| O segredo dos três – Parte V |
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| Literatura - Contos - Terror |
Escrito por Firmibri |
Dom, 29 de Junho de 2008 16:43 |
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Pela manhã, Marina saiu de casa apenas com um gole de café no estômago. Havia inventado uma desculpa esfarrapada, mas Augusto tratou logo de acalmar a esposa ao notar a expressão preocupada com que ela acompanhava a filha.
— Você se preocupa a toa mulher. Ela deve estar de olho em algum rapaz do bairro. Socorro não estava nem um pouco convencida daquela teoria. Ela notava Marina e percebia a latente perda de peso, o constante cansaço, as olheiras profundas em torno dos olhos e ultimamente ela havia notado algo diferente na casa, como se alguém os espreitasse diariamente. Ela não sabia explicar o que era e se tocasse no assunto com o marido ele certamente refutaria a idéia com alguma explicação barata. Passavam das oito da manhã. Algumas pessoas varriam as frentes de suas casas, outras saíam para trabalhar, algumas poucas crianças ainda indo para o colégio e muitos idosos aproveitando a manhã ensolarada para caminhar pelo bairro. Marina havia ligado cedo informando que não iria trabalhar naquele dia. Alegou indisposição o que não era de todo mentira, ela não sentia o menor ânimo em ficar o dia todo andando de um lado para o outro levando e trazendo requerimentos enquanto os jovens advogados recém formados da firma da qual ela era secretária ficavam a toa olhando para os traseiros das moças. Ela avançava rápido pelas ruas. Na cabeça uma resolução e nada a faria mudar de idéia. Chegou a praça e já de longe avistou o local de destino. A cabine metálica onde Olegário ganhava seu sustento. Ele pendurava alguns exemplares de revistas em cordas do lado de fora enquanto uma turma de homens rodeavam o suporte onde as primeiras capa dos jornais do dia ficavam expostos. Um grupo de adolescentes rodeavam a banca na esperança de vislumbrar a capa da playboy daquele mês, mas Olegário era um velho esperto e mantinha as revistas adultas no interior longe dos olhares curiosos de moleques pervertidos. O movimento na banca ainda era grande, ela não tinha coragem de simplesmente chegar e intima-lo a contar sobre a invasão do casarão na frente daquele bando de homens. Sentou-se num dos bancos da praça, embaixo de uma sombra fresca e esperou que a concentração diminuísse. Pensou até numa estratégia. Chegaria, compraria uma revista e sem querer perguntaria sobre a história, mas logo tratou de apagar aquilo da cabeça, o velho Olegário não era dado a esse tipo de bobagem e certamente ela seria enxotada e sua única chance de saber alguma coisa sobre a ocasião estaria perdida. — Sabe o que dizem. Quanto mais se mexe na bosta mais ela fede. Marina estava tão absorta com seus pensamentos que sequer notou a aproximação do velho Gomes. Ele estava sentado ao seu lado com as duas mãos apoiados num cabo de vassoura improvisado como bengala. Ela reparou em suas unhas, eram grandes e sujas. O rosto marcado por profundos sulcos da idade não lembravam em nada a beleza de sua juventude. — Eu só estou sentada apreciando o dia. Não sei do que está falando. — Você quer saber do casarão. – ele a encarou e seus olhos pareciam penetrá-la. Eram frios e tristes. – Acha que o Olegário vai lhe contar alguma coisa. Ele não passa de um velho covarde que teima em tentar apagar o passado. — O fato de vocês terem entrado no casarão? Você, ele e a minha avó? Aquilo foi como um tapa no rosto de Gomes. Ele não esperava que Marina tivesse conhecimento da invasão. Contudo ele não deixou que a surpresa transparecesse em seu rosto. Relegou um olhar para a moça e seguiu seu caminho. Quando estava a alguns passos dela, virou-se e disse: — Pessoas mais espertas do que você tentaram desvendar a história dessa casa – ele tinha uma expressão sombria no rosto. – e todos que somente conheceram, nunca mais viveram da mesma forma, se é que viveram. Ele deu as costas e continuou com seus passos arrastados. Ela achou