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Literatura - Poesias

Escrito por miguel gimenez
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Sáb, 29 de Novembro de 2008 03:47
Gênesis

- Haja luz!
A luz se fez
O Criador
Sorriu feliz

- Haja céu!
O céu se fez
O Criador
Dormiu em paz

Haja a Terra
E nela, o mar
No mar, as algas
E tudo o mais

- Haja Sol
- Haja Lua
- Haja estrelas...
(Assim se fez)

- Haja répteis
E muitas aves
E bestas-feras
E etecétera

Façamos o homem
E nele, o espanto!
O que faltar
Ele mesmo faz

E desde aqueles tempos
Até os nossos dias
Quebrou-se o encanto
(Pra nunca mais)




O outro lado da Avenida

Caminhava, eu
Na calçada
A Avenida movimentada
Parecia intransponível...

Naquela calçada
Onde eu caminhava (Terrível!)
As pessoas apressadas
Num indo e vindo sem fim...
Ninguém se conhecia
Naquela calçada
Onde eu caminhava

Por um momento parei
E olhei pra Avenida Intransponível:
- Seria possível atravessá-la?

Do outro lado
A outra calçada
Vivia tranqüila...
As pessoas amáveis
Se cumprimentavam...
Até parecia
Que lá do outro lado
Não era calçada
Daquela Avenida
Tão movimentada!

Por outro momento parei - hesitei
Mas tomei coragem:
- Conseguiria eu
Transpor aquela Avenida
Tão movimentada?

No meio da pista
Não me lembro bem a cor
Daquele automóvel
(Nem reclamo da sorte)
Mas um grave acidente
Me levou à morte
Na Avenida Intransponível

Então, de repente
(Feliz da vida)
Me encontrei caminhando
Naquela calma calçada
Do outro lado
Daquela Avenida
Tão movimentada






Coincidência graças a Deus

O homem moderno
Ligou o aparelho
Ouviu o Serviço
De Meteorologia
Desligou o aparelho
Pegou sua capa
E saiu pro trabalho

(...)

O homem moderno
Ligou o aparelho
Ouviu o Serviço
De Meteorologia
Desligou o aparelho
Pegou seu casaco
E saiu pro trabalho

(...)

O homem do campo
Tirou o chapéu
Olhou para o alto
Deu graças a Deus
Separou a semente
Botou na sacola
E saiu pro batente

Naquele mesmo dia
O homem moderno
Acordou meio tarde
Perdeu o Serviço
De Meteorologia
Mas como era sábado
Caiu para a praia

- Choveu!





Em nome do Pai

Recito versos
Não repito rezas
Não quero receitas
Coisas decoradas
(Odeio frases feitas!)

Prefiro o repente
Ele é mais sincero...

Eu repito versos
Não recito preces
Não tenho um rosário
Eu não sigo as contas

Não quero um rosário!
Eu já tenho uma bússola
Tenho uma espada
(Barrabás quem me deu)

Prá que serve o rosário?
Prá andar em círculos?
Meu caminho é torto
Mas eu tenho uma bússola
Pra não andar em círculos...

Eu recito versos
Não repito as coisas
Um milhão de vezes:
"Senhor,
Escutai as nossas preces"

O caminho das contas
É pra quem anda em círculos
De olhos fechados
Eu tenho os olhos abertos
Meu caminho é outro:
- É o caminho das pedras
Não é o das contas!





A lição

Se queres salvar-te
Do fundo do poço
Então grite: "socorro!"
Mas grite bem alto

Se queres alegrar-te
Em pleno Finados
Então diga: "viva!"
Mesmo sendo um defunto

Se queres casar-te
Com uma bela princesa
Não se engane: "estás louco"
Com toda franqueza

Mas se queres que a vida
Seja mil maravilhas
Então nasça de novo
Num outro planeta
Delta Deus

Quem dera o tempo
Fosse uma noite...
Pudera a vida
Na noite eterna
Dormir tranqüila

Nenhum sapo
Nenhum coiote
Nada de inseto
Nem mesmo um grilo

Nesse escuro quieto
Não haveria medo...
Acender a luz?
Essa matéria atroz
Que se fez um dia
Pra tirar do mundo
Toda paz que havia
Não havendo mundo?

