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O Sino De Vento - Capítulo XX Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Terror

Escrito por Aureo_Lima
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Sex, 17 de Outubro de 2008 05:25
Ricardo coçou a cabeça, intrigado, enquanto estudava o medalhão de madeira do sino de vento. Intrigado e assustado também. Sentiu um calafrio e seu corpo se estremeceu todo. Mesmo assim, continuou olhando a imagem de Mirela pintada dentro da pequenina casa, no medalhão. "Será possível?" - ele resmungou. Ele desviou o olhar para o lado e ficou um tempo assim, como quem está tentando se lembrar de algo. Sabia que Dionísio tinha montado um escritório, num dos quartos, mas não sabia se encontraria lá o que precisava. Levantou-se e percorreu o corredor que dá acesso aos quartos.

A casa tinha três quartos, um ao lado do outro. Os dois do fundo do corredor, eram quartos realmente. Um deles - o mais próximo do banheiro - era o de Mirela e Dionísio. O segundo era para algum hóspede eventual, ou para um ainda-não-planejado filho. Ricardo espiou os dois e entrou no terceiro quarto. Este sim, era o escritório do casal.

O escritório era mais um "quarto da bagunça". Havia de tudo um pouco. Pilhas de revistas, uma bicicleta, quadros, uma velha estante cheia de objetos velhos e empoeirados. Coisas compradas por impulso e esquecidas, idéias frustradas, planos iniciados, protelados e esquecidos. Num dos cantos, uma pilha de caixas de azulejos - sem uso - que Dionísio e Mirela compraram há quase dez anos atrás, no intuito de reformar o banheiro. Prioridades foram atropelando a tal reforma de modo que, sem perceberem, os azulejos foram servindo de apoio para mais traquitanas.

Ricardo olhou o quarto com um ar espantado. Ficou pensando como alguém conseguiria encontrar algo no meio daquilo tudo. Ele, porém, precisaria encontrar. Ricardo avistou, perto da janela, uma escrivaninha cheia de papéis. Foi até lá, sentou-se numa velha cadeira giratória e vislumbrou o caos de papéis sobre a mesa. Levantou alguns papéis aqui e ali. Abriu uma das gavetas da escrivaninha. Revirou um pouco e fechou, sem encontrar o que procurava. Abriu a gaveta seguinte. Nada. A terceira e última, Ricardo também abriu, já meio desanimado. Revirou-a também e não encontrou o que procurava. Fechou a gaveta e ficou olhando ao redor. Tinha esperança de que pudesse encontrar ali o que procurava mas, apesar da esperança, sabia o quanto seria difícil encontrar uma lupa. "Também, quem, exceto um colecionador de selos, teria uma lupa em casa?" - perguntou-se Ricardo. Nem Dionísio, tampouco Mirela, colecionavam selos. Disso ele tinha certeza.

Emburrado, Ricardo levantou-se da cadeira e passou pela estante atulhada de traquitanas, a caminho da porta. Olhou de relance uma pilha amarelada de gibis da Turma da Mônica e notou, atrás dela, uma caixa de sapatos com a metade de uma régua transparente apontando para fora. Ele pegou a caixa e espiou seu interior. Abriu um sorriso ao ver que a caixa continha coisas de seu tempo - e de Dionísio e Mirela também - de escola primária. Pequenos pedaços de uma época escondiam-se ali: Um velho estojo de madeira, sem a tampa; uma borracha branca com a antiga marca das duas bandeiras cruzadas; uma caixa das famosas e desejadas canetinhas - provavelmente, todas já secas - Sylvapen; uma bonequinha que se agarrava em qualquer lugar. "Fofolete?" - Ricardo não tinha certeza do nome dela. Enfim, raridades do tempo de "mil-novescentos-e-guaraná-com-rolha", como diria um amigo seu. Ricardo puxou a régua que tinha visto desde que a caixa estava escondida na estante e então ficou realmente satisfeito. Na ponta escondida da régua havia uma lente de aumento feita do próprio plástico da régua. Ricardo lembrou-se de sua própria régua e de quantas formigas havia "torrado" com aquela "lupa de criança", nos dias de sol forte. Deu uma boa olhada na lente. Ela não tinha quase nenhum risco. Deixou a caixa sobre a estante, sem se preocupar em devolvê-la para detrás da pilha de gibis. E deixou o escritório com a régua nas mãos.

