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QUE NEM NOVELA Enviar por e-mail
Livros - Ficção

Escrito por miguel gimenez
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Qui, 04 de Dezembro de 2008 14:57
Episódio 1:
Galinha com cenoura

A notícia havia sido transmitida no horário nobre do telejornalismo. Bem no momento em que Dona Crotilde e família se sentavam à mesa para jantar, como faziam todas as noites pontualmente na hora do jornal porque, como dizia Dona Crô, "é hora sagrada". Mas ela não se referia ao noticiário e muito menos ao jantar. Hora sagrada era a hora da novela das oito: momento de harmonia, de reflexão, de silêncio absoluto.
É que Seu Nonô havia decretado uma lei (ordinária) proibindo as refeições no sofá vendo novela. Então Dona Crotilde e as crianças maiores votaram uma emenda adiantando o jantar em uma hora - horário de Brasília e também do Jornal Nacional - a hora sagrada daquele chefe de família. ("Só ele se importa com as notícias. Não é justo servir o jantar depois do jornal só por causa dele...").
Pobre Patriarca! Enfrentava um problema de "fuso-horário-sagrado" dentro do seu próprio lar! Agora, além de não poder ver as notícias do Brasil e do mundo (será que o Brasil não faz parte do mundo?) ainda tinha de amargar aquele momento de família reunida sem harmonia, sem reflexão, sem silêncio absoluto.
- Será que vocês só ficam quietos diante do computador ou da televisão?!
Foi aí que o Seu Nonô teve a brilhante idéia:
- Já sei! Vou instalar uma TV 14 polegadas na sala de jantar!
E instalou mesmo.
- Pronto! Tudo resolvido!
Será?
- O senhor mesmo disse que era proibido ver novela na hora da comida - fez lembrar um dos constituintes daquela mesa.
- Essa galinha tá salgada - protestou outro, desrespeitando a ordem das falas daquela sessão, digo, daquele jantar.
- Eu não estou vendo novela. É jornal - se defendeu aquele chefe, que preferiu ir pelo caminho da argumentação ao invés de resolver logo o problema mandando o filho calar a boca.
- São os biscoitinhos da Turma da Mônica que você come todos os dias antes da janta... "barriga cheia, goiaba tem bicho" - filosofou Dona Crotilde, mas filosofou tarde porque o Juninho já tinha comido os biscoitos mesmo... e também a sua fala já tinha passado.
- Plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim...
- O jornal só fala de política, e o senhor vive dizendo que a nossa política já virou uma novela - retomou a palavra o primeiro (primeiro?), também trilhando pelo caminho da argumentação, até porque, naquela família ainda era proibido mandar o pai calar a boca.
- Plim, plim, plim, plim, plim...
- Me passa o suco de goiaba sem bicho...
- Eu disse que a nossa política virou novela? Pois eu me retrato: virou foi caso de polícia!
- Plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim...
A ordem das falas não alterava a bagunça daquele jantar.
- Silêncio! Eu quero ver o jornal!
- Plim... plim...
Era o fim do caminho. Da argumentação. Mas não do barulho.
- Tá vendo, Juninho, você não fica quieto! O pai quer ver o jornal...
- Eu não tava falando nada!
- Mas fica batendo no copo com o garfo o tempo todo...
- Silêncio!!!
- Essa fala é minha...
Seu Nonô tinha razão: aquela fala era dele. Dona Crotilde, na hora do jornal pedindo silêncio... era de causar espanto! E silêncio...
Agora a família Gouvêa escutava atentamente a reportagem. Menos Seu Nonô, que preferiu aproveitar o recesso para saborear a deliciosa e rara "galinha com cenoura". A matéria não era sobre polícia nem tão pouco um caso de política (e vice-versa) e era melhor comer logo antes que a comida esfriasse.
"... Os agrônomos descobriram que o tal fungicida, usado pela maioria dos horticultores do país, é o responsável pelo alto índice de metais pesados, principalmente o mercúrio, encontrados na cenoura. O mercúrio torna-se mais tóxico quando convertido em Metilmercúrio pela ação das bactérias. De acordo com o Instituto..."

O Instituto não importava. Importava, sim, o tom grave com o qual a notícia havia sido transmitida. E a notícia havia sido transmitida no horário nobre do telejornalismo, aumentando ainda mais a gravidade do problema.
- Você viu isso, meu bem?!
- Isso, o quê?
- O que disse o repórter...
- E o que é que disse o repórter?
- Disse para você parar já com esse jantar, uai! As cenouras estão contaminadas... envenenadas... sei lá... todas as cenouras do país...
- É sim, pai! Com uns metais da pesada! Tem um convertido... um tal Metil... Metil... Metilmmmer...
- Metilmercúrio - se adiantou o pai em socorro do filho menor.
- Pois então você já sabia?! E não nos disse nada?!
- Meu pai já sabia, não sabia, pai?
- Sabia o quê?
- Que as cenouras do Brasil e do mundo estão envenenadas e muito contaminadas... e pára de comer... quer morrer de câncer, quer?!
- Calma, querida... eu não sabia de nada, não... e também não precisa de pânico, a gente quase não consome esse... esse... legume... a não ser quando você prepara galinha com cenoura para comemorar nosso aniversário de casamento...
Era uma receita da sogra. Sogra dele. Dessas receitas cheias de segredos, que passam de mãe para filha e não tem na Internet nem passa na televisão... para datas especiais...
Seu Nonô já havia se levantado. Só as palavras não seriam suficientes para acalmar a patroa. Era melhor tentar uma massagem, um carinho, um copo de água com açúcar...
- Adoçante, meu bem. Com adoçante.
- Que bom, minha querida, que você tenha se lembrado do nosso aniversário de casamento...
- Ora, meu bem... eu... é que eu...
- Pensei que tinha esquecido... bebe, vai te relaxar um pouco...
- Obrigada... é que eu...
As crianças tinham se mudado para a sala de novela. Dona Crô já respirava melhor, os batimentos mais compassados. Mas continuava um tanto encabulada...
Era muita coincidência... logo o prato predileto do marido... o prato preparado uma única vez no ano! Estava condenado aquele prato. As cenouras estavam condenadas...
Era muita coincidência Dona Crotilde ter preparado galinha com cenoura justo aquele dia! Uma chance em trezentos e sessenta e cinco: ela não se lembrava do aniversário de casamento...
- É muita coincidência! - pensou Dona Crotilde.
Mas preferiu não confessar o esquecimento ao marido.

Episódio 2:
Em preto e branco

Naquela noite foram para a cama mais cedo.
O vinho do Porto, guardado para ocasiões especiais, safra dos tempos em que não se usava tanto agrotóxico nas lavouras, certamente estaria livre dos metais pesados... e principalmente do Metilmercúrio.
- Você tinha tanto ciúme dessa garrafa de vinho...
- É uma data especial, não é? Afinal, querida, quantos anos de casado estamos completando hoje?
- Meu bem, como você pôde esquecer...
A frase ficou pela metade. Era melhor não censurar o marido por não se lembrar dos quinze anos de união conjugal. Era melhor perdoar aquele pequeno lapso de memória... momentos antes ela não lembrava sequer a data do casamento... ainda sentia um pouquinho de culpa no cartório. Aliás, do cartório ela se lembrava perfeitamente, assim como se lembrava dos outros cinco pares de noivos, casados naquela mesma sexta-feira-treze, novembro de oitenta e sete, calor de quarenta graus e um único ventilador de teto. Disso ela se lembrava... na verdade Dona Crotilde se atrapalhava um pouco porque, nem sempre, o aniversário de casamento caía no mesmo dia da semana... em noventa e dois e noventa e oito foi fácil: a sexta-feira-treze caiu em novembro direitinho! Bem que podia ser como o carnaval, sempre na terça. A quarta-feira-de-cinzas... a morte de Cristo na sexta-feira-da-paixão... a ressurreição, três dias
depois, num domingo-de-páscoa...
Num domingo? Três dias depois não dá numa...
O fato é que naquela quarta-feira-treze, novembro de dois mil e dois, Dona Crotilde se esquecera do aniversário de casamento, mas havia sido salva por uma coincidência: "galinha com cenoura".
(Ou teria sido providência Divina? Não, creio que não. Deus não usaria cenouras com metais pesados...).
- Quinze anos, meu bem. Quase a idade da nossa filha...
- Minha querida, você se casou grávida?!
O tom era de brincadeira. É claro que ele se lembrava desse detalhe...
Seu Nonô era um cinqüentão. Um cinqüentão bastante conservado é verdade. Funcionário público há mais de vinte e cinco anos, homem de bons princípios, cabelos ligeiramente grisalhos... ela, Dona Crotilde, trinta e cinco, normalmente de dona de casa, lenço na cabeça, avental em tom escuro, andar apressado... agora trajava uma camisola lilás, quase transparente, cabelos soltos na altura dos ombros, movimentos suaves combinando com o vinho. Bem diferente da Dona Crotilde do dia-a-dia.
Nonô aos poucos ia deixando de ser cinqüentão, funcionário público, homem de bons princípios... ia se resumindo apenas em "homem", no sentido mais biológico possível. Começava a reparar o quanto a sua esposa era linda, o quanto ainda era linda e desejável mesmo depois de quinze anos de casados.
Mas a noite não podia inspirar apenas sexo. Seu Nonô precisava controlar por um pouco mais seus impulsos... era preciso promover um certo romantismo... buscar poesia lá no fundo da alma... ou noutra taça de vinho, quem sabe.
Dona Crotilde também não queria pressa:
- Meu bem, você lembra como tudo começou?
Ele lembrava: uma noite de Confraternização Universal (para aqueles que comemoram o ano novo no dia primeiro de janeiro), um solteiro já passado dos trinta (no caso, ele), um cravo encravado bem próximo à narina direita (no caso, a dele) e uma jovem muito bonita num daqueles vestidos brancos. Como se o branco daquela festa pudesse trazer a paz tão desejada! A jovem (no caso, Senhorita Crotilde) fora fisgada pela curiosidade - Nonô trajava preto da cabeça aos pés...
- Qual é a tua, hem urubuzão?
- Urubua! E pode ser assim, branquinha mesmo...
Passaram o reveillon juntos. Começava ali um namorico em preto e branco. Ele precisava mesmo de uma namorada: um cravo bem próximo à sua narina direita, lugar de difícil acesso - só mesmo uma namorada para desencravá-lo...
Namoro ficou mais sério, virou noivado. Noiva ficou grávida...
Dona Crotilde continuava sem pressa:
- Meu bem, você acredita em amor à primeira vista?
Ele acreditava.
Acreditava nas contas do governo, nas boas intenções dos países mais ricos... nas histórias do Juninho, no Walter Mercado, no burro falante... acreditava em muita coisa depois da terceira taça de vinho...
Dona Crô parecia ainda mais bonita, sexi...
Seu Nonô tomou-a em seus braços, com força, e beijou-a demoradamente, um beijo tão molhado quanto lhes permitia aquele tinto do Porto. Aos poucos, e sem se largarem, o casal se aproximava da cama estrategicamente decorada por almofadas de cetim... as carícias aumentavam... os gemidos eram inevitáveis... a camisola já havia ficado para trás... Dona Crotilde ofegante, coração a mil:
- Meu bem... meu bem... meu bem... tem um baita cravo na sua narina direita!

