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Literatura - Contos - Terror

Escrito por Firmibri
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Dom, 09 de Novembro de 2008 12:43
A pequena reunião familiar na casa de sua irmã foi uma quebra na rotina da mulher. Normalmente ela estaria sentada no sofá com uma bandeja no colo assistindo a algum filme ao invés de estar sentada na mesa junto com familiares tendo um agradável e divertido almoço. Na mesa estava sua irmã Lúcia com o marido, dois primos, alguns tios e seus pais. A mãe, Dona Lurdes, parecia muito mais feliz por ter a filha compartilhando daquele momento. Há muito tempo que não via Fernanda tão sorridente.

A refeição foi pontuada por antigas histórias da infância. Algumas eram incrivelmente engraçadas, outras terrivelmente constrangedoras e também tinham as dolorosas que insistiam em abrir caminho, principalmente quando recordavam da avó Zuza, cujo falecimento tinha acontecido há poucos meses atrás. A matriarca da família era do tipo de se juntar com os netos na hora da bagunça e não dispensava reuniões como aquela todas as semanas. A notícia da morte da idosa pegou todos de surpresa. Fernanda retornava do trabalho quando recebeu a ligação fatídica. Apesar de ser muito próxima a avó, ela não pôde deixar de pensar que já estava na hora dela descansar, mas não podia falar aquilo na frente de seus parentes, provavelmente levaria a maior surra de sua vida.
— Como anda sua vida? – perguntou Lurdes aproximando-se da filha quando Fernanda deixou o grupo por alguns instantes. – Desde a morte de sua avó que nós não nos falamos.
— O de sempre. Muito trabalho e pouco tempo.
— Estou achando você distraída. Passou o almoço toda calada.

Fernanda queria dizer que estava com problemas. Que sentia tanta falta da avó quanto os outros. Que sua vida não tinha tomado o rumo esperado e os pensamentos de largar tudo e se dedicar a algo realmente importante ganhavam forças em sua mente. Mas na verdade, ela estava apenas de saco cheio daquelas reuniões. Sempre era a mesma ladainha, as mesmas histórias com o mesmo jeito de contá-las e as mesmas lágrimas diante dos mesmos contos.
— Só estou cansada. – disfarçou Fernanda. – Acho que preciso de umas férias, me afastar um pouco da rotina.

Dona Lurdes abraçou a filha. Fernanda a princípio relutou ao aceitar o abraço, porém logo se deixou envolver pelos braços da mãe e sentiu-se aliviada. Fazia muito tempo que não sentia aquele calor, de estar protegida. Os outros as chamavam da sala. Lurdes a conduziu como fazia quando ela era apenas uma criança. O resto do dia foi agradável, entretanto aquilo não era o ideal da idéia de folga.

Um dos seus primos a deixou na via principal por volta das sete da noite. Por mais que eles quisessem estender o suposto dia de festa na casa de Fernanda, a mulher rapidamente os fez mudar de idéia com a desculpa de que teria que levantar cedo para trabalhar. Uma mentira já que Fernanda não teria expediente na segunda. As ruas estavam movimentadas. Não tinha feito muito sol durante o dia, mas o tempo ficou abafado. Depois de alguns dias de calmaria, era um tanto reconfortante ver as pessoas com suas cadeiras nas portas e as crianças enchendo o campo do cruzeiro. Ela olhou para a cruz de concreto e não viu nada a não ser algumas velas acesas.

Délcio andava pelo campo. Ora falando sozinho, ora falando para as muitas crianças que brincavam sobre as luzes dos holofotes do campo. Ninguém gostava do homem, mas Fernanda simplesmente o detestava. Era um velho bêbado que passava todo o seu tempo migrando de bar em bar, enchendo a cara e soltando piadas sujas para as mulheres do bairro, principalmente para as adolescentes. Morava numa casinha dentro do terreno da igreja, todas as vezes que aprontava uma, cabia ao Padre Motta tira-lo das enrascadas. Fernanda não tinha nada contra o padre, mas achava suas atitudes de defender o homem, desprezíveis. Quando ele a viu, foi rapidamente ao seu encontro.
— Quer companhia? – perguntou Délcio e mesmo a distância ela conseguiu sentir o cheiro do álcool. – Eu prometo que serei gentil.

