Parece que você não efetuou o “login”, ou não é registrado. Cadastre-se, é gratuito. CLIQUE AQUI
 
O Sino De Vento - Capítulo XXIV Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Terror

Escrito por Aureo_Lima
(1 voto, média de 5.00 em 5) "Caso queira votar neste texto, clique de uma a cinco estrelas"

Sáb, 25 de Outubro de 2008 13:59
Dionísio já estava no quarto. Terminou de vestir outra bermuda e uma velha camiseta. Sentou-se na cama e, enquanto coçava o cotovelo esquerdo, fitava-se no espelho. Percebeu que já não estava tão abatido como antes. O retorno de Mirela tinha uma boa parcela de culpa nessa recuperação. Mas Dionísio estava cansado. Queria muito ter uma noite de amor com sua mulher porém, se ela preferisse dormir, ele não reclamaria nem um pouco.

Apesar de estar cansado, ele prometeu a si mesmo que essa noite seria de Mirela. Tudo seria do jeito que ela quisesse. Dionísio iria fazer tudo o que fosse possível para que Mirela tivesse uma noite perfeita. Enquanto pensava nessas coisas, Dionísio ouviu o telefone tocando na sala. “Deve ser o Ricardo” – ele pensou. Alguns minutos depois ele reconheceu as badaladas do sino de vento, só que bem mais fortes, desta vez.

Dioníso franziu a testa enquanto ouvia o som vindo da sala. Ele sabia que não havia como o sino de vento tocar, caso ele ainda estivesse no mesmo lugar. Isso significa que alguém subiu até a altura do objeto musical e está tocando-o com força. Apenas Mirela estava em casa além dele. “Será que ela subiu em cima da mesa?” Por um momento a dúvida sobre a saúde mental de Mirela voltou a assombrá-lo. Dionísio passou os dedos entre os cabelos castanhos. Sentiu vontade de arrancá-los. Suspirou desanimado e foi até a sala ver o que estava acontecendo.

Chegando na sala, Dionísio encontrou Mirela sentada no sofá, com a cabeça baixa, chorando. Ele olhou para o sino de vento, pendurado no teto. Estava mudo. O badalo ainda balançava, mas não batia mais nos pequenos carrilhões. “Como ela desceu tão rápido?” - pensou Dionísio. Ele aproximou-se de Mirela. Ela estava com as mãos entrelaçadas na nuca e a cabeça entre os cotovelos. Chorava e fungava. Dionísio podia ouví-la dizendo baixinho, entre soluços: “ele não...por quê?...por que ele fez isso?...ele não podia...não ele...ele não...”

Dionísio não fazia idéia sobre a quem Mirela se referia. Pensou no telefone que havia tocado. Com quem ela teria falado? Com Ricardo? Quem é esse “ele” e o que esse “ele” fez, afinal? Dionísio ajoelhou-se em frente à Mirela. Tocou em seus braços e disse, com toda a calma que pôde:

_ Meu amor...o quê foi? O quê aconteceu?

Mirela parou de chorar por um instante e levantou a cabeça devagar. Olhou nos olhos de Dionísio. Um ódio profundo a invadiu, fazendo ela grunhir como um animal raivoso. Em outra ocasião ela ainda teria como lutar para não ser dominada pela sinistra melodia do sino. Mas a melodia mudou. Antes, havia algo na música de metal que a impedia de ser dominada totalmente. Algo dissonante que agora não existia mais. Mirela estreitou o olhar mas não o tirou dos olhos de Dionísio. Sua respiração ficou forte, o que deixou Dionísio apavorado. De repente, o semblante dela mudou completamente. Era a doce Mirela novamente. Seu olhar agora era de incredulidade. Como o de uma criança que acaba de ser castigada por um pai perverso, sem ter feito nada de errado.

_ Por que você fez isso comigo? Por quê? Por que matou eles? Me responda logo, Dionísio. Pelo amor de Deus! - ela disse, chorando.

Mirela sabia que a qualquer momento, “aquilo” que a possuía iria voltar. Ela sabia também que não poderia mais sequer tentar controlá-lo, o que quer que fosse. Teria que ter as respostas enquanto estava consciente. E teria que ouví-las da boca de Dionísio. Ele, por sua vez, ficou paralizado. Viu nos olhos de Mirela que ela precisava de uma resposta, mas não sabia qual era. Dionísio não tinha a menor idéia do que Mirela estava falando. Ele olhou fundo em seus olhos, procurando uma pista em que pudesse se agarrar, mas só encontrou mais dúvidas. Para ele, a insanidade mental de sua querida esposa ficava mais evidente, por mais triste e dolorida que fosse essa conclusão.

_ O que eu fiz, Mirela? Eu não matei ninguém! Do que você tá falando? - disse um deseperado Dionísio.

Mirela respirou fundo. Lágrimas escorriam de seus olhos até sua boca. Ela livrou-se das mãos de Dionísio com certa brutalidade e segurou os braços dele, assustando-o.

_ Dionísio, eu não sei quanto tempo eu tenho. Minha mãe e meu irmão morreram naquele maldito acidente, você sabe, eu te contei logo quando nos conhecemos.

Dionísio balançou a cabeça, incomodado com as mãos de Mirela segurando-o.

_ Eu sei que você teve algo a ver com isso...eu não sei o quê exatamente - Mirela começou a soluçar. Sua cabeça doía enquanto ela tentava pôr as idéias em ordem. Sua testa estava encharcada de suor - se foi você, eu preciso saber por que você fez isso. Porra! Era minha família! Era tudo o que eu tinha!

Mirela chorou copiosamente. Seu corpo todo tremia. Uma tristeza profunda a invadiu. Ela ainda tentou falar algo, mas não conseguiu. Dionísio chorou também ao ver o desepero de sua mulher. Ele olhava para os lados tentando compreender o que Mirela disse. Ele matou a família dela? Como? Ele nunca fez mal a ninguém. Até queria ter feito, em algumas oportunidades e com algumas pessoas, mas nunca conseguiu. De onde ela tirou isso? Ele não sabia. Queria, do fundo do coração, ter as respostas que Mirela precisava tanto, se isso fosse acalmá-la. Mas não as tinha. Ele segurou o rosto de Mirela e, com toda a sinceridade que podia demonstrar, lhe falou:

_ Mirela, presta atenção. Eu-não-matei-sua-famíllia. Por que eu faria isso? E o que você tá falando não tem cabimento, porque...
_ Mentiroso! - Mirela explodiu, histérica - mentiroso! Não minta pra mim! Eu sei que foi você! “Foi Dio!” Não percebe? Foi você!

Mirela afastou as mãos de Dionísio. Ela abraçou os joelhos e começou a repetir, baixinho: “foi você...foi você...foi você”. Dionísio não sabia o que fazer. Estava atordoado com tudo o que estava acontecendo. Enxugou as lágrimas e ficou ali, ajoelhado e sentindo-se impotente diante do sofrimento da mulher que ama. Foi então que ele percebeu algo que arrepiou-lhe dos pés à cabeça: o sino de vento tocou.

(continua...)



Crie um banner deste artigo em outros sites


Para criar um banner deste artigo em outro site,
copie e cole o texto abaixo em sua página.




Visualizar :

O Sino De Vento - Capítulo XXIV
Sáb, 25 de Outubro de 2008

© 2010 - Autores.com.br


Última atualização em Dom, 26 de Outubro de 2008 15:20
 
Comentários (0)
Somente usuários registrados podem comentar!