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A Fanfarra dos Hipócritas. Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos

Escrito por Pitz
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Qui, 31 de Julho de 2008 15:13
PARTE I (Sinhazinha do Leblon)
Rita era uma ruivinha muito simpática, risonha, carismática, comunicativa, bem interessante; magra, 1,80cm de altura, covinhas sardentas a pular do rosto, saboneteiras imponentes abaixo do longo pescoço branquinho. Pena padecer de terrível mal social; comportava-se de maneira bruta e racista contra pobres e negros. Tinha asco, por várias vezes não conseguiu disfarçar perante os amigos da faculdade. Falou algumas bobagens que não merecem ser repetidas e automaticamente foi sendo evitada por boa parte da galera. Seguiu com a vida de sinhazinha sem dar importância às opiniões alheias. Encalhou convicta nos preconceitos ridículos. A "sinhazinha do Leblon", diziam os conhecidos.
Rita se formou com louvor em Odontologia e seu pai, orgulhoso, tratou de presenteá-la com um consultório completo! No Leblon mesmo, pertinho de casa. Tempos depois, conseguiu a total estabilidade financeira, e comprou sozinha seu apartamento próprio. No Leblon, Também.
Raramente atendia pessoas de cor, como dizia. Achava que era por cobrar caro demais. Dava graças aos céus por atender somente um público tão seleto quanto ela.
Agora a jovem dentista já possuía tudo, só não tinha muitos amigos, namorados, apesar de sua beleza, eram raríssimos. O fato é que poucos agüentavam a postura possessiva e mandona de Rita por mais que dois meses. Nas folgas, desistiu de sair, preferia ficar em casa e pedir uma pizza portuguesa pelo telefone. Depois abria uma cerveja estupidamente gelada e navegava pelos canais da TV a cabo. Num desses sábados de pizza obrigatória, notou pela primeira vez os braços fortes do entregador, era outro com certeza, o de sempre não poderia ser, era raquítico! Olhou as pernas torneadas do rapaz mesmo pelo uniforme que lhe cobria por inteiro. Dominou-se de um desejo voraz, ficou cega, sentiu-se flutuando, só depois quando o queijo quente lhe tocou os pés descalços, percebeu que estava espremendo o rapaz mulato de contra a parede, sugando seus lábios como fruta madura. A pizza jogada no chão, os corpos nervosos grudados um no outro, o único entrave que impedia um contato mais íntimo era a pochete verde limão com os ganhos da pizzaria. Rita arrancou a pochete num só golpe e consumiu o entregador com apetite maior do que teria com a pizza de sempre. Tratou-lhe a cuspes e tapas e disse com as unhas fincadas em seus ombros que ele era seu escravo, que ele fedia a gordura e suor. Depois do furacão, mandou o rapaz semi desmaiado ir embora às pressas, afirmou ter tido um lapso e que ele marginalmente se aproveitara de tudo.
Rita não disse nada a ninguém. Continua atendendo sua clientela seleta do mesmo consultório chique no Leblon, falando o dobro de tiradas racistas. E segue pedindo pizza todos os sábados; só mudou o sabor: afro-portuguesa! E os lapsos da sinhazinha do Leblon ocorrem freqüentemente.

PARTE II (Esse Wallace não roubará)
Wallace Margerinto Diviclécio Neto, filho e neto de conhecidas figuras políticas do interior de MG sofria desde sempre por coisas que nunca fez.
Seu avô ficara famoso por distribuir terras em épocas de eleição, e ao empossar-se Prefeito, mandar seus capangas expulsarem as famílias, ou cobrar aluguéis exorbitantes. Já seu pai adquiriu fama ainda maior, por inaugurar escolas e hospitais que nunca existiram e receber os repasses de verba do estado para mantê-los em funcionamento. Jamais foram presos. Mas o garoto inocente era lembrado diariamente no colégio e na rua como neto e filho de ladrões, um ladrãozinho pra molecada fazer chacota e papagaiar o que dizíamos pais. Wallace Neto chorava, e prometia mudar aquilo. Conforme foi crescendo, a vontade de limpar o nome da família transformou-se em objetivo e obsessão. Começava então a terceira trajetória política dos Margerinto Diviclécio.
Todos na cidade receberam com estranheza a candidatura de Wallace neto à Prefeitura de Alardeiras. Ninguém no lugar esqueceu dos outros Wallaces, os mais antigos falavam sempre, pra marcar bem o nome, assim os mais novos também não votariam em alguém daquela família. Mas esse Wallace era diferente, logo conquistou a todos, até mesmo quem já sofreu nas criminosas administrações anteriores. "- Minha gente, o garoto pagou pelas falcatruas dos outros a vida inteira! Vamos dar uma chance a esse Wallace de mostrar que tem valor. Ele é um injustiçado, assim como nós".
O povo foi seguindo Wallace nos discursos, aplaudindo cada promessa, ninguém mais duvidava; esse Wallace era diferente, um homem iluminado! Elegeram novamente, por maioria esmagadora, outro Margerinto Diviclécio.
Wallace Neto não permaneceu por tanto tempo na Prefeitura como seu avô, nem tão pouco como o pai. Oito anos, dois mandatos, e tudo na cidade permaneceu igual. Nem bom, nem ruim; nada de novo, bem diferente do que o exaltado candidato pregava nos discursos; Avançar e Evoluir! Meses após o fim do mandato, dez, pra ser exato, veio à tona o envolvimento da Prefeitura de Alardeiras na gestão Wallace Neto, em um articulado esquema de superfaturamento em obras e merendas escolares, fora uma infindável lista de pequenas fraudes. A Polícia Federal reuniu oito pastas grandes, repletas de provas contundentes. Mas seguindo a tradição de família, Wallace escapou ileso, não foi preso, e afirma com veemência que foi vítima de armação da oposição. Seu filho Wallace Neto II, já sofre nas ruas da cidade o preconceito do povo. Mas quando crescer pretende mudar isso, e no dia em que se eleger Prefeito, fará tudo que o bisavô, avô, e o pai não fizeram. Mas... Será que esse Wallace é diferente? Ou é a política que deixa todo mundo igual?



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A Fanfarra dos Hipócritas.
Qui, 31 de Julho de 2008

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Última atualização em Qui, 31 de Julho de 2008 15:48
 
Comentários (4)
  • Alfhonso
    avatar
    Dois textos que representam de forma cruel e verdadeira o cotidiano de poucos brasileiros, pois os brasieliros na sua maioria esmagadora é um povo de boa índole.Parabéns. :roll
  • Bruxa_dos_Contos
    avatar
    Comentando de baixo pra cima: Também ja me perguntei se todo político já é corrupto ou se é a política que destrói a ética de todos fazendo com que um favor seja conquistado à venda de outros favores ... 'uma mão lava a outra' ... mas as duas continuam se sujando. Certo q n é regra geral. Só que um apronta e todos levam a fama. Será que um dia o brasileiro vai abrir o olho e votar com mais conciência e menos ingenuidade ??? Qto à sinhasinha preconceitusa ... eca !! Mas aposto q a pizza era calabreza !!!!! (rs) Falando nisso .. vc tem o telefone da tal pizzaria ??? Beijo da Bruxa
  • Júlio Cesar de Oliveira
    avatar
    MUITO BOM!!!! Simples, objetivo, ótimo. Um artigo maravilhoso, com princípio, meio e fim em ótima sintonia. Parabéns!!!! muito bom!! Abrçs Júlio Cesar
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