Nenhum boêmio
Nenhum poeta
Nenhum poema
Nenhuma letra
Nem Alfa nem Ômega
(As favoritas de Deus...)
Quem sabe, Delta
Que é variante
(Nenhuma outra!)

Quem dera
Pudesse a vida
Não ser apenas
Uma quimera
Pra ser vivida

Quem dera, meu Delta
Quem dera...


Capitão Calebe

Pó-có-tó, pó-có-tó
Lá vem Calebe...
- Perdão: "Capitão" Calebe
Brincando alegre?
Cavalgando só

Ontem foi pirata
Olho de vidro, cara de mau
Hoje, Capitão Calebe!
Cavalgando alegre?
Num cavalo de pau...

Quando o Capitão se cansa
De tanto pó-có-tó
Vai até o bercinho ver Carolina
Chupando o dedinho
Resmungando só

Essa menina - pensa Calebe
Bem que podia
Crescer rapidinho
Pro Capitão - alegre
Não brincar tão sozinho






Eterno

Chego aos trinta - ainda mortal:
Não escrevi filhos
Não gerei árvores
Nem plantei livros...

Passo dos trinta - ainda mortal:
Não escrevi árvores
Não gerei livros
Nem plantei filhos

A celulose e o livro
Têm a fibra e a cara
Da árvore morta - da qual eles são filhos

Se morro aos quarenta, (não quero mármore)
Que me importa? Sou imortal!
- Pois volto pra terra - que é a mãe da árvore






Mortais

Somos todos iguais!
Dizia o marxista

Somos todos irmãos!
Dizia o profeta

Somos todos mortais...
Dizia o cientista

Podemos ser felizes?
Perguntava o rapaz

Somos todo sexo!
Dizia o psicanalista

O que diziam
O marxista,
O profeta
E o psicanalista,
Não o dizem mais...

Só o cientista:
- Somos todos mortais!




Fábula de Cordel

A florzinha Margarida
Andava muito ociosa
Fazendo seus mexericos
Ora em verso, ora em prosa
Chateava fauna e flora
De tanto fazer intriga
Já não tinha mais amiga
Nem mesmo Dona Formiga
Conseguiu ficar de fora

Pois não é que um belo dia
No humilde formigueiro
A florzinha sem rodeio
Se pôs a tagarelar...
Reclamava que a formiga
Pra alimentar a si e a amiga
(A cigarra Dona Farra)
Cortava as margaridinhas
Para a hora do jantar

A formiguinha inocente
Quis então se defender
"Essa acusação não procede
Escuta só vou lhe dizer:
Sou uma formiga doceira
Não sou uma cortadeira
E não vejo mal nenhum
Qualquer formiga comum
Cortar uma flor para comer"

Diante de tal discurso
Flor ficou sem argumento
Preferiu mudar o tom
(Não havia outro recurso)
Achou melhor pedir perdão
Um abraço, um aperto de mão
Parecia o mais sensato
Naquele momento exato
É que se deu a confusão

A formiguinha cristã
Ao beijar a impostora
Percebeu naquela hora
Um doce de bom sabor
"É néctar" diz a cigarra
Aí foi a maior farra:
A formiguinha doceira
Achou que era besteira
Perdoar aquela flor

Moral da história não tem
Vou dizer o que sucedeu:
Naquele beijo de língua
Que a formiga doceira deu
Margarida ociosa
Começava a trabalhar:
Como num conto de fadas
Virou princesa produtora
Na cadeia alimentar




A menina e a borboleta

A menininha vinha andando
Com seus passinhos de criança
Nisso viu uma borboleta
Com suas asas de inseto

Disse então a menininha:
- Quer me dar suas asinhas?
A borboleta surda-muda
Continuava bem quietinha

A menininha ali parada
Com seu arzinho de esperança
Esperava uma resposta

Criaturinha tão ingênua:
- Pudera toda borboleta
Voar com asas de criança





O velho, o menino e o burro

Um velho e um menino
Iam à frente
Puxando um burro
Um burro bonito e forte...
Um menino ainda pequeno...
- Monta o menino no burro!

