querendo dizer: “Se quiser, posso ir.” O capitão sabia que não tinha alternativa. Fenzer ficaria teimando com sua idéia até que alguém conseguisse convencê-lo do contrário, o que não era tarefa fácil. E a expressão no rosto de Carl dizia que eles podiam fazer aquele serviço sem problema algum. Ele não queria arriscar a vida de seus tripulantes, mandando-os para um conserto do lado de fora da nave, que geralmente era realizado somente nas docas e por pessoal especializado. Mas a situação não lhe dava outra escolha. - Carl está indo aí ajudá-lo – falou finalmente. Carl levantou-se e saiu da sala rapidamente, enquanto a voz de Fenzer soava no sistema de comunicação: - Beleza! - x - Zeng entrou no observatório e depositou a caixa repleta de sobras de material no chão. O tripé ainda estava no centro da sala, pendido para o lado. Graças ao conserto dos painéis das células fotovoltaicas feito por Fenzer e Carl, houvera um aumento na energia disponível, uma vez que as poderosas células estavam transformando em energia a luz que provinha do aglomerado de estrelas próximo à nebulosa. E o aumento de energia permitia que ele ligasse a luz do observatório para trabalhar em seu projeto. Sentou-se no chão diante do tripé. Ficou a olhar para ele por algum tempo, vendo mentalmente a imagem de sua obra de arte concluída. Então puxou a caixa para perto de si e começou a retirar o material que lá se encontrava. Sabia que levaria bastante tempo para fazer o trabalho, mas paciência era uma coisa que não lhe faltava. E sabia que ninguém iria incomodá-lo, não precisavam mais dele na sala de comando. A antena havia sido construída e instalada, e nada mais havia a ser feito. Apenas o capitão e Morvalsk continuavam trabalhando, monitorando a antena, aguardando que a mesma captasse alguma resposta à mensagem que estavam enviando. E se o pensamento positivo realmente poderia fazer milagres, eles estariam salvos graças a Fenzer. - x - Fenzer passou a mão pelos olhos e deitou a cabeça sobre a mesa, sentindo uma forte sonolência. Pensou em dormir ali mesmo, na sala de comando. Mas logo depois mudou de idéia e esforçou-se para levantar os olhos. Ao seu lado havia um terminal de computador em operação. Como não tinha nada para fazer, ficou brincando com as teclas, até fazer aparecer a lista de relatórios da situação da nave disponíveis. Alguns deles estavam marcados com um símbolo em vermelho, sinal de problemas sérios; outros não estavam disponíveis, provavelmente devido ao problemas com os outros dois computadores. E alguns apresentavam marcas amarelas, indicando sinal de alerta. E então ele notou que o sistema de reciclagem do ar estava marcado em amarelo. Após selecionar o item apertou outra tecla para ter acesso a informações mais detalhadas. Passou os olhos rapidamente pelos gráficos e tabelas de informação, até chegar no ponto crítico da questão: alguns filtros haviam deixado de trabalhar, o que estava causando o aumento da concentração de gás carbônico no ambiente. Então compreendeu a origem do cansaço acentuado dos tripulantes, assim como o seu próprio. Eles já havia ultrapassado os limites aceitáveis do stress, passando a um nível onde o corpo não reclamava mais por descanso. Continuariam trabalhando até que alguém os fizesse parar. Mas o excesso de gás carbônico iria colocá-los a nocaute em breve. - Capitão – disse ele, sentindo-se alerta repentinamente. – Estamos com problemas no sistema de reciclagem de ar, alguns dos filtros não estão funcionando. - Podemos fazer alguma coisa? – perguntou Nick. - Acho que não. Todos ficaram em silêncio diante da resposta. Se Fenzer, que costumava achar solução para as coisas, havia dito um não, é porquê não havia meios. E como Carl não havia se manifestado