
Ufa! cheguei a suar, pois parecia que eu estava no meio daquela confusão toda. Rico em detalhes. Vamos ver o próximo capítulo. Um abraço.
| O Sino De Vento - Capítulo I |
|
| Literatura - Contos - Terror |
Escrito por Aureo_Lima |
Ter, 30 de Setembro de 2008 07:00 |
|
A rua 25 de Março, no centro de São Paulo, fervilhava de gente naquela época. Como sempre. E no meio da multidão estavam Dionísio e sua mulher, Mirela. Como todos que se espremiam entre lojas, galerias e ambulantes, eles estavam em busca de preços baixos e ofertas de ocasião para presentar a família, mesmo que isso custasse adquirir produtos de baixa qualidade e sem garantia. Faltavam duas semanas para o Natal e o calor estava insuportável.
Dionísio ía puxado por sua mulher, que abria caminho entre a multidão. Ele se esforçava para não largá-la, apertando a sua mão que escorregava de suor, ao mesmo tempo em que desejava se soltar, perder-se dela, dar meia volta e ir para casa. "Se você me deixar lá sozinha, você me paga!", ela lhe disse. Ele respirava devagar e profundamente, tentando controlar sua fobia de multidões. Nunca se preocupou muito com isso, é verdade. É verdade também que sempre conseguiu se controlar, o que levou-o a rebaixar seu problema à uma frescura de gente tímida, como ele mesmo dizia. Ele se espremia entre as pessoas, desviando-se dos ambulantes que invadiam as calçadas com suas barracas de teto baixo. Em cada uma delas, uma infinidade de tranqueiras: carrinhos de brinquedo, brincos, carteiras de couro legítimo, colares, óculos escuros. Numa delas, havia um globo de vidro com a provável casa do Papai Noel com neve caindo por todo o globo. Dionísio viu aquilo e riu nervosamente. Achava toda essa história de Natal com neve e Papai Noel ridícula e, em pleno verão tropical, completamente sem sentido. Mirela parecia indiferente a tudo. Quase tudo. Enquanto puxava seu marido, varria com os olhos cada barraca, atenta a cada possível lembrancinha para um ou outro parente. Ela sabia que seu marido estava no limite de sua paciência e que mais meia hora naquele inferno seria o suficiente para ele explodir. Literalmente. Por outro lado, faltavam apenas dois presentes para comprar e ele teria que aguentar um pouco mais e conter a sua frescura, como ele lhe disse, certa vez. Dionísio deu graças a Deus quando entraram numa galeria, na esperança de encontrar um pouco de ar condicionado para amenizar aquele calor insuportável. Mas Deus parecia querer divertir-se às suas custas porque a galeria não tinha ar condicionado e parecia mais cheia que as ruas escaldantes. O empurra-empurra da multidão o fez se separar de Mirela dez metros adentro do que parecia uma imensa lata de sardinha humana. Imediatamente ele se virou procurando a saída, mas a turba que vinha atrás dele o impedia de voltar por onde entrou. Ele se virou novamente e iniciou uma penosa caminhada de passos curtos, acompanhando a onda humana que lhe lembrava uma marcha de pingüins, rumo ao mar. Ele, que não era uma pessoa alta, ficava constantemente na ponta dos pés, tentando identificar sua mulher no meio de tantas cabeças. Inútil. Desistiu da idéia logo em seguida. Apertou o passo e começou a se esgueirar no vai-e-vém incessante da multidão. O ar estava quente e pesado. Dionísio suava em bicas. À cada estande que ele conseguia ver o interior, procurava por sua esposa. Onde essa mulher se meteu, afinal? Passou entre perfumes, isqueiros, videogames, langeries, relógios. Procurava pela Mirela de um lado a outro. Foi empurrado para trás por uma senhora gorda e com cara de poucos amigos. Perdeu o equilíbrio mas não chegou a cair, sendo empurrado novamente. Ele começou a ficar tonto e seu rosto empalideceu. À sua volta, pessoas e mais pessoas misturavam-se a guarda-chuvas, estojos de maquiagem, mais pessoas, bolas de Natal, bichos de pelúcias e mais pessoas-robôs-a-pilha-chaveiros-canetas-e-mais-pessoas-cintos-gravatas-cds-pisca-piscas-pessoas-computadores-imãs-de-geladeira-pessoas-sapatos-pessoas-lenços-pessoas-luminárias-pessoas-pessoas-pessoas. O ar lhe faltou de vez, tudo começou a girar cada vez mais rápido, até que viu Mirela se aproximando "se você me deixar lá sozinha, você me paga!" e desmaiou. (continua...) Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Sex, 03 de Outubro de 2008 05:28 |