Episódio 3:
Galinha sem cenoura?!

A notícia havia sido transmitida no horário nobre do telejornalismo. Por isso era melhor levar a sério. Dona Crô não queria ver sua família contaminada. Tratou logo de juntar o resto de galinha com cenoura da janta, o resto de cenoura da geladeira, arrumou tudo num saco plástico resistente a metais pesados e colocou no lixo... não sem antes se ater ao cuidado de advertir em vermelho:

"MATERIAL RADIOATIVO!"

Será que o Metilmercúrio é radioativo?
Não importava. Devia ser tão perigoso quanto o Césio 137, o Urânio 235, a Criptonita S/Nº que aparece nos filmes...
Depois preparou o café e arrumou a mesa para o desjejum. Seu Nonô se recusou a comer naquela manhã. Estava chateado... teria sim quebrado seu "jejum" a noite passada não fosse aquele cravo encravado em sua narina direita... pior que, para desencravá-lo, Dona Crotilde havia provocado alguns arranhões acidentais em seu rosto (era um cravo muito antigo, em lugar de difícil acesso). Aqueles arranhões provavelmente seriam motivo de chacotas na repartição onde trabalhava:
- Aí, Nonô! A noitada foi boa, hem!
Ou então:
- Se o rosto está assim, imaginem como deve estar as costas dele!
Talvez fosse melhor faltar ao trabalho.
Mas pensando bem...
- É melhor agüentar as chacotas a ter que suportar Dona Crô falando em cenouras, metais pesados, câncer o dia todo.
No que preferiu pegar sua pasta e sair. Também os meninos saíram com o pai. Ana Maria, a Debutante, estudava à tarde. Ainda sentada à mesa, queria contar o capítulo da novela que a mãe havia perdido. Mas qual o quê, a mãe não podia se dar ao luxo de ver, digo, ouvir novela ou qualquer coisa semelhante. Precisava ligar urgentemente para as amigas, avisar sobre o Metilmercúrio, quem sabe fundar uma ONG para proteger a saúde das famílias gumercinenses...
E o jantar? Era melhor editar uma MP transferindo o jantar para a hora da novela. Assim daria para assistir o jornal mais tranqüilamente (tranqüilamente?), sem aquele converseiro todo, barulho de talheres, as implicâncias do Gustavo com o pai e o irmãozinho caçula...
Ah! As amigas...
- Alô! Mercedes? Mercedes, você assistiu o jornal ontem à noite?
- Não, Crô. O jornal não... mas você viu o flagra que o Mateus deu na mulher dele? Com o melhor amigo! O capítulo de hoje vai tá o máximo!
- Não, Mercedes, eu não vi a novela ontem...
Quem sabe a Carmem...
- Alô... Carmem? Carmem, Você viu o Metilmercúrio?
- Não, Crô. Eu vi o Mateus...
A Renata! A Renata é professora de Filosofia...
- Renata?
- Oi, Crô! Eu já ia ligar pra você... e aí, você viu o Mateus?
- Que merda! Será que ninguém vê jornal nessa cidade?! Vocês só pensam em novela?! Será que...
- Peraí, Crô. Também não precisa estressar... olha, se for sobre aquela Associação para defender a cidade do ataque dos gafanhotos...
- Gafanhotos? Que gafanhotos?!
- Não é sobre os gafanhotos?
- Não...
Era uma matéria que Dona Crotilde leu por acaso no jornal da cidade... mas isso tinha sido o mês passado...
- Depois a gente se fala, Crô... preciso corrigir umas provas... e eu nem sei onde coloquei a chave de correção... estou perdida... depois eu te ligo.
Pobre Crotilde! Estava sozinha naquela batalha contra os metais pesados.
- Esse povo só pensa em novela!
Mas era melhor ela começar a pensar no almoço. Logo as crianças chegariam do colégio. Nonô não viria almoçar em casa. Faria um lanche rápido e voltaria ao trabalho, tinha muita coisa pendente na repartição... um funcionário havia faltado...
(Será que estava com o rosto todo arranhado?).
- Mãe, a aula de hoje foi sobre alimentação. Eu preciso fazer uma pesquisa sobre vitaminas... o almoço tá pronto?
Estava.
A Dona Crotilde do dia-a-dia era uma mãe muito dedicada. Isso ninguém podia negar.
- Os dois, já: lavar as mãos! Ainda não tiveram aula de higiene não?
- Mãe, a professora disse que os pratos coloridos são os melhores...
- Os nossos só tem uma cor, mãe! Compra um colorido pra mim...
- Deixa de ser bobo, Juninho! Eu não tô falando de prato "prato", eu tô falando de prato "comida"!
- Não fala assim com seu irmão. Ele é pequenininho ainda... vamos, deixem de conversa e tratem de comer...
- Mãe, o Joca e o Bruno vêm aqui depois da aula de Inglês pra gente fazer o trabalho sobre vitaminas.
A mãe sabia o que isso significava: revistas espalhadas pelo chão, pesquisa na Internet, pipoca no sofá, suco de acerola com mamão... até porque o trabalho era sobre vitaminas... mas não era problema para a Super Crô, ou pelo menos não era um problema tão sério quanto os metais pesados.
Dona Crotilde n

ão tinha muita habilidade com as Ciências Naturais e a Matemática, mas sempre ajudava as crianças na redação dos trabalhos escolares. Era ela quem fazia a revisão dos textos. E foi justamente naquela tarde, ajudando os meninos nas pesquisas, que teve o prazer de conhecer o Caroteno...

Episódio 4:
Que mundo é esse, meu Deus?!

Seis da tarde Dona Crotilde não esperava no portão. Não tinha portão. Às vezes esperava no corredor. Corredor tinha.
- Meu bem...
- Querida, não são os gafanhotos de novo, são?
- Não...
- Ah, não, Crotilde! O Metilmercúrio outra vez?!
Não era o Metilmercúrio. Também não era o Gustavo, não era o Juninho, nem tão pouco a Ana Maria.
- Sabe o Caroteno?
Ele não sabia. Nunca tinha ouvido falar.
Também não sabia que o jantar ia ser atrasado em uma hora. Estava morrendo de fome. O dia havia sido exaustivo.
Pior que ele já estava quase se adaptando ao fuso-horário da família... essa agora...
- Querida, estou morrendo de fome... o dia hoje foi exaustivo...
- Meu bem, a partir de hoje o jantar será servido somente depois do jornal... você tinha razão, a gente precisa estar por dentro do que está acontecendo no mundo...
E o que é que estava acontecendo no mundo?
Guerras, terremotos, enchentes, miséria, corrupção, shows de rock in roll... era o que estava acontecendo no mundo. E ele, Nonô, funcionário público há mais de vinte
e cinco anos, morava naquele mundo...
Estranho que ele não tivesse combatido em nenhuma guerra, não tivesse presenciado nenhuma catástrofe, nenhum tremorzinho de terra sequer... também nunca havia passado fome, pelo contrário, sua família até ostentava um pouco de conforto material. Corrupção ele conhecia de perto, afinal, era funcionário público há mais de vinte e cinco anos. Mas ele mesmo nunca se envolvera em qualquer tipo de fraude, era um homem de bons princípios...
E nem de rock in roll ele gostava! Era fã do João Gilberto...
Nonô, o Extraterrestre, afrouxou a gravata, se libertou do paletó e da pasta, preparou uma bebida e começou a reparar o Juninho montando um quebra-cabeça no tapete da sala de novela. Como era sabido o caçulinha! Às vezes confundia uma peça do joguinho com os biscoitos da Turma da Mônica, é verdade. Mas logo era avisado da troca pelo paladar - seu sentido mais aguçado! Aproximou-se do filho, mas não quis ajudar naquela árdua tarefa de juntar os pedacinhos. Preferiu ajudar nos biscoitos - estava morrendo de fome! Depois riu de si mesmo:
- Vodca com biscoito de chocolate!
Gustavo, o filho do meio, era o craque da família. Fazia tempo que o pai não assistia a uma partida de futebol no colégio... e Ana Maria? Como havia crescido! Os traços da mãe, a energia do pai (quando era moço), o sorriso mais lindo do planeta!
Que mundo bonito era aquele mundo da família Gouvêa!
Dona Crotilde era meio exagerada, mas nada que se comparasse a terremotos, furacões, rock in roll...
Nonô preparou outra vodca e da janela do quarto começou a observar o quanto a cidade era tranqüila, segura, bonita até. Não quis ver o jornal aquela noite, embora Dona Crotilde insistisse e estranhasse bastante. Também não quis jantar. Tinha comido muito biscoito de chocolate com vodca. Mas sentou com os filhos na sala para ver a novela. Ele mesmo tinha acabado de revogar a lei que proibia comer no sofá vendo novela...

