
Um bom texto.Parabéns!
| A Imagem final |
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| Literatura - Contos - Terror |
Escrito por Firmibri |
Ter, 18 de Novembro de 2008 11:46 |
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Padre Motta estava ajoelhado na frente de seu oratório particular como fazia todas as noites. Além de suas orações costumeiras, ele pedia também pela alma de Délcio, o pobre e discriminado bêbado que passou a vida inteira ouvindo as injúrias da maioria da população. Motta já conhecera muita gente boa que não estava mais no mundo dos vivos, já havia celebrado várias missas para as almas de conhecidos, mas a possibilidade de no dia seguinte quando o corpo de Délcio estiver na capela do cemitério local, ninguém aparecer para velá-lo, causava uma dor imensa no coração do velho padre.
Motta continuava rezando quando ouviu barulhos vindos do salão da igreja. Há alguns anos atrás a paróquia tinha sido vítima de vândalos locais, porém as ações tinham cessado e fazia quase dois anos que esses tipos de incidentes não se repetiam. Motta apanhou uma escada secundária que o levava até um corredor já dentro do salão paroquial, ao abrir a porta, um cheiro nauseante invadiu suas narinas. Sentado na ponta de um dos bancos da segunda fileira exatamente na frente do altar, um homem fumava um cigarro despreocupadamente. O padre observou a porta de entrada do templo, ela ainda continuava fechada, do mesmo jeito que ele tinha deixado. — A igreja está fechada. – disse Motta aproximando-se do homem. – Porque não volta amanhã cedo para conversarmos. À medida que o padre chegava perto do homem, o cheiro acre da fumaça ia ficando cada vez mais forte, aumentando a sensação de náuseas do sacerdote. — Nunca imaginei que a casa de Deus fechasse. – disse o homem em tom zombeteiro. – Segundo os preceitos, a igreja precisa ficar aberta a todos os filhos desesperados a qualquer hora do dia ou da noite. – ele olhou para o padre com um sorriso irônico no rosto. – Sabe padre, eu tenho que me confessar. Cometi pecados graves e não posso esperar para purificar minha alma. Motta estava cansado e abalado, mas sentou-se ao lado do homem enquanto desenrolava a estola pacientemente. O homem, por outro lado, observava tudo com divertimento. Quando o padre estava pronto, o homem de suspensório começou: — Eu me arrependo pelas minhas faltas. Me arrependo por ter matado aquele bêbado miserável tão rapidamente. Me arrependo de não tê-lo feito sofrer mais... Os olhos do padre foram se arregalando conforme o relato do homem de suspensório ia se desenrolando. — Mas não vou me arrepender quando chegar a sua hora. O semblante do sacerdote perdeu totalmente a cor. O olhar demoníaco daquele homem era penetrante, fazendo seu coração bater de forma absurda. Motta correu pelo corredor do salão em direção a porta. Sentado no banco o homem de suspensório gritou: — Não adianta fugir padre! Motta correu até a porta. Suas mãos tremiam enquanto ele pesquisava no molho de chaves a correta. Lá fora ventava, o tempo aparentemente começava a mudar novamente. Sobre a porta de entrada da igreja, um cartaz suspenso por arames que estavam presos por pedaços de madeira em cada ponta da faixa. Aquilo tinha sido posto com o objetivo de convidar a comunidade para a festa em homenagem ao vigésimo quarto aniversário da paróquia. Motta olhava para trás desesperadamente, mas o homem de suspensório continuava sentado no banco com seu cigarro e rindo do desespero do sacerdote, quando finalmente conseguiu abrir a porta, uma rajada de vento arrancou uma das pontas do cartaz, criando uma espécie de pêndulo. A madeira solta acertou o padre nas costelas, no exato momento em que ele cruzava a porta, arremessando-o a alguns metros de distância. O homem do suspensório se aproximou de Motta com o mesmo sorriso de deboche. — Tudo nessa vida é inevitável. – expeliu uma baforada no rosto do padre que respirava com dificuldade. – Pobre Motta vai sofrer