Fernanda seguiu seu caminho sem dar atenção ao homem. Tinha aprendido que ignora-lo era melhor do que simplesmente bater boca. Contudo, ele não se calou e começou a segui-la soltando mais palavras e chamando a atenção dos que estavam sentados na rua.
— Meu amorzinho, não faz isso, anda mais devagar.

A mulher estava prestes a dar-lhe uns tapas quando Padre Motta interveio rapidamente, puxando o homem de lado e o conduzindo para dentro da igreja. Délcio só parecia respeitar o padre.
— Desculpe pelo que ele fez. – disse Motta depois de conduzi-lo pelos portões da paróquia. – É um bom homem, mas perde as perspectiva quando bebe.
— Quando ele agarrar alguma mulher na rua ou alguma criança, quero ver qual será sua desculpa pelo comportamento depravado desse homem. – rebateu ela com fúria atraindo ainda mais a atenção das pessoas. – Esse bom homem não faz nada a não ser beber e o senhor ainda dá guarita para ele na casa de Deus.
— Não posso jogá-lo na rua.
— Então faça o possível para mantê-lo bem longe de mim.

Fernanda deu as costas para o padre sobre os aplausos de muitos que tinham ouvido a discussão. Ela não queria tratar Motta daquele jeito, mas o cansaço daquele dia na casa de sua irmã não estava fazendo com que ela pensasse direito, ainda mais também porque não suportava aquele velho imundo.

Foi só Padre Motta virar as costas que Délcio escapuliu de sua casinha. A missa começava não dando chance para o padre se preocupar com o velho. Passava das oito e meia e o velho continuava na rua com uma garrafa de cachaça vazia debaixo do braço. Alguns homens pagavam a bebida para o velho, Délcio era conhecido por fazer coisas engraçadas quando estava bêbado ou quando precisava de uma dose. Na verdade, ele era mais um motivo de piada do bairro do que realmente uma ameaça.

Às dez da noite as ruas estavam vazias. O único som ouvido era de alguns cachorros latindo. Ele sentou no meio fio, completamente tonto. Estava prestes a desmaiar quando avistou alguém parado a poucos metros de distância. Ele não conseguia ver direito quem era por causa da nuvem de fumaça que o envolvia e pelo álcool no sangue, mas podia pedir para pagar-lhe uma última dose. O estranho fez um movimento com a mão, pedindo para Délcio ir a sua direção. Levantou, deixando a garrafa escorregar para o lado e tentou caminhar rumo ao homem de suspensório, mas os efeitos da bebida o faziam cambalear ao invés de andar. Quando firmou o corpo, projetou a perna esquerda para o primeiro passo, mas ao invés de encontrar o solo, encontrou a garrafa de cachaça que tinha rolado para longe ao se levantar. Além dos ruídos dos cães latindo, pôde se ouvir o som do pescoço de velho se partindo com a queda. O homem de suspensório expeliu nova nuvem de fumaça e seguiu caminho.

Passava das dez e meia quando o telefone tocou. Provavelmente era sua mãe querendo notícias, depois do encontro de mais cedo, ela tinha certeza de que Dona Lurdes ligaria todos os dias até a falta de comunicação levar as duas a um novo abismo. Quando retirou o telefone do gancho, o cheiro adocicado daquele homem do ponto invadiu suas narinas fazendo seu coração disparar.
— Não há de que, docinho.

Desligaram o telefone e Fernanda e uma sensação de desespero tomou conta da mulher fazendo-a rolar na cama até conseguir pegar no sono.

Ela levantou por volta das sete da manhã. Há quanto tempo fazia que não dormia tanto. Suas costas doíam, talvez pelo tempo deitada ou pelo desconforto no carro do primo no retorno para casa. Fernanda levantou observando pela janela o dia ensolarado e resolveu que seria uma ótima idéia caminhar naquele dia. Também fazia tempo que não caminhava, só esperava estar em forma.