Mateus é homem influente, tem uma BMW preta novinha, tem amigos no governo, têm foro privilegiado e uma pistola automática nove milímetros. Mesmo assim não comete nenhum ato de violência contra a mulher. Nem contra o amante dela. Tão pouco a coloca para fora de casa... casa não: mansão. É uma mansão com piscina e tudo. Prefere ele mesmo sair. Está arrumando as malas. A mulher aos prantos implorando para ele ficar. Diz que está arrependida, diz que ele (o marido) é o grande amor da vida dela, que tinha sido só aquela vez, um único encontro, um único beijo... não havia acontecido mais nada...

E Dona Crotilde?
Também de prato na mão, estava ali, diante da TV 29 polegadas. Porém, por mais que se esforçasse ela não via o Mateus, não via a esposa dele, não via o amante da esposa dele... Dona Crotilde só via guerras, homens-bomba, miséria, corrupção... via o Metilmercúrio oprimindo o Caroteno...
Seu Nonô foi dormir feliz aquela noite. Feliz e cansado. Depois da novela ele tinha encarado dominó, jogo
de varetas... até vídeo-game, que pra ele era coisa do outro mundo.
- Meu bem... meu bem...
Seu Nonô já estava dormindo.
Só restava à Dona Crotilde meditar um pouco mais em tudo o que estava acontecendo.
- Que mundo é esse, meu Deus?!

Episódio 5:
Uma bomba!

- Nossa! Perdi a hora! Que noite horrível!
Dona Crotilde passou a noite toda tendo pesadelos. Quando se levantou o café já estava pronto, as crianças arrumadas.
- Bom dia, princesa!
Frase que Seu Nonô pegou emprestada de um filme premiado...
Qual era mesmo o nome do filme?
- A vida é bela, Dona Crô!
O que é que tinha dado nele? Parecia original! Que Nonô era aquele?!
Era Nonô, o Extraterrestre. Pertencia a outro mundo!
(Mas continuava na mesma repartição pública. E por isso era melhor se apressar. Beijou a esposa, pediu juízo para a filha debutante e saiu para o trabalho).
- Uai... o que será que deu no seu pai, Ana Maria? Preparou o café, não discutiu com o Gustavo... me beijou antes de sair...
- Eu é que te pergunto, mãe... o que vocês andam aprontando, hem?!
A julgar pelas olheiras de Dona Crotilde e os arranhões no rosto de seu Nonô...
- Não é nada disso que você está pensando, Ana Maria...
E não era mesmo.
- Mãe, que barulhão é esse na avenida?
Havia algo de estranho... o trânsito engarrafado, comércio se fechando, pessoas voltando para casa, polícia tentando afastar a imprensa...
- Ana Maria! Corre, venha ver isso! Olha lá quanta gente com roupa de astronauta... estão filmando, parece gente da televisão!
Não era astronauta. Nem cena de novela. Era a polícia anti-bomba. Uma denúncia anônima havia provocado todo aquele tumulto:

"TINHA LIXO ATÔMICO NO LIXÃO DA CIDADE."

A ordem era pra ninguém sair de casa. A estrada que levava ao lixão estava interditada. Somente técnicos em material radioativo, a polícia anti-bomba e repórteres credenciados e malucos poderiam se dirigir ao local...
- Mãe, o diretor mandou todo mundo voltar pra casa...
- Eu não fiz nada dessa vez, mãe. Eu juro! Eu não fiz nada...
Seu Nonô chegou logo em seguida.
Que fim levaria aquela cidade até então tranqüila, segura, bonita até... triste ironia do destino...
- Logo agora... que eu estava achando a vida bela...
- Que mundo é esse, meu Deus?! - perguntou outra vez Dona Crotilde. Era uma pergunta bem difícil aquela.
- Mas quem teria coragem de jogar material radioativo no lixo da cidade... ainda mais em um saco plástico!
Essa era uma pergunta bem mais fácil...
- Você disse saco plástico, meu bem?
- É, minha querida. Saco plástico! Encontraram um saco plástico no lixo... com material radioativo. Pode ter uma bomba...
- Mas como é que descobriram que é material radioativo?
- O terrorista fez questão de deixar um alerta em vermelho.
- Credo...
Dona Crotilde não tinha mais dúvida: era a maior burrada que já tinha feito em toda a sua vida!
E agora? Teria como remediar?
E se ela procurasse a imprensa e contasse tudo? Não, era melhor não. Não estava disposta a ser elevada à categoria de "doida varrida".
Era melhor continuar maluca no anonimato... não era um bom momento para aparecer na televisão...
- E se descobrirem quem colocou o tal lixo atômico no lixão? O que vão fazer com ele? - quis saber Crotilde, a Terrorista.
- Vão linchar o desgraçado... se escapar com vida, vai mofar na cadeia. Pior ficaremos nós, com a saúde debilitada...
- É pior que os metais pesados na cenoura, esse tal lixo atômico?
Claro que era pior que os metais pesados na cenoura, pior que esquecer o aniversário de casamento, pior que os gafanhotos, pior que os duendes da Xuxa, pior até do que a esposa do Mateus...
- Estou perdida!
- "Estamos" perdidos, minha querida. A cidade toda!
Dona Crotilde sabia que a cidade estava a salvo. Logo descobririam que o material radioativo já estava em estado de putrefação. (Logo descobririam que uma dona de casa havia feito aquela brincadeira de mau gosto). Dona Crotilde estava entre a cruz e a espada, ou melhor dizendo, entre o material radioativo e a galinha com cenoura com Metilmercúrio.
No lixão o problema parecia ter se agravado. Um vira-lata tentava abrir o tal saco plástico. Atiradores de elite se posicionavam, o cão teria de ser sacrificado antes que pudesse desencadear uma reação em cadeia - inclusive em cadeia de televisão - aquelas cenas apocalípticas estavam sendo transmitidas ao vivo para todo o país. Dona Crotilde pediu que tirassem o Juninho da sala para que ele não presenciasse aquelas cenas. E nem reconhecesse aquele saco, já que o Juninho mesmo tinha emprestado o pincel atômico vermelho para a mamãe. Aquele pincel atômico sim, era perigoso!
O caso estava chegando ao seu desfecho. Era sacrificar o cão para salvar a humanidade. O esquadrão anti-bomba entraria em ação imediatamente...
Foi quando um velhinho, reciclador de lixo, resolveu tudo com as próprias mãos:
- Ninguém mata meu cãozinho! Seus milicos safados! Nojentos! Eu vou acabar com vocês!
E tirando o saco da boca do cachorro, desatou o nó com jeitinho e em seguida atirou carniça pra cima dos poucos que ainda não haviam sumido no mundo.
A cidade estava salva.
Dona Crotilde também...

Episódio 6:
Os dias seguintes

Pouco a pouco São Gumercino voltava à sua rotina.
Nenhuma emissora de televisão, rádio ou jornal se lembrava mais daquela discreta cidade do interior das Minas Gerais.
Nos botecos a política e o futebol já haviam retomado o status perdido temporariamente para a "bomba de carniça atômica" - como fora batizada pelas próprias vítimas daquela meleca.
O Aquecimento Global também voltara a aquecer por aquelas bandas e nos salões de beleza ninguém queria saber de bomba nenhuma, nem que fosse sobre a primeira dama - o tema principal dos debates era novela. A das oito. Mais especificamente o Mateus da novela das oito.
Afinal, o galã não podia terminar sozinho. Alguém já viu, em alguma novela, galã terminar sozinho? Não, né!

Mateus havia se mudado para um apart-hotel no Leblon depois que pegou sua esposa com o melhor amigo. Amigo dele. E desde então estava sempre isolado, quase não saía para canto nenhum, só trabalho, trabalho, trabalho... e jantares de negócio com a encantadora Joyce - moça fina, bonita, meiga, inteligente... dona de uma empresa de exportação em Hong Kong.