que ele tomaria a direção da banca, mas ao invés disso, tomou a rua transversal ao do passeio principal e desapareceu. A praça estava menos movimentada. Apenas algumas mães com seus filhos povoavam o local. Marina julgou que deveriam passar das nove da manhã. A banca estava vazia a não ser por alguns pedestres que paravam para comprar o jornal e logo seguiam seu caminho. Não havia mais ninguém parado lendo as capas e ela achou que não teria melhor momento para agir. Levantou e seguiu a passos largos e decididos rumo a banca do outro lado da praça. Olegário dispensou um olhar despreocupado para Marina. Ele estava sentado atrás de um pequeno balcão lendo um grande livro de capa negra. Percebeu que ele lia a bíblia. Sempre freqüentava a igreja aos domingos e não se lembrava de tê-lo visto nas celebrações. Marina percorria os olhos pelas prateleiras de revistas, apanhou uma sobre moda e voltou para o balcão do homem. A revista custava cinco e trinta, ela apanhou uma nota de dez no bolso e entregou a Olegário praguejando por ter gasto cinco reais numa revista que ela não leria. Enquanto ele contava o troco ela disse tentando simular inocência: — Não sabia que o senhor era religioso. Olegário dispensou uma olhadela para Marina. Entregou-lhe o troco e a sacola com a revista. Apanhou a bíblia e continuou a leitura. Marina percebeu que não conseguiria nada com aquela conversa fiada. Precisava ser direta como havia sido com o velho Gomes e confronta-lo. — Eu sei que você invadiu o casarão há muito tempo atrás. Minha avó e o velho Gomes também estavam com você. Eu queria saber o que aconteceu lá dentro? O que vocês viram? Ele colocou a bíblia de lado e olhou para Marina com os olhos azuis penetrantes. Mais ao contrário de Gomes, seu olhar não transmitia frieza. Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto e ela teve a impressão de ter visto o mesmo jovem do sonho parado diante dela. — O que a faz pensar que discutirei isso com você? Ela nunca tinha ouvido a voz de Olegário antes. Era uma voz grave e melodiosa, semelhantes aos velhos radialistas. Ela achou que ele teria tido um grade sucesso se trabalhasse no rádio. — Apenas curiosidade. Minha mãe me contou sobre coisas que minha avó fez quando tinha minha idade e eu queria saber mais, principalmente sobre esse assunto do casarão. Se for verdade vocês entraram lá antes do Joca. — Joca não foi o primeiro a entrar. Foi o primeiro a anunciar que iria entrar. – ele saiu com um espanador e começou a retirar a poeira de cima de alguns exemplares de revistas postas no exterior da banca. – Também não acredito que sua avó tenha contado alguma coisa para sua mãe a respeito daquela época, então me deixe trabalhar. — Eu venho tendo sonhos. – era a segunda vez que as palavras saíam de sua boca sem ela perceber. — Que tipo de sonhos? – Ela notou nos olhos azuis de Olegário algo estranho. Ele estava com medo. — Um vulto negro aparece na minha casa. Fumando um charuto horroroso. Outra noite ele me mostrou, eu acho que foi ele que mostrou, vocês três entrando no casarão. Parece ser o mesmo vulto que eu vi na janela do sobrado na noite do temporal. Olegário perdeu toda a cor do rosto. Marina pensou que o velho estava tendo alguma espécie de ataque e começava a se arrepender por ser a responsável por algo acontece com ele. Ele sentou-se no banco atrás do balcão e ficou fitando os próprios pés por alguns segundos. — Cinco e meia. – disse ele. Sua voz havia perdido um pouco da gravidade. – Apareça na minha casa nesse horário e eu lhe contarei o que aconteceu. Agora me deixe trabalhar. Marina deixou Olegário sentado atrás do balcão. Ele segurava a bíblia com as duas mãos, apertando-a contra o peito e murmurava algumas palavras que ela reconheceu de imediato. Ele rezava uma Ave Maria. Ela não sabia por que, mas subitamente seu coração disparou quando reparou no telhado do casarão despontando sobre as outras casas e sobre o que ele lhe revelaria mais tarde. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Seg, 30 de Junho de 2008 06:25 |

