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Lágrimas de Prata - A queda da França Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Policial

Escrito por Brunno
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Qui, 05 de Junho de 2008 19:17
Gascoin correu o máximo que pôde para chegar ao acampamento. O sargento estava organizando a comida, banheiros, estalagem, paiol de munições, inventariando armamentos disponíveis e tentando comunicação com Paris, mas pouca coisa disso era funcional.
Contavam ração para trinta homens e estavam num destacamento de cinqüenta; água havia devido ao córrego, eles a coletavam em seus cantis antes de passar pela carcaça do animal morto; a galpão de fazendo semi-destruído foi chamado Álamo e funcionaria como sua intendência; as armas foram recarregadas e travadas.

Os dois soldados chegaram correndo e ofegantes. Contaram ao sargento o que o praça Gascoin havia feito, mas não sabiam se estava vivo ou se fora morto ou capturado pelos nazistas.

Ao que o sargento perguntou o que haviam visto de interessante, os dois se olharam e deram de ombros. Nisso Gascoin entra pela porta chamuscada. Apresenta os número de panzers, aviões, homens e armas. Explica ao sargento que conseguiu um rádio e que o aparelho esta emitindo a mesma mensagem há pouco mais de quatro horas, contanto o tempo que demorou a voltar.

Tinha sede e fome. O frio não era problema porque a madeira estava quente ainda. Mais da metade dos soldados franceses, capitaneados por um sargento, estava dentro do galpão aguardando ordens.

Alguém trouxe um soldado jovem, de nome Andrei, que diziam, falava alemão fluentemente. Depois de ouvir o rádio ranger novamente deram-lhe proximidade e pediram que traduzisse o que ouvia.

Pretendem atacar em seis horas, disse o rapaz. Mas atacar onde? O que? E em que intensidade.

Em Berlim as ordens eram resolvidas numa mesa por uma junta de guerra. Na ponta da mesa o fuhrer ouvia e olhava com seus olhos pequenos para cada um de seus generais. Depois de algumas horas de discussão e análise da possibilidade de sucesso, o Kaiser deu a ordem com um movimento de cabeça.

Depois de passar essa ordem a um secretário eles abriram uma garrafa de vinho alemão e esperaram, sabiam o que a história contaria.

Ainda dentro do galpão, o sargento orientava seus homens como deveriam agir. Correr pelos flancos, não economizar munição e jamais ficar na linha dos canhões. Se vissem uma tropa de infantaria saberiam que seria o primeiro alvo a ser atacado.

A alguns quilômetros dali chegava a ordem de Berlim: tomem Ardenes, com todas as forças. Esquadra a caminho de Paris.

Junho de 1940 entraria para a história da França como de rápidos e decisivos acontecimentos. O primeiro-ministro Petain mandou chamar seus ministros mais importantes e disse a todos que se necessário mudariam a base do governo, de Paris, para outra cidade mais litorânea, visando escapar a invasão nazista.

Adolf Hitler tinha nas mãos parte do leste europeu e os países baixos, a França e a Grã-Bretanha eram seus principais objetivos agora. A Itália acendia o estopim fascista e era deflagrada a caça aos judeus, homossexuais, negros e africanos.

As noticias no Marrocos francês eram de que os alemães já marchavam sobre Paris.

Em Ardenes, pouco antes das oito horas da noite alguns homens foram colocados de vigia e outros foram mandados para dentro do galpão, também funcionando como alojamentos.

Gascoin ficou na vigília ao lado de um soldado desconhecido.

__Não está uma noite linda? - perguntou o outro.

Gascoin deu uma olhada para as estrelas que, na escuridão em que se encontravam, cravejavam o céu de pontos luminosos, quase não deixando o negro da noite visível.

__Lindo mesmo. Como se chama?

__Corcorin, Corcorin Lafreve. Sou de Toulouse, e você? - disse estendo um cigarro a Gascoin.

__Henri Gascoin, Parisiense. - agradeceu o cigarro.
__Você viu o acampamento deles, monsieur Gascoin. O que achou?
__Parece que estão preparando uma invasão...
Riram os dois. O sargento veio até eles e chamou Gascoin.

__Você já lutou antes, rapaz? - perguntou ríspido.
__Não, senhor. Pelo menos não por meu país.

__Estive na primeira grande guerra. Aquilo que fez hoje foi excelente. Poucos homens se arriscariam assim e teriam o sucesso que teve. Acabei de falar com paris, conseguimos uma conexão provisória.
__Quais as notícias, senhor?

__Ruins. Petain está pensando em deixar a capital e mudar o Estado Maior para Tours, e quem sabe de lá para Bordéus. Mas disseram para nossa situação é delicada, me fizeram tenente por comunicação, o que deixa vago o cargo para sargento. Está interessado?

