| O segredo dos três – Parte III |
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| Literatura - Contos - Terror |
Escrito por Firmibri |
Sáb, 14 de Junho de 2008 15:12 |
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Os dias se passaram lentamente para Marina. Levantar para ir trabalhar era um sofrimento. Estava sempre cansada, com dores horríveis em todo o corpo, profundas olheiras sob os olhos tirando do rosto da jovem toda a jovialidade. Marina parecia ter envelhecido anos naquela semana e um desanimo, que ela nunca havia sentido antes, se abatera de tal forma fazendo-a perder o apetite, a alegria. Era como se ela vivesse por viver, como se o corpo fosse apenas uma casca vazia.
O relógio despertou e ela procurou o aparelho tateando a mesa de cabeceira sem levantar a cabeça do travesseiro. A campainha continuava a soar, aumentado a terrível enxaqueca, mas ela não conseguia encontrar o despertador. O aparelho estava sob a televisão na outra ponta do quarto, ela caminhou vagarosamente tomando cuidado para não tropeçar nas próprias pernas e finalmente interrompeu o som. Pensamentos ecoaram em sua mente imediatamente. O sobrado, o vulto na janela, o sonho, começavam a encher sua cabeça com perguntas que ela não tinha como responder. Ao invés de remoer todos aqueles sentimentos, ela abriu a janela e a luz do sol que inundou seu quarto trazendo consigo o calor daquele dia, contribuindo para varrer tudo o que a incomodava. — Pensei que ia ficar na cama até mais tarde hoje. – disse Socorro ao perceber a entrada da filha na cozinha. — Eu também pensei. – comentou distraidamente enquanto apanhava uma maçã na fruteira sobre a mesa. Augusto olhou para Socorro por cima do jornal que lia e conseguiu visualizar bem a expressão preocupada com que a esposa observava Marina. — Sua mãe acha que aconteceu alguma coisa na noite do temporal. – disse Augusto fazendo Socorro corar. – Acha que foi atacada e que não quer nos contar. Socorro odiava aquele jeito despreocupado do marido. Augusto sempre se mantinha quieto, apenas escutando e tirando suas próprias conclusões. Por mais de uma vez Socorro se viu desesperada por uma palavra do marido, mas este continuou impassível. Contudo, quando pedia para ele se manter calado, o homem abria a boca e quase sempre sem medir as palavras. — Eu não sei quantas vezes preciso repetir que não fui atacada. Estou apenas com um mal-estar. Deve ter sido pela chuva que eu peguei naquele dia. Os três se calaram. Socorro voltou aos seus afazeres domésticos e Augusto continuou na mesa sentado lendo o restante de seu jornal. Marina também permaneceu sentada mordiscando a maçã tão distraidamente que nem percebeu quando as palavras saíram de sua boca. — O que vocês acham do sobrado 21? — Superstições idiotas. – decretou Augusto. – Alguém em alguma época do passado não tinha mais nada o que fazer e inventou essa história de casarão mal assombrado. — Eu cresci ouvindo coisas sobre essa casa. – interpôs Socorro sem dar muita importância ao assunto. – Aliás, todos que cresceram nesse bairro ouviram as mesmas histórias. Na verdade, nunca vi nada que justificasse tal fama. Quem era fascinada pelo sobrado era sua avó. Ela me disse que entrou uma vez no casarão. — Dona Amélia entrou no casarão? – perguntou Augusto pondo o jornal de lado para ouvir a história. — Muito antes do Joca ter se aventurado nela. – assentiu Socorro. – Acho que foi por volta dos anos quarenta, quando ainda era adolescente. — Quem diria a Dona Amélia, por baixo daquela carcaça franzina se escondia uma invasora de propriedade particular. — O mais curioso é que o sobrado está exatamente no meio do bairro. — Como no meio? – perguntou Marina. — No meio. O bairro cresceu ao redor do casarão. – Socorro não mostrava nenhuma surpresa com aquele fato. Augusto apanhou novamente o jornal e recomeçou sua leitura enquanto Socorro também continuava com seus afazeres. Marina ficou pensando na ousadia da avó e de como gostaria de ter a coragem dela na época para entrar no casarão e acabar de uma vez por todas com todas as dúvidas que povoavam sua mente. Marina saiu para caminhar um pouco. O calor da manhã estava fazendo bem a ela. Não sentia mais o terrível mal estar de antes e as dores no corpo havia diminuindo significativamente. Ela ganhou a rua onde morava andando até o cruzamento com o passeio central, uma rua mais larga do que