| Cafezinho |
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| Literatura - Contos - Diversos |
Escrito por Um Dedo de Prosa |
Sáb, 01 de Novembro de 2008 06:48 |
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Meu andar era arrastado. Acordei cedo demaishoje. Mais um dia... Tomei o café da manhã, fraco, sem gosto. Procurava nelesentir um sabor um pouco diferente que fosse, mas sabia que eu nunca maissentiria gosto algum na vida. Segurava a xícara e, sem ciência disso,empurrava-a no ar para a direita e para a esquerda. Tomei o resto num golesó.
Terminei de abotoar a camisa, vi que restou umbotão, não tive paciência de ajeitar. Sentei-me um pouco no alpendre,observando o vento levar as palhas das palmeiras e o galho dos arbustos, que sebanhavam com a chuva. Quando vim morar nesse pé de serra, eu gostava muitodessa natureza bonita por demais, mas ela não é mais a mesma comigo. Eu aindatentava tirar uma prosa com as plantinhas, mas só faziam farfalhar... Cândidagostava tanto da natureza, sempre cantarolava pra vê-la cada dia mais linda...As plantas estariam mais verdes não fosse pela cerração. Sentia falta de vercores mais fortes. Balancei um pouco obigode, algo incomodava meu nariz, era aquele cheiro da chuva, o mormaço, nuncame fizera bem... - Ara! Vou ter que entrarpra dentro de casa! Não posso nem ficar um minuto no alpendre! Peguei o primeiro pedaçode pano que vi, sujo, e assoei com força. Aquilo tudo me incomodava.Encostei-me à viga de madeira, áspera. Lascas caíram no chão, então me afasteie fiquei olhando aquela casa escura, janelas fechadas, poeira pra todo lado,fogão quase sem serventia... O sol já se enfraquecera, vou-me aprontar pradormir. Acordei com o sol em meusolhos. Perdi a hora. Demorara a dormir, minha espirradeira me acompanhara anoite quase toda. - Quanto tempo que eu nãoperco o cantar do galo. - Disse depoisum grunhido, inconformado. - Não dá mais tempo de ir à venda, vou ter que mecontentar com o que ainda tem de comida por aqui... Ara! Fiz o café, tomei-o semprocurar sentir um gosto melhor. Talvez, já me acostumara ou já começava até agostar do meu café! ... ou já esquecera o café de minha mulher... Armei a rede no alpendre.Balancei o sino. Enferrujado. Antigamente, bastava eu tocar o sino e esperarque Cândida viesse com seu cafezinho tão bom e amoroso pra mim e que Cabritodisparasse para o alpendre... Desde que o Cabrito se sumiu, estive só. Aquelecachorro era tudo o que restara pra mim. Se foi. ________________________________________ - Ahhh! - ouviu.Sentou-se na rede num sobressalto - Que diaxo é isso, ara! - Esperou seucoração desacelerar. A chuva já passara, ele via atentamente o verde dasárvores. Ouviu dois latidos. - Ahhh! - Quem tá ai! Seapresente logo! Ou melhor, vá simbora! - Fitava a espingarda presa na paredeenqüanto gritava. - Estou presa! - Uma vozfeminina bradou, um pouco rouca. Já esquecera o que era ouvir a voz de umamulher. Não pensava mais em nada,não conseguia juntar dois dedos de pensamento, aquilo lhe era muito novo.Acostumara-se a ouvir chiados, barulhos da chuva e seus espirros, apenas. - Oi! Estou presa aqui!Oi! Debruçou-se para fora darede, esforçadamente. Pisou firme na madeira, que ruíu. Apressou o passo apóscachingar um pouco, buscando se equilibrar, restos do ócio prolongado. Pegou aespingarda. Andava observando tudo, atentamente. Descobriu que seus sentidosainda estavam vivos. Foi percebendo o verdejante ambiente, agrandando-se docheiro do orvalho, apreciando o canto dos pássaros. Encontrou uma senhora já desobrancelhas brancas, vestida de vermelho. - Nestor?! - Rosa! Faz o que aqui? - Vim trazer-lhe oCabrito de volta. Desde que o Adorico morreu, meu marido, lembra dele? -perguntou sem sobrar tempo pra resposta - seu cachorro tem-me feitocompanhia. Ele me trouxe até aqui. - Mais é claro que mealembro do Adorico, ara! Mas que pena, morreu. Minha mulhar também, a Cândida,não sei se você chegou a conhecer... Masmorreu de quê? - Talvez se me tirassedaqui, a gente poderia ter alguma prosa melhor, o que acha? - Sua voz saía eracomo um dente-de-leão a voar. - E como foi que vocêficou presa ai? - O Cabrito! Foi só eleouvir uma sineta tocar que correu, me atropelando, e caí presa a esses galhos,olhe só. Então, me dê uma ajudinha aqui. - Pediu com um sorriso que maisparecia de um anjo. - Claro, claro, aqui,ara... - Nestor se esforçava pra ajudar a companheira dos tempos de escola.Quebrou alguns galhos, inclinou-se envoldendo seus braços nela e levantou-acuidadosamente. Sentiu a mão da senhora, suave como sempre, parecia que o temponão fora tão impiedoso com ela. Mais dois latidos. O cabrito se movia ao longe,em direção a eles, com uma animação que não dava pra se medir. Nestor ainda ajudava Rosaa se endireitar. - Posso te pedir só umacoisa, ô Rosa? - Depois dessa preciosaajuda, mas é claro que pode! - Faz um cafezinho pramim, faz... - Acho que aindatomaremos muitos cafezinhos juntos... Temos muitas novidades pra contar, não éverdade? Nestor nem tentavaresponder. O sorriso em seu rosto não o deixava. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Dom, 02 de Novembro de 2008 08:21 |