para dizer algo contra a resposta de Fenzer, todos sabiam que não adiantaria quebrar a cabeça procurando por uma solução. O silêncio só foi quebrado minutos depois com a presença de Zeng. - Posso mexer no depósito? – perguntou ele. - Pode ir – respondeu Carl, sem se dar ao luxo de querer saber o que Zeng pretendia fazer no depósito. Zeng saiu em silêncio, quase esbarrando em Mirka, que estava entrando. - x - - Se está procurando por alguma coisa – falou Mirka, enquanto Zeng se aproximava lentamente -, o depósito está aberto e Carl não vai se importar se você tirar algo de lá. - Não estou querendo nada desta vez – respondeu Zeng, calmamente. Mirka olhou para ele, seriamente. “O que será que ele está aprontando desta vez?”, pensou. - Não? – foi o máximo que ela conseguiu dizer. - Já terminei – disse Zeng, mordendo o lábio inferior, numa clara demonstração de nervosismo contido. - Posso saber o que você terminou? - Venha que eu lhe mostro – respondeu ele, pegando a mão da moça e fazendo-a levantar-se da poltrona. Relutante a princípio, mas depois impulsionada por uma curiosidade crescente, ela o seguiu até o pequeno observatório. Zeng abriu a porta devagar, e deixou-a entrar. Mirka deu apenas dois passos para dentro do observatório, antes de parar abruptamente e levar as mãos ao rosto, enquanto olhava, incrédula, para o objeto à sua frente. Bem no meio do observatório, onde antes se encontrava o tripé da câmera, erguia-se um objeto que lembrava a forma de um cone, mas pendido para um dos lados. Fios e pequenas placas de circuito entrelaçavam-se sobre a estrutura montada com varetas de alumínio a partir do tripé, formando projeções que mais se assemelhavam a pequenos galhos de um cedro. Em meio aos fios, pequenas luzes coloridas piscavam. Após admirar por alguns segundos, em absoluto silêncio, aquela obra de arte, Mirka entendeu seu significado. Ela estava olhando para uma árvore de natal. Mesmo sendo diferente dos pinheiros verdes de sua infância, aquilo era uma autêntica árvore de natal. Voltou-se lentamente para Zeng e falou, quase num sussuro: - Ela é linda! Zeng limitou-se a esboçar um sorriso um tanto encabulado. - Vou chamar os outros para verem! – disse Mirka, saindo apressadamente do observatório. O engenheiro limitou-se a ficar encostado na porta, esperando. Logo ouviu a voz de Carl elevar-se no corredor, mas não conseguiu entender sua palavras. Então viu Mirka subir a escada em espiral, seguida por Nick e os demais. - O que foi que você andou aprontando desta vez, hein Zeng? – perguntou Fenzer, no fim da fila de tripulantes. Todos pararam junto à porta e olharam para dentro do observatório, em silêncio. Ficaram assim por alguns instantes, olhando para a árvore de natal de Zeng. Foi então que Carl deu um longo assobio e exclamou: - Cara, você dava um bom artista plástico! - Bom, agora só falta o Papai Noel aparecer! – falou Evan, e todos deram risada. - De preferência, com uma nave nova pra gente – completou Fenzer - x - Zeng sentou-se novamente no chão frio do observatório. Durante todo o tempo que passara dentro daquela espaçonave, criara uma certa afinidade com as paredes de metal da pequena sala. Aquele lugar parecia ter certa magia pois, quando ele estava ali, os problemas não podiam alcança-lo e ele podia apreciar toda a beleza do universo à sua volta. Fechou os olhos, sentindo uma leve tontura. “Deve ser o gás carbônico que está se acumulando”, pensou. Nick havia verificado os tanques de oxigênio e constatou que a carga daria para apenas mais três horas. E o acúmulo de gás carbônico no ar estava fazendo efeito. Ficou alguns minutos imóvel até que foi obrigado a abrir novamente os olhos, sem mesmo saber o porque, e olhar pela vigia. E, sem querer, acabou se