| Lágrimas de Prata - O caminho para o leste |
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| Literatura - Contos - Policial |
Escrito por Brunno |
Qua, 15 de Outubro de 2008 19:35 |
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Gascoin ouviu a resposta. Respondeu que era exatamente o que estavam esperando. Haveria uma reunião em campo para determinar quais medidas seriam tomadas e depois, quem sabe, todos iriam pra casa.
Liv não tentou remeter uma mensagem porque seu diretor a proibiu. Disse que não era prudente enviar sinais de rádio ainda. Mesmo como o "cessar fogo" no front ocidental quase acontecendo de vez. A agência de inteligência não tem tempo para ficar aguardando a volta de numerários para o país, o Presidente Henry Truman estava ditando, de Washington, as últimas ordens para execução do projeto Manhattan. Em Londres a sede do governo aguardava visitas importantes. Churchill disse que não ficaria naquela reunião, justificando-se pelo fato de temer perder o controle e partir pra cima daqueles desgraçados que agora vinham com o rabo entre as pernas. Em quatro de maio de 45 o Marechal Bernand Montgonery, Supremo Comandante das forças britânicas recebia o General Hans Georg Von Friedeburg, com uma rendição das forças alemãs no oeste da Europa. Eisenhower bateu a punho fechado sobre o documento e fitou calmamente o alemão. Olhou para seu colega inglês e os dois rechaçaram o pedido. Este primeiro contato entre os líderes militares das nações tinha como objetivo uma paz parcial e a proposta de resistência continuada das tropas alemãs no leste do velho continente. Todos sabiam que ainda havia alemães armados e prontos para combate no extremo leste europeu, obviamente sem que os Aliados e os russos dessem muita atenção. Os generais enviados da Alemanha dominada foram tratados segundo o antigo Tratado de Versalhes para aquele que acenam com uma bandeira branca: foram postos em acomodações confortáveis e levados com respeito. Naquela noite os chefes de estado militares conferenciaram e Eisenhower deu seu parecer de que não pretendia aceitar aquele pedido. __Seria uma afronta aos russos - disse aos demais. Stalin estava furioso porque eram os americanos quem controlavam o processo de fim da guerra e o Kremlin achava que tudo deveria terminar onde começara, em Moscou. A escola de engenharia em Karlshorst não tinha mais o comandante Helmuth Weidling na cadeira de presidente, agora devidamente ocupada pelo russo Georgi Shukov, um áspero veterano soviético com sangue nos olhos para tratar os alemães. Era madrugada de sete de maio de 45 em Londres. Os americanos haviam enviado uma mensagem a Eisenhower dizendo que ele deveria aceitar a rendição dos alemães imediatamente. No mesmo fuso horário a França acordou sua analista de guerra, agora diretora Duncan, para que ela desse um aval sobre o que deveria ser feito. Ao telefone estava o próprio general americano. __Acho que deve aceitar, general - ela ainda não entendia porque aquele homem tão poderoso e experiente insistia para que ela desse sua opinião. Liv havia se mostrado um prodígio nos assuntos de análise de guerra, mas além do voto no projeto Manhattan, aquela era outra grande decisão dos Aliados - Principalmente para mostrar aos russos que nós temos, sim, o controle sobre os alemães. Então era a vez de Liv dar seu primeiro tiro de guerra. Mas seria numa guerra praticamente sem tiros, sem que as metralhadoras ficassem com os canos quentes, sem que as bombas espocassem em fogo pelas ruas das cidades, sem o calor das batalhas como Maginot, da África, da Normandia e de Bastogne. Uma guerra fria. Sem mais, foi chamado à sala de reuniões dos Aliados o general Alfred Jodl, alemão de carreira histórica no exército nazista. Ele tomou o documento nas mãos e assinou. Eisenhower verificou a assinatura e disse, "Cinco anos e nove meses. Cinqüenta milhões de mortos. Espero que estejam contentes" e retirou-se da sala. Noutra transmissão de rádio os americanos, franceses, canadenses, italianos, africanos, espanhóis, belgas, gregos, brasileiros, suíços e o resto do mundo foram avisados de que os Aliados recebiam a rendição incondicional do Terceiro Reich. Pra muita gente aquilo já havia acontecido. Joseph Stalin entrou em pânico quando soube da notícia. Num acesso de fúria ordenou que fosse montada, em Berlim, uma encenação com um novo termo de rendição, este seria assinado por Wilhelm Keitel e entregue às mãos de Shukov, o que ocorreu em nove de maio. Para os homens do SAS era tudo uma grande bobagem. O que os interessava era que não tinham de atirar em mais ninguém por enquanto. E nem mesmo o tenente-coronel Grills estava disposto a lutar novamente. Gascoin e Demot dormiam no mesmo quarto na casa abandonada em Berlim onde