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O Sino De Vento - Capítulo XIV Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Terror

Escrito por Aureo_Lima
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Qua, 15 de Outubro de 2008 04:17
A porta abriu-se e Dionísio ouviu uma melodia que não era estranha, mas era diferente.

_ Dio! Mama, mia! Dio está em minha casa!

Essa foi a saudação que Dionísio recebeu do seu irmão, Ricardo, assim que este lhe abriu a porta. Apertaram as mãos como nos velhos tempos de infância, juntando os polegares, como se fossem tirar uma queda de braço sem mesa de apoio. O sorriso sincero de ambos mostrava o quanto eram amigos, além de irmãos. Ricardo puxou Dionísio para dentro de casa, pois a chuva começava a cair fortemente do lado de fora.

_ A sua bênção, mio Dio! - Disse Ricardo, tentando pegar uma das mãos de seu irmão para beijá-la.
_ Vai pro inferno! - retrucou Dionísio, salvando sua mão de uma lambida e dando um tapa forte na nuca de Ricardo.
_ Ai! Pô! Isso lá é atitude de Dio?- questionou Ricardo, divertindo-se.
_ Depende de que "Dio" tá me chamando. Se for "Deus", realmente, peguei pesado. Agora, se foi "Ronnie James Dio", foi pouco o que te fiz.

Na adolescência, Dionísio teve que aguentar um colega de escola, filho de italiano, que o chamava de Dio, referindo-se a Deus. Era divertido no começo, quando a professora o chamava à frente para uma chamada oral e seu colega falava "cuidado, professora! Está pondo Deus à prova!", o que fazia a classe inteira rir. Mas também era constrangedor quando alguns colegas encontravam-no na rua, ficavam de joelhos e começavam a louvá-lo. Porém, era tudo suportável e Dionísio também entrou na onda, dando tapas nos mesmos colegas quando estes lhe interrompiam e dizendo: "silêncio, mortais! Deus está falando, porra!" E todos riam. Mas o que Dionísio mais gostou foi quando começou a curtir "Heavy Metal" e descobriu "Ronnie James Dio", ex-vocalista do "Rainbow" e do "Black Sabbath", que iniciava carreira solo, no início dos anos oitenta. Todo "metaleiro" tinha cabelos compridos, calça jeans rasgada e camiseta preta, geralmente com a capa do disco de alguma banda estampada nela. Mas quantos podiam levar no peito a capa do "The Last In Line" e ainda dizer "prazer, eu me chamo Dio?"

Mas isso tudo passou. Dionísio ainda era chamado de Dio no escritório, mas sem nenhuma conotação religiosa ou musical. Apenas o diminutivo de Dionísio, nada mais. A mágica talvez tivesse ficado esquecida, dentro de um dos discos mofados que Dionísio ainda guardava em um armário, na garagem de sua casa, não fosse pelo seu irmão. A brincadeira de Ricardo trouxe todos esses bons momentos à cabeça e ao coração de Dionísio que, estressado pelos últimos acontecimentos em sua casa, não conseguiu segurar dois pares de lágrimas que rolaram dos olhos.

_ Ih, cara! Cê tá legal? Pô, eu levo o tapa e você que chora? - brincou Ricardo sem, no entanto, esboçar um sorriso sequer.

Dionísio limpou o rosto, fungou, resmungou baixinho e falou:

_ Esquenta não, mano. As coisas tão meio complicadas pro meu lado, é só.
_ Então vem cá, carinha! - disse Ricardo dando uma chave de braço em Dionísio e carregando-o para a sala - quero te mostrar um cd que é uma raridade. Lembra do Helix?

Ricardo era o irmão que todo caçula gostaria de ter. Três anos mais velho que Dionísio, sempre teve um ótimo humor. Nunca deixou de estar presente no crescimento de Dionísio, exceto quando tinha mulher na jogada. Ele perdeu a conta de quantos shows de rock assistiram juntos na adolescência. Os dois tinham planos de formarem uma grande banda. Chegaram a tomar aulas de guitarra e violão. Mas depois, enquanto os anos rebeldes terminavam, Dionísio sem perceber ia, ano após ano, perdendo o rumo de seus sonhos e indo parar no escritório de uma indústria farmacêutica. Ricardo, pelo contrário, sempre soube o que queria da vida: música. Formou bandas de rock, foi guitarrista, baixista e vocalista. Foi produtor e professor de música. Além disso, ele estava sempre rodeado de belas mulheres, mantendo sua fama de solteirão incólume. Hoje em dia, com quase quarenta anos, Ricardo faz jingles para comerciais, estuda piano clássico e toca jazz em bares noturnos. Dionísio o admirava, chegando ao ponto de invejar aquele cara alto e bonito que, apesar de ser mais velho, parecia ter uns sete anos a menos que ele.

_ Helix...Helix...putz! Rock You! - disse Dionísio empolgado.

A imagem do vídeo clip veio rapidamente na cabeça: uma grande pedreira cheia de mulheres gostosas com chicotes nas mãos, forçando os integrantes da banda - algemados - a quebrarem pedras, como escravos . No fundo de tudo isso, o vocalista da banda gritava, entre as fortes batidas ritmadas e a resposta de um coro: "Gimme an R - R, O - O, C - C, K - K! Whatcha got? - Rock! Whatcha gonna do? - Rock You!"

_ Ceeerto! Olha o que seu irmãozão conseguiu pra gente - disse Ricardo, mostrando um cd importado novinho em folha e interrompendo a imagem do vídeo clip na cabeça de Dionísio.

_ Cara! - Dionísio pegou o cd e admirou-o - põe ai pra gente ouvir!
_ Demorou! Me dá isso aqui!

Ricardo pegou o cd das mãos de Dionísio e, enquanto ia em direção ao aparelho de som que estava na estante da sala, tentava abrir a embalagem do cd com os dentes. Dionísio estava ansioso e com um sorriso no rosto. Ele olhou para a janela e viu uma verdadeira enchurrada caindo do lado de fora. A claridade de um relâmpago fez Dionísio piscar. O sorriso sumiu logo em seguida quando ele se lembrou de Mirela e do porquê tinha vindo até ali. Foi até seu irmão e segurou seu braço. Ricardo olhou para Dionísio com um pedaço de plástico entre os dentes.

_ Que foi? - disse Ricardo, cuspindo o plástico - quer que eu deixe um pedaço pra você?
_ Desculpa, mano. Dá pra deixar o som pra depois? A Mirela está estranha ultimamente e queria poder desabafar isso com alguém, porque eu não sei o que fazer.
_ Eita! Que aconteceu? Ela tá doente? - Ricardo ficou visívelmente preocupado. Ele tinha um enorme carinho por Mirela, especialmente por ela estar fazendo Dionísio feliz desde que se casaram.
_ Não. Eu acho. Espero que não - Dionísio, sem saber porquê, começou a gaguejar.

Os dois dispensaram um grande sofá de couro preto e sentaram-se em um tapete redondo que ficava bem no centro da sala.

_ Calma aí, Dio. Respira fundo e me conta a história do começo, sem pressa.

Dionísio respirou fundo e começou a contar o dia em que Mirela ficou fitando o teto, procurando um lugar para pendurar seu sino de vento.

(continua...)



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O Sino De Vento - Capítulo XIV
Qua, 15 de Outubro de 2008

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Última atualização em Qua, 15 de Outubro de 2008 06:15
 
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