assustando do que viu. Mas o máximo que conseguiu fazer foi abrir ainda mais os olhos, para ter certeza de que estava enxergando direito. Uma parede de metal cinza escuro erguia-se à sua frente, preenchendo toda a vigia, iluminada por poderosos holofotes que variam a superfície da nave, como lâminas de luz. Zeng levantou-se e caminhou para junto da vigia, para poder ver melhor aquela estrutura. Olhou para o alto, e viu algumas janelas em linha reta, acima das quais a parede começava a curvar-se na direção oposta. Estava tão absorvido em sua análise da estrutura que não percebeu a aproximação de um pequeno objeto, que caminhava pelo lado externo da nave. Deu um grito quando uma grande aranha parou por alguns segundos sobre o vidro da vigia. Levou algum tempo para seu cérebro identificar do que se tratava. O corpo metálico, ladeado por seis patas que terminavam em pontas, e mais duas patas que mais se assemelhavam a pinças de um caranguejo, só podia pertencer a um modelo de robô-aranha que era usado para verificação da estrutura de naves, procurando por falhas externas. Zeng soltou um suspiro de alívio. Afinal não era um alienígena devorador de humanos. Mas isto não significava que aquela nave que estava parada perigosamente a poucos metros de distância fosse tripulada por criaturas benignas. Podia haver algum monstro a bordo. Zeng respirou fundo, sentindo-se tonto. E tolo pelas coisas absurdas que estava pensando. Saiu devagar do observatório para contar a seus companheiros o que ele havia visto. Atravessou o corredor sentindo o ar quente e pesado que parecia aumentar ainda mais o silêncio. Olhou para dentro da sala de comando. E não viu ninguém. Alçou a sobrancelha direita. “Para onde foi todo mundo?”, perguntou-se. Naquelas últimas horas a tripulação não queria saber de se mexer, nem mesmo para encontrar um lugar mais confortável para depositar os corpos cansados. Teriam sido capturados pela tripulação da outra nave? Se foi, porque ele sobrara? Passou a mão pela testa, e notou que algumas gotas de suor haviam brotado. Continuou avançando pelo corredor na direção das câmaras-estanques. Após subir o pequeno lance de degraus, deparou com as costas largas de Nick, que estava encostado na parede, voltado para uma das entradas da câmara, segurando uma pesada arma na mão. Nick olhou para trás quando ouviu alguém se aproximar, e fez sinal para que Zeng ficasse em silêncio. Sem entender o que estava acontecendo, Zeng decidiu colaborar, e limitou-se a ficar imóvel atrás do capitão. Nick segurou melhor a arma e pousou o dedo sobre o gatilho quando a luz verde da câmara-estanque acendeu. Zeng olhou para o lado esquerdo e então percebeu que Carl e Fenzer estavam escondidos atrás de um anteparo, cada um segurando uma das armas mais leves disponíveis na nave. A porta da câmara então se abriu, deslizando para o lado, e três pequenos seres em trajes espaciais, com menos de um metro de altura, saltaram para fora. No momento em que perceberam a presença dos humanos, todos pararam, ergueram seus quatro finos braços e guincharam: - Não atirem!!! Nick baixou a arma, intrigado. O que quer que fossem aqueles seres, mais pareciam marionetes do que qualquer outra coisa. Ele permaneceram naquela posição até que algo que parecia um ser humano usando um traje espacial saiu da câmara e parou a poucos passos do capitão. Carl e Fenzer continuavam apontando as armas, ora para o humano, ora para os três seres, que haviam então abaixado os braços. Nick os analisou rapidamente. Aparentemente não portavam arma alguma, pelo menos nenhuma arma conhecida. Zeng, que observava a cena com certo espanto, lembrou-se que havia parado de respirar quando os seres entraram. O humano levou as mãos ao capacete do traje, soltou