foram alojados. Fumavam e conversavam a noite toda. __Então? O que acha que acontece agora? - perguntou Demot. __Ouviu dizerem que os japoneses ainda estão resistentes? É provável que nos mandem lutar contra eles. - Gascoin puxou o banquinho baixo com o cinzeiro para perto. Demot emitiu um barulho de rejeição. "Merd, era só que nos faltava" murmurou. Argumentou com Gascoin que não tinham mais nada a ver com essa guerra, que não tinham nada a ver com os japoneses, ou ao menos, não tinham nada contra. __Também não tínhamos nada contra aqueles homens no bunker em Omaha, Pierre. Não foram eles que invadiram Berlim, ou acataram Ardenes. __De qualquer jeito, Henri. Não estou a fim de continuar com os ingleses. Não por eles! São caras bons! Mas eu não vejo nada de frutífero para meu futuro nessa guerra. Se ao menos estivéssemos ganhando pra fazer isso... Gascoin sorriu para o amigo. Era exatamente essa sua idéia para dali em diante. Pierre não entendeu e o amigo disse para dormirem, ele explicaria depois. Amanha teriam de estar novamente à ordem para que o coronel Grills lhes dissesse o que fazer. Num fim de tarde em Paris, o funcionário assessor de Liv entrou em sua sala dizendo que o homem que ela havia solicitado de ser informada, havia entrado em Paris. Quando o diretor geral quis saber o motivo daquele aviso, ela explicou que o próprio general Bouffey a havia alertado quanto àquele homem. Ordenou que o detivessem no escritório da companhia no aeroporto e mandou que o caro a levasse imediatamente para lá. Chegando deu de cara com um senhor calmo, bem vestido, mas confuso com tudo aquilo. O distinto cavalheiro tinha mais de quarenta anos, cabelos puxando para o cinza, bigode fino e porte imponente. Falava pausadamente e mantinha as sobrancelhas sempre levantadas. Portava uma bengala e vestia capa amarrada à altura de meio corpo. Um anel de ouro no dedo anular da mão esquerda brilhava a cada tragada do cigarro preso à piteira. Cigarros sempre retirados de uma cigarreira também de ouro. Liv parou diante dele e cruzou os braços. Não se conheciam, ainda, mas ela previa - e estava ficando boa nisso - que saberiam muito um do outro futuramente. Ela disse bom dia. O homem levantou-se da cadeira desconfortável e a fitou de cima a baixo. Escolheu não dizer o que pensava, mas o volume das coxas sob a saia era interessante. __Sou a senhorita Liv Marie Duncan. Acredito que o senhor esteja curioso para saber porque o estamos mantendo aqui. O homem sorriu tranquilamente, tomou a delicada mão dela com as suas, ásperas e fortes e a beijou. __Je suis le signeur Olivier Maurice de Colony, o Conde de Asperrance. Estou encantado em conhecer criatura tão fascinante. És tão linda que abrilhanta o firmamento. Em que posso lhe servir, senhorita Duncan? Liv respondeu aos efusivos elogios com um sorriso de protocolo. Mandou que os agentes de reconhecimento saíssem ficando na sala somente ela, o diretor geral e mais um oficial militar, para segurança. __Então o senhor é o Conde de Asperrance? - perguntou Liv começando um interrogatório que levaria horas. Ao final o Diretor Geral abriu os braços em sinal de impotência. Liv terminou seu café e olhou pela janela em direção à rota de chegada dos aviões vindos do leste. __Não se preocupe, Diretor Dewavrin. Acho que tenho o homem certo para nosso quadro de funcionários. - a morena estava sombria novamente - e esse senhor não me engana. Não entrando na França depois de todos esses anos fora, justamente nesse momento. Apesar de a resistência japonesa ainda apresentar pontos fortes de combate, a maioria do contingente havia sido dispensada do serviço. Os japoneses já computavam excessivas baixas em pessoal e equipamento. A maioria de seus navios havia sido destruída pelos cruzadores, couraçados e fragatas americanas e australianas. Não obstante, o gigante vermelho sobre sua cabeça apontava o dedo da inquisição ao imperador Hirohito. O Primeiro-Ministro Kuniaki Koizo assumira o cargo depois da renúncia de Nobuiuki-sam apresentando-se desde o início como um homem belicoso e irritadiço. Mesmo com os homens sendo enviados de volta ao país e o Imperador ordenando o fim do combate, Koizo-sam mantinha sua convicção de que os alemães continuariam a resistir e não era hora de recuar. O Imperador dera a ordem, mas Kuniaki não obedeceu. Era talvez o único homem no Japão que tinha autonomia para olhar o Imperador nos olhos. Usava de sua maturidade para impor sua vontade, já que o governante era jovem e inseguro. __Vamos continuar no combate! - ordenou ao general Mitsuru Ushijima. O general argüiu seu comandante se deveria manter os homens ativos em todo seu contingente, já que a primeira ordem era para dispensá-los do serviço e enviá-los para casa. Koizo disse para manterem os