O velho cansado e fraco
Ia à frente
Puxando o burro
O burro bonito e forte
Carregando o menino pequeno
- Troca de lugar com o menino!

Ia à frente
Puxando o burro
Aquela pequena criança
O burro bonito, forte
Carregando o pobre velho
- Menino, pega a garupa!

O avô assim contava
A velha história pro neto
E eu achava tão bacana:
- O desfecho sempre era novo!
No final que ele criava
Ninguém carregava o burro

"Em Nazaré eles chegaram
(Estavam fugindo do Egito)
Mas é claro que haveria
Quem olhasse inconformado:
- Por que o velho e o menino?
Monta no burro, Maria!"



Sonho ou presságio?

A vida é um sonho.
(Às vezes presságio)
O amor é um sonho
(Às vezes presságio)

Minha vida é um sonho
Meu sonho é amor
Meu amor é um sonho
(Às vezes presságio)

A vida sem sonhos
Nem chega a ser vida
O sonho é real - a vida é falsa

Se sonho, vivo - enquanto a vida passa
Como passa um sonho
Se é que um sonho passa
Homo Sapiens





To be or not to be

Ser ou não ser?
Eis a questão:
Ser bobo ou ser rei?
Eu não tenho opção...

Ser rei
É uma questão de sorte
Ser palhaço
É uma questão de arte

Ser ou não ser?
Eis a questão:
Ser louco ou ser gênio?
Eu tenho opção?

Ser gênio
É questão de momento
Ser louco
É uma questão de tempo

Ser ou não ser?
Eis a questão:
Ser padre ou filósofo?
Ateu ou cristão?

O filósofo é ateu?
O padre é cristão?
Sou Deus e o Diabo
Querendo ou não

Por amor à verdade
"Só sei que nada sei"
(É melhor um rei bobo
ou um trono sem rei?)

To be or not to be!
Seja padre, filósofo
Ou professor de Inglês:
Quem traduz isso aqui?





Quando eu me for

Se um dia eu morrer
Sem ter feito o que quero
E alguém perguntar
Quando foi que morreu?
- Morreu antes da hora

Se um dia eu morrer
Sem encontrar minha amada
E alguém perguntar
Onde foi que morreu?
- Morreu no meio da estrada

Se um dia eu morrer
Sem ver meu livro acabado
E alguém perguntar
De que foi que morreu?
- Morreu assassinado

Mas, se um dia, eu, velado
Com semblante feliz
Aos prantos for perguntado
Por que foi que morreu?
- Morri porque eu quis!



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Alguma Poesia
Sáb, 29 de Novembro de 2008

© 2010 - Autores.com.br


Última atualização em Sáb, 29 de Novembro de 2008 10:49
 
Comentários (5)
  • miguel gimenez
    avatar
    Errata: "Delta Deus" é o título de um poema e não o último verso de "A lição".
  • SANTOSH
    avatar
    Estes é que são dígnos de um pedido de autógrafo. :) :) :)
  • juarezdobrasil
    avatar
    Gostei das poesias que li. Sugiro que as publique no site em páginas separadas, para que mais pessoas possam ler e fica melhor, na minha opinião. Um abraço.
  • Abreu
    avatar
    Publicadas em uma mesma página - como comenta o Juarez -, escritos tão diversos, faz os valores se equevalerem.
  • miguel gimenez
    avatar
    Olá Abreu, Obrigado pela observação. Eu estava iniciando neste site quando publiquei estas poesias. Não tinha muita noção de como funcionava. Vou publicá-las novamente. Separadas. Um abraço.
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