| ESA #30 - O encontro secreto de Sofia |
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| Livros - Romance |
Escrito por josweetty |
Qui, 16 de Outubro de 2008 19:34 |
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- Erick! – Márcio berrou, sentado em seu escritório como um rei lendo o jornal naquele domingo de tarde. – Erick!
Soltou o jornal em cima da mesa de madeira escura, suspirando impaciente. Ficou de pé e puxou as calças marrom de elástico. Andou de chinelos até a porta do escritório: - Erick! Erick! – berrou com toda a força que tinha em seus pulmões. - Erick! – Sueli gritou no andar de cima da casa. – Seu pai está te chamando! E pouco depois Erick apareceu nas escadas, de calça jeans e moletom cinza. Márcio entrou no escritório de novo e sentou-se na sua cadeira, pegando o jornal enquanto esperou que seu filho passasse pela porta. Eles se encararam de forma incômoda. De certa forma Márcio sentia-se incomodado com a presença de Erick naquela casa, era uma espécie de lembrança em tempo real do quão péssimo pai era! Bastava olhar para Erick que qualquer pai teria certeza de que ele não era um adolescente feliz. - Feche a porta, por favor. – anunciou e depois baixou os olhos para o caderno de economia. Erick obedeceu em silêncio. - Venha até aqui e ligue para Gregory. – apontou com o dedo o telefone cinza. Voz autoritária. – Agora. - Ah. – droga, era pra isso que ele tinha sido chamado? - Vamos Erick, ou vai querer que eu disque para você? - Eu não tenho nada para falar com ele. - Tudo bem, então só escute. – Márcio sem nenhuma paciência e com um mau-humor dominical de praxe, soltou o jornal e retirou o aparelho do gancho. Apertou o viva-voz e discou de cabeça o número do celular de Gregory. Erick o encarou com um ar incrédulo, resignado, a boca entreaberta segurando um palavrão. Márcio percebeu, mas como um bom pai, ignorou. Não ia mais adiar essa conversa. Tocou apenas duas vezes, e a voz rouca de Gregory soou do outro lado da linha: - Alô? – silêncio, porque Erick não respondeu. – Alô? Alô? Márcio curvou a sobrancelha e bateu a mão direita no ar, apontando o telefone, com um olhar duro e mandão para Erick que se aproximou do aparelho, após um suspiro. - Alô. – falou sem vontade, contrariado. Márcio deu-se por satisfeito e esticou o jornal, fingindo que prestava atenção na leitura, com os dois ouvidos bem grudados no aparelho telefônico. - Erick? É mesmo você? – Gregory soou surpreso. – Márcio te amarrou numa bomba relógio e ameaçou te explodir caso você não ligasse pra mim? - É, mais ou menos... – Erick não queria que Márcio escutasse a conversa, mas Márcio não arredou o pé dali. – O que você quer? - Saber se estão te alimentando bem no seu cativeiro. - Disso não posso reclamar... - Você não pode reclamar de muita coisa! – Gregory riu, de forma divertida. Era um irônico por natureza. – O clima aí é mais agradável, as pessoas são mais agradáveis e tenho certeza que a escola vale à pena! - Eu odeio a escola. – Erick fitou Márcio, que de forma desinteressada, virou a página do jornal, concentrado na leitura. - Tenho certeza que você odeia mais aquele colégio anterior! - Acho que odeio de forma igual. – Erick estava sem a menor paciência e nada a vontade naquela conversa. Não tinha nada para falar com Gregory, não queria falar com Gregory e muito menos falar com Gregory enquanto Márcio estivesse ali, parecia que não tinha privacidade. – O que mais você quer saber? - Erick, por que tanta agressividade? - Vai dizer que você não sabe? - Eu tenho uma boa notícia para você, vamos passar as férias juntos! - Eu não quero ir pra Brasília. - Tudo bem eu te levo pra Disney. – debochou. – O que está achando da sua nova família? Márcio teve que segurar a risada ao mesmo tempo em que o tom de deboche de Gregory o chateou, porque Gregory falou da mesma forma blasé que Erick falava e isso atestava como os dois eram mais pai e filho do que ele próprio. - Que parte do “eu não quero” tá difícil pra você entender, hein?