Havia uma movimentação incomum numa calçada, aparentemente um grupo de pessoas rodeava alguma coisa, entre eles Padre Motta visivelmente desolado. Fernanda poderia parar, mas não estava muito disposta a ouvir as baboseiras das carolas. Seguia tranquilamente quando avistou o terceiro fato estranho da manhã, uma senhora idosa procurava algo no cruzeiro e pela expressão, parecia estar preocupada. Ela passou relegando uma olhadela de canto do olho, porém curiosa, mas a velha ao vê-la fixou seu olhar débil sobre a mulher que continuou sua caminhada.

Fernanda andou até a padaria do Carlinho, a mais distante do bairro e também a mais conceituada. Esperava poder comer seus deliciosos pães doces no café quando deu de cara com a mesma velha que há poucos minutos atrás estava procurando algo no cruzeiro.
— Ele está com você. – disse a mulher debilmente atraindo olhares das pessoas no estabelecimento. – Eu sinto a presença dele com você.
— Eu não sei do que está falando. –Aquela velha estava começando a dar-lhe nos nervos.
— Tem que passar adiante ou ele a assombrará para sempre. – a velha agarrou o braço de Fernanda com uma força assustadora. – Você precisa passá-lo adiante.

Carlinhos, ao ver a cliente sendo importunada por aquela maltrapilha, saiu com uma expressão enraivecida, mas ao chegar a Fernanda, a velha já tinha ganhado a rua e desaparecido no meio das pessoas que iam para seus trabalhos.
— Tem gente que logo de manhã não para de atormentar, não é? – disse o dono da padaria. – Nunca tinha visto essa mulher por aqui. E você?

Fernanda virou-se assustada, não tinha percebido a aproximação do homem. Ela não respondeu a pergunta, apenas desceu as escadas da padaria e seguiu para casa rezando para não encontra-la escondida numa esquina.

O falatório continuava nas ruas.. Ela pensou se aquele bando de gente não tinha mais nada para fazer? Possivelmente alguém tinha morrido na rua e um cadáver sempre atraía gente. Uma mulher correu na direção dela, era uma das comissárias da igreja e pelo entusiasmo em seus olhos, ela ansiava ser a primeira a dar a notícia.
— Você já soube? – diante da expressão confusa de Fernanda, a mulher continuou. – Acharam o Délcio morto hoje cedo. Acham que caiu de bêbado e quebrou o pescoço. Padre Motta está inconsolável, parece que tinha muito apreço por ele.
— Quando foi isso?
— Deve ter sido de madrugada.

Antes que Fernanda pudesse fazer qualquer pergunta, a mulher já corria em direção a outra pessoa para espalhar a notícia. Seus olhos percorreram toda a rua até se demorarem na calçada onde o grupo estava reunido. Ela queria dizer que sentia a morte do bêbado, mas na verdade não sentia pena nem alegria. A morte de Délcio para Fernanda era mais um fato trágico, nada mais.

Padre Motta se mantinha nos portões da igreja conversando com alguns fiéis enquanto Fernanda passava direto para casa. Ao avistá-la, a sacerdote correu até ela. A mulher sabia que o rumo daquilo não a agradaria, mas achou melhor manter a serenidade, afinal o padre tinha acabado de perder seu bêbado favorito.
— Délcio foi encontrado morto hoje de manhã.
— Me disseram.
— Eu cansei de falar que ele não era uma pessoa má, só tinha um problema.
— O senhor vai rezar uma missa para ele?

Fernanda não queria, mas a pergunta saiu num tom irônico que contrariou Motta. Ele olhou para ela com os olhos marejados e disse:
— Você poderia ter um pouco mais de respeito.

