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Literatura - Contos - Diversos

Escrito por markbrunkow
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Ter, 28 de Outubro de 2008 09:56


- Para com isso João. Você falando em amor! Vive traindo a Joana a torto e direito. A coitada tem que passar de cabeça baixa perto de fios de alta tensão se não fica presa! Que amor é esse?

- Serginho, Serginho! Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A Jô é diferente. Ela é a minha esposa, mãe do meu filho e nunca haverá outra. - grita olhando para o dono do bar. Alfredo, o Alfredo traz mais uma gelada pra gente e manda uma porção de "porrápida" frita que a tua polenta demora muito.

- Tá bom João!

- Não Serginho, sério. As demais são só diversão, casos sem importância.

- Sem importância porque não é na tua testa que esta o enfeite. Queria ver se a Jô é que tivesse uns casos sem importância, se você ia gostar.

- Vira essa boca pra lá Serginho. - dando três pequenos socos na mesa - A Jô é mulher direita, de família. Casou virgem. E você não sabe como é um casamento. No mais existe mulher pra casar e mulher pra "ficar". Acorda pra vida meu amigo, estamos no século vinte e um. Direitos iguais, liberdade de expressão, sexual e o diabo a quatro. A mulherada não se contenta mais em queimar sutiã, elas querem queimar é a "rosca" mesmo. Antigamente pra você conseguir dar "umazinha" você tinha que namorar, conhecer os pais, as tias, o cachorro, o carteiro da rua dela, o padre da paróquia. Hoje não. Tá tudo liberado, quem não quer nada sério são elas. O que nós temos que fazer é relaxar e gozar literalmente. E digo mais quando elas vêem um atestado de otário no dedo da tua mão direita é ai que elas ficam loucas.

- Não generaliza João. Concordo que hoje em dia ta meio largado, que a moda é ser "tribalista", eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também. Mas isso é muito pequeno, vazio mesmo. Chega uma hora que enche o saco, cara! Recuso-me a acreditar que assim as pessoas são mais felizes.

- Felizes? Que felizes Serginho. Felicidade é um estado de espírito. Ninguém é feliz ou triste. Nós apenas somos. Vivemos nossas vidinhas da melhor maneira possível. Desviando de umas pedras aqui, engolindo uns sapos ali e assim caminha a humanidade, pequeno gafanhoto.

- Eu sei disso. Só que não entendo alguém que diz amar outra pessoa, mas sempre que pode mete um par de "guampa" na cabeça dela. Acho, acho não, tenho certeza que o gostar envolve muito mais que apenas ficar junto ou dar "umazinha" de vez em quando. Se for só isso, paga uma puta e pronto. Não tem vínculo ou envolvimento algum e ainda por cima pega uma profissional no assunto. Acredito que gostar de alguém é se entregar por inteiro, é dividir seus sonhos, suas alegrias e tristezas. É poder ficar sentado um ao lado do outro sem falar nada e mesmo assim saber exatamente o que o outro está pensando. É acordar pensando nessa pessoa e quando isso acontece você sente um frio na barriga. É levantar sem se importar que vai ter que trabalhar oito horas em um emprego que você detesta só por saber que mais tarde vai encontrar quem você gosta. E por mais estanho que possa parecer pra você, a base pra este tipo de relacionamento tem que ser o respeito e a confiança.

- Relacionamento? Respeito? Confiança? Que viadage é essa? Que porcarias de revistas você anda lendo? Capricho, Claudia ou anda assistindo Ana Maria Braga mesmo? - risos.

- Porra João! Eu posso estar cozido, mas sei o que estou falando. Você sabe que é verdade. E no mais existem boas matérias na TITITI. - risos.

- Eu sei bicho. To brincado. Tudo isso que você falou é maravilhoso, mas não é amor. É paixão da brava, e dura no máximo, se você tiver sorte, um ano. O amor é mais complicado amigo, e pode durar uma vida inteira. Envolve rotina, mau humor, conhecer os defeitos um do outro e ter que aceitar. É agüentar as TPM's dela, o choro do neném ás três horas da madrugada e no outro dia ter que levantar cedo e ir trabalhar. É você a fim de dar uma e ela com "dor de cabeça" ou ela a fim e você com a cabeça que é só conta e não consegue dar no coro. É aturar a família dela dando "pitaco" na tua vida, a tua família reclamando dela e da família dela. É a falta de grana. Amor é a soma de tudo isso mais a prestação do carro mais o aluguel mais ás compras do mês e mesmo assim ainda querer ficar junto.

- Nossa João! Ouvindo você falar é preferível ir pro inferno do que se casar. - falando com Alferdo - O gaúcho, traz mais uma gelada.

- Ir pro inferno? Mas você já foi lá em casa! - sorrindo. - Agora é sério, pergunte pra quem você quiser. Taí o Alfredo galdério - que trazia a cerveja - que não me deixa mentir sozinho, casamento é ou não é um tormento?

- Ba! Guri. Eu que o diga! Uma vez fui numa velha batuqueira lá em Porto e disse:

- Vó Toinha jogaram uma praga em mim que eu não consigo me livrar.

- Izi fio, diz pra vó exatamente as "palavra" de quem jogou o "fetiço" pra mó da vó pode "dismanchá".

