| A mão esquerda de Deus: o diário de um psicopata - CAPÍTULO 4: Deuteronômio |
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| Livros - Diversos |
Escrito por arthurdantas |
Ter, 09 de Dezembro de 2008 04:13 |
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Mas não me faça julgamentos, padre. Isso não me torna a pior pessoa do mundo e o senhor bem sabe, está aqui todos os dias, confessando. Sei bem que sabe da vida de todos do bairro. Meu pai me falava que o senhor era um dos maiores fofoqueiros desse mundo e do outro, não me culpe, foi ele quem disse. E sou sincero, tudo que venho lhe falado é a mais pura verdade, e falo outra agora. O senhor também peca e muito, sei bem do que anda fazendo as escondidas quando é noite. Mas isso é assunto seu. Você mesmo presta contas a Deus, estou aqui pelos meus pecados e não pelos do resto da humanidade como Jesus Cristo.
Eu só estava usando dos meus métodos para conseguir o que eu queria e eu realmente consegui. Confesso que por um tempo fiquei temeroso de Gabriela falar alguma coisa sobre minhas ameaças. Mas coitada, era tão fraca quanto eu fui. Deus sabe o que se passou por aquela cabecinha tola de menina ingênua. Mas ela poderia se juntar a mim, mas claro, eu seria o mandante de tudo, o cabeça, pois sou homem e também mais esperto pras coisas da vida já que tive muitas experiências, seria futuramente um expert, mas por enquanto demo-nos a qualidade cronológica do tempo já que não sou Cronos para brincar de destino indo e vindo à hora que quiser. Maldito tempo, juro que se pudesse voltaria tudo ao começo, quando Deus criou Adão e Eva. Malditos, foram à desgraça do mundo. Sabe, padre, porque tudo tem sempre que ter regras? Pra que regras? A matemática, o tempo, a vida, a sociedade, as mães, o trabalho, a morte... Tudo é tão controlado. Às vezes chego a pensar que Deus é só uma grande criança brincando com sua fazendinha de formigas, pulando de quintal em quintal jogando-as ao vento para serem levadas e onde caírem ali devem ficar até morrer. É cruel, mas é Deus... Fazer o quê? Engraçado é como as pessoas fingem ter essas regras, essas “leis”, como idéias de vida que devem ser seguidos a todo custo e a cima de tudo nesse mundo, não importa as adversidades, tudo tem uma lei natural e tem que ser assim. Veja meu exemplo, as vidas se esvaíram em minhas mãos, foi meu destino, era lei, Deus me escolheu para isso. Mas veja como o ser humano é fraco e contraditório, padre. Meu pai. Um dia eu estava assistindo a um jornal desses de fofoca que passam à tarde, é sim, padre, a vida alheia sempre me instigou também, tanto quanto ao senhor, que virou padre só para isso. Nesse dia, no jornal, interromperam por alguns breves momentos as futilidades cotidianas de todo dia que são quase como comida para as pessoas, para falarem de um caso sério, ou pelo menos pra mim parecia ser sério. Uma gangue, não lembro agora de onde, estava em uma caça a uma criança... Isso mesmo, padre, caça a uma criança. Percebi nessa hora que a infância não era roubada apenas de mim, mas existiam outros desventurados no mundo também, assim como eu. Eles casavam essa criança por um motivo tão trivial, ela era testemunha ocular de um crime. Sim, padre, digo que era trivial porque o trauma da cena vista pela podre criança foi tão exorbitante que lhe roubou o dom de cantar a quem quer que fosse sua infância que estava prestes a se perder no último jogo de esconde-esconde. A criança não pode mais falar depois do trauma, não sei explicar bem porque, mas aconteceu, não lembro mais. O assassinato que o pobre menino presenciara era do próprio pai, segundo a revistinha eletrônica de quinta categoria, o pai da criança tinha envolvimento com tráfico de drogas com uma das maiores quadrilhas do país, devia dinheiro, sabe, padre? O senhor sabe como são essas coisas, sei bem também que muitas pessoas vêm aqui pedir perdão por erros gêmeos, é tudo sempre igual, padre, onde quer que vá. Nada muda, o mundo é assim, nem um outro dilúvio salvaria a terra da humanidade, o bicho homem é esperto demais pra morrer por uma simples tragédia da natureza, hoje ele mesmo é a tragédia, ele mesmo é o próprio carrasco, a própria forca e o próprio comendador da morte. É assim, padre. Mas me deixe voltar ao meu relato. A gangue não