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O Sino De Vento - Capítulo V Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Terror

Escrito por Aureo_Lima
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Qui, 09 de Outubro de 2008 05:20
Dionísio dirigia em direção à zona oeste da cidade, com cara de poucos amigos. Ainda martelava em sua cabeça o papelão pelo qual passou na galeria da 25 de Março e, na sua opinião, tudo aconteceu por causa de Mirela. Ela e sua insistência em se meter naquele inferno - e levar ele junto - por causa de uns reais à menos. Mas ele também criticava a si mesmo. Todos iam e vinham naquele lugar como se passeassem numa praça vazia. Mas ele não. O "viado do Dionísio" tinha que ter um "siricutico" - como diria sua avó. Ele lembrava-se de ver Mirela, antes de tudo apagar à sua frente. E lembrava-se também de acordar num dos cantos da galeria, nos braços dela. Junto à eles estava também uma pequena legião de curiosos. Alguns com sincera preocupação, muitos - na maioria, homens - demonstravam certa ironia nos comentários ditos em voz baixa. Querendo sumir de tanta vergonha, ele resolveu ficar de olhos fechados - semi cerrados, na verdade - até que seu "pequeno show" não despertasse mais tanto interesse.

Atrás do volante, Dionísio olhou para Mirela e viu-a fuçando nas sacolas, procurando alguma coisa. Novamente Mirela foi a causa de tudo e também a sua salvação. Dionísio pensou nisso e veio-lhe à cabeça uma música do Roberto Carlos - "você foi toda a felicidade / você foi a maldade que só me fez bem", ou algo parecido. Assim era Mirela em sua vida. Um misto de amor e ódio que ainda encantava Dionísio. Desde que ela apareceu em seu caminho, ele foi, às vezes o culpado, às vezes cúmplice e às vezes vítima do temperamento tempestuoso daquela mulher e de todas as encrencas que esse temperamento produzia. Ele olhou novamente para Mirela, ainda entretida com suas sacolas e lembrou-se do carinho que ela dedicou a ele, enquanto estava deitado em seus braços, na galeria. Então Dionísio reconheceu que, embora estivesse meio cansado do tom imperativo de Mirela quando lhe pedia algo, ou da sua insuportável insistência quando queria alguma coisa, ele adorava o lindo sorriso sincero daquela falsa ruiva quando ela estava contente e dos raros, mas intensos carinhos que ela lhe fazia em momentos propícios. Sem falar no sexo, claro. "É, Dionísio. Você ainda ama essa mulher doida", ele pensou, sorrindo.

Enquanto Mirela quase enfiava a cabeça numa das sacolas de compras, tentando encontrar a caixa com o presente que ganhou de modo tão estranho, pensava em quanto tempo teria ficado na "Tenda do Destino". Para ela parecia ter sido, pelo menos, uma meia hora. Mas Dionísio havia lhe dito que, do tempo em que se separaram até o reencontro, quando ele estava desmaiando, sequer haviam se passado cinco minutos. "Dez, no máximo", ele dissera.

Enfim, Mirela achou a caixa. Abriu-a. Vislumbrou o objeto de madeira e metal acomodado ali dentro. Novamente sentiu algo dentro de si. Uma estranha simpatia pelo objeto musical que estava diante de seus olhos. Talvez até mais que isso. Piscou os olhos nervosamente e mostrou a caixa aberta a Dionísio, sem tirar os olhos do que tinha em seu interior.

_ Olha o que eu "comprei" - disse Mirela, surpreendendo-se com a mentira que saiu de sua boca instantâneamente.
_ O que é isso? - perguntou Dionísio, olhando rápido para a caixa e voltando-se à direção do automóvel.
_ Eu não sei o nome. Já vi isso um monte de vezes, mas não sei o nome.

Dionísio parou o carro no semáforo. Tentou pegar a caixa das mãos de Mirela, mas ela não a largou.

_ Eu também já vi esse negócio. Como é mesmo o nome? Tem em tudo que é canto e de vários tipos diferentes. Sino...sino alguma coisa - disse Dionísio, sem dar muita importância na pequena atitude egoísta de Mirela.

Quando o semáforo abriu e o carro começou a andar novamente, Dionísio sentiu uma brisa invadir o interior do veículo e disse, com um sorriso de satisfação:

_ Ahá! Sino de vento!
_ Sino de vento?
_ É. O vento bate no medalhão de madeira, que move o badalo, que bate nos bastões de metal. Como um sino, só que é movido pelo vento. Sino de vento, então.
_ Sino de vento - disse Mirela, mais para ela mesma do que para Dionísio.

Mirela, com um leve sorriso de satisfação, não parava de olhar o sino de vento, como se estivesse hipnotizada.

_ Onde foi mesmo que você comprou isso? - perguntou Dionísio.
_ Ah...onde-foi-mesmo-que-você-comprou-isso?

Ele já conhecia essa mania de Mirela. Quando está muito distraída, ela tem o hábito de repetir as perguntas feitas à ela, como se quisesse continuar entretida, mas também quisesse provar que estava atenta. Dionísio detestava isso. Ele suspirou e aumentou o tom de voz:

_ Ei! Ô Mirela! Onde foi que você comprou esse treco?

Meio assustada com o tom de voz de Dionísio, Mirela saiu do transe e respondeu:

_ Er...foi num estande cigano, logo na entrada da galeria.
_ Estranho venderem isso numa loja cigana - disse ele, franzindo a testa.
_ Porquê? - perguntou Mirela, fechando a caixa e guardando-a novamente na sacola.
_ Geralmente se encontram esses sinos em lojas de decoração, de artesanato ou floriculturas - Dionísio deu de ombros - mas isso não quer dizer nada. Esses estandes e barracas de camelôs não seguem padrão nenhum. Se vende, você vai encontrar lá. Não importa se é um boneco do Power Rangers ou uma tampa de privada.
_ Você forçou, mas tem razão - concordou Mirela.
_ Bom, acho que compramos tudo, não é?
_ Não. Ainda faltam dois presentes. Estou pensando em ir na 12 de Outubro, na Lapa.

Dionísio freou o carro no semáforo de repente. Olhou para Mirela com os olhos flamejando.

_ Sozinha. So-zi-nha! - disse Mirela, rapidamente.

O semáforo abriu e o automóvel pôs-se a andar novamente.

(continua...)



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O Sino De Vento - Capítulo V
Qui, 09 de Outubro de 2008

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Última atualização em Qui, 09 de Outubro de 2008 05:37
 
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