A mulher não disse nada, apenas retomou seu caminho e desapareceu no meio da multidão de homens e mulheres que não se cansavam de bater papo sobre a morte do pobre.
A pequena reunião familiar na casa de sua irmã foi uma quebra na rotina da mulher. Normalmente ela estaria sentada no sofá com uma bandeja no colo assistindo a algum filme ao invés de estar sentada na mesa junto com familiares tendo um agradável e divertido almoço. Na mesa estava sua irmã Lúcia com o marido, dois primos, alguns tios e seus pais. A mãe, Dona Lurdes, parecia muito mais feliz por ter a filha compartilhando daquele momento. Há muito tempo que não via Fernanda tão sorridente.

A refeição foi pontuada por antigas histórias da infância. Algumas eram incrivelmente engraçadas, outras terrivelmente constrangedoras e também tinham as dolorosas que insistiam em abrir caminho, principalmente quando recordavam da avó Zuza, cujo falecimento tinha acontecido há poucos meses atrás. A matriarca da família era do tipo de se juntar com os netos na hora da bagunça e não dispensava reuniões como aquela todas as semanas. A notícia da morte da idosa pegou todos de surpresa. Fernanda retornava do trabalho quando recebeu a ligação fatídica. Apesar de ser muito próxima a avó, ela não pôde deixar de pensar que já estava na hora dela descansar, mas não podia falar aquilo na frente de seus parentes, provavelmente levaria a maior surra de sua vida.

— Como anda sua vida? – perguntou Lurdes aproximando-se da filha quando Fernanda deixou o grupo por alguns instantes. – Desde a morte de sua avó que nós não nos falamos.
— O de sempre. Muito trabalho e pouco tempo.
— Estou achando você distraída. Passou o almoço toda calada.
Fernanda queria dizer que estava com problemas. Que sentia tanta falta da avó quanto os outros. Que sua vida não tinha tomado o rumo esperado e os pensamentos de largar tudo e se dedicar a algo realmente importante ganhavam forças em sua mente. Mas na verdade, ela estava apenas de saco cheio daquelas reuniões. Sempre era a mesma ladainha, as mesmas histórias com o mesmo jeito de contá-las e as mesmas lágrimas diante dos mesmos contos.
— Só estou cansada. – disfarçou Fernanda. – Acho que preciso de umas férias, me afastar um pouco da rotina.

Dona Lurdes abraçou a filha. Fernanda a princípio relutou ao aceitar o abraço, porém logo se deixou envolver pelos braços da mãe e sentiu-se aliviada. Fazia muito tempo que não sentia aquele calor, de estar protegida. Os outros as chamavam da sala. Lurdes a conduziu como fazia quando ela era apenas uma criança. O resto do dia foi agradável, entretanto aquilo não era o ideal da idéia de folga.

Um dos seus primos a deixou na via principal por volta das sete da noite. Por mais que eles quisessem estender o suposto dia de festa na casa de Fernanda, a mulher rapidamente os fez mudar de idéia com a desculpa de que teria que levantar cedo para trabalhar. Uma mentira já que Fernanda não teria expediente na segunda. As ruas estavam movimentadas. Não tinha feito muito sol durante o dia, mas o tempo ficou abafado. Depois de alguns dias de calmaria, era um tanto reconfortante ver as pessoas com suas cadeiras nas portas e as crianças enchendo o campo do cruzeiro. Ela olhou para a cruz de concreto e não viu nada a não ser algumas velas acesas.

Délcio andava pelo campo. Ora falando sozinho, ora falando para as muitas crianças que brincavam sobre as luzes dos holofotes do campo. Ninguém gostava do homem, mas Fernanda simplesmente o detestava. Era um velho bêbado que passava todo o seu tempo migrando de bar em bar, enchendo a cara e soltando piadas sujas para as mulheres do bairro, principalmente para as adolescentes. Morava numa casinha dentro do terreno da igreja, todas as vezes que aprontava uma, cabia ao Padre Motta tira-lo das enrascadas. Fernanda não tinha nada contra o padre, mas achava suas atitudes de defender o homem, desprezíveis. Quando ele a viu, foi rapidamente ao seu encontro.

