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O Sino De Vento - Capítulo XV Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Terror

Escrito por Aureo_Lima
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Qui, 16 de Outubro de 2008 03:04
_ Caralho, Dio! Que sinistro! - disse Ricardo, após ouvir atentamente de Dionísio, as atitudes estranhas e violentas de Mirela - e isso tudo começou quando?
_ Faz uns quatro dias - respondeu um abatido Dionísio - foi desde que voltamos da 25 de Março. Fomos lá comprar uns presentes pro pessoal.
_ Caramba, é mesmo. O natal já é depois de amanhã - lembrou Ricardo. E se lembrou também de que ele ainda não havia comprado um presente sequer - Ela anda tomando alguma coisa?
_ Drogas?
_ Qualquer coisa, véio. Drogas, antidepressivos, chá de lirio, cheirando meia, comendo samambaia, sei lá...

Dionísio franziu a testa por um momento. Desde que se casaram, ele praticamente nunca viu Mirela tomando qualquer tipo de remédio por conta própria, exceto aspirina.

_ Ela é fã de aspirinas mas, mesmo assim, nada assustador. Fora isso, só toma remédios receitados e à contra gosto.
_ Isso é bom. Quer dizer, é ruim - atrapalhou-se Ricardo - é ruim porque não dá pra saber o motivo dos ataques dela.
_ Entendi - disse Dionísio, suspirando desanimadamente - fiquei pensando se...

De repente, a porta da sala se abre e um barulho - um misto de chuva forte, trovões e sino de vento - invade toda a casa. Dionísio se assusta com o volume do som, enquanto uma linda morena entra na sala, fechando um guarda chuva todo molhado.

_ E aí, Marlene? Encontrou? - perguntou Ricardo para a mulher.
_ Sim. Estavam mesmo no balcão da padaria - Marlene respondeu com um lindo sorriso, ao ver que Ricardo não estava só.
_ Ó, este é meu irmão Dionísio. Dio, esta é Marlene, minha nova empregada.

Marlene e Dionísio cuprimentaram-se e ela deixou a sala, após deixar um molho de chaves na mesa da sala. Ricardo pegou as chaves e enfiou-as no bolso da calça.

_ Eu esqueci essas merdas de chaves na padóca. Coitada da Marlene. Pegou o maior toró por causa disso - resmungou Ricardo.

Dionísio mal prestou atenção no que Ricardo dizia. Ele passava os olhos por cada parede da casa, até fixá-los em um sino de vento acima da porta de entrada.

_ A vedação acústica que você instalou funciona mesmo, hein? - ele disse, passando os dedos pela parede.
_ Pois é, mano! Cê viu que coisa? O som de dentro não sai, e o de fora também não entra. Por isso que você ouviu o barulhão de fora quando a Marlene entrou. Não usei o material ideal porque custa os olhos da cara. Mas dá pra quebrar o galho.
_ Ô se dá! - respondeu Dionísio, batendo de leve na perede e colocando os ouvidos nela, tentando ouvir algum som atípico - quer dizer que essa merda aqui vai mesmo virar um estúdio de gravação?
_ Vixe! Tá quase! Falta trazer um piano velho e uma bateria que tão lá na minha escola. E remanejar os móveis da sala toda também.
_ Se precisar de ajuda, véio, bate lá em casa - disse Dionísio, com um sorriso.
_ Ôpa! Valeu!

Dionísio voltou os olhos para o sino de vento de Ricardo. Não era como o de Mirela. No lugar dos pequenos carrilhões de metal, este tinha algo que Dionísio não sabia o nome. Eram como fatias de pedra de um azul bem escuro no centro e que iam mudando de cor à medida que o raio se abria até ficarem com um marrom dourado perto das bordas. Dionísio já vira esse tipo de pedra em vários lugares. Como não queria perder tempo com isso, concluiu que era uma espécie de quartzo diferente, e pronto.

_ E esse sino de vento? - perguntou Dionísio.
_ Isso aí? Que que tem? É coisa da Marlene. Ela veio com uns papos de que isso "dá boas vindas pra quem tá chegando". Mas eu acho que serve mais pra dar um "chute na bunda de quem tá indo embora". Hehe.

Dionísio riu e abriu a porta. Ela bateu no medalhão do sino de vento que tocou quatro notas sem ritmo e sem ordem. O som era agradável. Mais até do que daquele que estava em sua casa. Enquanto o sino de vento de Mirela tinha um som metálico suave, mas muito claro, o de Ricardo tinha um som mais grave e mais profundo, o que, para Dionísio era muito mais agradável.

_ Cê bem que podia dar um pulo lá em casa pra ver a Mirela. Você não é psicólogo, eu sei. Mas tem mais jeito do que eu para analisar uma pessoa.
_ Agora? - perguntou Ricardo, franzindo a testa.
_ Ôpa! Se der, por quê não? - respondeu um Dionísio visivelmente esperançoso.
_ Mas tá chovendo! Eu queria levar o violão pra cantar alguma coisa com a Mirela. Você sabe que sua mulher canta pra caramba, né?

Ricardo elogiava a voz de Mirela desde que ela e Dionísio apenas namoravam. A primeira vez que ele a ouviu cantar foi num acampamento numa praia do litoral paulista. Dionísio, Mirela, Ricardo com seu violão e, na época, sua mais nova namorada, estavam ao redor de uma fogueira. Ricardo insistira para que Mirela cantasse e ela cantou uma música da Elis Regina. Ricardo adorou o tom de voz dela, que desafinara pouquíssimo para uma amadora.

_ Sei. Mas o propósito não é esse, Ricardo. Vamos lá! Ela gosta tanto de você. Vai fazer bem a ela.

Ricardo pensou um pouco e, visto que estava à toa em plena tarde de sábado, decidiu ir.

_ Vambora, Dio!

Ricardo checou o volume das chaves no bolso, virou-se em direção à cozinha e gritou:

_ Marlene, fui!

Antes de abrir a porta da sala, Ricardo pode ouvir um distante "pra onde?" mas não se preocupou em responder. A tempestade de verão tinha melhorado muito durante a visita de Dionísio a seu irmão, mas a chuva ainda estava forte. Dionísio olhou para a garagem, depois para Ricardo e sugeriu:

_ Vamos no "meu" Pointer?
_ "Seu", o caralho. Se ele tá lindão assim, é por causa do esforço do papai aqui!
_ Tudo bem, mas deixa eu dirigir? - perguntou Dionísio, puxando a manga da camisa de Ricardo.
_ Tá bom! Tá bom!

Três minutos depois, o Passat Pointer saía da garagem violentamente, dando uma pequena cantada nos pneus. O antigo toca-fitas do carro urrava "Fight Fire With Fire", do "Metallica".

(continua...)



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O Sino De Vento - Capítulo XV
Qui, 16 de Outubro de 2008

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Última atualização em Ter, 21 de Outubro de 2008 06:29
 
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