– Erick chateou-se. Um tom de tristeza contaminou sua voz. Que merda, Gregory, quatro meses depois... Gregory reconheceu aquele tom e sentiu uma pequena pontada de dor no peito, um apertar na sua garganta. Aquilo queria dizer que Erick estava chateado com ele. Em sua agressividade ocultava toda essa tristeza. O que esperava? No lugar de Erick estaria chateado também, eles passavam juntos o Dia dos Pais! Isso devia significar algo antes de enviá-lo para a casa do pai biológico, não? - Está tudo bem, podemos ir para onde você quiser. Não importa, não vou perder tempo discutindo isso agora. Está tudo bem? Tem dormido direito? Está estudando? Precisa de alguma coisa? Está divertido por aí? – a chuva de perguntas era para evitar a estranheza entre eles. - É. - Ótimo. – Gregory fingiu que estava satisfeito com aquela conversa de meias palavras. – Eu tenho uma reunião em breve e preciso acertar uma papelada. Nos falamos durante a semana, tudo bem. - Tá... – não, nada bem. - Tchau. – E com isso Gregory desligou o telefone, que ficou apitando a linha interrompida. Márcio ergueu a cabeça do jornal e constatou que Erick já não estava mais ali e que a porta do escritório estava aberta. Suspirou. Erick entrou em seu quarto como um furacão. Abriu a porta do seu armário e de lá retirou uma garrafa de vodka que já estava pela metade. Seus olhos ardiam querendo chorar, seu nariz também. Respirou fundo e andou rapidamente até a varanda do quarto. O vento gelado invadiu o quarto e Erick jogou a garrafa pela janela. A garrafa estourou aos pés de André, que saia de casa com a bola de basquete debaixo do braço, pronto para jogar no jardim. - Mas que porra é essa? – parou estático. Olhou pra cima e viu uma segunda garrafa ser atirada. Deu alguns passos pra frente e encarou Erick que se preparava pra jogar a terceira garrafa que tinha em seu quarto. – Erick o que você tá fazendo, seu maluco? Erick falseou com a última garrafa na mão. Não tinha visto André. Os dois se encararam um tempo em silêncio e Erick jogou a terceira garrafa pela janela, que quebrou perto de André. - Que... – André se irritou e não contou duas vezes antes de largar sua bola e correr para dentro de casa. Subiu as escadas de dois em dois degraus o mais rápido que podia e entrou chutando a porta do quarto do irmão, indo direto para a varanda segurar a quarta garrafa que Erick já se preparava para jogar. Puxou a garrafa das mãos de Erick. - Que porra, Erick! O que foi que te deu? - Eu estou limpando meu armário de uma vez por todas! – Erick virou para ele, com um olhar de surpresa, gritando. - Quase me matou! – gritou de volta. Havia algo de errado com Erick e isso era fato! - Ninguém mandou estar no lugar errado! - Isso é desperdício! - Para com isso, André. Preciso jogar isso fora. - Não vai jogar mais nada fora!! – André respondeu irritado. - São minhas eu faço com elas o que eu quiser! - Você pirou, isso sim! – André andou até o armário aberto de Erick onde havia uma caixa de papelão de um supermercado cheio de garrafas de bebidas. Só havia uma de vodka, que resistia viva em sua mão, o restante era de vinho. – Porra, joga justo as melhores fora... O que te deu? - Nada, só não quero mais isso no meu quarto, nunca mais. - Ótimo, vão todas pro meu quarto. - Tá, faz o que você quiser. – Erick sentou-se na cama e calçou o all-star. Pegou a mochila. – Eu vou sair. - Onde você vai? - Sei