Dona Crotilde, claro, demorou um pouquinho mais que os outros gumercinenses para se recuperar do susto, embora tivesse terminado tudo bem graças ao velhinho reciclador de lixo graças a Deus. Ainda tinha medo de ser descoberta...
Havia feito o que fez com as melhores intenções, mas o prejuízo que causara era incalculável... uma cidade inteira havia parado por causa dela!
Teve uma noite que ela acordou assustada. Sonhou que era uma mulher-bomba. Pior que isso: sonhou que era uma falsa mulher-bomba... ou mulher-bomba-falsa, o sonho era meio confuso. Estava infiltrada, numa missão secreta perigosíssima! Mas sua verdadeira identidade havia sido descoberta. E desde então, permanecia refém de um grupo terrorista financiado pelo tráfico de drogas. Não, acho que não eram traficantes... estranho, eles comercializavam cenouras! E estavam contaminadas por metais pesados, altamente cancerígenos...
Foi difícil Seu Nonô acalmar a esposa, convencê-la de que era só um sonho, não tinha terrorista nenhum, bomba nenhuma, nada...
- Não tem terrorista, não tem bomba... tenta dormir...
Mas tinha cenoura.
- Meu bem, e se esse sonho for um aviso?
- É um sonho... não é um aviso. É um sonho! Dorme...
- E se de repente...
Aviso ou não, depois daquele sonho, Dona Crotilde parecia estar cem por cento de novo. Porque já tinha acabado de arquitetar um plano para as cenouras naquela mesma noite.
E realmente era preciso um plano. Sim, porque as benditas cenouras ainda não haviam voltado à sua rotina: continuavam contaminadas de acordo com o Instituto... Instituto... Instituto...
- Uma horta orgânica... por que eu não pensei nisso antes?
Dona Crotilde estava disposta a cultivar uma horta de verdade, dessas que a gente vê na televisão, nos programas rurais... tudo muito natural, saudável, ecologicamente correto.
O problema é que ela não tinha muita habilidade com as Ciências Naturais, a Matemática... não sabia quase nada sobre Botânica, Zootecnia, conservação do solo... noções de agricultura. Como cultivar uma horta? Ainda mais orgânica...
Depois. Depois ela aprendia.
Porque agora era hora da novela:

Mateus e Joyce estão jantando um jantar de negócio quando de repente se aproxima um chinês mal encarado com uma cicatriz enorme sobre o supercílio esquerdo... se parece com um desses atores de filme de luta o tempo todo para vingar a morte de alguém.
Mateus não estava entendo nada...
O chinês encara a encantadora Joyce e fala algumas palavras em mandarim. Em mandarim Mateus entende menos ainda. Joyce entende. E responde. Também em mandarim. Então o chinês faz um sinal de OK e se afasta.
(O sinal deu pra entender).
Depois Joyce explica (em português) que era um ex-namorado que agora trabalhava pra ela... que era seu
braço direito em Hong Kong... que são apenas bons amigos...
Mateus parece impressionado com a desenvoltura e a fluência de Joyce também em mandarim...
- Quer dizer que além de inglês, espanhol e alemão...

Impressionante: até mandarim ela sabia!
Que mulher era aquela?!

Episódio 7:
A olericultora

DAUCUS CAROTA: planta hortense da família das Umbelíferas; originária da Europa e Ásia, de raiz alongada, vermelho-alaranjada, comestível, rica em açúcar e caroteno.

CAROTENO: composto orgânico pertencente ao grupo dos hidrocarbonetos não saturados, que constituem o pigmento amarelado da cenoura (Daucus Carota) e da manteiga, também conhecida pelo nome de pró-vitamina A, porque é precursor dessa vitamina, muito importante na prevenção de problemas cardíacos.

PROBLEMAS CARDÍACOS: isso Dona Crotilde já sabia o que era. O que a Dona Crotilde não sabia era como produzir cenouras com Caroteno e sem Metilmercúrio.

Tudo resolvido assim que o carteiro entregou uma correspondência correspondente à carta que Dona Crotilde havia remetido ao Globo Rural. Era um manual sobre produção orgânica.
Agora já era possível cultivar frutas, verduras e legumes sem o uso de agrotóxicos. Agora já era possível cultivar cenoura com Caroteno e sem Metilmercúrio. Em breve a família Gouvêa voltaria a apreciar aquele vegetal de raiz alongada, de cor vermelho-alaranjada, originário...
- Com um manual desses fica fácil! E olha só, que capa linda! Que material...
Seis da tarde Dona Crotilde esperava ansiosa para contar as boas novas ao marido. E lugar de esperar ansiosa era no corredor. Dona Crotilde no corredor à sua espera, Seu Nonô já sabia "boa coisa não era".
- Meu bem, o Manual chegou!
- Eu estava esperando o Manual?
- Não! Eu estava esperando você pra mostrar o Manual... olha como é fácil!
E parecia fácil mesmo, cultivar uma horta orgânica!
Dona Crotilde já havia até mandado o Gustavo pedir pela Internet algumas sementes, luvas de borracha, Kit para jardinagem - que também poderia ser usado no preparo dos canteiros.
- Meu bem, veja aqui... olha... compostagem, controle biológico de pragas... tudo, tudo, bem explicadinho, com gravuras coloridas!
O que o manual não explicava muito bem era como fazer hortas e pomares em apartamentos.
- Eu ainda não tinha pensado nisso... já sei: podemos vender o apartamento e comprar uma chacrinha perto da cidade!
Não restava a menor dúvida: Dona Crotilde precisava de uma chácara.
E tratamento psiquiátrico.
- Você já imaginou, meu bem, como deve ser tranqüila a vida no campo?
- Querida, eu acho que você tem trabalhado demais ultimamente, tem assistido muito jornal... quem sabe a gente poderia contratar alguém pra te ajudar...
Seu Nonô não estava falando de uma empregada doméstica...
- Você sabe que eu adoro tomar conta da casa, cuidar de vocês... não precisa ninguém pra me ajudar... eu preciso é de uma chácara!
Só faltava a chácara. Ela já tinha o manual, tinha encomendado as sementes...
- É a idéia mais maluca que ela já teve - pensava Seu Nonô.
Mas não era não.
É que ele não conhecia nem a milésima parte das idéias da esposa...
Imaginem só... aquela família sempre foi urbana... de repente, uma chácara...
(Frutas fresquinhas... quem sabe alguns animais domésticos... um campinho de futebol para o Gustavo... um ribeirinho para pescar lambari... passarinhos no pé de jabuticaba, uma varanda grandona... churrasqueira...).
- Uma chácara! Que idéia!

Episódio 8:
Vida nova

Não era a chácara dos seus sonhos. Pra falar a verdade, ele nunca tinha sonhado com chácara nenhuma. Mas parecia ter feito um bom negócio. O apartamento já estava precisando de uma boa reforma, sem falar que as crianças estavam crescendo, precisando de mais espaço... é claro que, com um pouco mais de tempo, quem sabe aquele imóvel, no centro da cidade, poderia ter alcançado um preço melhor... mas o plantio de cenouras já estava atrasado, as sementes quase vencidas.
Era uma chácara de cinco hectares, no cinturão verde da cidade. Seu Nonô não entendia nada de agronegócios, mas não comprara a chácara com essa intenção. Queria a propriedade apenas para moradia.
Para chegar ao trabalho não gastava mais do que quinze, no máximo vinte minutos. E depois, logo estaria aposentado... nada como a tranqüilidade de uma casa no campo.
Todos pareciam felizes na nova morada.
As crianças agora tinham um enorme quintal com um baita pé de manga para brincar. Estavam aprendendo a jogar peteca, bola de gude, esconde-esconde, muito melhor do que os vídeos-games.
Ana Maria reclamava apenas do sinal do celular, que não era tão bom. Quanto à Dona Crotilde, estava empolgadíssima com a horta orgânica (que tinha no manual com fotos coloridas).
O quintal ainda estava meio abandonado, assim como o resto da chácara, mas Dona Crô sempre arranjava um tempinho para arrancar uma tiririca aqui, plantar uma flor ali, descobrir um inseto novo (quem sabe nem catalogado ainda). Não via a hora de começar o plantio orgânico de cenouras... ou seria o plantio de cenouras orgânicas?
O manual devia saber...
E sabia. Claro que sabia!
Toda tarde Dona Crotilde tinha uma novidade para Seu Nonô. E o que era melhor: agora havia um portão para ela esperar o marido. Não precisava mais esperar no corredor...
- Meu bem, você não sabe o que eu encontrei no quintal hoje...
A esposa estava calma. Pela entonação compassada, certamente não era uma cobra, nem aranha ou escorpião. Perereca também não, porque senão ela teria ligado. Mas era melhor Seu Nonô ver logo do que se tratava...
Depois ele tomava sua vodca com bastante gelo.
- Uai! Ela estava aqui... debaixo da latinha... eu até coloquei um tijolo pra ela não fugir...
- Eu vi, pai! Era uma minhocona!
- Parecia uma sanguessuga...
- Não era não, mãe! Era uma minhocona!
Era uma minhocona.
Depois Dona Crotilde lembrou-se que o manual tinha um capítulo inteiro falando sobre minhocas. Era uma minhoca normal aquela que Dona Crotilde havia encontrado, de acordo com a descrição da página quarenta e dois e as fotos da página quarenta e três.
- Está aqui, veja: elas cavam pequenos túneis na terra, fazendo com que o solo fique mais arejado...
Isso explicava tudo! A minhoca da Dona Crotilde havia cavado um túnel e fugido.
Muito boa aquela minhoca!
Muito bom aquele manual! Dona Crotilde confiava cada vez mais nele...
Era melhor construir logo o minhocário da página quarenta e sete... depois ela plantava as cenouras...