Ricardo sentou-se à mesa da sala de jantar novamente e voltou sua atenção para o medalhão do sino de vento. Pegou a régua e estudou o medalhão, desta vez utilizando a pequena lupa de plástico. Ele viu a porta da casa pintada. Com a lupa, Ricardo pôde ver que o desenho era apenas umas três pinceladas de um pequeno e fino pincel e não havia como ser de outra forma, devido à limitação da "tela" que era o medalhão. Aliás, todos os detalhes não passavam de simples pinceladas feitas com cuidado e segurança. Exceto o que havia dentro da janela da casinha amarela. A imagem de uma mulher de cabelos vermelhos. Ricardo estremeceu novamente e seus olhos lacrimejaram. Piscou fortemente e voltou a olhar através da lupa. Era Mirela. Os cabelos ruivos, a pele bem clara, o mesmo formato do rosto. Sua mão esquerda segurava o batente inferior da janela e Ricardo pôde ver a aliança em seu dedo anelar. "Isso é impossível" - ele cochicou para si mesmo. De fato, a riqueza de detalhes na figura de Mirela era fora do comum. A comparação mais próxima - e por mais intrigante que possa parecer - seria uma foto colorida. Mas não era uma foto. Ricardo podia ver os minúsculos sulcos na tinta, deixados pelos fios de um pincel absurdamente fino. Ela vestia o que parecia ser uma camisola azul clara. A visão de Ricardo embaçou. Uma lágrima pingou na lupa e ele deixou escapar um palavrão - "merda!". Então largou tudo e enxugou as lágrimas com a manga da camiseta.

Ricardo nunca teve medo de nada. Nada que se lembrasse. Ouvia e lia histórias sobrenaturais ou sem explicação e não tinha medo. Pelo contrário, ficava curioso e sentia uma certa inveja de quem possuía o dom de ver e sentir "certas coisas". Mas havia um problema. Ao ouvir tais histórias, seus olhos lacrimejavam na mesma hora. Não sabia como, nem por quê. Acontecia, sem que ele pudesse ter qualquer controle sobre isso. Chorou quando ouviu e viu a bizarra sincronia entre o filme "O Mágico de Oz" e o disco "The Dark Side of The Moon", do "Pink Floyd". Chorou quando viu o estranho vulto na capa de um disco do "Black Sabbath" e também quando viu o "garoto atrás da cortina" no filme "Três Solteirões e Um Bebê", mesmo sabendo que tudo podia não passar de uma estratégia de marketing. Não tinha como evitar. Já fora motivo de gozação no colégio por causa das lágrimas involuntárias, mas o falatório acabou, após distribuir alguns tabefes. E agora isso. Ricardo não quis mais olhar para o medalhão. Sabia - não tinha idéia de como, mas sabia - que, se insistisse, veria ainda mais detalhes de Mirela por trás da pequena janela: a pupila castanha de seus olhos, a pequena pinta em seu queixo, até mesmo um ou dois fios de cabelos brancos.

Ele pegou o sino de vento pelo fio central e levantou-o. A melodia de agora três notas ecoou pela sala. Ricardo percebeu que a falta do carrilhão que ele retirou deixou a estrutura um pouco pensa, mas não muito. Pensou no que significava aquilo tudo. A imagem de Mirela gravada no objeto, o detalhe que o fez retirar um dos bastões de metal, os violentos rompantes de Mirela, depois que comprou o objeto. Ricardo daria um fim "naquela bosta" de sino naquele mesmo instante, apenas por precaução, se ele pudesse decidir. Parecia que havia algo sobrenatural, místico, maldito ou algo assim naquele objeto. No entanto ele não era nenhum perito no assunto. E fazer Dionísio e Mirela - ainda mais a cética Mirela - acreditarem nisso, seria uma tarefa quase impossível. Se tocasse no assunto com os dois, ele seria alvo de meses de chacota.

Ricardo suspirou fundo. Pegou o carrilhão que foi separado de seus irmãos e colocou-o no bolso da calça. Subiu numa das cadeiras e começou a encaixar o fio do sino de vento no gancho do teto novamente, quando escutou o motor do Passat parando em frente da casa.

(continua...)



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Sex, 17 de Outubro de 2008

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Última atualização em Ter, 21 de Outubro de 2008 09:07
 
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