| O segredo dos três – Parte VII |
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| Literatura - Contos - Terror |
Escrito por Firmibri |
Qui, 17 de Julho de 2008 11:44 |
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Um barulho despertou a moça no meio da noite. Ela abriu os olhos. Sua vista ardia, mas ela não sabia por quê. Sentou-se na cama forçando os olhos para enxergar alguma coisa. O abajur continuava aceso ao lado da cama. Ela não conseguia distinguir os números no mostrador digital do relógio, mas pelos contornos em vermelho ele presumiu ser por volta das duas da manhã. Pisou no chão do quarto. Estava frio assim como todo o ambiente. Ela desligou o ventilador lançando o quarto num silêncio lúgubre.
O tal barulho continuava como se alguém batucasse na madeira. Sua visão começava a melhorar e ela percebeu num canto mais escuro do cômodo, sentado na cadeira da penteadeira, uma figura. Ela batia com as pontas dos dedos no compensado da penteadeira produzindo o tal barulho que a despertou. Instantaneamente ela soube de quem se tratava. Seu quarto não estava envolto em névoa como antes. Marina não estava sonhando, estava acordada e o vulto negro estava bem a sua frente. Dessa vez ela não gritou e nem queria. Seu coração batia rápido, mas ela fazia o possível para se controlar. — Eles invadiram sua casa e roubaram suas coisas, mas minha avó se recusou a ficar com seu anel. O vulto negro sorriu. Ela não conseguia ver seu rosto encoberto pela penumbra, mas pôde sentir que ele estava sorrindo. — Já conheço toda a história. – sua voz saía firme apesar da ponta de medo que sentia. – Não sei o que você ainda quer. Ele se inclinou para frente. Seu rosto foi iluminado pela parca luz que o abajur lançava no cômodo e Marina pôde finalmente ver seu rosto. Era um homem velho com profundos sulcos no rosto provenientes das rugas. Seu rosto era pálido e magro com uma espessa barba cinzenta. A boca parecia mais um rasgo e quando ele sorriu revelou dentes amarelos e irregulares. Os olhos opacos encaravam a moça despindo-a totalmente. — Engana-se criança. Você não conhece toda a história. Como uma sombra, ele desapareceu do quarto de Marina. Ela sentou-se na cama, sua respiração estava mais rápida. O frio começou a se dissipar dando lugar ao calor habitual de novembro. Sentada na cama ela conseguia ouvir os roncos do pai vindos do quarto ao lado confirmando que tudo fora real. No pé da penteadeira estava sua bolsa caída. Ela apanhou e a colocou em cima da cômoda onde estava antes, voltou para a cama e deitou-se. Seus olhos se fecharam e ela mergulhou novamente num sono profundo. Marina estava de volta ao casarão. No quarto principal junto com Gomes, Olegário e Amélia. Gomes apanhou o cordão de dentro da caixa azul enquanto Olegário analisava os brincos. Com o anel na mão, Marina conseguia ver o brilho dele mesmo estando afastada, ele se ajoelhou e disse: — Eu te amo Amélia. Quero casar com você. A jovem o deixou segurar sua mão. Gomes colocava o anel em sua mão esquerda quando ela repentinamente a tirou olhando para os dois amigos com a expressão confusa. — Eu vim aqui para explorar a casa. Ver se o que dizem dela é real. Não vim aqui para roubar. — Nós não estamos roubando. – interveio Gomes. – Olhe em volta, a casa está abandonada. Se não formos nós, serão outros. — Então que sejam os outros. Olegário estava devolvendo os brincos a caixa quando a voz de Gomes trovejou. — O que está fazendo idiota? Pegue os brincos e dê a Lúcia. Nunca teremos dinheiro para comprar jóias como essas. — Você sabe que isso é errado. – ponderou Amélia. – Ela não vai gostar de você por causa do par de brincos e sim por quem você é. Por mais que sentisse vergonha do que fazia, Olegário ignorou as palavras de Amélia e colocou os brincos no bolso. Ela pôde ver nos olhos do amigo a vergonha. — Pensei que conhecesse vocês, mas não conheço. Amélia deu meia volta se saiu deixando os dois no quarto principal. — Ela tem razão. – disse Olegário tão baixo que quase não pôde ser ouvido. – Essas coisas