tudo o que o bêbado não sofreu, e eu vou permanecer do seu lado até tudo se tornar escuridão. O impacto tinha sido tão forte que suas costelas tinham sido quebradas perfurando o pulmão direito do velho. Enquanto tentava sorver o ar sem sucesso, ele rezava para que Deus tivesse piedade daquele homem. Aos poucos a visão foi ficando turva... Fernanda acordou no meio da noite sentindo um cheiro forte dentro do quarto, era o mesmo cheiro de cigarro que ela conhecia. Ele levantou assustada, olhando para todos os cantos do cômodo a procura do homem de suspensório, mas não viu nada. A porta do quarto estava entreaberta e ela conseguia ver uma luz fraca vindo da sala. Caminhou lentamente para fora do quarto dando com o homem sentado numa de suas poltronas lançando aquela fumaça fétida no ar. Ela congelou ao vê-lo na sala. Ele, por outro lado, a olhou com uma expressão de satisfação. — Mais um trabalho concluído. – disse ele num tom jocoso. Ela se aproximou apavorada. Não sabia como conseguia andar de tanto que seu corpo tremia. Porém, ela juntou toda a força que ainda estava em seu corpo e perguntou: — Do que está falando? — De quem mais? – perguntou o homem fingindo surpresa. – Do padre. Acho que ele não vai poder celebrar a missa no próximo domingo. A risada depois de ter dito essas palavras saíram da forma mais sinistra possível. Fernanda se lançou para a porta ganhando rapidamente a rua na direção da igreja. Queria poder gritar, pedir socorro, mas o impulso de correr a residência do padre foi muito maior. Olhando através do portão de grades, ele viu o corpo inerte do sacerdote enquanto o cartaz comemorativo balançava com o vento. Fernanda tentou forçar, mas o portão não cedia. Ela correu para o campo do cruzeiro esperando encontrar qualquer coisa que servisse de escada, precisa pular o muro da igreja. A cruz de concreto estava iluminada com algumas velas. Fernanda dessa vez não deu nenhuma atenção a ela, se meteu no mato procurando uma dos muitos caixotes largados naquele ponto, entretanto, para seu desespero, não havia nenhum naquela noite. Seu coração batia acelerado e as lágrimas escorriam por seu rosto copiosamente. O vento assobiava uma melodia infernal. Fernanda viu alguém parado na entrada do caminho que levava a via principal, o sangue gelou em suas veias ao confundir a figura com o homem de suspensórios. A silhueta encoberta pela penumbra das árvores era muito menor, mas igualmente conhecida. De pé na orla do campo do cruzeiro estava a velha que logo cedo havia lhe aterrorizado. — Por favor, me ajude! – implorou Fernanda não ligando para o que a velha tinha feito mais cedo. – Tem um homem ferido aqui dentro e eu preciso pular o muro. A velha não disse uma palavra, apenas se aproximou da mulher e a encarou com os olhos duros. — A culpa é toda sua. – disse com uma voz sibilante. – Pessoa de coração impuro. Maldita pecadora. Você queimará assim como todos da sua laia. A fúria dos céus... Um ruído alto interrompeu a velha. Um galho se desprendeu do alto de uma árvore acertando a mulher. Fernanda só teve tempo para ouvir o som do pescoço dela se partindo. Olhou para o lado e lá estava o homem de suspensório. Ele disse: — Hoje você está com tudo, docinho. – e fez um sinal de positivo enquanto acendia um novo cigarro. Fernanda correu para outro canto de muro, lá encontrou um tambor de ferro jogado na mata. Foi com muito custo que a mulher conseguiu transpor o muro e correr até Motta que mantinha seus olhos arregalados fitando o céu. Era tarde demais, ele já estava morto. Fernanda sentou nos degraus da igreja com as mãos sujas do sangue do sacerdote e chorou. — Porque chora, docinho? Isso tudo aconteceu porque você quis. Ela ergueu os olhos marejados para o homem de suspensórios. Ele novamente achou graça da confusão dela. — Não diga que não se lembra o que pensou quando aquele homem puxou o cachorro para fora da pista? Ou quando o bêbado fez aquela gracinha? – ele olhou para ela, agora com a expressão