conseguiu achar o garoto porque esse pediu ajuda a um grupo de garotas de programa que estavam na rua escura, era noite, esqueci de falar. Contando rapidamente a estória e comovendo o grupo de boas moças o garoto ganhou confiança e proteção. As moças o esconderam em uma lata de lixo no fim do beco onde elas cobravam o pedágio sexual. O beco não era freqüentado por ninguém a não ser uns moradores de rua, já que em frente havia m motel e a maioria dos clientes tinham carro, a cama ao ar livre não era necessária. Escondido ali o menino estaria a salvo. Enquanto uma das meninas apresentava seu cardápio aos rapazes da gangue, outra entrou em contato com a polícia para denunciar a perseguição, alguns minutos e alguns reais depois a polícia chegou, prendeu a gangue que perseguia a polícia e levou o garoto até sua casa. No outro dia o grupo de meninas recebeu menção honrosa da polícia civil. Pois bem, padre, preste bem atenção agora. Ao ver essa notícia que deveria ser estimulante às vistas de qualquer um, pois seria uma esperança para esse mundo. Ao vê-la, meu pai soltou um risinho muito sarcástico e até impróprio para o tipo de pessoa que ele viria a se revelar futuramente. Sem entender o porquê do risinho eu perguntei o que tinha levado sua critica tão súbita. - Isso é impossível. Prostitutas terem boa índole... Tinha que vir desse jornaleco de última categoria mesmo. - Mas será que não dá pra acreditar que as pessoas são boas, pai? - Até dá, veja eu, sou uma pessoa boa, de família e com um bom emprego. Mas uma prostituta? Isso é impossível, são pessoas sujas, preguiçosas que ganham a vida facilmente porque não sabem fazer mais nada. São sujas. - Pai, acho que o senhor está exagerando. - Não discuta comigo, você não as conhece. Bom, isso era verdade, eu não conhecia, já ele... Conhecia até demais, pelo menos era o que eu e minha mãe achávamos, mas isso fica pra mais tarde senhor padre. Por enquanto o que interessa é pensar como meu pai, um homem... Um homem... Sinceramente, padre, me falta um adjetivo para meu pai. Um homem de duas caras? Poderia servir, em todos os sentidos, já que além da índole duvidosa ele ainda era ganancioso, mas a questão dos pecados de minha família entro mais a fundo mais tarde. Eu acreditava sim ainda que as pessoas pudessem ser boas, porque não? Todo mundo pode se redimir não é, padre? Mas meu pai não, ele acreditava que se algo aparentasse ser azul realmente era azul, ele não pensava na possibilidade de ser um reflexo de outra coisa de cor azulada que reluzia por sobre a superfície branca e a fazia parecer azul, era azul e pronto. Às vezes acho que era preguiça de analisar as coisas. Sabe, padre, às vezes acho que a vontade toda que meu pai tinha de que eu estudasse na verdade era porque ele não queria que eu me tornasse um clone dele assim como ele se tornou de meu avô. Mas agora já era tarde, eu absorvia todas as novas informações que eram cuspidas com prepotência da boca dele feito uma esponja. Eu era um saco vazia esperando para ser preenchido de tudo aquilo que deveria ser o exemplo de perfeição paterna, mas na verdade era só um esboço de tentativa, como um rascunho de ser humano. Mas esses rascunhos são comuns por aí. Bem mais do que a gente pensa, padre. Meu pai continuava seu discurso sem nexo, pelo menos até aquele momento. - Ponha uma coisa na sua cabeça filho. Pau que nasce torno nunca se endireita. Essas meninas são a parte podre da sociedade. - Mas pai, não dizem que uma única maçã é capaz de apodrecer uma cesta inteira? Então como os homens que se servem dos favores delas não se tornam iguais a elas? - Existe uma diferença em servir e ser servido meu filho. Essas moças estão ali pra isso. Fraco é o homem que se deixa seduzir pela libidinagem dessas fulanas, elas servem apenas como prazer. Apenas um pedaço de carne nas horas de diversão. E esses homens que se sujam com o desejo delas nem de homens merecem ser chamados. Eu não concordava com meu pai, sempre achei que essas moças deveriam estar nessa vida por algum motivo mais forte que mero prazer. Não sei, acho que necessidade. Mas como eu estava vendo que meu pai estava se alterando, eu preferi ficar calado. Ele me pediu energicamente o controle remoto da televisão alegando que o jornal só falava mentiras e resmungando