Gascoin estava há pouco mais de um mês nas forças armadas, há dois dias em campo e ganhava uma patente.
__Aceito, senhor. O que quer dizer que nossas chances são poucas.

__Está subestimando minha experiência em guerra, rapaz? - perguntou o homem forçando os maxilares e vincando os lados do rosto.

__Não, senhor! Mas se temos de ter um sargento como eu...

Ele tinha razão e o homem sabia disso. Explicou que quando estava no regimento quatro, durante o primeiro confronto europeu moderno, haviam homens que como ele eram especialistas naquele tipo de coisa: infiltração e coleta de informações em campo inimigo, disse o homem.

Gascoin que não se preocupasse com sua nova patente, parecia levar jeito pra coisa. Se saísse vivo seria recomendado para seguir carreira no exército.

O novato agradeceu e sorriu, depois o tenente quis um trago do cigarro. Olharam novamente as estrelas e um rugido veio por sobre as árvores.

__São os caças! Estamos sob ataque! - gritou o tenente sacando a arma atirando duas vezes para cima, o que acordou os homens de imediato.

Gascoin viu Corcorin correndo pela colina em que ambos conversavam de arma em punho e olhos arregalados. Numa fração de segundos um V surgiu no peito e abdome do rapaz, acompanhado pelo sangue que parecia pó.
O corpo sequer dobrou as pernas, caiu ereto enfiando o rosto na terra.
Gascoin puxou o ferrolho de seu Lebel e baixou sobre o joelho direito, era mais um tiro de guerra, só que esse atingiu a cabeça do primeiro soldado que surgiu na colina.

Os caças BF 109 cinzas pareciam brancos sob o luar. Gritos de guerra e correria começaram em segundos. Os franceses saíram da casa-mata atirando em qualquer coisa que se movesse. Gascoin correu para um lugar mais alto e viu ao longe os panzers manobrando pela encosta e girando os canhões de 120mm ruidosamente para a direção deles.

Um grupo de soldados franceses atirava contra a investida da infantaria germânica e o sargento Gascoin veio por trás deles gritando que estavam em campo aberto e eram todos alvos fáceis para os caças!

Tinham de sair dali e procurar abrigo. As trincheiras que haviam aberto durante e tarde era a única chance de escapar da artilharia pesada. As balas zuniam por sobre suas cabeças e sentiam o ar frio que traziam quando passavam tão perto.

Os primeiros estrondos seguidos de silvos e com colunas de terra derretida começavam a clarear a noite. Os primeiros corpos eram jogados para o alto. Os gritos dos alemães pareciam vir de todos os lados.

__Umzug! März! - gritava um deles postado sobre um blindado rápido enquanto brandia uma vareta menor que uma bengala. Gascoin ajustou a mira de seu fuzil e novamente um tiro perfeito. O capacete do oficial subiu girando no ar e caiu adiante do carro, pouco depois do debruçar o corpo morto.
__Recuem para as trincheiras! Os aviões estão manobrando! - gritou para seus homens.
Vários deles seguiram Gascoin até um campo alto e se jogaram uns por sobre os outros dentro do buraco tentando se esconder dos tiros.

Cinqüenta homens contra uma tropa de mais de trezentos. Para sorte dos franceses os caças receberam ordens de recuar e guardar munição. As tropas de solo dariam conta deles, certamente.

Explosões de granadas e morteiros ficavam dava vez mais perto. Enquanto os franceses lutavam com seus fuzis, os alemães tinham as práticas metralhadoras Maschinengewehr MG 42, para não citar as poderosas pistolas Lugger.

O sargento Gascoin viu um dos tanques manobrar pelo flanco esquerdo e chamou três homens. Entregou-lhes morteiros e mandou que corressem até as esteiras, explicou o que queria. Depois organizou cinco outros homens e dividiu-os em dois grupos. O primeiro devia cobrir a retaguarda e o segundo cobrir os homens correndo com as bombas.

Queria manter uma via aberta porque sabia que se os alemães tomassem aquela posição rapidamente perderiam o Álamo e a única coisa que ainda podia os proteger. Lembrou que durante o inventário de armamento o tenente pediu que o melhor atirador ficasse com o rifle de precisão Sniper Moiser .30 no lugar mais alto possível.

__Homens, guardem essa posição e protejam aqueles quatro da maneira que puderem! Vou tentar abrir caminho até o galpão e ver se consigo usar aquele rifle.

__Sargento, por mais que possamos chegar até o tanque, quais as nossas chances de sair de perto dele com vida? - gritava um dos homens.

__Não perca tempo, soldado! Agora vamos! - gritou e pôs-se a correr pelo campo até celeiro destruído.

Assim que entrou notou que o número de morto já era alto. As baixas contavam grande parte do contingente deles e não havia como saber quantos alemães haviam caído.

