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Eu poderia perfeitamente bem culpar o mundo todo e todo o mundo pelos meus erros, mas aí eu estaria sendo covarde, e covarde eu não sou, padre. Errar é algo humano, e é em errar que está a beleza do ser humano, porque só errando se é capaz de acertar, mas as pessoas têm medo de errar, até o senhor erra, padre, mas esses pecados são seus, o senhor é que presta contas junto a Deus, no momento me importo mais comigo... Aliás, o egoísmo é outra coisa humana. Os homens são tão vulneráveis, sempre sujeitos ao fracasso, às mazelas, acho que isso é o que mais me encanta em Deus, ele não erra. Deus é perfeito, padre. Eu queria ser como Deus, só tem uma coisa que eu não conseguiria fazer, perdoar. Aliás, se Deus perdoa todo mundo, então porque as pessoas dizem que ele castiga também? Ele não é bondoso?! Então ele não deveria castigar ninguém. Mas depois de um tempo eu acho que eu entendi, ele não castiga, mas manda castigarem...
Eu sempre fui cobrado, a todo instante, pelos meus pais, eles queriam ter um filho médico, e acho que já disse que tive uma educação bastante rígida. Sempre queriam que eu tivesse as melhores notas, e eu até conseguia, menos em matemática, não que minhas notas fossem ruins, mas as da Gabriela eram melhores. Ela era minha amiga, padre, éramos os “nerds” da sala e você sabe que gente rotulada assim sempre anda junta. Ela era legal, tentava, mas não sabia o que eu passava, era minha única amiga, na verdade, ninguém sabe o que eu passava, só o senhor agora. Sempre tive medo de contar, sei lá, vai que meu pai, com mais raiva ainda por eu ter contado, resolvesse me bater, acho que ele seria capaz de matar.
Por falar em matar, e já que eu estava falando da Gabriela, vou contar porque ela deixou de ser minha amiga, não tinha dito ainda, não é? Pois vou contar agora.
Era semana de prova no colégio e meu pai havia tido uma conversa comigo, disse que se a minha não fosse a nota mais alta da sala ele nem ia saber o que ia fazer comigo, imagina padre, agora eu já estava mais grandinho, acho que uns 10 anos, mas sempre sofri esse tipo de pressão, e se tem algo que meus pais sabiam fazer era pressão, a isso sim. Às vezes eu achava que eles eram policiais, daqueles que fazem tortura psicológica sabe?! Foi a semana inteira, padre, trancado no quarto, ouvindo meu pai esbravejar que não ia aceitar um filho burro dentro de casa, e não ia mesmo, eu o conhecia bem.
As vésperas do dia da prova de matemática, eu não sabia onde pisar, eu estava neurótico, pressionado, mal comia, tinha medo, vontade de bater no meu pai, vontade de fugir, mas eu sabia que tinha que tinha que estudar, passei a aula inteira calado, o que não era novidade, sempre fui calado, mas nesse dia estava mais, não participei da aula nem nada. A Gabriela, como minha única amiga, percebeu meu estado psicológico alterado, ela era boa em perceber esse tipo de coisa, ia ser uma excelente psicóloga, na verdade, ela é. Ela conseguiu.
Naquele dia, ela veio falar comigo, dizendo que estava preocupada:
- Me deixa ,Gabi, não estou bem
- Mas o que você tem, Paulo? Pode contar comigo
- Me deixa garota, já falei
Eu também era o único amigo dela, acho que por isso ela se sentiu na obrigação de me ajudar com meus problemas, mas aquilo estava me irritando. Acho que herdei o gênio do meu pai, ele era meio explosivo, meio não, ele era explosivo por inteiro, como uma banana de dinamite prestes a consumir todo o pavio e explodir. Eu estava exatamente assim:
- Fala, Paulo. Você sabe que somos amigos, pode falar tudo comigo
- Eu já pedi pra você sair daqui, me deixa em paz
- Anda, senta aqui, me conta.
