Parece que você não efetuou o “login”, ou não é registrado. Cadastre-se, é gratuito. CLIQUE AQUI
 
A Imagem 2 Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Terror

Escrito por Firmibri
(0 votos, média de 0 em 5) "Caso queira votar neste texto, clique de uma a cinco estrelas"

Dom, 02 de Novembro de 2008 12:23
O relógio despertou enchendo o ambiente com o barulho incômodo da sineta. Fernanda não tinha descansado muito, depois que acordou com aquele barulho na madrugada, ela apenas cochilou acordando regularmente num intervalo de três horas. Levantou da cama, arrastando-se na direção da cozinha onde ligou a cafeteira e esperou olhando pela janela mais aquele dia cinzento começar enquanto esperava seu combustível matinal.
Preparava-se para sair quando o telefone tocou. A pressa para sair aliado com a inesperada ligação a fez esbarrar na estátua da menina desesperada colocada sobre a mesinha de canto. Ela trepidou em sua base e se não fosse pela mão rápida da mulher que largou o telefone e a agarrou antes que ela escorregasse para fora da mesa, Fernanda além de perder um item interessante na decoração de sua casa, teria também que limpar os cacos que se espalhariam pelo chão. Quando havia posto a imagem num local mais seguro, no alto da estante da sala, correu até o telefone, retirando-o do gancho e o que ouviu foi um ruído seco, como se alguém do outro lado da linha respirasse com dificuldade. Fernanda lançou o aparelho novamente no gancho. Eram seis e dez, estava atrasada para sair e ainda tinha que aturar um engraçadinho passando trote. Deu uma última olhadela para a menina desesperada, apanhou a bolsa e as chaves e saiu porta fora.
Fernanda conhecia quase todos os que estavam no ponto naquele horário. Havia o homem de terno e gravata com a mochila verde. A mulher sempre de preto e o filho pequeno que a acompanhava a caminho da escola. O rapaz de cabelo comprido com camisetas de bandas de rock que ouvia um mp3 e simulava tocar guitarra enquanto balbuciava as músicas, além do casal de vendedores que montavam sua barraca de doces logo cedo. Sem falar nos outros tipos como um grupo de senhores que discutiam sempre a mesma coisa todos os dias, a situação de seus times na tabela do campeonato brasileiro. Ela já sabia de cor as alegações para os maus e bons desempenhos. Entretanto, havia um naquele dia que ela nunca tinha visto. Era um homem por volta dos trinta anos, camisa branca e uma calça social com suspensórios, coisa que ela há muito tempo não via alguém usando.
Ele fumava um cigarro e expelia as nuvens de fumaça com uma elegância aristocrática. Fernanda não conseguia parar de olhar para aquela figura inusitada, mas o mais estranho era que ninguém parecia se importar com o homem que começou a circular por entre as pessoas paradas, esperando suas conduções. Uma buzina alta atraiu os olhares de todos no ponto. Um cachorro que tentava atravessar a via acabava de ser atropelado. Aquilo era um fato comum de se acontecer, todas as semanas se deparavam com algum animal morto no acostamento. Quando ela voltou seu olhar, o homem estava ao seu lado. Ele se aproximou sem que ela notasse sua chegada.
— Uma infelicidade, não é? – perguntou ele.
Fernanda sentia o leve cheiro adocicado da fumaça que ele expelia. O homem continuou:
— Pena que o cão não será a única vítima do dia.
Ela virou para onde o corsa preto tinha atingido o cão. O animal moribundo chorava enquanto o dono do carro arrastava-o para fora da pista. O homem do suspensório fez um sinal para Fernanda apontando para um caminhão frigorífico que cortava caminho pelo lado interno da pista de modo a se livrar do pequeno congestionamento que tinha se formado. Fernanda parecia ver tudo em câmera lenta. Primeiro o caminhão cortando os outros carros enquanto o dono do corsa ajeitava o corpo do cão sobre a grama das divisórias da pista. Depois quando o mesmo homem ao atravessar a pequena faixa era atingido pelo caminhão. Ela nunca tinha visto nenhum ser humano ser atropelado na vida e a imagem do corpo do homem sendo arremessado com um boneco de pano lhe causou um desespero terrível.
O homem do suspensório ria ao lado dela. Era um riso debochado como se tivesse gostado da cena bizarra que acabara de acontecer. Fernanda voltou seus olhos e viu a multidão correndo na direção do corpo do dono do corsa, quando tentou encontrar o homem do suspensório, ele já não estava mais lá. Desapareceu da mesma forma silenciosa que tinha aparecido.
O ônibus para o centro parou no ponto. Tratava-se do mesmo motorista que a apanhava todos os dias. Ele buzinou atraindo sua atenção fazendo Fernanda caminhar até o veículo. O motorista fazia perguntas, queria saber como tinha acontecido e ela contava tudo da forma mais mecânica possível, provavelmente ainda em choque. Sentou numa janela e deixou que o vento frio da manhã limpasse o suor que escorria em decorrência do nervoso. Quando olhou novamente para o ponto, viu o homem de suspensório debruçado no corrimão da passarela. Ele acenou de forma displicente deixando na mulher uma sensação incômoda.
Fernanda passou o dia inteiro com a imagem do homem do corsa sendo arremessado por cima do caminhão frigorífico. Era tão perturbador que ela mal conseguiu desenvolver seu trabalho ao longo do dia, nem mesmo almoçar ela conseguiu. A mulher ficava pensando nos planos que aquele homem tinha feito para quando chegasse em casa ou para o final de semana que se aproximava. Pensava também na família dele e em como reagiria diante de uma morte tão estúpida.
Quando chegou em casa, só conseguiu pensar nos dois dias de folga que teria e isso a alegrou. Sentou na sala. Ligou a televisão e ficou com os olhos voltados para o aparelho, mas sem prestar muita atenção no que assistia, ainda pensava em todo aquele dia perturbador. A campainha do telefone a fez despertar para a realidade, na televisão passava uma novela que ela não acompanhava. Apanhou o telefone e quando o aproximou do ouvido sentiu um cheiro conhecido, era o mesmo cheiro adocicado do cigarro do homem de suspensório no ponto de ônibus. Não se escutava nada na outra linha, a não ser o som da respiração. Ela pôs o telefone novamente no gancho e começou a se perguntar o que diabos estava acontecendo?



Crie um banner deste artigo em outros sites


Para criar um banner deste artigo em outro site,
copie e cole o texto abaixo em sua página.




Visualizar :

A Imagem 2
Dom, 02 de Novembro de 2008

© 2010 - Autores.com.br


Última atualização em Seg, 03 de Novembro de 2008 07:34
 
Comentários (0)
Somente usuários registrados podem comentar!