Episódio 9:
Cenoura com galinha

Algumas semanas se passaram, muitos insetos foram catalogados (outros tantos combatidos), até que ficou pronto o minhocário. Gustavo e o Juninho se divertiam procurando minhoca e juntando esterco para as bichinhas transformá-lo em húmus.
Seu Nonô aproveitou os feriados de carnaval, um rolo de tela que encontrou no paiol, um cunhado e um sobrinho que estavam a passeio e cercaram o que seria a pequena horta. Ainda deu tempo de fazer os canteiros para Dona Crotilde.
Dia seguinte, seis da tarde, como era de se esperar, Dona Crô estaria esperando no portão. Não estava. Estava terminando de plantar o último canteiro, conforme as instruções da página setenta e quatro: chapéu de palha de abas largas, camisa xadrez de mangas compridas, botas sete léguas, luvas de borracha... Seu Nonô, vodca com bastante gelo, ainda pegou o finalzinho daquela sessão.
Se esforçou para não rir.
- Querida, já são seis e meia, tá quase escurecendo...
- Estou terminando, meu bem.
Nem parecia a Dona Crotilde... aquele uniforme de horta... o chapéu a lhe esconder os cabelos, a encobrir os detalhes do rosto... as botas de borracha a lhe tirar a sensualidade dos passos...
Mas estava feliz. A vida no campo estava lhe fazendo muito bem.
- Pronto! Nossas cenouras estão plantadas! Em breve poderemos saboreá-las sem medo do Metilmercúrio.
Dona Crotilde ganhou a varanda e abraçou o marido.
- Agora minha família está salva!
Nem pôde ver o Jornal Nacional aquela noite. Precisava urgente de um banho e terminar o jantar antes da novela...

Joyce está vendo o menu...
Mateus parecia meio desconfiado.
Era muita coisa para uma mulher só: beleza, classe, inteligência, um apartamento com duas suítes em Copacabana, um iate do tamanho de um navio, carro importado, ações da Petrobrás, obras do Portinari e mais aquela empresa da China...
Mateus está escolhendo o vinho...
A moça tinha vinte e poucos anos, não vinha de família rica, nunca havia posado nua para revista masculina... como explicar aquela fortuna? Mas parecia do bem... até defensora da natureza ela era! Fazia parte de uma ONG que tentava expulsar uns garimpeiros da região Amazônica, não achava certo destruir a floresta só por causa de umas pedrinhas...
E o chinês?
Como explicar aquele chinês?
Tinha alguma coisa errada! Mas o quê?!
... Durante o jantar de negócio Mateus compra um lote fechado de brinquedos...
Dona Crotilde estava exausta. Depois da novela foi logo para cama. Adormeceu com cara de missão cumprida...
De manhãzinha a decepção: o manual havia se esquecido de um detalhe importante. O portão. O portão da horta devia ficar fechado.
Não estava. As galinhas tinham invadido os canteiros... tudo destruído!
Dona Crotilde nem se lembrou das botas, das luvas, do chapéu da página setenta e quatro... de camisola mesmo, passou a mão na vassoura mais próxima, se embrenhou galinheiro, digo, horta adentro e acertou quantas galinhas lhe era possível acertar.
Da varanda o marido e as crianças assistiam aquela tragédia... ou seria comédia? O fato é que ninguém se arriscou a uma risadinha sequer quando a olericultora entrou toda descabelada segurando uma galinha em cada mão.
Seis da tarde Seu Nonô chegou sem fazer barulho. O Gustavo e o Juninho jogavam varetas sem briga, Ana Maria ainda estava no banho. Na cozinha apenas o silêncio de Dona Crotilde e o chiado da panela de pressão...
Hora da janta a mãe faz o prato do Juninho. Os outros se servem com uma disciplina oriental... só o cardápio não era oriental: "galinha com cenoura".
Eram as primeiras galinhas colhidas na pequena horta... bem, as cenouras...
Depois Seu Nonô achou estranho. Não era aniversário de casamento...
- É que as cenouras são bastante nutritivas, meu bem, muito ricas em caroteno...
- E os metais pesados?
- Que metais?
- As cenouras estão contaminadas, não estão?
- Não...
- Não?!
- Nunca estiveram. Eu comprei na chácara vizinha. Tem uma horta orgânica lá... muito bonita... Seu Honório fornece cenoura orgânica para todo o município de São Gumercino há mais de oito anos... mais de oito anos!
Os olhos de Dona Crotilde se encheram d'água.
- Tudo o que eu faço dá errado! Eu sou uma burra, incompetente, exagerada...
- Calma, querida... você não é nada disso, sempre cuidou bem das crianças, sempre quis o melhor pra gente... às vezes exagera um pouquinho...
- Um pouquinho?! Virei piada para minhas amigas por causa de uns gafanhotos miseráveis que nunca saíram daquela última página do jornalzinho da cidade!
- Calma, querida...
- Cheguei a me converter por duas semanas a uma seita religiosa irracional, por achar que os gafanhotos era o apocalipse se cumprindo...
- Calma...
- Por minha causa a cidade inteira parou aterrorizada...
- Do que é que você está falando?!
Ela disse do que é que estava falando. Disse também um punhado de outras besteiras que havia cometido em nome de seus exageros... atirou-se na cama e desandou num choro sem fim.
Seu Nonô não sabia o que fazer. Amava a esposa, mas diante da confissão de tantos disparates...
Dona Crotilde tinha parado uma cidade inteira por causa de umas cenourinhas... onde já se viu: "lixo atômico"... isso sem falar na promoção que Seu Nonô havia perdido por causa das boas intenções da esposa...
Como imaginar que a Senhora Gouvêa tinha ligado para o chefe da repartição dizendo que seu marido não podia assumir um cargo tão importante porque, embora aparentemente calmo, controlado, saudável, era cardíaco, não podia passar nervoso nem sofrer emoções muito fortes...
- Você fez isso?!
- Eu não queria você comendo fora de hora... poderia contrair uma úlcera... sem falar dessas reuniões que não acabam mais, quase todas as noites... viagens... você poderia contrair uma amante...
Não restava a menor dúvida: Dona Crotilde precisava de cuidados especiais. De um psiquiatra.

