| O Sino De Vento - Capítulo XXVI |
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| Literatura - Contos - Terror |
Escrito por Aureo_Lima |
Sáb, 25 de Outubro de 2008 14:02 |
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Dionísio arrastou-se mais um pouco até passar pela porta do quarto de hóspedes. Dobrou o joelho esquerdo e gritou de dor quando a panturrilha dilacerada bateu no batente da porta, deixando uma marca de sangue. Sentado no chão, tentou fechar a porta mas Mirela chegou antes e impediu-o colocando um dos braços entre a porta e o batente. Dionísio apertou o braço de Mirela forçando o ombro contra a porta. Mirela grunhiu. O braço dela começou a agitar-se freneticamente até que encontrou a ferida na perna de Dionísio. Ela cravou as unhas na carne exposta fazendo Dionísio gritar de dor. Ele começou a bater a porta com força no braço de Mirela. Ela urrava no corredor palavras quase incompreensíveis, devido a mandíbula deslocada.
_ Maldito! Não vai escapar de mim, covarde viado! Vou te rasgar inteiro, miserável! Segurando a porta com o peso do corpo, Dionísio pegou o dedo mínimo e anelar da mão de Mirela. Viu a aliança de casamento num dos dedos dela. Fechou os olhos e puxou-os para trás com toda a força que pôde. Sentiu os dedos de Mirela estalarem e ouviu-a berrar do outro lado. Ela puxou a mão e Dionísio, no mesmo momento, bateu a porta e trancou-a com a única chave do quarto, que estava esquecida na fechadura, pelo lado de dentro. Suando de cansaço e dor, ele impulsionou o corpo para cima e bateu no interruptor ao lado da porta, fazendo a luz do quarto se acender. Mirela começou a jogar-se de encontro à porta, gritando e blasfemando contra Dionísio. Ele arrastou-se até a parede oposta e ficou sentado, arfando, gemendo e vendo a dura porta resistir às investidas de Mirela. O quarto de hóspedes não podia abrigar ninguém, pois ainda não estava mobiliado. Apenas um velho armário da família de Dionísio decorava uma das paredes. Mais nada havia no lugar. Enquanto Mirela esmurrava e se jogava contra a porta incansavelmente, Dionísio tentou esquecer a dor na sua perna e braço e concentrar-se no que poderia fazer, caso a porta cedesse e Mirela tivesse acesso ao quarto. Olhou a janela, acima de sua cabeça. A maioria dos moradores da rua já estavam na casa dos famliares para as festas de fim de ano. Não adiantaria gritar por socorro. Se os gritos dele e de Mirela até então não foram suficientes para chamar a atenção de alguém, um grito a mais não ia fazer diferença. Além do mais, ele estava muito cansado. Perdera muito sangue de sua perna e não tinha forças para tentar ficar de pé e abrir a janela. Lembrou-se de Ricardo oferecendo seu celular no caso de alguma emergência e ele recusando o aparelho. Daria tudo para ter um celular agora. _ Abre essa porra! Filho de uma puta, abre essa merda! Desgraçado! Maldito! - berrava Mirela, ainda atacando a porta furiosamente. Dionísio ficou fitando a porta e relembrando as palavras de Mirela, minutos antes dela se transformar naquilo que se encontra no corredor e o mantêm preso ao quarto. Mirela o acusara de ter matado sua mãe e seu irmão, há anos atrás. Ela tinha uns dez ou onze anos. Mais novo que Mirela, Dionísio deveria ter, na época, apenas nove anos de idade. Não fazia sentido. Segundo Mirela lhe contara, seu irmão há dias sofria de febre e vômitos. Ele não conseguia comer nada e os dois médicos que o examinaram limitavam-se a dizer que se tratava de uma simples virose. Os remédios não faziam efeito algum e a mãe de Mirela, desesperada, ligou para uma velha amiga que lhe dissera sobre a possibilidade de seu filho estar com apendicite. Apavorada, com medo do apêndice de seu filho estourar e ele acabar morrendo, a mãe de Mirela colocou os dois filhos no banco de trás de sua Caravan bege e saiu, no meio da noite, em disparada pelas ruas da cidade, até o hospital mais próximo. Numa curva escura do caminho, ela teria perdido o controle do carro e batido violentamente contra uma sólida parede. Isso era tudo que Dionísio sabia sobre o fatídico acidente. E ele tinha certeza de que nada tinha a ver com isso. Ou teria? Tentou lembrar-se das coisas que fizera nessa época, enquanto via o vulto de Mirela movendo-se freneticamente, por debaixo da porta. Mirela bateu, esmurrou, arranhou e chutou a porta, mas ela não cedeu. A folha da porta estava toda manchada de sangue e abaulada em alguns pontos, devido ao constante esmurrar de Mirela. Os nós dos dedos de suas mãos estavam totalmente inchados e em carne viva. Algumas unhas foram arrancadas de tanto arranhar a porta. Com os olhos esbugalhados de ódio, Mirela olhava rapidamente para os lados tentando encontrar algo que fizesse abrir a maldita porta que a separava do assassino de sua família. O sino de vento continuava seu badalar contínuo e preciso, num ritmo macabro. Um fio rosa de sangue e saliva escorria do canto de sua boca. A parte de baixo dela estava inchada e torta, devido o chute certeiro de Dionísio. Isso impedia Mirela de conseguir fechar a boca totalmente, sob o risco de sentir uma aguda e insuportável dor logo abaixo de sua orelha direita. Mirela olhou para o sino de vento que tocava, incansável. Os olhos dela cerram-se, como se o sino houvesse lhe dito alguma coisa e ela compreendesse. Mirela deixou a porta e correu em direção à cozinha. Abriu as gavetas, vasculhou apressadamente os talheres sem se importar com os cortes que as facas inflingiam em suas mãos inchadas. Não encontrou o que queria e irritou-se. Gritou de raiva e jogou as gavetas pelo chão, espalhando talheres por toda a parte. Olhou para a pia e encontrou o seu martelo de bater carne. Sorriu ou, ao menos, chegou o mais perto disso, grunhindo de dor. Sentiu o peso do martelo nas mãos e irritou-se novamente, pois ele era leve demais. Jogou-o para trás com força. O martelo bateu e estilhaçou um velho filtro de barro. Mirela pôs-se a vasculhar o paneleiro, derrubando panelas, quebrando pratos e vasilhas. Encontrou uma pequena panela de pedra, presente da mãe de Dionísio. Ela era dura e pesada o suficiente para arrebentar a porta do quarto onde Dionísio estava refugiado. Mirela voltou para o corredor e a porta, munida de sua tesoura e de uma panela de pedra. (continua...) Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Dom, 26 de Outubro de 2008 15:22 |