— Quer companhia? – perguntou Délcio e mesmo a distância ela conseguiu sentir o cheiro do álcool. – Eu prometo que serei gentil.
Fernanda seguiu seu caminho sem dar atenção ao homem. Tinha aprendido que ignora-lo era melhor do que simplesmente bater boca. Contudo, ele não se calou e começou a segui-la soltando mais palavras e chamando a atenção dos que estavam sentados na rua.
— Meu amorzinho, não faz isso, anda mais devagar.
A mulher estava prestes a dar-lhe uns tapas quando Padre Motta interveio rapidamente, puxando o homem de lado e o conduzindo para dentro da igreja. Délcio só parecia respeitar o padre.
— Desculpe pelo que ele fez. – disse Motta depois de conduzi-lo pelos portões da paróquia. – É um bom homem, mas perde as perspectiva quando bebe.
— Quando ele agarrar alguma mulher na rua ou alguma criança, quero ver qual será sua desculpa pelo comportamento depravado desse homem. – rebateu ela com fúria atraindo ainda mais a atenção das pessoas. – Esse bom homem não faz nada a não ser beber e o senhor ainda dá guarita para ele na casa de Deus.
— Não posso jogá-lo na rua.
— Então faça o possível para mantê-lo bem longe de mim.

Fernanda deu as costas para o padre sobre os aplausos de muitos que tinham ouvido a discussão. Ela não queria tratar Motta daquele jeito, mas o cansaço daquele dia na casa de sua irmã não estava fazendo com que ela pensasse direito, ainda mais também porque não suportava aquele velho imundo.

Foi só Padre Motta virar as costas que Délcio escapuliu de sua casinha. A missa começava não dando chance para o padre se preocupar com o velho. Passava das oito e meia e o velho continuava na rua com uma garrafa de cachaça vazia debaixo do braço. Alguns homens pagavam a bebida para o velho, Délcio era conhecido por fazer coisas engraçadas quando estava bêbado ou quando precisava de uma dose. Na verdade, ele era mais um motivo de piada do bairro do que realmente uma ameaça.

Às dez da noite as ruas estavam vazias. O único som ouvido era de alguns cachorros latindo. Ele sentou no meio fio, completamente tonto. Estava prestes a desmaiar quando avistou alguém parado a poucos metros de distância. Ele não conseguia ver direito quem era por causa da nuvem de fumaça que o envolvia e pelo álcool no sangue, mas podia pedir para pagar-lhe uma última dose. O estranho fez um movimento com a mão, pedindo para Délcio ir a sua direção. Levantou, deixando a garrafa escorregar para o lado e tentou caminhar rumo ao homem de suspensório, mas os efeitos da bebida o faziam cambalear ao invés de andar. Quando firmou o corpo, projetou a perna esquerda para o primeiro passo, mas ao invés de encontrar o solo, encontrou a garrafa de cachaça que tinha rolado para longe ao se levantar. Além dos ruídos dos cães latindo, pôde se ouvir o som do pescoço de velho se partindo com a queda. O homem de suspensório expeliu nova nuvem de fumaça e seguiu caminho.

Passava das dez e meia quando o telefone tocou. Provavelmente era sua mãe querendo notícias, depois do encontro de mais cedo, ela tinha certeza de que Dona Lurdes ligaria todos os dias até a falta de comunicação levar as duas a um novo abismo. Quando retirou o telefone do gancho, o cheiro adocicado daquele homem do ponto invadiu suas narinas fazendo seu coração disparar.
— Não há de que, docinho.
Desligaram o telefone e Fernanda e uma sensação de desespero tomou conta da mulher fazendo-a rolar na cama até conseguir pegar no sono.

Ela levantou por volta das sete da manhã. Há quanto tempo fazia que não dormia tanto. Suas costas doíam, talvez pelo tempo deitada ou pelo desconforto no carro do primo no retorno para casa. Fernanda levantou observando pela janela o dia ensolarado e resolveu que seria uma ótima idéia caminhar naquele dia. Também fazia tempo que não caminhava, só esperava estar em forma.