lá, qualquer lugar pra longe daqui e de você. – e dito isso, saiu de seu quarto. - Ô Erick, peraí! – André segurou o irmão. – Vamos chamar as garotas, beber alguma coisa, ai você relaxa. - Não quero beber nada! – soltou-se de André com violência e desceu as escadas. - O que é que você tem? – André ainda tentou saber do outro lado, mas Erick já batia a porta de casa. André suspirou. Erick estava pirando, só podia. Pegou a caixa de papelão e levou pro seu armário. Em pé na porta do cinema, Renato esperava por Sofia. O tempo todo ele tirava o telefone celular retangular, fino e vermelho do bolso de sua calça jeans cinza e ficava olhando as horas. Minuto por minuto. Ajeitou o casaco de poliéster verde escuro que usava, fechando o zíper. Aquela tarde estava verdadeiramente fria. Seus pensamentos passeavam entre o fato de que deveria estar estudando para as provas que iniciavam durante a semana e entre o fato de que não agüentava mais esperar. Pela oitava vez no mesmo minuto tirou o celular do bolso, odiando-se por estar tão ansioso. Era patético como ele estava de pernas bambas por Sofia. Até então poderia jurar que Joyce era a musa de sua vida, mas tudo mudara de repente... ou não tão de repente assim. Renato sabia que o seu interesse por Sofia não era coisa repentina, foi um sentimento que foi crescendo aos poucos, conforme eles se aproximavam como amigos... uma amizade que cresceu bonita e floresceu com amor. Sofia era incrível. Era uma garota doce, de bom coração, de valores justos, talentosa e suave. Tudo em Sofia era suave, por mais que ela posasse de revolucionária agora com seus cabelos tingidos e suas roupas extravagantes: Sofia era suave como água adocicada. Seu beijo era suave... e ele se sentia uma abelha viciada nesse mel. Tudo o que fazia era pensar em Sofia. Às vezes durante o treino de basquete se desconcentrava, porque pensava em Sofia! A garota permeava seus pensamentos o tempo todo. Sofia, Sofia, Sofia, Sofia! Era apenas isso que alimentava Renato, que sentia as mãos transpirarem e seu corpo inteiro tremia de emoção. Mal podia esperar a hora que Sofia chegasse! Já tinha tudo em mente, planejado: iriam assistir um romântico filme de mãos dadas, Renato pagaria a pipoca e a água, quando a cena do auge romântico fosse para a tela e os mocinhos prepararem-se para um beijo cinematográfico ele repetiria o feito com Sofia, inspirando-a. Seria um beijo romântico com o qual eles selariam para sempre o sentimento que possuíam! Quem sabe depois disso tudo Sofia sentir-se-ia segura para assumir seus sentimentos na frente de todo mundo? Renato ficou mais meia hora em pé, sonhando acordado. Pensava e arquitetava cada segundo daquela noite. Tudo teria que ser perfeito, para que Sofia não hesitasse, para que ele pudesse dizer tudo o que realmente sentia. Olhou mais uma vez no relógio já impaciente. Devia ligar? Talvez Sofia estivesse atrasada... provavelmente perdera bastante tempo se arrumando e estava atrasada! Que martírio. Que sacrifício! Ficar ali naquele momento de espera fazia com que Renato morresse um pouco a cada segundo. Sua ansiedade incontida parecia gritar dentro de seu peito. E Sofia ainda não chegara... Sofia atravessou o parque de salto Chanel, shorts amarelo ouro, meia calça preta e um casaquinho preto por cima de uma blusa de gola alta branca. Os cabelos cor-de-rosa escondidos dentro de um chapéu Fedora preto. Andou até o Ipê branco e parou chutando o all-star de Erick: - O que é que você tem? – ele estava com a cabeça enfiada no joelho. Erick não respondeu. Sofia suspirou, ajeitou a bolsa-saco amarela que trazia no ombro e sem muita polidez, sentou do lado de Erick, levou a mão até os cabelos castanhos