| Espetacularização de prisões e uso de algemas |
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| Crônicas - Crônicas |
Escrito por Gilberto |
Sex, 15 de Agosto de 2008 12:51 |
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(Sobre noticia de "O Estado de São Paulo", dia 15/08/2008.)
Seria presunção de minha parte julgar que, ter sido o primeiro a advertir contra a Flauta de Hamelin, tenha influenciado os ministros do Supremo Tribunal Federal, que houveram por bem iniciar uma série de medidas que lhe são antídotos. Basta-me a satisfação de perceber que meus pontos de vista conferem com os vigentes na mais alta corte de Justiça do país. Suas medidas visam corrigir distorções existentes em nosso meio jornalístico, como a espetacularização de prisões, o uso de algemas, a violação do direito à presunção de inocência e do direito à preservação da dignidade. O comportamento da mídia deixa a desejar, pois veicula como informação, descrição de fatos, meras interpretações dadas aos fatos por pessoas despreparadas para a função que exercem. É preciso retornar ao caso Nardoni para denunciar que, ao se transferir o processo da instância criminal para a judicial, vários fatos foram deixados de lado, valorizando outros, conseguindo-se construir uma história que incriminasse o casal envolvido, que hoje só se pode encontrar quem tenha a convicção de que FORAM ELES, como mostrou a tarja de uma revista de alta circulação. Não consigo convencer a ninguém que não posso julgar o casal, pois não tive acesso aos dados que o incriminaram, tive acesso a apenas alguns dos capítulos, de uma veiculo de mídia e não de todos, da novela em que se transformou o caso em busca de pontos de IBOPE. Tem-se que denunciar, de novo, não ser função da Imprensa, falada ou escrita, incitar a fúria popular contra suspeitos, não ser função de promotores, em rede nacional, quase pedir ao povo “me ajudem a condená-los!” (pediu nas entrelinhas, se é que imagens as tenha). Infeliz do povo que tem autoridades que se preocupam em ouvir o clamor social, que, nestas horas, tem apenas um pensamento, o de linchar, matar, fazer justiça com as próprias mãos, não verbalizado, mas demonstrado em pequenos atos como bolsadas, pontapés, tentativas de invasão. Infeliz do povo que tem juízes que se preocupam em dar ouvidos ao clamor social, pois ouvir o grito de justiça imediata é retornar a um passado longínquo, ao tempo anterior ao nascimento das instituições de Direito e de Justiça no seio da sociedade. É preciso que as pessoas que ocupam estas funções sociais de policiar, incriminar, julgar, condenar tenham um discernimento maior da realidade que o demonstrado em alguns momentos. Tomo conhecimento que um promotor criticou a medida contra as algemas, dizendo que, quando se coloca algema em pobre, não aparece ninguém para reclamar. A realidade é outra: aparece, sim, e muitos; o que não se encontra é quem os ouça! É meio infantil pensar que algemar políticos de pijama, quase ainda bocejando de sono, é demonstrar que está sendo feito justiça! É infantil, pois fazer justiça significa muito mais do que prender. Significa verificar, por julgamento, se há crime, e havendo, fazer o culpado pagar, na forma do que prescreve a lei; se a prescrição for prisão, então prendê-lo. Não se pode conturbar o espírito do povo, fazendo-o pensar que a função da polícia é provar que houve um crime. A função policial é levantar os dados de situações suspeitas e encaminhá-los para a instância em que se provará se houve ou não crime! Há também quem tenha dito que prender rico não adianta, ele é solto no dia seguinte. Prender pobre também não adianta: prende-se hoje e solta-se amanhã, pois as cadeias estão superlotadas... e não precisa nem de habeas corpus! A liberdade de Imprensa deve ser preservada, mas imprensa livre não é aquela que veicula interpretações de fatos como se fossem os fatos. Imprensa livre não é a que dá a liberdade de se falar qualquer bobagem somente porque se ganha a vida escrevendo, mostrando ou comentando. O homem público, esteja ou não exercendo função na mídia, não pode veicular como informação suas próprias convicções ideológicas, suas interpretações como se fossem os fatos ocorridos. Os homens de imprensa e meios de comunicação têm de saber que a função que exercem é suprema na formação de um povo, e não podem se deixar levar pelo mero desejo de encantar – o que dá IBOPE – seus usuários. Se encomendado fosse ao IBOPE que se pesquise qual a percentagem de homens da Imprensa sabe dizer a seqüencia de fatos gerada pela maratona de reportagens sobre a morte da menina Isabela, posso adiantar o resultado: nenhum. Nenhum jornalista sabe dizer que, logo após o arrefecimento das notícias populares sobre o caso, um pedreiro de 22 anos matou uma criança de 4 anos, porque o pai desta criança o acusou de surrar com vara as suas filhas – do pedreiro; que um pai ameaçou seu filho de jogá-lo pela janela; que um adolescente matou seu amigo adolescente e o jogou pela janela; que um vizinho socorreu uma criança cujo padrasto, preso com ela em um quarto, ameaçava-a jogá-la pela janela; que uma mulher em depressão pós-parto jogou seu bebê de oito meses pela janela... É lógico que se digo “nenhum”, corro o risco de ser desmentido, mas quem me desmentir terá de dizer que um homem de imprensa e de comunicação sabia desta lista seqüencial de fatos. Assim, quem me desmentir estará acusando alguém de não ter condições morais de exercer o cargo que exerce, visto que este homem tem, também, a obrigação de denunciar as conseqüências dos atos jornalísticos e midiáticos. Da mesma forma, nenhum jornalista sabe dizer que a espetacularização do fato de uma mãe ter jogado seu bebê na lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, gerou uma série de outros bebês abandonados e jogados em portas de prédio, ao relento, culminando com o último em que uma mãe solteira escondeu dos pais – ainda isto é possível? – o bebê que tivera e o colocou como alimento de formigas no lote vago; a seguir heroinizou uma cadela para recuperar o rebento com dignidade. Os homens de imprensa acreditaram – são pios e inocentes! – e nos fizeram pensar em uma cadela mais humana que a própria mãe da criança! A verdade veio à tona apenas pela boca da mãe, pois não se calar era a única forma de ter direitos a e sobre seu bebê. Quando eu era criança, em Belo Horizonte, quase semanalmente pessoas subiam ao vigésimo quarto andar do Acaiaca e ensaiavam pular, sob os apupos da populaça cá de baixo – pula! Pula! Pula! Alguns cediam aos apelos do clamor social, outros, como que dando uma banana para o povo, desistiam. Alguém de bom senso inventou de assinar uma lei proibindo que se fizessem reportagens sobre os suicídios no Acaiaca. A conseqüência é que o encantamento se diluiu e só fui ver, de novo, o cenário de um suicídio, muitos anos após, já médico formado. Ademais, se crime é um espetáculo, por que prender os criminosos, são meros artistas da vida! E se é dever dos meios de comunicação fazer o povo confundir Imaginação com Realidade, no momento, há alguns atores que representam criminosos... Que sejam, portanto, presos, como apanhou, do povo, em praça pública, um destes atores. Diga não à flauta de Hamelin! Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Ter, 26 de Agosto de 2008 10:38 |