Episódio 10:
Falso de verdade

Seu Nonô sabia que não seria fácil convencer Dona Crotilde a fazer psicanálise.
- Eu não estou louca!
Não estava. Mas vivia deprimida, se achando a pior das criaturas, que não era digna da família que tinha... essas coisas que os psiquiatras são treinados a ouvir.
- Você não gosta mais de mim...
Ele gostava.
- Olha, querida, a psicanálise...
- Eu já lhe disse: eu sou burra, ingênua, exagerada... não sou louca!
Era uma tarefa difícil convencer Dona Crotilde a fazer psicanálise...
O problema começava a afetar toda a família. O mundo Gouvêa estava sofrendo seus primeiros abalos. O rendimento das crianças na escola havia caído um pouco.
No trabalho também já tinham notado que Seu Nonô estava diferente, meio estressado... não foi muito difícil a Senhorita Kátia convencê-lo de que ele precisava de cuidados especiais.
De uma amante.
Senhorita Kátia trabalhava no computador ao lado esquerdo de Seu Nonô... gostava de usar decotes que valorizassem ainda mais aquelas próteses de quatro mil dólares, vestia saias justas acima do joelho e tinha a mania de cruzar as pernas. A direita sobre a esquerda... era um detalhe muito importante: ela trabalhava no computador ao lado esquerdo de Seu Nonô.
- Você precisa relaxar um pouco, Nonozinho...
Nonô começou a relaxar: ia para o trabalho trajando esporte, passou a usar o cabelo meio despenteado, às vezes chegava tarde em casa...
- Isso são horas?
Dona Crotilde perguntava por perguntar, apenas para cumprir seu dever de esposa. Seu Nonô era um homem de bons princípios (mas não era de ferro).
- Eu não sou de ferro, Senhorita Kátia!
Iniciava ali um triângulo amoroso onde Dona Crotilde não era a hipotenusa...
Já fazia um bom tempo que a esposa não esperava no portão.
Continuava tendo portão.
O que não havia mais era novidade que valesse a pena... e também Seu Nonô não tinha hora para chegar. Quando chegava antes dela dormir era só para ouvir lamentações. Brigar eles não brigavam... nem mesmo quando o Nonozinho trocou os nomes.
- Kátia é uma moça chata que trabalha na repartição. Não acerta um memorando... sempre tenho que ficar corrigindo...
Era dia dos namorados.
A chata da repartição namorava um anel de brilhante...
Não era justo Seu Nonô dar um anel de brilhante para a Senhorita Kátia e não dar nada para a Senhora Gouvêa. Então encomendou um anel de brilhante de verdade para a amante e um falso brilhante para a esposa de verdade. Anotou direitinho o número de cada um e pediu discrição ao joalheiro.
Chegou em casa pontualmente às seis da tarde. Preferiu que entregassem o "presentinho" para a Senhorita Kátia com um ramalhete de rosas bem vermelhas e um cartão se desculpando por não comparecer. Não achava certo passar a noite dos namorados com a amante. Ele já dava o melhor de si para ela. Também havia dado o melhor dos anéis... pelo menos a noite dos namorados passaria com a esposa (ela já andava meio desconfiada).
- Isso são horas?
Era seis da tarde.
Dona Crotilde estranhou Seu Nonô tão cedo.
As crianças já haviam notado o problema conjugal da família Gouvêa. Mas não queriam tomar partido. Queriam o pai e a mãe juntos.
- Pai, a Ana Maria ganhou um presente...
- Não precisava espalhar, Juninho!
- O namorado dela que deu.
Que fase bonita era aquela que Ana Maria estava vivendo! Pensava Dona Crotilde.
- Pena que um dia esse romantismo acabe, minha filha - alertou Crotilde, a Lamentadora.
- A não ser que seu namorado seja igual ao seu pai - ponderou Nonô, o Falso.
E tirando o embrulhinho do bolso, entregou-o à esposa.
As crianças se juntaram em volta da mãe.
Claro que era uma jóia, a julgar pelo tamanho da caixinha.
- Um anel! Que lindo! Meu bem...
- Põe no dedo mãe, vai ficar "manero"!
- Você merece muito mais, querida.
- Muito mais?! Você é o máximo!
E abraçou e beijou o marido.
Seu Nonô começava a sentir remorso. Dona Crotilde estava eufórica:
- Um anel de brilhante!
- Brilhante?!
Nonozinho achou melhor contar toda a verdade (sobre aquele anel).
- Ora, querida, é só uma bijouteria...
- Não seja modesto, meu bem. É o anel de brilhante mais lindo que eu já vi... meu primeiro anel de brilhante!
- E o de noivado?
- Bom... o de noivado... o de noivado era falso, meu bem. Você acha que uma mulher não reconhece um brilhante quando vê um? Não tem problema... naquela época você estava em início de carreira... o que vale é a intenção...
- Põe no dedo mãe, vai ficar "manero"!
Só não ficou "manero" por que não entrava no dedo. O anel era pequeno...
- Não fica chateado não, meu bem... o que vale é a intenção... qualquer hora eu vou à joalheria e mando aumentar um pouco. Eu devo ter engordado... vou começar um regime amanhã mesmo. Quero ficar linda pra você...
Seu Nonô começava a ficar confuso. Dona Crotilde parecia outra pessoa, ou melhor, parecia a Crotilde dos exageros, não parecia a Crotilde das lamentações... e não parecia ter engordado...
Como um falso brilhante podia mudar tanto a vida de uma mulher?!
Soubesse ele do poder do anel, jamais teria sugerido um psiquiatra, quem sabe nem teria contraído uma amante... (como o dedo de Dona Crotilde podia ter crescido de uma hora para outra?).
Aquela noite foi uma das melhores do casal. Dona Crotilde era um exagero de bonita. Era um exagero de sensualidade. Um exagero de boas intenções. Um exagero de exagero. Como Nonô amava aquela Crotilde!
Plenamente saciado, agora observava a esposa dormindo... uma candura em forma de mulher...
- Fingiu que o anel era verdadeiro só pra me agradar! Ela estava certa quando evitou minha promoção... hoje eu poderia estar com uma úlcera - reconhecia Nonô, o Arrependido.
Bom, pelo menos da úlcera Dona Crotilde havia salvado o marido...
E Kátia, a Chata?
Amanhã mesmo ele terminaria tudo com ela!
Não foi preciso... quando chegou ao trabalho uma caixinha preta com um anel o esperava em sua mesa. O esperava também um bilhete debaixo da caixinha:

"VC AXA Q HUMA MULHER NAUM RECONHESE HUM BRILHANTE QDO V HUM E TEM MAIS MEU DEDO NAUM EH TAO GROCO ESTAH TUDO ACABADU ENTER NOIS"

Era a letra da Senhorita Kátia.
Começava a fazer sentido.
Enquanto isso, na joalheria:
- Seu Agripino, tem uma senhora querendo falar com o senhor...
- Ah, pois não.
- Olha... esse anel tem um pequeno defeito...
- Me desculpe! Mil perdões! O Nonô recomendou tanto... a confusão foi minha... a propósito: o Nonô sabe que a senhora está aqui?
- Não, ele não sabe, mas...
- Por favor, não conte a ele. Prefiro ficar no prejuízo... a senhora sabe, Seu Nonô é casado...
- Sei, muito bem casado! Mas...
- Assim fica mais fácil...
- Olha, eu só queria que o senhor desse uma olhada no diâmetro desse anel...
- Nem precisa, eu já sei o que houve. Mas eu repito: não conte nada ao Nonô, prefiro ficar no prejuízo... e que prejuízo! Imagine que o Nonô me encomendou dois anéis...
- Dois?!
- É, dois anéis: uma imitação barata e um autêntico brilhante. Cada um com uma numeração... a senhora sabe, ele é casado...
- Então...
- Isso mesmo! O verdadeiro era para a senhora. E o falso, para a esposa dele... eu troquei tudo...
Foi o dia mais agitado daquela repartição pública...
Perder a amante por causa de uma jóia falsa, Seu Nonô até que entendia. Mas perder a esposa só por...

Episódio 11:
Últimos capítulos

Mateus não resiste mais aos encantos da encantadora Joyce. Finalmente, depois de muitos e muitos jantares de negócio ele a convida para uma partida de boliche...

Parece que o autor estava meio perdido, os personagens se lembrando o tempo todo de coisas que haviam acontecido nos primeiros capítulos... cenas repetidas, jantares de negócio repetidos... pra que tantos jantares, sempre no mesmo lugar, mesma comida, os mesmos figurantes, o chinês sempre por perto... agora essa: boliche!
Tem graça, uma mulher delicada como a Joyce, vestido preto longo, clássico, salto alto, "jóias caríssimas"... com os dedos enfiados numa bola de quase meia arroba tentando derrubar umas garrafas que nem garrafas são? O mais natural é que o galã a levasse para dançar, ou ver um filme do Fellini, ao motel... sei lá. Mas, boliche!

- Ah! Mateus... como você é diferente...

Joyce não devia estar falando aquilo por causa do boliche... parecia um pouco ansiosa... confusa...
O público não agüentava mais...

"Será que o Mateus não vai esquecer a ex-esposa nunca? Será que ele não vê que a Joyce é a mulher ideal, talvez a única mulher ideal no Brasil que fala mandarim... será que..."

Joyce também não agüentava mais. Estava perdidamente apaixonada. A novela já nos últimos capítulos, o final não podia ser outro... Mateus e Joyce tinham que terminar juntos... mas não num boliche, ainda mais com aquele chinês infeliz por perto... ele tinha que gostar de boliche também?!
Ele tinha que estar lá...
- Mateus tem que ficar com a Joyce... esquecer de vez aquela traidora!
Dona Crotilde também torcia contra a esposa arrependida do Mateus.
O Brasil todo torcia!
Quase todos...
Seu Nonô, por exemplo, era mais ponderado:
- Ele bem que podia perdoar a esposa, foi só um deslize. Ela está arrependida, está sofrendo...
Seu Nonô também estava arrependido, sofrendo. Tinha sido só um pequeno deslize.
- Tudo culpa da Senhorita Kátia... era Nonozinho pra cá, Nonozinho pra lá... as próteses de quatro mil dólares, as saias justas, as pernas cruzadas... e não fosse aquele joalheiro trapalhão...
(Será que a própria Crotilde não havia dado um empurrãozinho naquele deslize?).
O fato é que Nonô estava meio perdido, vivia se lembrando o tempo todo de coisas que haviam acontecido desde aquele reveillon... Dona Crotilde linda no vestido branco! Nonô se lembrava de cada detalhe: os brincos enormes, pulseiras coloridas, o batom... o perfume... a tatuagem, tudo!
Agora estava trancado em seu próprio mundo. Era da casa pro trabalho, do trabalho pra casa. E lembranças. Muitas lembranças. Nem um jantarzinho de negócio sequer. Até a vodca com bastante gelo tinha perdido a graça...
Como era difícil ficar longe do barulho das crianças, não poder acompanhar de perto o crescimento dos filhos, ajudar o Juninho nos biscoitos da Turma da Mônica, discutir política e futebol com o Gustavo, pedir juízo pra Ana Maria... (sentir o calor da Dona Crotilde).
- Tudo por causa da Senhorita Kátia... não fosse ela...

Joyce acabava de fazer um stricke. (Que mulher! Além de saber mandarim ainda jogava boliche). Na emoção da jogada pula nos braços de Mateus e os dois se abraçam fortemente.

Mais de setenta por cento dos lares brasileiros estáticos no sofá diante da TV. O prato de comida na mão. O prato de comida podia esperar...

Agora Mateus e Joyce estavam se olhando bem de perto. Os batimentos cardíacos aumentavam. Os do público. Mateus e Joyce são atores... seria um beijo técnico...