as outras com um canteiro no meio repleto de arbustos floridos. Aquele devia ser o único bairro do Rio de Janeiro em que as pessoas conservavam as plantas da rua. No passeio central ela encontrou alguns conhecidos que acenavam desejando-lhe bom dia, alguns até a paravam para perguntar da vida e da família. Do passeio ela chegou até a rua da padaria como todos a chamavam, eram poucos os moradores que sabiam o nome exato da rua e ela não era uma dessas pessoas. A rua da padaria levava até a praça central do bairro. A praça era o ponto de encontro de todos, ficava em frente a uma igreja e dava ao bairro ares de cidade do interior. Seu Barroso, jeitão de árabe que jurava ser português embora tivesse o sotaque de espanhol, já prepara a famosa pipoqueira onde mais tarde alegraria à tarde das diversas crianças do bairro com suas invenções nas receitas. Marina era uma fã das pipocas do Seu Barroso, mas não gostava muito das misturas feitas pelo pipoqueiro. Ela sentou num dos bancos, apreciando a brisa fresca daquela manhã. A sua esquerda se estendia mais alto que os telhados das casas a torre norte do sobrado. Ela ficou observando o telhado triangular com suas antigas telhas vermelhas, se erguendo imponente por cima das construções mais humildes. Ela sentia uma sensação estranha sempre que olhava para aquele casarão, como se houvesse alguém a observando, mas não só a ela e sim a todos os moradores. Uma cena incomum tirou Marina de seus pensamentos. O velho Gomes discutia asperamente com Seu Olegário, dono da banca de jornal. Seu Olegário era um homem bastante reservado, alguns até diriam estranho. Abria a banca por volta das cinco e meia para receber a encomenda diária de jornais e fechava as quatro todos os dias como um relógio. Não era um homem dado a conversas fiadas, na verdade era fato raro vê-lo de conversa com quem quer que seja. Terminado seu expediente rumava diretamente para casa e se trancava até o novo dia. Marina pensava que a sorte de Seu Olegário era morar no mesmo bairro onde existia o sobrado 21 senão seria ele o principal assunto dos moradores. Quando os dois avistaram a moça sentada na praça, trataram de disfarçar. O velho Gomes seguiu seu caminho, provavelmente para o bar do Conceição no final da rua, e Olegário voltou para sua banca, mas antes dispensou a Marina uma olhadela. Ela ficou por alguns minutos remoendo aquela cena antes de se levantar e voltar para casa. De qualquer forma era muito estranha aquela atitude, não por parte do velho Gomes que era dado a arranjar confusões na rua, mas por Seu Olegário. Os três estavam sentados à mesa na hora do almoço. Estavam em silêncio, mas Socorro não deixava de relegar a filha algumas olhadelas disfarçadas, ela tinha feito uma simpatia para que Marina recobrasse o apetite e desejava ver a filha comer, nem que fossem algumas colheradas. O passeio havia feito bem a moça, além de livrá-la das dores, lhe devolvia o apetite fazendo-a avançar no prato de ensopado como nunca tinha feito antes. Em meios as colheradas alternadas com grandes pedaços de pão, ela disse: — Vi uma coisa estranha hoje na praça. Seu Olegário estava discutindo com o velho Gomes e pelos movimentos parecia ser algo sério. — Vai ver o Olegário o roubou no preço do jornal. – disse o pai sem dar muita importância. — Aqueles dois sempre viveram brigando. – comentou Socorro. – Mamãe dizia que na juventude aqueles dois brigavam por qualquer motivo. — Vovó conhecia os dois? — Eram inseparáveis, aliás, foi com eles que ela entrou no casarão. Ela e o velho Gomes eram namorados na época e... Augusto se engasgou ao ouvir sobre o relacionamento de Dona Amélia e o velho Gomes. Marina também ficou surpresa com o fato, embora bem menos do que o pai. — Corta essa! Dona Amélia e o Gomes juntos? Só pode ser piada. Como você nunca me contou isso ante? — E o que isso tem a ver? Eles eram jovens e tudo isso aconteceu muito antes dela conhecer o papai. — E porque eles se separaram? – perguntou Marina. — Disso eu nunca soube. Pelo visto tudo aconteceu repentinamente já que eles nunca mais se falaram. Nem no enterro dela ele apareceu. Os dois ficaram debatendo sobre Dona Amélia, mas Marina não ouvia mais nada apenas imaginava os três invadindo o sobrado 21 e no que poderia ter acontecido dentro daquelas paredes. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Dom, 15 de Junho de 2008 18:09 |

