
Um ótimo conto de terror!
E muito bem contado! Parabéns!
Sucesso! 
| O segredo dos três – Parte Final |
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| Literatura - Contos - Terror |
Escrito por Firmibri |
Seg, 28 de Julho de 2008 10:50 |
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Marina estava sentada num banco na sala de espera da emergência esperando alguma notícia. Ela ainda vestia o uniforme de uma rede de lojas onde trabalhava como atendente. O pai tinha ido buscá-la pessoalmente, acompanhado de um dos vizinhos. Augusto havia entrado deixando a moça, ainda em choque, na sala.
Ela já tinha estado naquele hospital antes, principalmente na infância, mas nunca tinha reparado em nada. A entrada dava para uma sala em formato circular onde estavam dispostos alguns bancos para espera. Do lado esquerdo da porta ficava um balcão onde a plantonista informava às pessoas que chegavam buscando notícias de parentes e amigos. À direita, ficava uma porta que separava o corredor da emergência da saleta de espera. Seu pai havia entrado naquele corredor há poucos minutos atrás, mas ela preferiu esperar no corredor, ainda tentando manter a esperança de que tudo aquilo não passasse de um mal entendido, embora bem no fundo ela soubesse que não seria bem assim. Mantendo o olhar fixo no chão, a não ser quando ouvia o barulho característico do abrir e fechar da porta que separava o que ela chamou de corredor do desespero, ela observava os ladrilhos brancos formarem figuras no chão. Costumava fazer aquilo quando criança. Passava o tempo entre a consulta olhando as figuras que se formava, a maioria delas relacionadas com seus personagens preferidos de desenhos. O som do abrir da porta atraiu novamente o olhar da moça. Augusto caminhava lentamente em sua direção. Seus olhos estavam vermelhos indicando o choro derramado no interior do prédio, provavelmente sobre o corpo da esposa. Ele trazia consigo uma sacola de plástico preta. Uma dor transpassou o coração da moça ao pensar que dentro daquela sacola estariam os pertences de sua mãe. Ele sentou ao lado da filha, passou um braço ao redor de seus ombros e ambos choraram baixinho enquanto uma mãe se desesperava na frente do balcão de informações querendo notícias do filho desaparecido. Uma multidão estava na porta da casa quando os dois chegaram amparados por Virgílio Perez, irmão de Augusto, e que ao saber do ocorrido tinha corrido para o hospital encontrando os dois ainda sentados na saleta de espera. Enquanto o irmão conversava com os vizinhos chocados pelo acidente. Augusto e Marina continuavam sentados na sala escura. Ele com a sacola preta na mão e ela apenas sentada esperando que a mãe entrasse a qualquer momento pela porta se desculpando pela demora no jantar. Augusto estendeu a sacola para Marina e disse: — Acho que isso é seu. Antes que a moça pudesse dizer qualquer coisa, o pai já tinha se levantado e caminhava em direção ao quarto com o pretexto de que precisava dormir. Ela sabia que ele iria chorar abraçado provavelmente no travesseiro de Socorro. Tinha algo pesado dentro da sacola que ia muito além de meros pertences. Ela abriu o saco preto e encontrou a bolsa do dia do temporal. Dentro havia a carteira e os documentos da mãe, alguns exames que ela levaria para o médico analisar e outros pertences típicos de mulher, contudo, havia um estranho a tudo aquilo, um objeto que não pertencia nem a ela e nem a mãe. Dentro da bolsa estava o anel posto por Gomes. Um ódio doente tomou conta da moça. Ela apanhou o anel e saiu. A rua estava deserta, exceto por um casal que continuava a conversar com Virgílio. Nenhum dos três notou a saída de Marina, e mesmo se notasse não faria nenhuma diferença. Ela estava decidida. A rua onde Gomes morava era daquelas que saíam para a praça. A noite estava escura e o céu um tanto encoberto, ventava um pouco e ela conseguia ouvir um zunido em seus ouvidos, mas não deu muita atenção, continuou seguindo pela rua vazia maquinando o que faria quando encontrasse o velho cara a cara. Marina caminhava tão rápido que chegava quase a correr. Sua respiração era rápida e suas costelas doíam um bocado. Ela parou na calçada, as pernas estavam cansadas e tremiam pelo esforço. O vento aumentava e o frio também. Uma sensação esquisita atravessou seu coração quando reparou que estava parada exatamente em frente ao sobrado. Ela apertou o anel na mão e soube o que era o certo a fazer. Se esgueirando pelas barras de ferro soltas do portão, ele adentrou pela primeira vez no terreno do casarão. A porta da frente estava trancada como ela já esperava. Ela deu a volta caminhando pelo mato até os fundos do casarão. O mato, na altura de seus joelhos, escondiam todo o tipo de perigo e animais, mas ela não estava se importando, a descarga de adrenalina no sangue a fazia esquecer de tudo a sua volta, menos da mãe numa cama de ferro dentro de uma das geladeiras do necrotério do hospital. Nos fundos a porta também se encontrava trancada com pesadas tábuas pregadas no batente. Ela caminhou mais um pouco, sentido o desânimo se abater sobre si, quando avistou uma janela entreaberta. A única em todo o percurso feito e imaginou que teria sido por ali que sua avó e os dois amigos teriam invadido a casa anos atrás. A janela dava para uma sala ampla com uma enorme mesa de jantar coberta por um pano branco e um lustre que pendia ameaçadoramente no teto por causa do