- O safado disse: Vos declaro marido e mulher!!! - rindo muito.

- Há vá, vá Alfredo. Traz logo a polenta que nós estamos com fome e vê se capricha na porção. Serginho um dia você vai arranjar uma dona encrenca ai eu verei todas suas convicções caírem uma a uma. Escreve o que eu estou dizendo.

- Pois escrevo com assinatura reconhecida em cartório e tudo. Minhas convicções são a única coisa que tenho e delas não abro mão.

- Ta bom! A vida não é mãe piá. É madrasta.

- Porra John, você ta muito pessimista. A vida não é esse mar de merda que você ta pintado.

- É que não agüento mais Serginho. To no limite cara, e não é só o do banco, o do meu saco mesmo. Chego em casa todo dia e é briga, reclamação, aporrinhação. Se vou ler um livro ou escutar música ela reclama que não dou atenção pra ela. Se eu dou atenção ela diz que tenho que dar um pouco de espaço, que estou sufocando ela. Ou fica falando que se mata tendo que trabalhar e ainda cuidar da casa, do neném, que ela não tem tempo pra ler um livro ou escutar música vai entender esta raça! - porra Alfredo cadê a polenta?

- Não reclama João. Se não fosse a Jô hoje você provavelmente, estaria caído em uma valeta qualquer, bêbado com um cachorro lambendo tua boca. - risos. E isso deve ser castigo pela quantidade de chifres que você coloca na cabeça da coitada.

- Você fala isso porque nunca casou. Nem namorar sério você namora. Sempre com a desculpa de estar procurando a mulher certa, a alma gêmea. Cuidado bicho, Cazuza já dizia quem não sabe amar fica procurando alguém que caiba em seu sonho.

- Realmente João o tipo de mulher que procuro já não existe mais. A monogamia esta fora de moda e no mais esse teu tipo de amor eu dispenso. Prefiro passar a vida só, a viver me enganando. Sofrendo e fazendo outros sofrerem porque não tenho coragem de assumir a responsabilidade por meus atos.

- A culpa por eu estar nesta situação é sua. Se você não tivesse visto a Jô naquela festa eu não teria conhecido ela e hoje estaria solteiro.

- Bem feito por chegar na mulher que os amigos vêem primeiro. - Oh, polentinha demorada em Alfredo. - gritando para o dono do bar.

- Que é isso Serginho, você sabe que eu te considero como um irmão e agradeço todos os dias a Deus por colocar uma santa com a Jô na minha vida. Assumo total responsabilidade por meus atos, mas confesso que ultimamente ta complicado agüentar.

- Deve ser a tal da crise dos sete anos. Vai passar.

- Crise dos sete anos! Realmente você anda lendo muito a TITITI - risos.

- Agora sério John, se ta tão ruim assim porque você não larga mão dessa porra toda? Você para de sofrer, a Jô também, fica todo mundo feliz e pronto.

- Não é tão fácil assim "piá".

- Não João, eu sei que não. A verdade é que você se ilude com a vida de solteiro. Não ter que dar satisfação pra ninguém, não ter ninguém perguntando aonde você vai, que horas vai voltar, se você esta bem, se ta vivo, se esta chateado, triste ou como foi seu dia. Os casados supervalorizam a vida de solteiro só destacando o lado bom. A festas, as baladas, a mulherada. Só que chega uma hora que cansa. Sempre com aquelas meninas burras com peitões cheios e cabeças vazias. Esquecem como é injuriante não ter ninguém. Sair de casa e saber que quando voltar tudo, absolutamente tudo esta no mesmo lugar. Acordar sozinho, trabalhar o dia inteiro chegar em casa e não ter ninguém para conversar mesmo que para brigar. Alguém pra dar um pouco de vida pra essa vida monótona que nós solteiros temos. Alguém para nos tornar menos sozinhos, um pouco menos inúteis.

- Ok, Serginho. Pode parar com a choradeira. Já entendi aonde você quer chegar. Ninguém nunca esta satisfeito com nada. Como diz meu tio, casamento é que nem gafieira quem esta dentro quer sair e quem esta fora quer entrar.

- João podemos ficar discutindo a noite inteira, mas como dizia o grande Paulo Leminsk:

"Se o amor é troca

ou entrega louca

discutem os sábios,

entre os pequenos

e o grandes lábios."

- É isso ai Serginho, chega de reclamação. São onze horas, a Jô ta na casa da mãe, provavelmente metendo o pau em mim, e só volta amanhã para casa. Estou mais solto que pinto em cueca samba canção.

- Porque será que chamam de cueca e não de "pintoeca"?- risos.

- Cala a boca Serginho que você já ta cozido. Vamos dar um role pela "night" curitibana.

- Beleza. Até Alfredo, pendura a nossa conta aí.

- Ok, vão pela sombra...

Alguns minutos depois.

- Mas Ba! E a poenta!



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Ter, 28 de Outubro de 2008

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Última atualização em Ter, 28 de Outubro de 2008 10:09
 
Comentários (2)
  • SANTOSH
    avatar
    Meu amigo, melhor do que isso aqui, só uma loura gelada, acompanhada de uma bem quentinha, numa roda de amigos... Parabéns!
  • master22
    avatar
    Belo texto Boa imaginaçao e caraterizaçao das personagens Parabéns
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