séria. – O que pensou quando o padre veio falar com você na noite posterior a morte do bêbado? O que acabou de pensar quando a velha pôs toda a culpa em você? A mulher não tinha tempo nem cabeça para aquilo. Aqueles jogos estavam acabando com sua paciência quando tudo invadiu sua mente de forma desordenada. Era como flashs que repetiam suas lembranças feito uma espécie de filme. Fernanda se viu parada no ponto no exato momento em que o homem puxava o cão morto pelo rabo até o canteiro central da via. Ela pôde ouvir sua própria voz dizendo: “Queria ver se ele gostaria de ser jogado de qualquer maneira num canteiro no meio da rua”. Sua cabeça rodopiou e ela estava novamente parada diante de si, mas em outro tempo. Agora ela tinha acabado seu encontro desagradável com Délcio: “Bêbado imundo, espero que um dia caia morto numa calçada”. Agora estava diante do padre na noite do dia em que encontraram o corpo de Délcio, logo depois dele ter se justificado em relação ao seu tratamento com o bêbado: “Se gosta tanto dele, então que vão os dois juntos para o inferno”. Um novo rodopio até a poucos minutos atrás quando ela tentava desesperadamente pular os muros da igreja e a velha se aproximou: “Porque essa mulher não desaparece da minha vida de uma vez”. — A realidade é brasa, não é docinho? – disse o homem de suspensório ao ver a expressão de Fernanda. — Como pôde fazer tudo isso? Eu nunca quis que nada disso acontecesse de verdade, eram só pensamentos. — É preciso ter mais cuidado com o que pensa, e principalmente com o que deseja porque eles podem acontecer. — Eu não quero você aqui. Porque não me deixa em paz. — Sabe como é. Nós temos uma ligação. — Mas que tipo de ligação é... Agora as palavras da velha faziam sentido. Ela levantou e correu novamente pelas ruas vazias do bairro, dessa vez para a casa. Fernanda entrou desesperada, na sala, o homem do suspensório já a esperava. O objeto de sua procura estava numa mesinha na sala, a imagem da menina. Fernanda a elevou e ia atirá-la ao chão quando o homem do suspensório disse: — Quebre-a e ficaremos juntos para sempre. Ou pode fazer como a velha que acabou de matar. Ela me ignorou por muito tempo e por isso acabou enlouquecendo, mas em compensação, viu muito de seus queridos terem destinos trágicos. – ele acendeu um cigarro e lançou no ar aquela fumaça branca e fétida. – Isso pode acabar com alguém, não acha? Ela sentou no sofá com a imagem nas mãos. Não tinha mais força para nada. As lágrimas voltaram a brotar em seus olhos lavando o rosto sujo com a poeira da rua. — Eu não quero você por perto. – ela disse com a voz chorosa. — Então a passe adiante. – disse o homem do suspensório como se aquilo fosse a conclusão mais obvia possível. Fernanda voltou para a rua, dessa vez com a imagem na mão e a depositou no mesmo lugar onde a tinha encontrado, no cruzeiro. Antes de voltar, ajoelhou-se diante da cruz e pediu perdão por seus pensamentos e pelas vidas tiradas. Antes de ir, ainda ouviu a voz o homem por mais uma vez: — Foi um prazer ficar com você, docinho. Só peça a Deus para que a próxima que apanhar a estátua não tenha raiva de você. A mulher voltou para casa com aquilo na cabeça. Não conseguiu dormir a noite toda, mas o homem do suspensório também não a incomodou. O dia começava e Fernanda saia de casa para sua rotina. Quando virou a esquina viu a concentração de pessoas na porta da igreja, tinham encontrado o corpo de Padre Motta. As senhoras que o ajudavam choravam desesperadamente, Fernanda dispensou uma olhadela e seguiu. No campo do cruzeiro, uma nova concentração de pessoas, dessa vez onde o corpo da velha jazia. Alguns comentavam sobre algum tipo de maldição no bairro. Fernanda passou em frente ao cruzeiro e não viu a imagem aos pés da construção. Como sempre fez o sinal da cruz e caminhou decididamente na direção da via principal. 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| Última atualização em Qua, 19 de Novembro de 2008 01:52 |