Henri encontrou o rifle encostado numa parede e uma caixa de balas .30 ao lado.

Na câmara da arma cabiam seis tiros e na caixa, a única havia trinta, portanto, cinco carregamentos, se conseguisse sobreviver até o final da caixa. Mais explosões do lado de fora do celeiro, homens entrando escorados em outros, feridos, amputados, mortos, o tenente gritou alguma coisa no rádio que deixou com seu sub-oficial.

Gascoin explicou que iria tentar usar o Sniper. O tenente gritou avisando que mais homens eram avistados chegando pela ala sudoeste. Gascoin subiu pelas colunas de madeira até as vigas do que restava do telhado caído e sentou-se.

Viu os homens que haviam mandado até o tanque e preparou a arma. O som do Sniper quanto não silenciado ecoa muito mais alto que qualquer outra arma devido ao poder de fogo e altíssima pressão.

Logo que tombou o primeiro soldado alemão com um furo no peito, os demais começaram a procurar a origem do disparo, porque, claro, eles também tinham um elite em algum lugar.

Gascoin continuou atirando e derrubando inimigos. Seus homens chegaram ao tanque e fizeram o que ele mandara: apoiaram os morteiros com as espoletas entre a esteira e as rodas de aço da máquina.

Dois morteiros de cada lado, um dos homens foi atingido nas costas por um soldado que viu o que eles haviam feito, outro homem foi derrubado enquanto corria para tentar fugir do resultado da manobra.

Assim que o tanque continuou o curso as rodas de aço pressionaram as espoletas do morteiro explodindo primeiro o traseiro esquerdo, depois o dianteiro do mesmo lado e os dois do lado direito ao mesmo tempo.


Aquilo não ia destruir o tanque, muito mais reforçado, mas as esteiras perderam as ligas o que tornava o imenso PKW IV em pouco mais que uma trincheira de aço.
Quando o ferrolho do último boldrié saltou da arma Gascoin havia derrubado doze homens. Já estavam naquela luta há quase três horas o que foi, posteriormente, considerado um milagre levando-se em conta o número muito maior de soldados alemães.
Pouco antes da meia noite os resistentes franceses, que agora haviam tirado as metralhadoras dos alemães mortos, não tinham alternativa senão sair das trincheiras e procurar mais munição pelo campo.
Nessas horas eram eliminados pelos nazistas posicionados à distância. Muitos deles pelos atiradores de elite nas árvores que cercavam a clareira de Ardenes.

Gascoin e o tenente Martin encontraram-se na trincheira aberta a oeste do celeiro, ambos feridos, mas ainda em combate.
__Acho que tinha razão, sargento Gascoin... Essa briga nós perderemos... - o tenente tinha os olhos caídos, cansados, sequer sabiam como duraram tanto tempo.
__Não nos resta muito agora, senhor...
__Não resta muito a ninguém, sargento. Só espero que Paris esteja preparada para quando eles chegarem...

Olharam para cima novamente. Não havia mais o campo de estrelas sobre suas cabeças, só fumaça e poeira. Mais oito homens estavam agachados com eles num buraco de cinco metros de diâmetro. Não tinham como saber, mas eram os últimos sobreviventes da tropa.

__Senhores... - disse o tenente Martin -... Pur Le France! - levantou e abriu fogo para onde achou que deveria.
Nesse momento um projétil explosivo de 120mm pesando seis quilos e viajando a seiscentos metros por segundo detonou sua carga bem em frente ao corpo do tenente Martin. Gascoin e os demais iam acompanhá-lo quando a onda de fogo, terra, choque, som e luz arremeteu sobre eles soterrando os nove restantes.
Há poucos quilômetros dali a bola de fogo foi vista por um conjunto de rostos atônitos, um deles era especialmente lindo.
__Que Deus tenha piedade de nossas almas... - Liv apertou o crucifixo contra o peito e sabia que o próximo alvo era o Hospital de Saint Bernard.
Na manhã de dois de junho de 1940 a batalha de Ardenes estava vencida pelas tropas alemãs.

No dia seguinte os nazistas faziam tremer o chão sob o arco do triunfo em Paris. A Luftwafe destruiu parte da cidade com seus bombardeios. O governo de Petain estava recuado para Bordéus e acabado.

Aos dezoito dias do corrente o general Charles de Gaulle fundava, no exílio, o Comité Français de La Libértation Nationale e era reconhecido pela Grã-Bretanha com líder da França Livre. Aos vinte e cinco dias, exatamente às 0:35 hora de Paris, o Primeiro-Ministro Phillippe Petain assinava o termo oficial de rendição da França aos nazistas.



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Lágrimas de Prata - A queda da França
Qui, 05 de Junho de 2008

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Última atualização em Sex, 06 de Junho de 2008 18:03
 
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