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EU NÃO CAIBO EM MIM Enviar por e-mail
Colunas - Pelos olhos de Pessoa por Edson Tavares

Escrito por edsontavares
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Dom, 31 de Agosto de 2008 17:00
Eu não posso parar; se eu parar, eu penso; se eu pensar, eu choro. Creio que esta frase está numa canção muito antiga, que sempre utilizei como justificativa para minha natural inquietação. Claro, não nessa seqüência de parar, pensar e chorar.

Apesar de, pessoalmente, ser muito tímido e fechado, calado mesmo, experimento uma inquietação interior enorme, que me impulsiona a fazer uma série de coisas, praticamente ao mesmo tempo. Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo, como diz Álvaro de Campos.

Tenho, às vezes, uma sensação de que uma vida apenas é muito pouco tempo para o muito que pretendo fazer, e isso faz-me envolver com uma multiplicidade de afazeres. Desde jovem que vivo numa azáfama incrível. Ultimamente, ando dando umas tréguas ao corpo, que já apresenta sinais de cansaço, e à mente, que vai me ensinando, ao longo dos anos, a como usufruir mais, gozar mais e sofrer menos.

Mas, ainda assim não consigo parar. Meu cérebro é uma fábrica de idéias constantes, que, se não postas em ação, parece que vão se perdendo, feito água entre os dedos.

Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto / de quem dorme irrequieto, metade a sonhar, é o recado de Campos.

Tenho horror ao tédio, à letargia, à acomodação. O esforço é grande e o homem é pequeno; e a pequenez do homem faz-se ainda mais acentuada quando ele está parado, esperando que a vida lhe agracie com a vida.

Vida não existe a não ser que seja construída paulatinamente, no dia a dia, em cada nova ação, em cada avanço. Diz outra canção que a vida é uma briga pra gente levar. O mesmo compositor desta, afirma em outra: a gente faz a história com as mãos e com a razão.

Então... não dá para parar. Mesmo nos momentos de desânimo que se abatem sobre nós, urge a necessidade de nos safarmos da depressão e buscar saídas, luzes, brechas para a vida.

Aliás, é o próprio Fernando Pessoa que fala, pela poesia de Álvaro de Campos: Multipliquei-me para me sentir / para me sentir precisei sentir tudo. / Transbordei, não fiz senão extravasar-me.

Eu não caibo em mim.



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Dom, 31 de Agosto de 2008

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Última atualização em Seg, 01 de Setembro de 2008 06:39
 
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