Havia uma movimentação incomum numa calçada, aparentemente um grupo de pessoas rodeava alguma coisa, entre eles Padre Motta visivelmente desolado. Fernanda poderia parar, mas não estava muito disposta a ouvir as baboseiras das carolas. Seguia tranquilamente quando avistou o terceiro fato estranho da manhã, uma senhora idosa procurava algo no cruzeiro e pela expressão, parecia estar preocupada. Ela passou relegando uma olhadela de canto do olho, porém curiosa, mas a velha ao vê-la fixou seu olhar débil sobre a mulher que continuou sua caminhada.

Fernanda andou até a padaria do Carlinho, a mais distante do bairro e também a mais conceituada. Esperava poder comer seus deliciosos pães doces no café quando deu de cara com a mesma velha que há poucos minutos atrás estava procurando algo no cruzeiro.

— Ele está com você. – disse a mulher debilmente atraindo olhares das pessoas no estabelecimento. – Eu sinto a presença dele com você.
— Eu não sei do que está falando. –Aquela velha estava começando a dar-lhe nos nervos.
— Tem que passar adiante ou ele a assombrará para sempre. – a velha agarrou o braço de Fernanda com uma força assustadora. – Você precisa passá-lo adiante.
Carlinhos, ao ver a cliente sendo importunada por aquela maltrapilha, saiu com uma expressão enraivecida, mas ao chegar a Fernanda, a velha já tinha ganhado a rua e desaparecido no meio das pessoas que iam para seus trabalhos.
— Tem gente que logo de manhã não para de atormentar, não é? – disse o dono da padaria. – Nunca tinha visto essa mulher por aqui. E você?
Fernanda virou-se assustada, não tinha percebido a aproximação do homem. Ela não respondeu a pergunta, apenas desceu as escadas da padaria e seguiu para casa rezando para não encontra-la escondida numa esquina.
O falatório continuava nas ruas.. Ela pensou se aquele bando de gente não tinha mais nada para fazer? Possivelmente alguém tinha morrido na rua e um cadáver sempre atraía gente. Uma mulher correu na direção dela, era uma das comissárias da igreja e pelo entusiasmo em seus olhos, ela ansiava ser a primeira a dar a notícia.
— Você já soube? – diante da expressão confusa de Fernanda, a mulher continuou. – Acharam o Délcio morto hoje cedo. Acham que caiu de bêbado e quebrou o pescoço. Padre Motta está inconsolável, parece que tinha muito apreço por ele.
— Quando foi isso?
— Deve ter sido de madrugada.

Antes que Fernanda pudesse fazer qualquer pergunta, a mulher já corria em direção a outra pessoa para espalhar a notícia. Seus olhos percorreram toda a rua até se demorarem na calçada onde o grupo estava reunido. Ela queria dizer que sentia a morte do bêbado, mas na verdade não sentia pena nem alegria. A morte de Délcio para Fernanda era mais um fato trágico, nada mais.

Padre Motta se mantinha nos portões da igreja conversando com alguns fiéis enquanto Fernanda passava direto para casa. Ao avistá-la, a sacerdote correu até ela. A mulher sabia que o rumo daquilo não a agradaria, mas achou melhor manter a serenidade, afinal o padre tinha acabado de perder seu bêbado favorito.
— Délcio foi encontrado morto hoje de manhã.
— Me disseram.
— Eu cansei de falar que ele não era uma pessoa má, só tinha um problema.
— O senhor vai rezar uma missa para ele?
Fernanda não queria, mas a pergunta saiu num tom irônico que contrariou Motta. Ele olhou para ela com os olhos marejados e disse:
— Você poderia ter um pouco mais de respeito.

A mulher não disse nada, apenas retomou seu caminho e desapareceu no meio da multidão de homens e mulheres que não se cansavam de bater papo sobre a morte do pobre.



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Dom, 09 de Novembro de 2008

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Última atualização em Dom, 09 de Novembro de 2008 16:19
 
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