Talvez... os dois haviam sido fotografados juntos num restaurante de verdade... saiu numa revista. Mas isso não importava. O que importava é que estavam ali, colados: olhos nos olhos. Olhares penetrantes... cheios de desejos...
Dona Crotilde não quer perder nenhum detalhe... disfarçadamente enxuga uma lágrima para as crianças não perceberem. Precisava ser forte!
Seu Nonô não precisava ser forte. Estava sozinho, não tinha ninguém olhando.
A cena o faz lembrar-se novamente de seu primeiro encontro (com a Dona Crotilde). As pernas tremendo... as quatro pernas (com as dela). Os dentes deles se chocando com a emoção do primeiro beijo... com fundo musical e tudo. Só não era uma melodia romântica que nem nas novelas porque em noites de reveillon é muito difícil tocar música romântica. Mas não era pancadão. Naquela época acho que ainda não tinha pancadão... ah, a novela!

No boliche, Fascinação! Com a Elis. O teletema dos dois (Mateus e Joyce). Eles continuam abraçados, as bocas se aproximando semi-abertas... os olhos semi-fechados...

Não era um beijo qualquer. Aquele beijo iria parar todos os jantares, milhões e milhões de telespectadores de prato na mão esperavam por aquele desenlace. Era o beijo que salvaria toda uma nação das injustiças sociais, das falcatruas políticas, da epidemia de dengue, dos problemas ambientais... por alguns instantes, enquanto durasse o beijo, o país estaria em comunhão, feliz, aliviado...

Episódio 12:
Ovos de ouro

As últimas pesquisas do IBGE já apontavam um crescimento considerável no número de famílias administradas pela mulher.
Avós, mães solteiras, mulheres separadas, divorciadas... senhoras assumindo praticamente todas as responsabilidades da casa.
Há que se incluir ainda aquelas que optam por uma "produção independente", como elas mesmas costumam dizer na televisão. Mas será que não é uma forma de preconceito para com as mães tradicionais? Se as crianças pudessem optar, certamente escolheriam a produção convencional, com pai e mãe, juntos, se possível, tudo ao mesmo tempo.
O Juninho, o Gustavo e a Ana Maria continuavam tendo mãe e pai muito dedicados, porém, um de cada vez: Dona Crotilde seria incluída no grupo das separadas nas próximas pesquisas. Mas enquanto o IBGE não vinha, era melhor assumir interinamente outras responsabilidades da família além daquelas que as mulheres já assumiam bem antes das pesquisas e muito antes do IBGE: lavar, passar, ajudar as crianças nas tarefas escolares, cuidar das despesas domésticas, promover o desenvolvimento do país e ficar lembrando o marido o tempo todo para ele levantar a tampa do vaso sanitário antes de urinar.
Bom, pelo menos dessa última tarefa Dona Crotilde
estava livre... tinha o Juninho e o Gustavo, mas eles usavam o banheiro social e isso era um problema da Ana Maria...
A não ser quando ela, a Ana Maria, resolveu colocar os dois meninos para lavar o banheiro "pra ver como era bom" e o Juninho esqueceu uma esponja dentro do vaso. Aí já não era mais problema da Ana Maria. Esgoto entupido agora era com a Dona Crô.
- Se fosse no apartamento o síndico dava um jeito...
- Se fosse no tempo do papai, o papai dava um jeito...
- É. O papai dava um jeito, né mãe...
- Dava um jeito em vocês também!
- Foi a Naná...
Naná era a Ana Maria. Mas não tinha sido ela.
- Eu?! Vocês é que não se lembram de levantar a tampa... é tão simples...
Dona Crotilde tinha razão: homem era tudo igual mesmo.
Diferente era o Mateus: galã, fino, educado, fiel, bonitão... vai ver no último capítulo ainda teria uma cena com ele levantando a tampa...
- Vocês vão ter de usar o banheiro do meu quarto hoje. Amanhã eu dou um jeito nisso... daqui a pouco tenho de ir ao banco, parece que o especial estourou de novo.
Como estavam rebeldes aquelas crianças!
Como estava apertado aquele orçamento!
Seis da tarde o Juninho esperava no portão. Juninho no portão à sua espera, Dona Crotilde já sabia "boa coisa não era".
- Mãe, eu e o Gugu conseguimos desentupir o vaso pra você...
- Pra mim?
- É, mãe. Eu que tive a idéia, foi fácil... nós tivemos que estourar o piso...
Agora não era só o cheque especial que estava estourado. E era melhor Dona Crotilde se controlar para não estourar também.
- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, nove e meio... respira fundo...
Em momentos como esses Seu Nonô sempre sabia o que fazer. E foi o que ela fez: preparou uma vodca com bastante gelo, sentou-se na varanda, posicionou o olhar no horizonte e saboreou aquele drinque em pequenos goles, tranqüilamente, como se estivesse tudo dominado. Fez de conta que a Naná não ia sujar todas as vasilhas para preparar as omeletes do jantar, o Gustavo não ia querer assistir o jogo do Cruzeiro na hora da novela e o Juninho nunca mais tentaria desentupir nem mesmo a bisnaga de mostarda...
O pior momento para Dona Crotilde era a hora de dormir.
- Que mundo é esse, meu Deus?!
Sentia falta do marido.
Eles tinham vivido tão bem, por mais de quinze anos! Era um casal feliz...
- Quer saber? A culpa foi dele. Eu vou é dormir...
E não dormiu. Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
De todos os problemas acumulados, o mais urgente não era a privada desentupida pelo Juninho. Muitas contas estavam atrasadas, muitos cortes já haviam sido feitos, Dona Crô não sabia onde espremer mais. Seu Nonô ajudava o máximo que podia. Além da pensão sempre fazia um agrado para as crianças, comprava remédio quando necessário... mas ele também precisava sobreviver.
Casal separado, gasto dobrado!
E olha que nem amante ele tinha mais...
Dona Crotilde passou a noite toda em claro pensando em tudo o que havia acontecido naqueles últimos meses.
Por que aquela separação?
(Seu Nonô era culpado! Tinha arranjado uma amante...).
Agora que Dona Crotilde havia acumulado funções, tinha de sair mais, conversar com pessoas diferentes, passou a encarar o mundo sem tantos exageros. E por falar em exageros, do último ela ainda se lembrava perfeitamente: uma horta orgânica só por causa de uma notícia no jornal.
- Acabamos nos mudando para uma chácara, imaginem, só por causa de umas benditas cenouras que nem contaminadas estavam... como que o Nonô suportava tantas besteiras minhas...
É que Seu Nonô a amava muito!
- E a horta não saiu do papel. Igualzinho os gafanhotos... igualzinho a maioria dos projetos... bom, a horta foi até iniciada... não fosse as malditas galinhas...
A verdade é que a chácara continuava improdutiva, ou melhor, quase improdutiva, porque as galinhas que resistiram ao massacre, continuavam botando, chocando, tirando pintinhos...
- Então é isso! Por que eu não pensei nisso antes?!
Claro que seria necessário alguns investimentos, como a construção de um pequeno galpão, aquisição de um triturador de milho, bebedouros, vacinas e mais algumas galinhas poedeiras e galos reprodutores... mas estava tudo ali anotado no manual...
Vai começar tudo de novo?
Vai. Mas dessa vez Dona Crotilde não ficou apenas nas teorias. Não ficou só no manual. Visitou chácaras vizinhas, fez um curso promovido pela Associação dos Produtores de Ovos Orgânicos do Município de São Gumercino, pesquisou na Internet, procurou ajuda de um psiquiatra (criador de galinhas caipiras), procurou a Caixa Econômica Federal, penhorou o anel...







Episódio 13:
Quase perfeito!


Era o último capítulo.
O Brasil todo ia parar diante da telinha. Todos (quase todos) torciam para que a megera da mulher do Mateus terminasse sozinha e na miséria. Ou então que fosse atropelada por um trem cargueiro.
Só que o autor preferiu dar um final um pouco mais cristão para a novela: Mateus perdoou a traição da esposa. Achou melhor esquecer aquele pequeno deslize da mulher. Afinal, eles ainda se amavam muito.
E viveram felizes para sempre.
Muita gente não gostou do final...

"O Mateus bem que podia ter ficado com a Joyce, muito mais jovem, elegante, rica, inteligente... até mandarim ela sabia..."