do ex-namorado. – Você me assustou, o que aconteceu? – nenhuma resposta. – Erick, se você me chamou aqui pra ficar calado eu vou indo... – Sofia olhou no relógio. Droga, estava mais de hora atrasada para encontrar-se com Renato. O problema era que não conseguia se mexer e quando Erick ligou, não conseguiu ignorar. Correu até ele. - Márcio me fez ligar pra Gregory. – falou por dentro dos joelhos. - E precisava me chamar aqui? - Eu não consigo falar com ninguém Sofia. – ergueu a cabeça. - Certo... – Sofia suspirou, percebia que Erick via nela uma amiga, mas como doía saber disso dessa forma tão sincera. - Onde você tá indo toda arrumadinha? - Sair. Tenho um encontro logo mais no shopping. – E fez que nem Cecília empinando o nariz, mas logo depois perdeu a pose. – Tá tudo bem? - Não, não tá. De que importa? - De nada, eu acho. A conversa foi boa? - Não... - O que teve de tão ruim? - Não muito também... - Então qual foi o problema? – Sofia não entendeu. – Se foi neutro você não devia estar ao menos contente? - Sinto como se estivesse enganando todo mundo. – Erick confessou e a encarou – Ou pior, decepcionando todo mundo. - Se você contasse a verdade logo de uma vez, seria mais fácil. Foi fácil pra mim... - Por que você é doidinha mesmo, não posso sair por aí dizendo pra todo mundo essas coisas... - Sei. Você tá assim por causa a Joyce. - É. - Ela faz tudo pra você se sentir bem e você, otário como é, não consegue retribuir... e tem a sensação de fracasso. - Mas como é que você sabe? - Eu também tenho me sentindo assim ultimamente... e o mais engraçado é que estou puta com você e com a Joyce, não agüento nem olhar na cara dela. E to aqui, consolando você. - No fundo você é a perfeitinha, o que posso fazer? – deu de ombros. - Por que você não diz pra Joyce a verdade? - Não consigo. - Tá com medo dela não gostar mais de você? - É... - Comigo você não teve esse medo. - É. Não tive. - Isso quer dizer que você realmente gosta dela. – Erick ficou em silêncio. – E que não gostava assim tanto de mim... tem um ar romântico nisso tudo. - Ainda não cansou de me torturar com essa história? Eu sei que errei contigo Sofia, não precisa ficar jogando na cara toda vez que a gente se fala. - Eu já deixei isso pra trás. Mas tenho que admitir que sinto assim um grande alívio quando você diz que tem algo de errado entre você e a Joyce. - É, valeu. Eu nasci já errado mesmo... - A Cecília tem um apelido novo pra você! - Ai, nem quero saber... - Sabe aquele desenho da Disney que são dois cachorrinhos? A Dama e o Vagabundo. - É, sou mesmo um vagabundo... – enterrou a cabeça nos joelhos de novo. - Você tá péssimo, quer tomar um soverte? - Não... - Quer água? - Não. - Quer um beijo? – debochou. - Não de você. - Engraçadinho! – Sofia riu e ficou em pé. – Quer um conselho? – Erick ficou em silêncio. – Conta logo a verdade pra Joyce, ou simplesmente desiste dela, Erick. Vocês não tem nada a ver e mais cedo ou mais tarde isso vai ser um problema pra vocês. Tchau, Erick. Preciso ir, tem alguém me esperando. - Tchau, bom encontro secreto. - Obrigada. Sofia virou as costas e saiu. Cansou de perder tempo com Erick e estava atrasada para encontrar Renato. Enquanto caminhava para fora do parque Sofia sentiu-se livre. Respirou fundo aspirando o perfume daquele domingo de chuva. Estava livre de Erick e de todos os seus problemas. Erick agora era problema de Joyce... e ela podia confiar que Joyce cuidaria bem de Erick, muito melhor do que ela cuidaria, certamente. Sofia estava livre. Livre para se preocupar com ela mesma... e com Renato... que já devia estar cansado de esperá-la! Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Ter, 21 de Outubro de 2008 08:41 |