Sabe quando se acorda pela manhã e se espreguiça quando você ainda ta com preguiça, padre? Que sobe aquele calor como se o seu sangue estivesse tentando avisar ao seu corpo inteiro que já é hora de começar o dia novamente? Você sente um leve formigamento, um calor. Eu estava como uma panela de pressão, meu sangue fervia na palma de minhas mãos e subia pelos meus braços, foi tomando conta da minha ciência, a raiva foi se fazendo dona, chutando a porta. E pela expressão da Gabriela, acho que o sangue dominou meus olhos, ela me olhou como se estivesse na frente de uma tela de cinema onde estivesse passando o filme mais aterrorizante, com o monstro mais aterrorizante e esse monstro estivesse fazendo a maior atrocidade do mundo. Parece exagero, ou até coisa boba, mas a expressão dela não era, parecia que previa o que ia acontecer. Por instantes parecia que eu estava fora de mim, parecia que tinham dominado meu corpo, não era eu, padre, não era.
Eu queria que ela calasse a boca, ela não sabia e nem se soubesse, ela não ia entender o que eu passava. Porque todo mundo tem esse falso desejo de ajudar, padre? Todas as pessoas tentam se mostrar tão prestativas, ninguém é assim tão prestativo, ou talvez alguns sejam, mas eu sei que Gabriela não era, ela mentia bem, era uma excelente atriz. Só não conseguia calar a boca e eu estava cada vez mais irritado. Até que explodi.
A segurei pelo pescoço, impedindo-a de falar, foi uma força que nem eu sei de onde me saiu, eu era frágil, um garoto fraco, magro, raquítico, não dispunha daquela força toda. Mas ela me veio. Depois de um tempo fiquei a pensa, será que não seria algo, ou alguém que me doou essa força toda por pura maldade e desejo que eu cometesse alguma atrocidade? Mas acho que não, Deus está sempre comigo, se tivesse de ser alguém, acho que seria ele.
Eu podia ver a expressão de medo no rosto dela, os olhos saltaram das órbitas, eu ouvia o coração bater em um ritmo que nenhum percursionista seria capaz de acompanhar, era tão rápido que chegava a pensar que nem batia mais, por não sentir os intervalos entre as pulsações. Seria até bom, me pouparia trabalho. Suas mãos tamborilavam em cima das minhas tentando se soltar, mas ela era fraca e eu tinha uma força sobrenatural em meus punhos, logo ela percebeu que era inútil e tentou usar o resto do sopro de coragem que ainda estava expirando dentro do peito para falar:
- Me solta, Paulo.
- Eu pedi pra você parar de falar, então agora você vai me ouvir. E é melhor ouvir bem, porque só vou falar uma vez.
Até minha voz era temerosa, tremia, engrossava, coisa que não deveria acontecer com um garoto de 10 anos. Acho até que Gabriela chegou a pensar que eu estaria possuído... mas não, ela não acreditava nisso, era muito “cientifica” daquelas que acreditam em Big-Bang e tudo mais, pecadora, padre, pecadora:
- Você. Você precisa se sair mal na prova de matemática amanhã, porque eu estou cansado de ficar na sua sombra, entendeu?
- Mas porque? Se quer ficar na minha frente, então estude.
- A questão, querida amiga, ´que você é bem mais que eu, e vai ter que deixar de ser.
O que eu falava não tinha mais sentido nenhum, era tudo meio confuso. Peguei uma caneta, e a empurrei, para o canto de parede, mirei a caneta na sua garganta, encostei:
- Acho bom você pensar bem no que eu disse, se não algo ruim pode acontecer, com você e com sua família, posso não ser homem grande, mas tenho coragem de mil deles. Se ama sua família, pense bem no que eu disse e se saia mal na prova amanhã, e nem pense em dizer nada a ninguém, você sabe muito bem o tipo de garoto que eu sou, o frágil, incapaz de fazer uma atrocidade dessas. Ninguém vai acreditar em você. Você sabe disso.