que estavam lutando, no front. Os demais que morressem velhos e desonrados. Numa manhã fria e chuvosa um oficial descia pela rampa de desembarque no porto improvisado de Kaitan, leste da ilha. Vestia seu uniforme de gala porque estava voltando pra casa, mas ao contrário da maioria dos homens enviados de volta, o tenente Saito Nizuy não sorria. Um de seus antigos comandados, ainda nos campos chineses, lhe segurou pelo ombro e disse que era para ficarem felizes porque estavam de volta ao Japão. A guerra logo terminaria e todos poderiam voltar para suas esposas e famílias. O tenente pareceu não entender o que dizia o soldado. Apenas lhe retirou a mão do ombro com um impropério e seguiu pela estrada de cascalho que passaria pela província de Niigata. O tenente Saito caminhou sozinho pela chuva fina durante dias. Dormindo em qualquer lugar e comendo frutos que achava pelo caminho. Bebia das águas dos riachos e mantinha o pensamento no futuro terrível que vinha pela frente. Ainda no campo de batalha o tenente havia sido avisado que os americanos tinham bombardeado a província e que toda sua família estava morta. Ficou furioso quando foi mandado de volta devido a um ferimento na perna que o impedia de correr. Seu querido e esperto filho, o recém nascido ainda sem nome quando deixou a família, seu amado pai, sua linda e meiga esposa Shirori. Todos mortos pelos malditos imperialistas americanos. Depois de caminhas quase uma semana com os rostos de seus familiares na cabeça, o tenente parou para descansar e dormir quando faltavam dez quilômetros para chegar à sua antiga aldeia. No mesmo instante um Spacer C-200 tremia, ainda no chão, quando seus quatro motores foram acionados na pista improvisada em Berlim. Os britânicos preparavam um desembarque em Singapura. Naquele momento a Inglaterra e os Estados Unidos estavam a todo vapor, ninguém dormia, não naquelas horas. Os homens se olharam dentro da aeronave e deram-se as mãos. Todos vestidos com seus uniformes completos, pára-quedas, armas, tudo novamente, como já haviam feito. Não estavam felizes. A cumplicidade que irmãos de armas desenvolvem em campo é inigualável. Pouco importava suas nacionalidades, crenças, cores, profissões, nas piores horas foram todos companheiros. Do grupo original havia sobrado Grills, Erney, Lions, Demolet e Gascoin. Alguns ainda queriam lutar, outros não. Contrariando os costumes para a época aquele homens se abraçaram. O grande avião prateado alçou vôo e aqueles cinco combatentes acenaram e desejaram boa sorte aos companheiros que iam continuar a lutar. A guerra para eles havia acabado. Erney chorava, sempre o chorão da turma. Lions o continha. Grills abanava os braços para que os demais homens saíssem da pista. Demot e Gascoin não acreditavam. __Londres nos chamou pra casa. - disse Grills - Acabou, cavalheiros - eles não se mexiam. Formavam a mesma roda que faziam quando tinham de combinar uma ação. Fumavam e se olhavam. E agora? __Eu pretendo reassumir meu antigo cargo: acho que não vai ser fácil voltar a ser pedreiro em Londres, mas deve ter muito o que fazer - disse Grills. __Bom pra você. Tenho certeza que não tem ninguém casando neste momento que precise das minhas flores - esse era o Lions. __É gente... Será que ainda tem um lugar pra mim na fábrica de pneus? - Erney. __ Foi um prazer lutar ao lado de vocês... - disse Demot com lágrima nos olhos. Gascoin não queria dizer nada. Abraçou mais uma vez cada companheiro inglês. De todos era o único que não pretendia voltar à antiga profissão de "inspetor de carteiras" em Paris. E como será que andava aquela mocinha? Os quatro homens empertigaram-se diante de seu comandante e prestaram continência. Até Grills estava com os olhos vermelhos. Gascoin era o único que via aquilo como mais uma manobra de guerra. __Senhores, o Serviço Aéreo Especial os dispensa da função. - proferiu o tenente-coronel. Depois de mais algumas despedidas os franceses receberam uma carta enviada de Londres com os cumprimentos do Excelentíssimo Primeiro-Ministro Winston Churchill pelos serviços prestados aos homens do SAS e os laureados acenos de Sua Majestade o Rei Jorge VI da Grã-Bretanha. O SAS foi para o lado direito, em direção ao alojamento inglês e os franceses tomaram um caminhão que os levaria para esquerda, para casa, para Paris. Viajando no inicio da noite os franceses chegariam a Paris na tarde do dia seguinte, era o dia cinco de agosto de 1945. O tenente Saito dormia. Os americanos, canadenses, ingleses e franceses, não. Liv ficou acordada a madrugada toda e à uma e trinta e cinco hora de Paris ela foi avisada pelo diretor geral que o Projeto Manhattan estava pronto para ser iniciado. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Sex, 31 de Outubro de 2008 12:58 |