vento que entrava pela janela aberta. O chão de madeira corrida estava coberto por uma camada de poeira e algumas pegadas podiam ser vistas. A luz de um poste de rua iluminava parcamente a casa dando possibilidade apenas de Marina encontrar o caminho sem prestar muito a atenção nos detalhes do interior. Ela subiu a escada, que rangia a cada passo, tendo cuidado para não pisar num degrau em falso e acabar presa ou pior, sofrendo algum acidente. Certamente morreria ali, primeiro porque ninguém sabia onde estava e segundo que mesmo se soubessem, não teriam coragem para entrar no casarão e resgata-la. O corredor do patamar de cima era amplo e com quadros por todos os lados retratando diferentes épocas de uma mesma família. Os lustres acima dela, menores do que aquele na sala por onde Marina entrou, também pendiam do teto, mas não havia vento naquela parte da casa e ela começou a suspeitar que talvez as lendas sobre o casarão não fossem todas mentiras. A porta do quarto principal estava aberta, desde a época de sua avó, ela pensou. Afastou-a do caminho entrou. Ela esperava algo estranho como o quarto limpo e com o vulto negro sentado numa cadeira no canto fumando seu charuto, mas o que encontrou foi um cenário igual ao do restante da casa, grossas camadas de poeira e lençóis brancos escondendo a mobília. A enorme cama estava sem colchão e o quadro acima teve sua imagem apagada com o tempo. Havia uma cômoda de cedro exatamente abaixo de um quadro retratando um idoso com roupas vistas nas novelas de época, provavelmente da década de 1920, e Marina reconheceu imediatamente a caixa acinzentada pela poeira. Ela apanhou e viu o par de brincos de Olegário no lugar correspondente. Remexeu no bolso da calça e apanhou o anel colocando-o no seu lugar. — Igualzinho a ele. A voz de Gomes cortou o silêncio do cômodo. O velho perambulava pela praça do bairro. Ficou sabendo da morte de Socorro e se dirigia para a casa da família, ele não entraria e nem diria nenhuma palavra. Apenas ficaria de longe observando como fez na época da morte de Amélia. Gomes andava encoberto pelas sombras quando avistou Marina se esgueirando para dentro dos terrenos do casarão e como não podia deixar passar, seguiu a moça já sabendo qual seria sua intenção. — Está repetindo o gesto do covarde do Olegário. – ele se mantinha apoiado em sua bengala, bloqueando a passagem. – O tolo também acreditava nessas histórias de fantasmas, mas eu pensei que você fosse mais esperta. – ele deu dois passos em direção a Marina que recuou. — Essas coisas não pertencem a você. – disse Marina com a voz embargada pelo ódio. — Estava tudo aqui há anos! Ninguém veio reclamar nada. – sua expressão passou da raiva para a ternura instantaneamente. – Era para nós dois termos ficado juntos Amélia. Esse anel seria a aliança do nosso amor. Marina finalmente entendeu o que se passava com o velho. Ele estava louco. Todos esses anos vivendo na dor, vendo a mulher que amava se casar e constituir uma família havia mexido com a cabeça do homem. — Essas coisas não são minhas e nem suas. – ela disse calmamente. – Elas têm um dono e não me importa se ele não vai reclamar, eu não quero objetos que não me pertençam. A expressão de Gomes se alterou novamente e Marina viu um brilho insano dentro dos olhos do velho. Ele remexeu no bolso do grande casaco que vestia e retirou um revolver apontando-o com as mãos trêmulas. — Esse anel é seu e você vai ficar com ele! Ela olhava da arma nas mãos fracas de Gomes para seu rosto deformado pela insanidade daquele momento quando notou o vulto negro em pé parado atrás do velho. Marina percebeu o sorriso maldoso na figura. — Você vai atirar em mim? – perguntou a moça. – Vai me matar por causa de um anel? Achei que me amasse. As lágrimas começaram a brotar nos olhos de Gomes. A arma tremia mais do que nunca e Marina temia ao ver o dedo do velho ainda no gatilho. — Eu não quero, mas você não deixa outra escolha. Eu te amei durante todos esses anos e sonhei com o dia em que finalmente ficaríamos juntos. Marina abriu os braços e os dois se entrelaçaram num abraço. Ele apoiou o rosto no ombro da moça enquanto chorava copiosamente, sem perceber a mão dela apanhando o colar que jazia no bolso de seu casaco colocando-o dentro do bolso de sua calça. — Podemos ficar juntos agora. – disse o velho. – Depois de tantos anos podemos ser felizes. – ele se desvencilhou do abraço e olhou dentro dos olhos dela. – Agora pegue o anel e vamos para casa. Ele apanhou o anel de dentro da caixa e colocou em mão. Gomes revirou o bolso do casaco e se desesperou ao notar que o colar não estava mais dentro dele. Antes que ele pudesse perceber o que tinha acontecido, a moça se lançou contra ele numa fúria doentia. Gomes cambaleou para trás, a arma disparou duas vezes a esmo e as balas foram parar no teto, ele encontrou o corrimão que se partiu com peso do velho. Marina viu tudo sem entender porque não tinha caído com o velho. Olhou para trás e viu o vulto ao seu lado. Ela se aproximou do corrimão e viu Gomes no chão do patamar inferior envolto numa poça crescente de sangue. Ela depositou o anel e o colar dentro da caixa e a guardou novamente no fundo da última gaveta. O vulto soltou sua última baforada antes de desaparecer. Marina ficou por um momento fitando o nada antes de deixar o casarão para sempre. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Qua, 30 de Julho de 2008 05:10 |