impossibilidades. Sem relutância entreguei a ele o controle. Foi passando os canais até chegar na luta livre. Meu pai adorava luta livre. Mas não essas lutas artísticas. Era luta de verdade. Ele adorava ver os ossos estalando, pernas se retorcendo feito papel higiênico umedecido. Vibrava com cada esguicho de sangue era horrível, padre, como pode alguém gostar da dor alheia? Aquilo era demais pra mim, resolvi sair e lembrei que pela manhã eu havia ganhado uma bicicleta de minha avó. Resolvi tentar aprender a andar, já que meu pai tinha falado que não riria me ensinar porque não riria gastar o tempo comigo. Então eu tinha que aprender sozinho. A essa altura na nova rua eu já tinha amigos. Apenas dois, fiz escondido, já que mal podia sair de casa. Mas depois de um tempo eu já estava mais soltinho, afinal de contas eu já estava crescendo e por passar tanto tempo de minha infância trancado em casa eu era o mais bobo dos meninos da rua, cheguei a chorar inúmeras vezes com as brincadeiras de soco no estomago, com os tombos, tudo que eu deveria ter aprendido a me acostumar desde cedo, mas não tive essa oportunidade. E eu ficava doente frequentemente também. Saia pouco de casa, mas saia. Meus primeiros amigos de verdade se chamavam Pedro e Thiago. Eram bons meninos, apesar de todo o sarro da minha cara eles gostavam de mim, pena que vi isso tarde demais. Pedro era mais calmo, era mandado pelo Thiago, esse sim era um demônio, destelhava casas, cortava arvores pequenas, matava gatos, mas e daí? Eu também fiz isso, é certo que foi sem querer e sem saber, mas fiz. Subi a rua e fui chamar os meninos que eram vizinhos um pouco mais acima na rua. Estavam na casa de Thiago, já planejavam me chamar, mas como não gostavam do importuno que era a presença do meu pai estavam me esperando, pois sabiam que eu ia aparecer. Ficaram encantados com a bicicleta nova. Era vermelha. Muito bonita, não lembro bem como ela era, mas era bonita. Os meninos deram algumas voltas. Correram até a outra rua e voltaram e eu sempre esperando como o grande babaca que sempre tinha sido na minha vida, sempre esperei a todos. Mas me devolveram a bicicleta e foram em casa buscar as suas. Voltaram rápido como um pé de vento. - Vamos até a outra rua – Falou Thiago, o “cabeça”. - Mas eu não sei andar de bicicleta. Era meio vergonhoso ainda admitir que não soubesse andar de bicicleta aos dez anos tendo uma em casa. Mas era a pura verdade. Eu estava embaraçado. Mas depois de rirem um bocado e perceberem que eu estava falando a verdade, os garotos pararam de rir e decidiram que iam me ajudar. Mas vale-se lembrar o jeito como queriam me ajudar. Me colocando em cima da bicicleta e me empurrando rua a baixo. Foi um tombo na certa, cai com as mãos no chão e por pouco não cortei meu queixo. Mas não me feri só me arranhei um pouco, o que viria a ser simples arranhões para alguém que faria corte inteiros abertos nas barrigas dos pacientes, alguém que faria partos, sim, pois teria que ser médico. Por um tempo até desconfiei de uma sociedade entre meus amigos e meus pais, afinal de contas eu precisava ter resistência ao ver sangue, um médico não pode desmaiar dentro da sala de cirurgia ao manusear o bisturi. Se foi não sei, mas mesmo que fosse não tinha funcionado. Subi novamente a rua carregando a bicicleta a meu lado. Quando cheguei lá em cima vi que os meninos não paravam de rir segurando suas bicicletas. - É assim que se faz – Falou Thiago montando sua bicicleta como se fosse um vaqueiro experiente pronto para agarrar um boi. Desceu com um raio a rua, deu a volta e retornou até nós. - Agora vai você de novo. Fui... Fui ao chão novamente. Quando voltava até os meninos vi que meu pai estava na porta de casa rindo. E os meninos também estavam rindo. Nessa hora tive mais duvida ainda sobre a tal sociedade entre eles. Mas procurei não ficar irritado, temos que relevar certas coisas, certo, padre? Fui mais uma, mais outra e outra vez ao chão. Vi que meu pai havia parado de rir e agora gargalhava. Meu sangue ferveu em meus olhos. Como podia meu próprio pai rir de mim? Era algo meio demais, meio exagerado, mas sempre foi assim. Baixei a cabeça e fui subindo a rua novamente. Quando passei em frente a minha casa ouvi a voz do meu pai escarrar as palavras: - Porque você não desiste? Desistir... Se