| Lágrimas de Prata - Hime |
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| Literatura - Contos - Policial |
Escrito por Brunno |
Qui, 23 de Outubro de 2008 17:52 |
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Saito Nizui acordou de um sobressalto pensando em Shirori. Gritou seu nome ao tirar o rosto da relva gelada e branca que cobria o campo. Recompôs-se e olhou a estrada. Continuou caminhando e pensou em chegar logo ao antigo vilarejo de onde saíra há anos.
Como seria bom ver Shirori correndo de braços abertos em sua direção. Mas estava morta, ele sabia. Não havia mais com o que fantasiar. A vida seria vazia e gasta em saquê e noite e mais noites de choro e lamentação. Era madrugada quando o soldado japonês apertou a marcha no clima gélido. Em Paris a bela morena estava sentada em sua cadeira atrás da escrivaninha grande de sua sala aguardando notícias. Não tinha a exata hora do término da operação, mas seriam avisados assim que alguma coisa acontecesse. Na mesma situação estavam os ingleses em Londres, os americanos em Washington, os russos em Moscou e quem mais soubesse sobre Manhattan. Se é que realmente sabiam o que era aquilo. O diretor geral do SDECE entrou na sala acompanhado de uma comissão de notáveis cientistas chamados às pressas para orientar o Serviço nas questões relativas ao resultado da missão americana. Nem mesmo aqueles notáveis tinham idéia do que aconteceria. Em Oak Ridge o doutor Robert Oppenheimer sentou numa poltrona de sua sala, sob uma luz amarela muito fraca e ficou olhando a garoa fina bater na janela. Virou a cabeça para direita e viu o quadro que guardava a imagem da estrela de seis pontas, o símbolo do Rei Davi, dado depois ao filho Salomão. Era por suas mãos que justiça seria feita. Ou acreditava nisso ou cometeria suicídio. Enquanto todos estavam aguardando sentados em salas confortáveis ou nem tanto, Demot e Gascoin sacolejavam dentro do caminhão que já cruzava a tríplice fronteira da Suíça, Alemanha e França. Foram parados por uma milícia francesa e mandados descer. __De onde vocês estão vindo? – perguntou um sargento francês, bravo. O motorista do caminhão explicou com sono e de saco cheio que vinha trazendo uma carga de farinha e dois dos soldados deles, então que parassem de irritá-lo porque queria chegar logo a Paris. __Quais soldados nossos? – quis saber o sargento. Demot e Gascoin desceram da parte de trás do caminhão e fitaram os oficiais e soldados franceses. Eram oito homens ao todo e os dois estavam com uniformes ingleses, portando armas inglesas e falavam inglês muito bem. __Vocês ouviram as novas ordens de Paris... – comentavam em voz baixa os oficiais-... Podem ser os tais espiões que o novo escritório nos disse para termos cuidado. Disseram que era prática de guerra os infiltrados se vestirem com outros uniformes e falarem muito bem a nossa língua. Um dos homens virou para os franceses e mandou que deixassem as armas no chão, não sem tirar de cima deles a mira de sua carabina velha e enferrujada. Gascoin disse calmamente que estavam lutando com os ingleses em Berlim e haviam sido enviados de volta pra casa. __Viu como eles falam bem nossa língua? – murmuravam entre si – O que fazemos? Matamos ou prendemos? Um dos soldados que parecia mais calmo sugeriu que os prendessem e levassem a Paris. Se o novo escritório de informações estava interessado em espiões, eles que dessem um jeito de identificá-los! Gascoin e Demolet receberam ordem de prisão assim que pisaram em solo materno. Demot recuou dois passos ficando ao lado de Gascoin. Olharam-se e pensaram em sacar suas Webleys e acabar logo com aquela palhaçada. __Chega de morta gratuita, Gascoin. Vamos nos entregar e assim que perceberem que não somos espiões, nos deixam livres em Paris. – conjecturou Pierre. Gascoin não estava com a paciência tão afinada como a do colega. Tirou a arma do coldre com dois dedos e foi levando até o sargento armado. Assim que o homem baixou os olhos para a pistola e estendeu a mão, tirando Gascoin da mira de sua arma, o Marqui desarmou o soldado e o derrubou com um chute no tronco. __Agora deixem de besteira! – gritou mantendo a arma apontada para o solo – Nós acabamos de receber baixa de nossa companhia! Não somos porcarias de espiões coisa alguma! Estamos tentando voltar pra casa e vocês estão atrapalhando! – gritava mais ainda. Foi quando um soldado deu a volta por trás do caminhão e abateu Demot com uma pancada de madeira na nuca. Gascoin olhou o amigo cair desacordado e resolveu preservar sua integridade. Porém, assim que soltou a arma os demais soldados envergonhados pela ação rápida do “inimigo” partiram pra cima de Henri e o espancaram até que ele não pudesse reagir. Os dois foram levados em outro caminhão com destino a alguma prisão parisiense. Àquela hora da manhã o coronel da força aérea americana Paul Tibbets olhou pra trás e meneou a cabeça dando a ordem ao capitão da marinha William Parsons. O B-29 Enola Gay, nome da mãe de Tibbets sobrevoavam o sul do Japão ao lado de mais duas aeronaves, o Necessery Evil e o The Great Artist. O Artist tinha função de monitorar toda a missão, o Evil iria filmar e fotografar o resultado e o Enola seria a caixa de Pandora. Parsos saiu do assento em que estava e foi até a barriga da aeronave. Ali se encontrava Little Boy. Sessenta quilos de urânio 235 ativado. Haviam decolado da base aérea