Ela não falou mais nada, mas seus olhos a denunciavam, ela estava com muito medo e eu sabia que ela faria o que eu tinha pedido. Soltei sua garganta e sai da sala. Pouco depois meu sangue foi voltando ao fluxo normal, e aquilo era meio estranho eu me sentia leve, jurava que podia voar e jamais me arrependeria do que tinha feito, melhor que seja ela do que eu. Sim, porque mais uma nota a baixo dela e seria eu em seu lugar e meu pai na outra ponta da caneta...
Era o dia da prova, eu estava sereno, tranqüilo, acho que tinha certeza que Gabriela ia fazer o que eu tinha pedido, sabe padre.
A professora entrou, olhou pra todos e logo entregou a prova. Eu percebi que Gabriela me olhava ainda com medo, então eu resolvi dar só mais um pouquinho de ênfase a minha ameaça, segurei a caneta na mão como se fosse uma faca e lancei um risinho sarcástico pra ela. Eu não podia correr o risco de ter mais uma nota a baixo da dela. Sei lá o que meu pai iria fazer. Sabe, padre, às vezes fico pensando que nunca passei de uma grande decepção na vida de meus pais, ou um estorvo, sei lá. Acho que era por isso que eles sempre foram tão rígidos comigo. Eu tinha que mostrar a eles que eu tinha algum valor e algum motivo por estar vivo. Afinal de contas, o casamento deles sempre foi um fardo grande demais pra ser carregado, principalmente para o meu pai, ele precisava se esconder atrás desse estereotipo de família perfeita, até porque, não sei se eu já falei, mas meu avô era igual a ele, se não fosse pior. Era um ex-militar que pregava que um homem só era homem se tivesse uma mulher, um filho, uma casa e várias amantes. Engraçado é que minha avó sempre foi infiel. Acho que ele nunca soube disso, mas minha avó me falava e eu só achava engraçado. Era engraçado, padre, como um homem tão moralista era traído pelos valores inadequados da sua esposa sobre quem ele gritava ao mundo inteiro que era uma Amélia, o senhor sabe o que é uma Amélia, não sabe, padre? Aquelas mulheres que vivem para cuidar da casa e dos filhos. Para o meu avô uma mulher não poderia trabalhar, só se fosse dentro da própria casa. Típico machão, e meu pai tinha que ser exatamente como ele. Mas não vou entrar nessa história agora, eu estava falando da prova de matemática e da Gabriela. Pois bem, peguei a prova, olhei todas as questões, seria um 9,0 no mínimo, e pra Gabriela, um 10,0 na certa, mas não seria, pelo menos eu rezava pra que não fosse. Terminei a prova e sai da sala com a caneta na mão ainda em posição como se fosse uma faca. Só pra amedrontar um pouco mais.
Na outra semana veio o resultado da prova, tirei 9,8, padre. E Gabriela, um 7,3. Parece que a ameaça funcionou. E eu nem precisei passar dias trancado no meu quarto me matando de estudar, só precisei de uma caneta, um pouco de raiva, de medo e de coragem. Foi fácil, consegui um modo fácil de conseguir as coisas. E o melhor de tudo, é que se ela fosse contar a alguém, ninguém ia acreditar, eu era pacto demais pra fazer uma coisa desse tipo. Seria impossível. O que era perfeito, porque eu poderia fazer sempre. Mas nem precisei fazer nenhuma outra vez sabe, padre, essa única vez já bastou até o último dia do ano. Depois Gabriela mudou de colégio e eu era o crânio da sala, sempre com boas notas. Mas meus pais encontrariam outro motivo pra me bater, isso era certo. Era como um hobby pra eles. Ou eu era o bode expiatório, sabe, meio que como um saco de pancadas pra aliviar o stress, sei lá.
Mas que funcionou, ah, isso sim é verdade. E muito bem, não é, padre?
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