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O Sino De Vento - Capítulo XII Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Terror

Escrito por Aureo_Lima
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Ter, 14 de Outubro de 2008 11:14
Preocupada com a saída de Dionísio, Mirela atravessou o pequeno corredor dos quartos e atravessou a sala de estar, chegando à sala de jantar. Olhou para cima, próximo à junção das paredes e do teto e viu o sino de vento. Sem explicação aparente, um calafrio lhe percorreu a espinha. O melódico objeto se encontrava bem abaixo de uma das seis cadeiras de madeira que faziam conjunto com uma mesa, também de madeira. “Dionísio deve ter usado a cadeira para fixar o sino de vento no teto”, concluiu Mirela.

O verão de dezembro sempre foi forte em São Paulo, mas nesse dia soprava uma brisa do lado de fora e havia sinais de chuva. Mirela foi até a grande janela da sala de estar e abriu-a bem. A brisa fresca invadiu a sala, fazendo a cortina azul tremular levemente. Mirela voltou até a sala de jantar e olhou o sino de vento. Imóvel. Ela esticou o pescoço, sentiu a fraca brisa no rosto e viu que a cortina ainda tremulava. Voltou os olhos para o sino de vento, fixando-os no medalhão de madeira decorada, que deveria balançar sob a ação do vento, fazendo tilintar os pequenos carrilhões de metal. Nada. Nem um movimento. “Ele estava certo”, pensou Mirela, referindo-se a Dionísio e do que ele dissera a respeito do vento não chegar até o objeto que pendurou para agradá-la. Ela voltou à sala de estar, fechou a janela e ajeitou a cortina, deixando do lado de fora um céu cada vez mais nublado e escuro.

Tudo o que Mirela queria naquele momento era tomar um longo banho. A água morna limpando o sangue seco de seu corpo, caindo sobre sua cabeça dolorida. Se não era tudo o que precisava, era tudo o que queria naquele momento. Ao passar ao lado da mesa da sala de jantar, Mirela ouviu o tilintar da melodia que há alguns dias fazia parte de sua vida. Sua dor de cabeça parecia voltar aos poucos e isso apavorou-a. Olhou para o sino de vento e ele estava imóvel. O medalhão de madeira, suspenso por um fio abaixo da pequena casinha girava muito lentamente. Mirela fitava o objeto com a respiração acelerada. Tudo o que acontecera de ruim nos últimos dias tinha a estranha melodia como trilha sonora. Até mesmo seu horrível pesadelo da noite passada. Mirela tinha consciência disso. Tanta que, por um momento, pensou em subir na mesa – a cadeira não seria alta o suficiente como fora para Dionísio – e arrancar aquele maldito sino de vento do teto cor de gelo. A idéia ficava cada vez mais consistente em sua cabeça, a ponto de fazer Mirela dar um passo em direção ao sino. Mas ele tocou novamente. E Mirela viu, aterrorizada, o badalo com o medalhão de madeira bater nos pequenos bastões de metal. Sua dor de cabeça voltava com mais força desta vez, fazendo Mirela gemer baixinho. Imagens passavam violentamente em sua mente. Sua mãe “foi deus”, seu irmão, o acidente, a cigana “quer morrer?”, Dionísio.

A imagem de Dionísio fez Mirela voltar a tomar o controle de seus pensamentos. Ofegante e com os olhos fechados, ela respirou profundamente por alguns segundos. “Sem imagens, Mirela”, ela falou, entre os dentes, para si mesma. Abriu os olhos e viu a cortina e a janela fechadas. Não havia vento. A melodia tocou uma vez mais, fazendo Mirela levar um susto. Ela não se atreveu a olhar para o canto do teto. A imagem de Dionísio em sua cabeça começou a se desfazer. Flashes rasgantes voltaram a açoitar sua mente. Mirela agarrou-se à parede, de costas “você é forte Mirela, nada te controla” enquanto fazia um esforço enorme para não perder sua consciência. Gotas de suor escorreram de sua testa em direção de seus olhos apertados. Sua cabeça doía como se fosse explodir. Ela gemeu de dor entre soluços. O sino de vento tocou novamente. Dionísio escapava aos poucos de sua mente. A horrível visão de sua mãe esmagada entre as ferragens do carro ia ganhando forma “foi deus”. E o sino de vento tocou novamente. Em sua cabeça, Dionísio cedia lugar à melodia do sino e imagens terríveis de anos atrás. E o sino de vento tocou novamente. Mirela sentia seu controle se esvaindo pouco a pouco, enquanto dores lancinantes, como fortes ferroadas, lhe perfuravam o cérebro. Mirela começou a esmurrar a parede enquanto gritava de dor e desespero. O sino de vento agora badalava sem parar. Dionísio apareceu em sua mente, desta vez, com um sorriso cínico “mulher é o pior bicho que existe”.

“Não!” Gritou Mirela, com toda a força de seus pulmões. “Não!” O sino parou de repente. Ela desabou no chão. Os nós dos dedos das suas mãos estavam roxos e sangrando. Sua vagina também sangrara novamente – “porque vive sangrando e nunca morre” - durante todo o tempo em que estivera lutando para não perder a razão, fazendo uma pequena poça de sangue no chão.

(continua...)



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O Sino De Vento - Capítulo XII
Ter, 14 de Outubro de 2008

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Última atualização em Ter, 14 de Outubro de 2008 14:00
 
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