de Tinian no Pacífico há pouco menos de seis horas. Em solo japonês o tenente Saito avançava pela estrada e via os primeiros telhados de sua antiga vila. Mais seiscentos metros e veria sua casa novamente, vazia, segundo lhe constava, mas era sua casa. Um jovem operador de radar chamado Tegumi Kawasaki olhou sua tela com estranheza naquela hora. Um ponto discreto indicava uma aproximação de aeronaves na direção de Hiroshima. Ele alertou seu oficial superior, que havia recebido ordens para não levantar vôos na tentativa de interceptar formações pequenas, para economizar combustível dos caças Zero. O capitão disse que devia ser mais uma missão de reconhecimento e mandou que o soldado emitisse um alerta brando para qualquer cidade nas proximidades, dizendo aos moradores que ficassem atentos a aproximação de aviões, mas não devia ser nada grave. Os poderosos Zero ficaram no chão. Na província de Niigata um rádio velho chiava sobre uma mesa estragada e uma toalha encardida. Um adolescente estava escorado na porta, desanimado enquanto seu irmãozinho menor brincava no chão da sala. Era mais uma mensagem para tomar cuidado. Shirori Nizuy não agüentava mais aquelas mensagens para ficar em casa enquanto aviões cruzavam os céus de sua vila. Dezenas de ataques haviam sido feitos no Japão, mas nenhum perto de Niigata, não de uma vila tão pequena. Ela chamou Hirato para dentro e pediu que ele cuidasse do irmão. Ela ajeitou o quimono e olhou o céu pela porta. Estava claro, mesmo depois das chuvas da madrugada, o céu era límpido e começava a ficar azulado. Shirori virou-se para a direção de Hiroshima, há poucos quilômetros dali, para ver se algum avião se aproximava, mas não viu nada. Eram passados quinze minutos das oito horas da manhã. A japonesa apertou mais o quimono e virou-se, então, para a estrada. Um homem cambaleante, coxo de uma perna, vinha pelo cascalho. Vestia uniforme militar e estava de cabeça baixa. O rádio parou de chiar. Os meninos brincavam com alguma coisa. Shirori firmou os olhos no homem que caminhava em direção à sua casa. Notou quando ele hesitou e ficou de costas. O tenente Saito não conseguiria entrar naquela casa, não sem sua amada família. Shirori entristeceu-se porque lembrou de todos os soldados que haviam voltado para as esposas e o dela não. Com um nó na garganta ela fitou novamente aquele homem coxo que agora caminhava novamente e parecia chorar. Seu coração falhou por um segundo. Sentiu um choque correr suas veias gerando frio na coluna e na nuca. O ar sumiu dos pulmões. __Saito... – murmurou, os meninos não ouviram. O soldado estava há menos de duzentos metros da casa. Ajoelhou no chão e levou às mãos ao rosto, não podia ver sequer a fachada do lugar. __Saito! – gritou. O menino mais velho sentiu o mesmo que ela e ergueu-se de um pulo sobre o chão de madeira. O tenente Saito Nizuy continuou olhando as pedras no chão e parou de chorar. Ergueu a cabeça para ver sua Shirori apertada no quimono azul gritando seu nome. __Hime? – “amor”, foi o que seu fôlego conseguiu emitir. __Saito! – gritou a mulher novamente, chorando. O menino veio até a porta. Imediatamente reconheceu o pai, de joelhos, olhando para eles. __Otousan! – Hirato gritou “papai!” Paralisada pela visão que aguardava há anos, Shirori foi ao chão, em prantos. O menino vinha correndo, também chorando, de braços abertos e gritando “papai!”. Um segundo depois de sentir o calor do corpo do filho e estender o olhar para a esposa, o tenente Saito Nizuy foi cegado pelas 13 kilotoneladas de TNT que eclodiram de dentro de Little Boy há seiscentos metros de altura sobre a cidade de Hiroshima. Cento e quarenta mil pessoas estavam dizimadas em menos de um segundo, não ouviram sequer o som da explosão. __Oh my God! Look at that! – gritava no rádio o coronel Tibbets já guinando seu avião para voltar a Tinian. __Jesus, receive their souls in Your heart, Lord… - o capitão Parsons fez uma prece olhando o clarão pelo visor do avião. Rapidamente aquilo tomou a forma de um cogumelo e mudou a história do mundo. Os americanos iriam vencer aquela guerra a qualquer custo. A prece do capitão não foi para Deus, mas para aquele a quem ele obedecia, era para aquele homem frio e miseravelmente desprezível que encaminhava as almas de todos aqueles mortos. Os pilotos e o controle não se falaram além do necessário no caminho de volta. Em oito de agosto a URSS declarava guerra ao Japão. No dia seguinte a isso os americanos iriam corroborar um cala-boca mundial iniciando um sentimento de indiferença pela vida humana e total falta de inteligência e cultura, em absoluta e hipócrita ignorância do que é ser um indivíduo nascido no mesmo planeta com variações simples que causam tanta estupidez. Nagasaki foi arrasada pelo gordo trajando azul, vermelho e branco. Fat Man que parecia ser o pai de Little Boy vitimou mais duzentas e vinte mil pessoas. Robert Oppenheimer receberia os cumprimento do presidente, e um alemão, justamente um alemão, que não obstante em sê-lo ainda vinha de descendência judia, lamentava ver parte de seu árduo trabalho transformado num instrumento de carnificina. Em 14 de agosto era a vez do Japão render-se incondicionalmente aos Aliados. No dia sete de setembro de 1945 chegava ao fim a segunda guerra mundial. 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| Última atualização em Sex, 24 de Outubro de 2008 13:16 |

