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Literatura - Contos - Terror

Escrito por Firmibri
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Dom, 02 de Novembro de 2008 12:22
Todos os dias Fernanda Borges seguia pelo mesmo caminho para ir e vir do trabalho. Descia a Rua onde morava, era uma ladeira e ela vivia próximo do meio da subida, até um descampado onde apanhava um caminho por entre uma espécie de bosque até a via principal do bairro onde apanhava a condução. Ela não era a única, tanto que a partir das cinco e meia da manhã o movimento no campo do cruzeiro (era assim que os moradores chamavam o local por causa de uma cruz de concreto construída num dos pontos, exatamente no caminho das pessoas que usavam o terreno como atalho) já era grande.

O campo do cruzeiro era um terreno quase do mesmo tamanho de um campo de futebol e ficava agarrada a igreja do bairro. Eram comuns as festas e as grandes celebrações serem realizadas no local, e embora o descampado não tivesse dono, as pessoas sempre pediam a permissão do Padre Motta para realizar qualquer coisa no local. Até mesmo os peladeiros do bairro iam todo o sábado falar com o padre. O sacerdote já tinha dito várias vezes que o campo não pertencia a paróquia, mas eles continuavam a vir pedir permissão.

Sempre que passava pelo cruzeiro, Fernanda fazia o sinal da cruz. Era uma atitude mecânica para a mulher que há muito tempo tinha largado seus trabalhos na igreja. Ninguém sabia o porquê daquela atitude, nem o próprio padre que viu uma das mais atuantes mulheres de sua comunidade simplesmente largar tudo. Nem as missas Fernanda freqüentava com a regularidade de antes, ia apenas uma vez por mês e sentava-se sempre nas últimas fileiras saindo imediatamente depois da benção.

Quando passava, observava as coisas postas aos pés da grande cruz de concreto. Encontrava várias velas de sete dias acesas. Também encontrava imagens de todos os tipos de santos, inteiras ou quebradas. Fernanda nunca entendeu o motivo das imagens, alguns pensavam que se tratava de algum tipo de adoração, mas Padre Motta apanhava todas e as colocava num oratório da igreja.

Num desses dias, Fernanda deteve seu olhar numa imagem diferente colocada no cruzeiro. Não era uma imagem de santo, tratava-se de uma menina ajoelhada como se estivesse rezando, entretanto, sua expressão era de desespero. A imagem tinha sido colocada entre uma de São Jorge e outra de São Cosme e São Damião. Ela não deixou de sorrir diante daquilo. Olhou no relógio e já estava atrasada, precisava parar de ficar olhando para o cruzeiro todos os dias quando ia para o trabalho. Seguiu caminho e varreu a imagem da boneca de sua cabeça.

Passava das seis da tarde quando ela finalmente desembarcou do ônibus na via principal. Quase todas as mesmas pessoas que ela tinha visto quando ia, agora encontrava na hora do retorno. Alguns a cumprimentavam, outros olhavam e pensavam o mesmo que ela, mas seguiam seus caminhos. A passagem pelo pequeno bosque do terreno estava movimentada, assim como o espaço ocupado por um grupo de adolescentes que jogavam futebol no local. Depois das luzes instaladas pela prefeitura, o campo do cruzeiro passou a ser um dos principais pontos de encontro da garotada do bairro.

Fernanda caminhava apressada. Da igreja se ouvia uma cantoria que ela logo associou a missa das quartas-feiras. Passou em frente ao cruzeiro e percebeu que todas as imagens tinham sido retiradas, exceto a da a menina desesperada que continuava no mesmo lugar e na mesma posição. Ela parou e olhou pensando no porque do Padre Motta tê-la mantido nos pés da cruz. Talvez a retirada das imagens tenha sido obra de alguma ajudante do padre e que por medo de se tratar de qualquer outra coisa, deixou a pobre menina no lugar. Fernanda continuou seu caminho, já havia perdido tempo demais contemplando aquele monte de tijolos e concretos.

Um relâmpago acordou Fernanda. Seu quarto se iluminou com o clarão branco que entrava pela janela. Ela olhou imediatamente para o despertador em sua mesa de cabeceira. Eram dez para cinco. O relógio despertaria dali a dez minutos e ela praguejou pelo pouco tempo que ainda tinha de cama. Rolou na cama de forma a fitar o teto escuro. Estava cansada, parecia que a noite de sono não tinha sido boa. Seu corpo ainda doía pelo dia anterior e só de pensar que teria um outro dia igual ou pior que aquele, lhe dava uma falta de ânimo sem tamanho.

Olhou pela janela. Caía uma chuva forte e os trovões a toda hora enchiam aquela manhã com seus sonoros estrondos. Ela pensou em duas coisas: A primeira era como estaria o estado da passagem do campo e segundo o estado do trânsito. Podia ligar para o trabalho, avisar que não iria e arranjar uma desculpa qualquer, mas a idéia foi imediatamente varrida de sua mente. Guardaria aquela desculpa para um outro dia e pelo seu ânimo, não estaria muito longe.

