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O Sino De Vento - Capítulo XXIX Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Terror

Escrito por Aureo_Lima
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Seg, 27 de Outubro de 2008 02:25
Um abatido Ricardo abriu a porta da, outrora, casa de Dionísio e Mirela. Os móveis estavam cobertos com lençóis e a maioria dos objetos estavam em caixas de papelão. Duas semanas separavam aquele momento da tragédia que acabou com as festas de fim de ano de sua família. Duas mortes terríveis. As cenas daquele dia ainda estavam na cabeça de Ricardo. O dia em que ele viera até aquela mesma casa, cinco horas antes da ceia de natal, saber o que aconteceu com seu irmão e sua cunhada, que já deviam estar com o resto da família, na casa de seus pais. Ele tocara a campainha várias vezes. Chamou por Dionísio e Mirela e não tivera resposta. A porta de entrada da casa estava trancada. Ricardo olhou por uma fresta da janela e custou a acreditar no que viu.

Ele arrombou a porta da sala e entrou. Passou direto pela sala de estar, em direção à mesa de jantar. Ela estava totalmente fora do lugar. Não foi isso que o apavorou quando espiou pela janela. No lugar da mesa, estava uma das cadeiras tombada. Acima dela pendia o corpo de Mirela, com o pescoço enrolado no fio do pequeno lustre de teto que iluminava a sala de jantar. O rosto estava inchado e meio torto. As mãos, sua camiseta e sua calça de moleton estavam empapadas de sangue.

"Jesus Cristo, o que aconteceu aqui?" - pensou Ricardo, em voz alta, com os olhos já cheios d'água. Olhou em volta, procurando por Dionísio. Foi até a cozinha e encontrou-a destruída. Gavetas, talheres e panelas espalhavam-se pelo chão. Voltou para a sala de jantar, passou pelo corredor dos quartos e encontrou um deles com a porta arranhada, torta e com a fechadura destruída. Dentro do quarto, encostado na parede do lado oposto, estava Dionísio. Seu corpo estava todo furado e rasgado. Vísceras saíam de seu ventre. Uma enorme poça de sangue o envolvia. Ricardo levou as mãos ao rosto, ajoelhou, gritou e chorou.

Horas depois, a casa fora tomada por policiais, ambulâncias - inúteis, apenas cumprindo o protocolo - parentes, curiosos. E foram duas semanas de tormento para toda a família. Tormento pela perda de seu querido irmão e de sua, também querida, esposa. Tormento pelos infindáveis trâmites legais. Papéis, interrogatórios, funerais. Tormento e muita tristeza.

A polícia ainda estava investigando a "ocorrência", embora estivesse praticamente convencida de que Mirela assassinara Dionísio com trinta golpes de tesoura. Depois - a polícia não sabia o motivo exato - Mirela tirou a própria vida, se enforcando com o fio do lustre da sala. Entre esses dois acontecimentos, haviam apenas suposições.

Eles não sabiam que Mirela parara de golpear Dionísio, exausta e sem fôlego quando o sino de vento parou de tocar. Ela olhou para o rosto de Dionísio. Ele ainda a olhava, com os olhos cheios d'água, mas sem vida. Ela inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse tentando entender o que estava acontecendo. De repente, ela sorriu. E gargalhou. Levantou-se e dançou. E chorou de tanto rir. Saiu do quarto rodopiando, e rodopiando chegou até a sala. Então ela parou. Abaixou a cabeça e viu o sangue de Dionísio em suas mãos inchadas e em sua roupa. Numa das mãos, a tesoura, também ensanguentada. Aquela terrível visão fez Mirela começar a perceber o que tinha acontecido. Lembranças dos olhos de Dionísio olhando para ela, enquanto a tesoura mergulhava no seu corpo. Lembranças do sino de vento. Da misteriosa música de três notas. De Dionísio pegando-a nos braços, banhando-a e a colocando na cama. Lembranças do seu irmão com pescoço quebrado e sua mãe entre as ferragens retorcidas da Caravan bege. E de um menino chamado Dio correndo e desaparecendo numa viela escura.

Nem a polícia nem Ricardo sabiam de todas essas coisas que passaram na cabeça de Mirela. Assim como não sabiam que Mirela havia caído em si, se lembrando de tudo o que fez com Dionísio e se lembrando também por que fizera. Sua cabeça era um misto de sentimentos que ela não conseguia controlar. Olhou o sino de vento, pendendo do teto. O rosto da cigana da Tenda do Destino surgiu em sua mente. Em seguida, ela viu o rosto de Dionísio. De sua mãe. De seu irmão. Os rostos revezavam rapidamente em sua cabeça. Ela puxou os cabelos e gritou de desespero. O pequeno fio de sanidade não suportou tamanho peso e arrebentou. Mirela jogou a tesoura, que ricocheteou na parede e cortou o cordão que segurava o sino de vento. Ele caiu, bateu na beirada da mesa e quebrou. Na queda, ele tocou mais uma vez.

Mirela não escutava mais o sino de vento. Imagens terríveis em sua cabeça abafaram a música sinistra. Chorando, ela foi até o que restou do sino de vento. Pegou os três pequenos carrilhões de metal com uma só mão e arrancou-os da base de madeira, todos de uma vez. Gritou de raiva e jogou-os longe, fazendo-os se espalharem pela sala de estar. Num último momento de lucidez, chorando, ela olhou o baixo lustre da sala de jantar. Então ela soube o que tinha que fazer. Ao menos, o que lhe restara fazer.

O que aconteceu depois já era do conhecimento de todos.

(continua...)



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O Sino De Vento - Capítulo XXIX
Seg, 27 de Outubro de 2008

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Última atualização em Seg, 27 de Outubro de 2008 05:06
 
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