E sabem por que ela sabia mandarim?
Porque precisava fazer contatos com "fornecedores" da China. Era a maior contrabandista de produtos chineses de toda a América...
Lembram do chinês mal encarado com uma cicatriz enorme sobre o supercílio esquerdo, que apareceu no restaurante? Que chinês coisa nenhuma: era na verdade, digo, na novela, o melhor amigo do Mateus!
Mas é claro que não foi reconhecido... tinha feito várias plásticas para mudar o rosto... ele tinha um plano... era calculista, invejoso... ficou bajulando a megera da esposa do Mateus que de megera não tinha nada, apenas estava carente, o marido havia se entregado demais ao trabalho, quase não lhe dava atenção... então o malandro se aproveitou, começou a enviar flores com cartão, fazer elogios que mulher gosta... vivia repetindo que ela estava mais magra... até que conseguiu marcar aquele encontro... o primeiro encontro... um único beijo! (Não tinha acontecido mais nada).
Tudo planejado!
Joyce mesma ligou para Mateus dizendo que ele estava sendo traído.
Ela e o chinês que não era chinês queriam infernizar a vida do Promotor mais esperto do Rio de Janeiro para evitar que o mesmo viesse a desbaratar a maior quadrilha de contrabandistas da América Latina... acho que de todas as Américas...
O desfecho era ótimo!
As cenas já estavam todas gravadas. Faltava ir ao ar.
Mas não foi.
Na mesma semana um contrabandista de verdade foi pego pela Polícia Federal. Os produtos vinham da China via Paraguai. A polícia já estava perseguindo o meliante há anos.
O problema é que o safado além de ter uma cúmplice lindérrima, espertíssima, poliglota, ainda havia feito várias plásticas... deu em todos os jornais durante a semana inteira. Então o autor teve de mudar as últimas cenas. Estava muito parecido com a vida real, a vida real que nem novela, tudo muito confuso, parecendo plágio.
Ficou assim:
Joyce era a encantadora Joyce e o chinês era chinês, um ex-namorado dela.
A empresa de exportação em Hong Kong ficava em Hong Kong, sem falar que era empresa mesmo, tudo direitinho. E o chinês trabalhava nessa empresa... ele mesmo ensinara mandarim para a encantadora Joyce durante os dois anos que namoraram.
E como Joyce gostava muito de mandarim e não tinha com quem conversar (em mandarim), acabou reatando com o chinês...
Lembram dos jantares de negócio? Do lote de brinquedos que o Mateus comprara para ver se conseguia alguma prova contra a Senhorita Joyce?
Tudo direitinho: notas, carimbos, impostos e mais impostos. A única coisa falsa era a empresa do Mateus, o Promotor de Justiça disfarçado de empresário. Joyce não era contrabandista como suspeitara. Agora tudo estava esclarecido: aquela encantadora mulher havia ganhado na loteria vinte e nove vezes... sua fortuna tinha sido conquistada com honestidade (e um pouquinho de sorte).
Mateus fora afastado do trabalho por causa da empresa fictícia - ele não tinha autorização da justiça, estava agindo por conta própria, embora com as melhores intenções.
E por falar em boas intenções, também os tais brinquedos que ele havia distribuído para as crianças pobres precisavam ser recolhidos urgentemente... sabem como é... a China crescendo muito rápido, os trabalhadores chineses ganhando uma ninharia... ficava difícil controlar a qualidade dos produtos...
Os brinquedos tinham uma tinta com alto índice de metais pesados, cancerígenos... mas o galã não termina sozinho, não: como eu já disse, ele perdoou a esposa. E já que estava afastado do cargo, agora tinha todo o tempo do mundo para ela. E dinheiro para a segunda lua de mel em Paris, porque continuava recebendo seu salário.
E viveram felizes para sempre... ah, a cicatriz enorme sobre o supercílio esquerdo do chinês não tinha nada a ver com o enredo da história. Era cicatriz de verdade...
Ficou uma coisa meio insossa, meio sem graça mesmo... e o Mateus havia perdido um pouco de prestígio por ter perdoado a esposa...
Por isso muita gente não gostou do final...
Sem falar que não teve nenhuma cena com ele levantando a tampa...
O Mateus também não era perfeito...
- Ninguém é perfeito - admitia Dona Crotilde.
Mas ela não se referia ao Mateus. O Mateus não tinha culpa. Era ator. Referia-se ao autor da novela. Também ela não tinha gostado do final...
- Onde já se viu... traição não tem perdão!
(Agora ela se referia ao ex-marido).
Antes de dormir Dona Crotilde sempre perguntava:
- Que mundo é esse, meu Deus?!
Sentia muita falta de Seu Nonô. Mas, daí, a perdoar... e como ela não perdoava e ainda o amava muito, passou a implicar com tudo que Seu Nonô fazia, com quase tudo o que ele gostava... não suportava as crianças falando o nome dele...
A paixão e o ódio é que nem na novela.
- Quer saber? Eu vou é dormir.
E dessa vez tratou logo de tomar uma vodca dupla e sem gelo. Precisava dormir bem. Dia seguinte entregaria a primeira caixa de ovos orgânicos no mercado municipal.
Começou com trinta dúzias.
Aos poucos a produção ia aumentando. As contas diminuindo. O que não diminuía era o ódio que Dona Crotilde sentia pelo Seu Nonô. Nem a paixão. (E a recíproca era verdadeira).
Dois anos de muito trabalho e dedicação e Crotilde, a Independente, já era uma respeitada produtora de ovos orgânicos. "Caipiras", como diziam nossos avós.
Pois, comercializando ovos Dona Crotilde saiu do vermelho, reformou o banheiro, pagou a penhora na Caixa, recuperou o anel, recuperou a auto-estima... havia sido, inclusive, indicada para a presidência da A.P.O.O.M.S.G. (Associação dos Produtores de Ovos Orgânicos do Município de São Gumercino).
As briguinhas das crianças também tinham diminuído bastante, as crianças já não eram tão crianças...
Ana Maria, a Universitária, cursava o segundo período de Pedagogia; Gustavo, o Centroavante, disputava o campeonato juvenil do estado; Junior, o Caçula, tinha puxado à mãe: queria ser astronauta ou então chefe de cozinha.
Dona Crotilde se sentia uma mulher realizada, ou pelo menos, quase realizada...
- Sinto que ainda me falta alguma coisa que eu não sei o que é...
O anel de brilhante não era.
Ela já tinha recuperado...

Episódio 14:
Um caso de família

Era costume (ou ciência) Seu Anacleto deixar um ovo no ninho. Assim como é costume (ou falta de ciência) toda galinha procurar um ninho que já tenha pelo menos um ovo...
Se você encontrar uma ninhada por aí, não retire todos os ovos: deixe pelo menos um e as galinhas não se darão conta de que alguém mexeu em seus futuros filhotes. Elas não têm noção de quantidade... "miolo de galinha" é uma conotação que todo mundo entende.
Pois bem. Seu Anacleto tinha por hobby criar galinhas caipiras, digo, orgânicas. No município de São Gumercino, que é nome fictício e eu nem sei se já canonizaram algum santo com esse nome. E como eu estava dizendo, toda tarde Seu Anacleto recolhia os ovos com o cuidado de deixar o indez em cada ninho.
Acontece que Dona Crotilde também criava galinhas. (Disso a gente já sabe).
É que um belo dia, Bicuia, galinácea de propriedade dessa Crotilde, escapou do galinheiro e acabou se entrosando com o Tenorzão - galo premiado do tal Anacleto. E foi num desses aconchegantes ninhos decorados com um quase redondo ovo bem no centro que a galinha depositou, por assim dizer, outros treze ovos, embora um pouco mais ovóides que o primeiro, o indez. Mas isso não tem muita importância porque além de não saber quantificar, toda galinha também é péssima fisionomista.
Como era de se esperar, Bicuia acabou ficando choca.
Da ninhada nasceram onze pintinhos...
Pois não é que virou um caso de polícia?
Tanto Seu Anacleto como Dona Crotilde reclamavam a guarda, quero dizer, a posse dos filhotes.
Ela argumentava que os ovos que geraram os tais pintinhos vieram da galinha, de sua melhor galinha, portanto...
Ele, Seu Anacleto, instruído por seu advogado, que de direito entendia bem pouco, mas era autodidata em genética, explicava que a galinha em questão, como qualquer outra galinha, só produz, sozinha, meros "óvulos" que, na melhor das hipóteses, podem gerar deliciosas omeletes. Pintinhos: jamais! O "ovo" - esclarecia ele - é resultado do amor providencial de um espermatozóide campeão e um óvulo no cio, prontinho para ser penetrado...
O juiz até tentou um acordo: propôs que os filhotes fossem divididos em duas partes iguais... o que não foi possível. Onze é um número ímpar. E juiz não é obrigado a entender de Aritmética. Sem falar que havia a possibilidade de um dos filhos não ser legítimo do casal... lembra o indez?
O juiz tentou outro acordo: uma reconciliação.
(Eles estavam separados há mais de dois anos...).
Acordo aceito! E o que é melhor: por ambas as partes.
Crotilde, a Cristã, resolveu perdoar Anacleto, o Nonô. E criar, juntos os onze pintinhos, o Gustavo, a Ana Maria e o Juninho.
E viveram felizes para sempre...
- Mas... meu bem...
Dona Crotilde ainda tinha uma dúvida.
- Meu bem... eu ainda tenho uma dúvida: era quatorze ovos. Contando o indez...
- Sim... quatorze...
- Rebentaram onze.
- Onze...
- Portanto, goraram três.
- É...
- Mas uma semana depois que a minha Bicuia fugiu lá pro seu quintal, o Tenorzão não passou quatro dias numa exposição de aves?
- Passou... quatro dias.
- E ele não era o único galo do terreiro?
- Era...
- Uai, então deveria ter nascido, no máximo, dez filhotes... mesmo com o indez...
- Vai ver, quando Bicuia fugiu, já levava consigo um ovo devidamente galado.
Seu Nonô havia sido instruído por seu advogado autodidata em genética...
- Dos onze pintinhos - concluía Anacleto - um era de Bicuia com outro galo. Outro, de Tenorzão com outra galinha (o indez). E nove, filhos legítimos do casal...
Mas não era o lugar nem o momento para ficar falando da vida dos outros...
- Meu bem, esse vinho do Porto está divino... me serve mais uma taça...



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QUE NEM NOVELA
Qui, 04 de Dezembro de 2008

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Última atualização em Sex, 05 de Dezembro de 2008 14:30
 
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