
Ih! A coisa tá ficando feia.
| O Sino De Vento - Capítulo VI |
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| Literatura - Contos - Terror |
Escrito por Aureo_Lima |
Sex, 10 de Outubro de 2008 03:12 |
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Dionísio queria mesmo era ter ido viajar. Deus é testemunha do quanto ele queria isso. Aproveitar as férias dele e de Mirela e sumir do mapa. Passar o Natal e ano-novo longe de tudo e de todos. Ele não tinha mais paciência de aguentar o disse-me-disse dos familiares. Seus familiares. Mirela ficou só ainda na pré-adolescência quando sua mãe e o único irmão morreram num acidente do qual ela própria escapou por muito pouco. Desde então, ela adotou a família dele como se fosse a sua. Ela gostava de todos, sem exceção e todos gostavam dela, o que fazia Dionísio se sentir muito bem. Ele disse a Mirela, certa vez, que seus pais ganharam uma filha e estão perdendo um filho, tamanha era sua aversão aos laços familiares que aumentava à cada feriado familiar. Mas ele suportaria mais esse ano. "Que remédio?" - pensou, enquanto tentava desembaraçar os galhos do falso pinheiro que começou a montar.
Desde que voltaram das compras e da sua estranha visita à Tenda do Destino, Mirela passou a maior parte dos dias que se passaram com a caixa do sino de vento nas mãos, andando pela casa e olhando para cima, a procura de um bom lugar para pendurar seu novo mimo. A cada passo dado, ela chacoalhava a caixa que emitia sons metálicos abafados. Mirela dedicava tanta atenção a essa tarefa que nem notava o seu marido olhando-a e achando tudo aquilo muito estranho. "Ela" estava estranha. Sempre muito prática, não havia se importado sequer com a decoração da casa, quando se mudaram, opinando muito pouco e deixando o trabalho para Dionísio. Ele, por sua vez, cansou a cabeça e o corpo, já que não tinha muita noção de espaço, colocando e tirando móveis. Agora ela estava lá, zanzando de um lado para o outro, com a cabeça jogada para trás, fitando os cantos do teto. Mirela queria achar o lugar ideal. Por mais tempo que lhe custasse esse trabalho. Seu pescoço doía, mas ela o ignorava. "Falta pouco agora. Estou quase lá" - era a única coisa que passava por sua cabeça. Uma ansiedade fora do comum a invadia, fazendo sua respiração acelerar. Dionísio, preocupado e prevendo ter que passar as férias com uma mulher de pescoço imobilizado, chegou perto de Mirela e tocou em seu ombro: _ Amor, descanse um pouco. Vai acabar tendo um torcicolo - disse ele, com carinho. Mirela sacudiu os ombros, livrando-se da mão de Dionísio e continuou andando, desta vez mais devagar, concentrada - "falta pouco agora, estou quase lá" - no pequeno céu cor de gelo sobre sua cabeça. Parou. Sacudiu mais uma vez a caixa. Um forte sentimento de satisfação tomou conta dela, que não conseguiu conter um riso baixo e, ao mesmo tempo, histérico e nervoso. Era ali o lugar. Mirela virou-se para Dionísio com um sorriso radiante no rosto. Os olhos úmidos e brilhantes. _ Encontrei o lugar! - ela disse, ansiosa. Dionísio olhou para cima. O lugar era um canto da sala de jantar. Esta se juntava à sala de estar formando um grande "L". Dionísio coçou a cabeça, deu uma espiada na sala de estar, coçou a cabeça novamente e disse: _ Mas Mirela, logo aí? Mirela ainda sorria e não notou - ou apenas ignorou - o tom desanimado de Dionísio. _ Sim! É aqui que eu quero! - disse ela, apontando o lugar exatamente acima de sua cabeça. _ Mas... - Dionísio ainda deu outra espiada na sala de estar, onde há uma grande janela - é que aqui, onde você quer, não bate vento. O sino não vai tocar nunca! _ Eu quero aqui! Pendura pra mim? - perguntou uma Mirela totalmente alheia às observações de Dionísio. _ Vem cá! Deixa eu... Dionísio pegou Mirela pelo braço e tentou levá-la para a sala de estar, mas Mirela pegou sua mão e livrou-se dela com uma violência tamanha que Dionísio foi jogado para longe. Ele cambaleou e bateu no sofá, do outro lado da sala de estar. _ Não! - ela gritou - Eu não quero outro lugar! Eu quero aqui! Por que é tão difícil pra você fazer as coisas que eu quero? Dane-se que na merda do lugar que você escolheu bate vento! Eu quero que se foda o vento! Eu quero aqui! Quando Mirela terminou de gritar, ela estava ofegante e chorando. Dionísio apavorou-se com a atitude dela, mas não tanto quanto com seus olhos. Tentou reconhecer sua mulher no que via à sua frente mas não conseguia. Ela ainda estava parada no mesmo lugar, cabeça baixa, os olhos lacrimejantes mas ameaçadores encarando-o, a respiração profunda e acelerada. _ Por favor - disse ela, por entre os dentes. _ O que há com você, afinal? - disse Dionísio enquanto se levantava, mas sem tirar os olhos de Mirela, como se esperasse que ela avançasse sobre ele a qualquer momento. Mirela não respondeu. Ficou imóvel por um tempo, olhando para Dionísio, depois para o chão. Sua respiração ia voltando ao ritmo normal. Ela franziu a testa e fez uma careta que demonstrava um grande esforço. Era como se Mirela estivesse tentando encontrar algo dentro dela que tivesse perdido. Um redemoinho de emoções girava em sua cabeça. Ela não queria olhar para Dionísio. Não queria sentir aquele ódio novamente. Ela não odiava Dionísio. Ela o amava. E era nisso que tentava se agarrar. Flashs de recordações passaram em sua mente. E doíam. Eram como giletes rasgando seu cérebro: Dionísio, sua mãe, seu pequenino irmão, o casamento, o sorriso de Dionísio, sua mãe ao volante sorrindo para ela, pelo espelho retrovisor, Dionísio beijando-a à beira-mar em sua lua-de-mel, a chama falsa tremulando na Tenda do Destino, a estranha melodia do sino de vento. Mirela ajoelhou-se no chão e encolheu-se com as mãos na cabeça, soluçando. Dionísio ainda estava parado à sua frente, imóvel. Ele não sabia o que fazer. Não estava entendo nada do que acontecia. Por um momento, sua amada esposa tinha desaparecido e em seu lugar havia uma pessoa "ou algo" que ele não conhecia e que o empurrara para longe. Agora, tudo o que via à sua frente era Mirela, sua mulher, encolhida no canto da sala de jantar, chorando, desprotegida e - ele podia sentir - desesperada. Esse último pensamento fez Dionísio saber exatamente o que fazer. Mirela "precisava dele". Então abraçou-a. (continua...) Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Sex, 10 de Outubro de 2008 09:08 |