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O Sino De Vento - Capítulo XVIII Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Terror

Escrito por Aureo_Lima
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Sex, 17 de Outubro de 2008 05:20
Mirela estava totalmente molhada. Um trovão ribombou no céu escuro, fazendo-a olhar para cima. A forte chuva caía em seu rosto. Os pesados pingos estouravam em sua testa, olhos e lábios. Mirela sentia um grande prazer nisso. Eram como uma terapêutica massagem em seu corpo. Principalmente em sua cabeça, que não doía, mas pulsava como se seu cérebro tivesse se transformado em um coração agitado. Seus cabelos ruivos estavam grudados em seu corpo assim como sua roupa. De repente, Mirela se lembrou de que sua calcinha, a única peça que estava usando havia se rasgado no banheiro de sua casa. Olhou apavorada para seu corpo e descobriu de que não estava nua. Usava uma camiseta preta e uma mini saia jeans. Estava vestida, afinal. Encharcada, mas vestida. E descalça. Viu seus pequenos pés se afogando numa poça d'água de uma calçada esburacada.

Mirela olhou para os lados. A forte chuva deixava tudo embaçado e fora de foco. Os carros passavam no asfalto, à sua frente. As rodas deixando um rastro de água pulverizada. Mirela fechou os olhos e respirou fundo. O ar úmido e fresco invadiu seus pulmões. Um senhor passou ao seu lado, de guarda-chuva colado ao corpo. Olhou para ela com um ar desconfiado e seguiu seu caminho. Mirela jogou os cabelos para trás e torceu-os, inutilmente. O simples movimento com os dedos a fez gemer de dor. Ela olhou suas mãos e viu os nós de seus dedos roxos, inchados e esfolados. Fez um esforço para tentar se lembrar do que aconteceu desde que se trancara no banheiro, após ter gritado com Dionísio. Não se lembrava de nada. Sentia como se em sua memória, houvesse um razoável espaço em branco com um aviso "SEM REGISTRO" piscando no lugar de suas lembranças. Não conseguia se lembrar de ter vestido sua camisola e ido até a sala, à procura de Dionísio. Não se lembrava de ter ouvido o sino de vento tocar sem, no entanto, haver vento algum. Não se lembrava de ter visto o sino de vento tocar não uma, mas várias vezes. Não se lembrava de ter lutado contra a melodia sinistra que a açoitara com pensamentos ruins sobre seu marido e sobre o fulminante acidente de sua pequena família. Não se lembrava de ter esmurrado a parede com as mãos nuas. De ter caído no chão, esgotada. De ter se levantado e ido até seu quarto, aos tropeções. De ter ido até o armário e vestido sua roupa atual. De ter saído de casa descalça, sob uma forte chuva de verão. Por fim, não se lembrava de que andara quase um quilômetro a esmo, pelas ruas do bairro de Santa Mônica, algumas vezes dando várias voltas num mesmo quarteirão. Mirela sentiu uma leve dor de cabeça e percebeu que não adiantaria forçar a barra. Sentiu que seu corpo estava esgotado e uma imensa solidão invadiu sua alma. Abraçou-se instintivamente, olhou para trás e reconheceu o velho toldo da falida vídeo locadora "Louca Dora". Ela e Dionísio costumavam alugar filmes ali, dois anos atrás. Essa visão lhe agradou um pouco. "Ao menos, não estou perdida" - pensou. Entrou debaixo do toldo e, começando a ficar com frio, encolheu-se num canto. Pensou no quanto queria estar nos braços de Dionísio naquele momento e chorou baixinho.

(continua...)



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O Sino De Vento - Capítulo XVIII
Sex, 17 de Outubro de 2008

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Última atualização em Ter, 21 de Outubro de 2008 09:06
 
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