as travas e então levantou o visor, revelando um par de olhos profundamente azuis, encimados por duas espessas sobrancelhas brancas. - Tudo bem, se quiser atirar vai em frente! – exclamou ele. – Mas eu sou a única salvação disponível pelos próximos meses! Ao ver que os tripulantes da nave não estavam muito dispostos a jogar conversa fora, ele continuou: - Recebi o chamado de socorro de vocês e, como eu estava por perto, resolvi verificar. Eu não costumo fazer isso, mas como estamos praticamente no fim do universo no meio do nada, pensei em fazer uma boa ação. Diante da citação do pedido de socorro, Nick fez sinal para que os outros abaixassem as armas. Depois falou: - Achávamos que alguém iria detectar a mensagem. Mas às vezes é difícil acreditar na verdade quando ela está na nossa frente. - Entendo – disse o outro, enquanto tirava o capacete do traje espacial. Depois, estendeu a mão enluvada para Nick e falou, com um sorriso – Sou Nathan Torken, comerciante. Nick segurou firmemente a mão de Nathan, sentindo-se extremamente alegre. Afinal de contas, alguém aparecera. Zeng olhou de alto a baixo para o recém chegado, um homem de aproximadamente dois metros de altura e físico avantajado, com uma barba já grisalha a emoldurar-lhe o rosto redondo. O cabelo também grisalho e longo estava preso em um rabo de cavalo. Zeng lembrou-se então do que Evan havia dito sobre Papai Noel, e não pode deixar de sorrir quando constatou que Nathan lembrava um dos símbolos do Natal. - Acho melhor que toda a tripulação vá para minha nave – prosseguiu Nathan – Vamos tentar rebocar essa pobre coitada aqui. Nick balançou a cabeça em sinal de consentimento, depois voltou-se para Zeng e falou: - Avise Mirka. Diga para ela acordar os demais tripulantes. Sem hesitar um segundo sequer, Zeng correu pelo corredor em direção à ponte de comando. - x - Nathan parou junto à vigia panorâmica, diante da qual se encontravam Nick, Zeng e Mirka. Eles estavam observando com atenção o meticuloso trabalho que a tripulação da nave de Nathan fazia para acoplar a nave de pesquisa à estrutura da nave de carga, para que ambas pudessem viajar juntas, como se fossem uma só. Todos podiam agora observar os estragos que haviam sido feitos na nave de pesquisa. Depois de ver que a popa havia quase desaparecido, Nick entendeu porque Fenzer havia mudado repentinamente de idéia quando viu os estragos, minutos depois de instalar a antena. Poderia se dizer que apenas um milagre os mantivera vivos. - Ao que parece vocês tiveram uma sorte danada – observou Nathan, com bom humor. Os demais olharam para ele em silêncio. O comerciante então prosseguiu: - Ninguém, em seu juízo perfeito, passa por estas bandas. A não ser cientistas malucos como vocês. – Ele não queria ofender ninguém, e seu tom de voz demonstrava isso claramente. – Mas não sei o que me deu na cabeça de tomar esta rota. Eu estou com um pequeno atraso para uma entrega. Poderia ter seguido a rota de Duva, mas não sei o que aconteceu. Algo me disse para passar por aqui. Ficou em silêncio, cofiando a barba. Depois completou: - Talvez eu nunca venha a entender mesmo. Deveria haver algo muito poderoso tomando conta de vocês. - Estou começando a pensar a mesma coisa – retrucou Nick. Nathan sorriu, para depois afastar-se em direção à porta do espaçoso aposento, enquanto falava: - Vou voltar para a ponte, acho que já podemos partir. Aliás, não quero me arriscar com estes asteróides. Pode aparecer outro querendo terminar o serviço que o primeiro não fez direito. Parou então por alguns segundos junto da porta: - Zeng, gostei da sua árvore de natal. É realmente uma obra de arte! 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| Última atualização em Dom, 25 de Maio de 2008 15:39 |