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O Sino De Vento - Capítulo XXV Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Terror

Escrito por Aureo_Lima
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Sáb, 25 de Outubro de 2008 14:01
O sino de vento tocou apenas uma vez. E não foi de modo natural, como Dionísio também percebeu. Os três pequenos carrilhões soaram apenas uma única vez cada um. As poucas aulas de música que Dionísio tivera na adolescência não foram suficientes para que ele percebesse o que Ricardo teria reconhecido como um acorde. Um apenas. Dionísio olhou rapidamente para o sino de vento. Tarde demais. O badalo estava incrivelmente imóvel. Ele voltou sua atenção para Mirela e assustou-se quando viu sua mulher pular em cima dele, urrando e babando como um animal. O sino de vento começou a badalar ininterruptamente.

Mirela jogou-se em cima de Dionísio que, por puro reflexo, segurou os braços dela. Ela começou a se debater, tentando livrar-se das mãos de Dionísio. Ele olhou nos olhos dela e nada viu, senão as pupilas dilatadas de um ser fora de controle. Sua Mirela não estava ali. Ela grunhia e se debatia em cima de Dionísio. Uma saliva fria e viscosa pingava de sua boca e caía no rosto de um Dionísio apavorado. Mirela começou a gritar entre engasgos e urros:

_ Miserável! Assassino! Eu vou te matar, filho de uma cadela! Vou te matar como você matou eles, seu merda! Quer morrer? QUER MORRER?

Dionísio percebeu que Mirela estava tão forte como no dia em que ela o jogou longe com uma só mão. Ele segurou os braços dela com força, mas ela começou a se debater e ele viu que não iria aguentar muito tempo. Ela cravou os dentes no braço dele com violência. Uma dor aguda fez Dionísio ranger os dentes. Um fio de sangue começou a escorrer entre seu braço e os dentes de Mirela. Ela mordeu ainda mais forte o seu braço. Apesar dela não ter caninos pontiagudos como um animal, Dionísio sentiu sua carne sendo rasgada a cada sacudida da cabeça de Mirela. Ele balançou o corpo e jogou Mirela com força, fazendo-a cair de lado aos pés do sofá. Dionísio olhou rapidamente para seu braço que agora sangrava bastante. Ao ser jogada longe, Mirela havia levado um pequeno pedaço de sua carne e pele entre os dentes. Dionísio levantou-se. Mirela também. Ele correu em direção ao corredor que leva aos quartos e Mirela correu na direção oposta, para surpresa de Dionísio. O ar surpreso dele desfez-se quando a viu chegar até a mesa de jantar e pegar a grande tesoura.

_ Vou te furar todo, seu bosta! Vou te picar até você ficar pior do que deixou minha mãe, escroto maldito! - berrou Mirela, enquanto correu na direção de Dionísio, segurando a tesoura como se fosse uma faca.

Dionísio virou-se na direção oposta e tentou correr para o quarto de casal, mas Mirela, incrivelmente rápida, pulou em cima dele e conseguiu agarrar sua perna, fazendo-o cair. Dionísio tentou safar-se. Mirela cravou a tesoura na panturrilha esquerda dele, que urrou de dor. Ele tentou puxar a perna, mas Mirela segurou a tesoura encravada com as duas mãos e começou a torçê-la dentro da perna de Dionísio. A dor era insuportável. Dionísio gritou e com o pé direito começou a empurrar a cabeça de Mirela, tentando afastá-la e fazê-la largar a tesoura. Com a boca ensangüentada da mordida que dera em Dionísio, Mirela persistia, segurando firme a tesoura cravada na perna de seu marido. Apesar de tudo, Dionísio não pretendia machucar Mirela mais do que o necessário e por isso, fechou os olhos para não ver ele próprio chutando a cabeça de sua mulher, cada vez com mais força. A cada chute no rosto de Mirela, ela remexia a tesoura na panturrilha coberta de sangue de Dionísio. O quinto chute dele acertou o lado esquerdo do queixo de Mirela com tanta força que deslocou sua mandíbula. Mirela deu um urro de dor e bateu a cabeça contra a parede do corredor. A tesoura, ainda nas mãos dela, saiu da carne de Dionísio meia de lado, dilacerando a ferida ainda mais. Dionísio grunhiu e encolheu a perna esquerda, instintivamente. Ele viu Mirela caída, junto ao corredor e sentiu-se mal por tê-la atingido tão violentamente. Mesmo depois de tudo, por um momento, Dionísio teve vontade de correr até Mirela e confortá-la. Mas a vontade passou quando ele a viu levantando-se e encarando-o com a mesma ira de antes. Atrás de Mirela, ao fundo, o sino de vento ainda tocava uma nota de cada vez, num ritmo constante. Dionísio arrastou-se o mais rápido que pode até chegar ao segundo quarto - o quarto de visitas. Ele apressou-se quando viu Mirela, já de pé, vindo em sua direção.

A cabeça de Mirela era como uma caixa cheia de imagens e vozes ruins: a cigana com o enorme ferimento aberto no peito – “quer morrer? Quer morrer?”, o rosto de Dionísio disotorcido, numa aparência cínica - “mulher é o pior bicho que existe no planeta porque vive sangrando e nunca morre!”, sua mãe morta, entre as ferragens do automóvel, com as entranhas expostas e o olho perfurado – “não foi minha culpa. Foi deus”, a voz de Ricardo ao telefone – “se foi Deus, foi Dio”, a melodia constante do sino de vento ecoando e pulsando dentro de seu cérebro. Tudo girava em sua cabeça, que doía tanto que parecia que iria explodir. Flashs de cada imagem estouravam diante de seus olhos rapidamente, enquanto ela não perdia Dionísio de vista. Seus desejos se resumiam em matar Dionísio. Matar seu marido, fazê-lo pagar por tudo o que fez com sua família, por tê-la deixado sozinha ainda criança. Por ter casado com ela, jurado amor eterno, depois de ter esmagado sua mãe e quebrado o pescoço de seu pequeno irmão. Ele iria pagar por tudo isso. O gosto do sangue de Dionísio em sua boca apenas fazia aumentar seu desejo de vingança. Ele iria pagar.

(continua...)



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O Sino De Vento - Capítulo XXV
Sáb, 25 de Outubro de 2008

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Última atualização em Dom, 26 de Outubro de 2008 15:21
 
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