não nos pertencem. — O anel será dela. De um jeito ou de outro. Marina foi envolta por uma névoa e só conseguia ver os contornos dos dois deixando o quarto. Quando voltou ter a visão clara estava dentro do quarto principal, mas em outro dia. No dia do temporal em que viu o vulto na janela do casarão. A moça viu a ela mesma atravessando a rua e olhando para a janela onde ela estava parada. Do outro lado, Gomes atravessava e ia em direção a moça abaixada no chão tateando em busca do telefone perdido. Antes dele agarrar seu braço para levanta-la, o velho colocou algo dentro de sua bolsa, algo que Marina reconheceu pelo brilho. Era o anel de ouro roubado há tantos anos atrás. — Agora você conhece toda a história. – o vulto negro estava atrás dela. Marina acordou sobressaltada. Já era de manhã. Tudo estava claro na mente da moça. O anel estava com ela o tempo todo porque Gomes o havia posto em sua bolsa na noite do temporal e era por isso que o vulto a visitava. Para aquele pesadelo acabar, só precisava devolver o anel para seu dono. Olhou em volta e sua bolsa não estava sobre a penteadeira. Marina desceu correndo as escadas e encontrou o pai se preparando para sair para o trabalho. — Bom dia. Espero que esteja bem para trabalhar hoje. Sua mãe deixou... — Onde está minha bolsa? – perguntou interrompendo o pai. — Uma preta? Sua mãe apanhou e sai. Tinha consulta no médico hoje cedo. Ela ficou pálida e o terror foi aos poucos se transformando em desespero. Lágrimas brotaram nos olhos da jovem. Augusto chamava seu nome, mas ela só ouvia sons indistintos e um zumbido fraco. Algo ruim estava prestes a acontecer e ela sabia disso. Dona Socorro acordou cedo. Preparou o café do marido e da filha e saiu. Antes passou no quarto de Marina, precisava de uma bolsa onde coubessem os exames que seriam apresentados ao médico, todos de rotina e com ótimos resultados. Apanhou uma preta vazia sobre a penteadeira da filha. Socorro se aproximou da cama de Marina, que dormia profundamente, e lhe deu um beijo carinhoso na testa. Quando saiu ainda estava escuro, mas a rua já bastante movimentada pelas pessoas que iam trabalhar. Ela andava apressada, a estação de trem ficava a alguns metros de casa. Ela pretendia percorrer sentada a longa viagem até o Méier onde ficava o hospital e para isso precisava chegar o mais rápido possível. Àquela hora a condução ainda estava relativamente vazia, mas caso se atrasasse, teria que enfrentar a multidão das seis horas. O trem estava cheio. Mais cheio do que o costume, mas ela conseguiu um lugar e durante toda a viagem foi pensando em Marina. Estava preocupada com a filha. Ela não comia direito, dormia mal e estava negligenciando o trabalho que tanto batalhou para conseguir. Seu instinto de mãe a dizia que o incômodo da filha não era por causa de um namorado, como teimava em afirmar Augusto, era algo maior, mais sério. Socorro desembarcou na estação ainda com os pensamentos voltados para a filha. Ela caminhava em direção a saída junto com a multidão quando o alto-falante da estação indicou a chegada de um novo carro em outra linha na mesma plataforma em que ela havia desembarcado. Um grupo estava reunido mais a frente, na lanchonete da estação. Eles discutiam sobre a rodada do campeonato brasileiro e um deles estava um tanto exaltado com a vitória de seu time. Socorro passava por trás do grupo quando o homem exaltado abriu os braços derrubando a mulher nos trilhos no exato momento em que a composição anunciada no alto falante chegava à estação. Antes de cair da plataforma, Socorro ainda conseguiu vislumbrar um vulto negro a observando da passarela da estação. Um pânico a percorreu, não por ela, mas pela filha. Depois disso veio a escuridão. Foi uma correria dos funcionários da concessionária. O homem estava ajoelhado olhando para baixo em choque. Rapidamente a multidão se aglomerou em torno do corpo mutilado de Socorro. Intacta apenas a bolsa preta que ela trazia a tira-colo. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Sex, 18 de Julho de 2008 12:29 |