A quantidade de água que caía do céu era absurda. Fernanda olhou para o Fiat Uno, que pertencia a um primo, estacionado em sua garagem e se lamentou por não saber dirigir. Abriu seu pequeno guarda-chuva e lançou-se pela rua, como vários outros tantos que seguiam a mesma rotina que ela. A água formava pequenos rios próximo às calçadas. Na parte mais baixa da rua uma grande piscina tinha sido formada. O campo do cruzeiro também estava bastante judiado e o caminho um lamaçal infernal. Ela passou na frente do cruzeiro apressada, mas ao fazer o sinal da cruz de todos os dias e voltar seus olhos para a estátua, suas pernas subitamente pararam. Não havia nada a não ser a imagem da menina ainda na mesma posição do dia anterior. Algumas pessoas passavam e observavam a mulher louca em pé no meio daquele temporal fitando a cruz de concreto. Fernanda seguiu caminho, porém sentindo um incômodo incomum com aquela maldita boneca pousada aos pés da cruz.

Ela era gerente de uma grande loja de departamentos num shopping. Adorava o seu trabalho, e gostava da possibilidade de interagir com outras pessoas, apesar de sua natureza reclusa depor contra ela. A vida da mulher se resumia a ir do trabalho para casa, da casa para o trabalho. Nos finais de semana, ninguém a via pelo bairro. Ninguém a via sequer na rua. Trancava-se em casa, desligava o telefone e permanecia lá dentro.

Durante toda a semana que passou pelo cruzeiro indo e vindo do trabalho, encontrou novas e velhas velas acesas, novas imagens de santos e uma figura conhecida, a imagem da menina desesperada, parecendo estar assombrando o lugar e principalmente a ela. Aquilo já estava começando a incomodá-la. Numa noite de sexta-feira, quando voltava para casa, Fernanda fez o que já tinha em mente há muito tempo. Apanhou a imagem e a colocou na bolsa. Contornava os muros da igreja quando avistou Padre Motta conversando com algumas senhoras. Ele acenou e Fernanda lhe cumprimentou polidamente desaparecendo pela rua.

Uma das senhoras que conversava com o padre disse:

— Pobre mulher. Anda sempre depressa e com aquele olhar abatido. Parece que está doente. Será que é algo grave?

— Acho que ela enlouqueceu. – disse outra. – Quando se mudou para cá, freqüentava a igreja e até ajudava nas missas, mas agora só sabe se trancar naquela casa.

Padre Motta apenas observava Fernanda subir a rua enquanto as duas outras especulavam sobre a vida da mulher.

Sentada no sofá, com uma bandeja nas mãos contendo seu jantar, Fernanda assistia ao jornal da noite sentido um tédio terrível caindo sobre ela. Eram sempre as mesmas notícias, com os mesmos personagens, ainda mais com as eleições gerais chegando, o que mais se via era escândalos com os candidatos a reeleição. No relógio eram apenas nove da noite, mas não tinha mais nada a fazer. Pôs o prato sujo na cozinha e foi direto para o quarto.

Quando apanhou a bolsa com o a qual foi para o trabalho naquele dia, a menina caiu de seu interior fazendo um barulho oco dando-lhe um susto tremendo, havia esquecido dela. Felizmente ela não tinha se quebrado, a última coisa que queria era catar cacos de gesso antes de dormir. Sentou-se na cama com ela nas mãos. Não tinha notado o estado deplorável em que se encontrava a escultura. Tinha o aspecto antigo e vários arranhados pelo corpo. Ela fez uma comparação com as mãos constando se tratarem de unhas. Alguém havia arranhado a imagem com as próprias mãos e isso lhe causou um calafrio. Colocou-a numa mesa de canto da sala. Mesmo com a aparência surrada, ela ainda era um tanto bonitinha.

Ela dormia tranquilamente. O barulho do ventilador embalava sem sono com uma sinfonia tranqüilizadora. Fernanda não sabia explicar, mas simplesmente não conseguia dormir sem os ruídos provocados por seu velho Wallita. Até mesmo nos dias mais frios, ela ligava o ventilador e o virava para a parede, só para poder curtir o barulho.

Passava das duas da manhã quando um baque alto a despertou. Ela levantou assustada, olhou em volta e não viu ninguém pelo quarto, a porta estava entreaberta e ela tinha certeza de que a havia fechado. Fernanda saiu do quarto, caminhando lentamente pela casa a procura do local do barulho. Seu coração batia de forma alucinada e o suor escorria frio pelo vão de suas costas. Um novo baque a fez pular. O som vinha da cozinha. Ela continuou caminhando, tateou até encontrar o interruptor e acionou inundando o cômodo com a luz amarela da lâmpada. Não tinha ninguém. Fernanda andou por todo o perímetro, inspecionando cada centímetro e não encontrou qualquer indício que indicasse a presença de alguém na casa, também não encontrou o motivo pelo baque. Será que tudo não tinha passado de um sonho? Ela presumiu que sim. Voltava para o quarto quando seus olhos pousaram na imagem da menina desesperada. Ao seu lado um porta-retrato estava caído, a foto trazia a imagem dela junto com um sorridente grupo de amigas tendo de cenário uma das praias do nordeste. Ela lembrava daquelas férias com muito carinho e esperava poder ter momentos iguais aqueles em breve. Fernanda deitou na cama e tentou dormir novamente, mas o sono não veio com tanta facilidade.



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Dom, 02 de Novembro de 2008

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Última atualização em Dom, 02 de Novembro de 2008 15:31
 
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