eu desistisse toda vez que rissem de mim eu seria um nada. Um zero. Mas talvez fosse até bom ser um zero ou um nada, afinal de contas é a partir do zero e do nada que tudo parte para poder ser alguma coisa. Mas deixemos isso pra lá. Eu estava no ponto de ebulição de meu sangue. Juro que podia sentir ele se espalhando pelo meu corpo e tingindo minhas bochechas e os pontos de pele mais frágeis, testa, dedos, pescoço. Sentia-o aquecendo todo meu corpo enquanto eu caminhava, juro como hoje pensando tenho certeza que se olhasse para o chão atrás de mim poderia ver minhas pegadas desenhadas pela tinta de carimbo rubra que corria em minhas veias, sabia que podia escorrer pelos meus poros e deixar meu rastro na terra. Ao chegar ao fim da rua vi que os meninos também se afogavam em suas próprias risadas tanto que chegavam ao ponto de engasgar sem fôlego e eu só rezando pra que o mar de minha humilhação os consumisse por inteiro. Recolhi o resto de dignidade que me restava nos bolsos e fui pra casa, já estava escurecendo. Entrei rapidamente para não ver meu pai chorando de rir. Me tranquei no quarto e fiquei ali até minha mãe chegar. Não lembro onde ela tinha ido. Antes do jantar o sangue ainda borbulhava na minha cabeça e tomou meu coração e minha razão de uma vez só. Sai de casa correndo e fui até a casa de Thiago, a bicicleta estava na frente da casa, creio que fazia planos de rodar pela rua mais a noite, mas não iria. Eu tinha uma faca em meu bolso. Rasguei, estraçalhei o pneu da bicicleta, o fiz em tiras, “pra viagem”. Aquilo estava me fazendo muito bem, padre. Era algo como vingança. Uma vingança boba, mas era vingança. E tinha um gosto doce e quente, muito diferente do que as pessoas diziam ter, era magnífico, era perfeito. Voltei correndo pra casa e fui jantar, como se nada tivesse acontecido. Mais a noite vi o desespero de Thiago ao encontrar os pneus de sua bicicleta estraçalhados como ficou minha estima no meio da rua naquele dia. A diferença era que ele poderia comprar uma nova, já eu não. Mas isso seria reparado um dia, com certeza. O senhor deve estar se perguntando por que eu contei isso, não deve haver muito de pecado nisso. Mas é importante, pra entender porque que fiz o que fiz em minha vida. Foi a consolidação de meu futuro, de meu caráter, de minhas vontades e de minha força pra alcançar o que eu queria independente dos meios que fosse necessários tomar, eu iria conseguir tudo. Mas o que eu queria na verdade falar ao senhor é como a humanidade é “certa”, ou pelo menos tenta parecer. Meu pai queria enfiar na minha cabeça que pessoas desprovidas de sorte como ele teve na vida eram miseráveis por uma escolha própria. Afinal de contas pra ele não existia isso de sorte ou azar, existiam apenas pessoas que sabiam agarrar e cuidar de suas oportunidades com ganância pensando ou não que o Sol vai nascer de novo em breve, mas sempre sabendo que se vive um dia de cada vez e que hoje é o que importa. Meu pai era o típico cético e o falso moralista, típico mesmo porque como eu já disse esse tipo de rascunho de gente existe aos montes por aí, mas se escondem nos porões de quem não tem medo de ser encontrado, de quem não é forçado a temer a providência de Deus, como os judeus fizeram, tudo isso pra não perder a vida. Foi algo que nunca entendi, é porque as pessoas precisam impor regras e limites a tudo, as coisas vão, o tempo não para, a água sempre se renova, mesmo se transformando, sendo volúvel, mas se renova. As pessoas são cada vez mais sozinhas e vazias porque se trancam em volta de paredes ao invés de construir pontes para fora da prisão do interior negro que domina cada um desses rascunhos, o vazio, chame do que quiser, padre. Mas o senhor me entende? Sabe do que estou falando? Pois bem, estive prestes a me tornar um desses, mas por sorte do destino não me tornei, ainda bem, pois não teria coragem pra cumprir minha missão na terra, o motivo pelo qual Deus me mandou aqui, motivo esse que o senhor já sabe. Mas vou tentar parar por enquanto com essas lições de moral, pois sei que o senhor eu não conseguirei mudar, mas como já disse também, do senhor cuida Deus, eu sou responsável por outros vermes. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar :
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